Das reviravoltas que a vida já havia dado até aquele momento, o mais surpreendente ainda estava por vir. Ele, cansado de relações supérfluas já não queria sair em busca de uma nova aventura, uma nova válvula de escape para os momentos de tédio. Na verdade ele até queria, mas não tinha ânimo para tal. Só de lembrar que teria que sair a caminhar e forjar encontros por “acaso” que terminariam em mais um momento vazio e talvez não valesse tanto a pena o esforço de ter que procurar novamente uma nova pessoa, já gerava um desgaste.
Saturado desse tipo de “caça ao sexo” ele decide tomar uma cerveja e ficar tranquilo dentro do condiminio onde vive. Sai ao mercado, comprimenta alguns conhecidos, se senta a conversar com outros, retorna ao condomínio após ter bebido 2 latas de cerveja e ao atravessar o portão de entrada se depara com uma garota em cima de uma bicicleta que o observa da cabeça aos pés. A princípio ele não havia dado tanta importância, pois pensava consigo: - “Ela é só uma menina, deve estar viajando”. Após alguns dias ele a vê novamente e repara em seu corpo, começa a pensar que talvez ela não fosse tão criança assim e que possivelmente teria uma idade da qual já o permitisse se aproximar e tentar algo com ela. Tudo isso era fruto do desânimo dele de sair a buscar outras mulheres na rua e já que sabia que aquela garota o olhava diferente. Decidiu tentar uma aproximação. Perguntou o Nome e idade dela ao primo, logo após pensar muito sobre a possível aproximação, se permitiu e a chamou:
Ei mocinha!. Exclamou ele para a garota até então desconhecida.
Posso falar com você? Ele pergunta.
Espera um pouco, já vou ai.
Nervosa e confusa, a garota vai até a amiga para perguntá-la o que fazer nessa situação e por fim tomou a decisão de ir até aquele rapaz, que até o momento presente apenas o observava e por haver percebido isso foi que ele decidiu chamá-la.
Você tem namorado?. Ele perguntou, diretamente, sem rodeios.
O que você acha de ficar comigo?
Acho interessante! Exclamou a garota.
Tudo saiu conforme ele havia planejado e agora era a hora de partir para a segunda parte do plano.
Vou te esperar lá dentro do condomínio no Bloco A. Você quer ir lá?
Tudo bem, daqui a pouco estarei por lá.
Respondeu a garota atônita, enquanto se retirava aos poucos para que ele fosse na frente.
O encontro, segundo o esperado, foi tomando seu percurso. Olhares são trocados, eles se tocam pela primeira vez. Seus lábios se aproximam e seus corpos também. Para ele aquele momento é só a repetição de mais um ritual que antecede o ato sexual, mas dessa vez sabendo que só ficaria entre beijos e possivelmente uma conferida no corpo da garota.
Beijos leves e carícias, tudo com a máxima delicadeza, até que ele decide então mostrar seu lado atroz e começa a passar a mão nas partes íntimas da garota. Ele percebe um certo desconforto e pergunta se para ela está tranquilo ocorrer aquilo. Ela, querendo passar uma imagem de quem já estava acostumada com aquilo, responde que sim, ainda que muito incomodada e desconfortável. Ele continua e intensifica o ato que perdurou mais alguns minutos, até que eles julgaram necessário parar, pois poderia aparecer alguém por ali e flagrá-los - algo que a comprometeria com a mãe, visto que a garota ainda era menor de idade.
Passado este ocorrido, a garota sumiu por alguns dias e ele começou a procurar por ela. Ele não entendia o que havia acontecido, mas começou a pensar que havia assustado a garota. Com o passar dos dias ela decide vê-lo novamente e admite meio que indiretamente que não estava acostumada com aquilo. Ainda assim eles repetiram aquele momento.
O tempo foi passando e o que ele julgava pior em toda relação que ele estabelecia estava por vir. Ele tinha um único objetivo em toda relação: obter sexo, sumir e reaparecer quando sentisse vontade e disposição. Para isso, ele não mantinha uma relação à base de beijo por mais de três vezes. Na terceira vez, como de praxe, ele sempre propunha relação sexual para o próximo encontro, que viria a ser o quarto (o encontro do sexo). O proximo encontro com garota viria a ser o terceiro e ele já não conseguia se ver como o mesmo rapaz de antes que só buscava sexo, pelo menos não com aquela garota. Ela despertava nele algo que nenhuma outra pessoa jamais havia despertado. Ela demonstrava uma necessidade de estar com ele, enquanto todas as outras das quais ele também tinha envolvimento, só queriam seu corpo e um momento de prazer.
