você me torce e tira de mim o suco.
eu esvazio, flácida.
e mais tarde me recomponho. outra?
a forma é a mesma, mas não sei se sou.

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@recitandote
você me torce e tira de mim o suco.
eu esvazio, flácida.
e mais tarde me recomponho. outra?
a forma é a mesma, mas não sei se sou.
queria fazer parte de tudo
e estar em todos.
serei a primeira no mundo
a morrer de saudades.
Cada retrato que é pintado com sentimento é um retrato do artista, não do modelo. O modelo é apenas uma circunstância, uma ocasião. Não é ele que é revelado pelo artista; pelo contrário, é o artista que, em uma tela cheia de cores, revela a si mesmo […]
O Retrato de Dorian Gray
we can’t talk here contact me in my dream tonight
i was going to overthink it but then i got tired
“(…) It teaches us that the art of storytelling is coming to an end. Less and less frequently do we encounter people with the ability to tell a tale properly. More and more often there is embarrassment all around when the wish to hear a story is expressed. It is as if something that seemed inalienable to us, the securest among our possessions, were taken from us: the ability to exchange experiences.”
-Walter Benjamin
Past Lives (2023) dir. Celine Song
vontade de escrever cinco laudas sobre past lives e mais cinco só sobre os últimos 10 minutos de filme. nossa.
a vida acontece às 19h53 em um trânsito caótico depois de um longo dia de trabalho; quando uma criança começa a olhar fixamente pra você e você retribui fazendo uma gracinha pra ela; a filhinha do vizinho te vê chegando em casa e diz que está com saudade de conversar com você (você parou pra conversar com ela uma vez quando estava colocando o lixo para fora de casa e perguntou sobre os animais de estimação dela); nos finais de semana, reencontrando aquela tia que você não vê há muitos anos e agora pergunta do seus ex-namorados e dos filhos que você não quer ter.
a vida acontece quando você só quer que ela pare, mas ela não para pra você. pelo contrário, ela se mostra maior e mais dolorida, mais desafiadora.
mas a vida também acontece de um jeito bonito no domingo de manhã, quando você vai à praia só para olhar o mar, sentir a areia se integrando junto aos pés e pensa: queria virar areia na beira do mar. ser essa matéria estranha, densa e permeável. nunca no mesmo lugar, a mesma, mas diferente — tudo ao mesmo tempo. a vida seria outra, com toda certeza.
a vida parece pesada em meio a tantas tarefas e prazos, mas fica mais leve no meio do flerte disfarçado de toda sexta-feira de manhã quando nossos caminhos se cruzam, entre os rostos familiares sem-nome a caminho do almoço, nos lugares comuns que podem ser acolhedores por simplesmente serem comuns, no bom dia do seu elano, no afago ameno da tetê tentando lamber o meu rosto quando escuta minha voz e também no silêncio.
está tudo nas entrelinhas que são corriqueiras demais para serem percebidas. é como o otto lara resende escreveu uma vez: "O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem".
eu tinha medo que alguém me conhecesse por completo. eu conheço e não sei se gosto, então me acostumei a apresentar fragmentos, pedaços do que sou e do que me tornei. poucas vezes e com poucas pessoas me senti à vontade o bastante pra apresentar mais que algumas peças do quebra-cabeças que fizessem sentido.
disse pro pedro essa semana o quão incrível acho a espontaneidade que ele traz pro lugar em que está e que o admiro por mostrar quem é, sem muita performance. ele me disse "você também pode" "não posso" "claro que pode!" "não consigo".
não faz muito tempo eu tinha a mesma idade que ele. um pouco menos irreverente que o garoto, confesso, mas tão divertida quanto, provavelmente.
curiosidade & expansividade, é o que temos/tínhamos em comum.
agora tenho menos horas no dia para ser assim: apenas aos sábados ou talvez só aos domingos; na hora do almoço, se coincidir o horário com o da maria, que me conhece há quase tanto tempo que tenho de terra e não me reconhece de outro modo.
o momento mais seguro sempre foi quando escrevia. as palavras me protegiam; nos sonhos e nos relatos era livre. sou.
desaprendi. talvez tenha fugido de mim mesma com medo de encarar toda a carga que essas palavras carregam. sabe, posso ler algo de nove ou dois anos atrás e lembrar do porquê, onde, quando e para quem. porque nada é irreal, por mais abstrato ou superficial que possa parecer.
a minha parte favorita na coisa toda, se você quiser saber, é simplesmente jogar no mundo e deixar ser, tomar forma, significado próprio, ad libitum. se está para todos, a mim pertence apenas a intenção.
fato é que aqui estou quase completa. completamente espalhada nas entrelinhas de cada texto.
queria ter provas
de tudo o que suponho.
quase tudo está certo,
suponho.
era ridículo; ele me roubara tudo, até as palavras.
Eu sempre fui assim,
um pouco triste e um pouco só.
as vezes eu sinto que mais tarde ou ainda mais tarde eu vou morar em fortaleza ou passar uma longa temporada por lá
i do feel somewhat ruined forever. but it’s okay we stay silly