Se sentir desejado además do sexo, lhe fazia sentir-se importante e gerava um sentimento reciproco pra com ela. Ele sentia que não poderia ter sexo com aquela garota e ir embora assim, até que pudesse surgir uma próxima vez, “sabe lá Deus quando”. Decidiu jogar limpo com ela e explicar tudo. Desde os três encontros com beijo até o sexo que poderia ou não se repetir e que isso seria apenas um acontecimento sem importância para ele.
Ao ter explicado tudo, deitado no colo dela, a garota, após escutar atentamente responde:
Ele impactado, olha pra ela e pergunta:
Você escutou bem o que eu te disse agora a pouco? Entendeu tudo?
Sim, só me avisa quando você for embora. Respondeu ela, olhando seriamente para ele.
Aquela resposta o balançou por dentro de uma maneira que ele não esperava. Não sabia como prosseguir naquela situação. Pensava que poderia contar toda a verdade pra ela e depois sair dessa situação sem nenhum remorso, entendendo que não havia feito nenhum mal à aquela inocente criatura.
Inocente criatura? A partir daí ele começa a se dar conta de que aquela situação poderia tomar um rumo diferente de qualquer outra relação sem compromisso que teve anteriormente, mas ainda assim decidiu seguir em frente e ver até onde isso poderia levá-lo. A curiosidade venceu o juízo - que convenhamos, já não existia muito.
Chegou o dia do qual haviam conversado e combinado. Era um domingo e como de costume, seus pais frequentavam a igreja e naquele não foi diferente. Ele estava sozinho esperando a garota que estava a minutos de aparecer na porta. A princípio não sentia nada diferente do que já estava acostumado. Mais um domingo, mais uma garota, uma relação sexual a mais e mais um tchau. A garota bate na porta, ele abre e convida a entrar. A leva direto pro quarto, sem nem sequer desenvolver qualquer assunto antes. Ele começa a beijá-la e deslizar as mãos até as partes íntimas. Ela o acalma, reduz o ritmo da pegação e fala bem baixinho no ouvido dele:
Se o momento foi oportuno nunca saberemos, mas o que a garota disse foi tão forte que ele precisou respirar fundo e pensar um pouco mais sobre como seguiria aquele momento. Impactado ele olha pra ela e pergunta:
Você tem certeza que quer fazer isso? Ainda mais comigo? Sabendo de tudo o que te falei sobre o que pode acontecer depois.
Sim, certeza absoluta!. Responde a garota, olhando nos olhos dele com toda intrepidez.
Ele já não conseguia reagir e nem atuar como o faria com qualquer outra mulher que por aquele quarto já havia passado. Sentia um carinho por ela. Um desejo de abraçar aquela criatura e nunca mais deixá-la sair dali. Ele a olhava nos olhos e só conseguia sentir que aqueles mesmos olhos clamavam por socorro. Sem sombra de dúvida aquela garota não estava se importando com as possíveis consequências daquele momento, porque o que ela parecia querer mesmo, era afogar alguns sentimentos - que a transtornaram e a perturbavam - em algum abraço cálido ou qualquer outro novo sentimento que pudesse fazê-la esquecer por um mísero momento sua realidade.
Ele deitou e com todo cuidado e carinho conduziu o ato. A cada avanço uma pergunta de como a garota estava se sentindo. Em uma mistura de empatia com cuidado e fervor, ele conclui o ato que determina que aquela garota já não é mais menina, moça. Mas o momento mais inusitado ainda estava por vir. A garota o abraça forte enquanto eles ainda estavam interligados, conectados e pede bem baixinho no ouvido dele - com uma voz de quem acabou de encontrar o rumo de casa após um longo e cansativo trajeto:
Promete que nunca mais vai sair da minha vida?
Ele, que não esperava por aquela pergunta, mas que já estava tão envolvido naquele momento e sentia coisas que nunca havia sentido por ninguém. Para, reflete e responde:
Promete mesmo? A garota pergunta novamente.
A primeira vez pode ter sido uma resposta meio impulsiva, até mesmo para não magoar a garota. Ele reconhece e se auto analisa, espera um momento - que parecia uma eternidade - olha pra ela. Aquele rosto, aquele momento, aquele ato, aqueles corpos unidos e aqueles olhos lacrimejados que expressavam alívio, entrega, paz; Esse conjunto o encheu de um sentimento tão desconhecido e tão prazeroso que ele não exitou em dizer:
Eu prometo que não vou mais sair da sua vida. Agora você vai ter que me aguentar!
Ela sorriu e eles continuaram fazendo amor durante um bom tempo. Isso mesmo que você leu. Fazendo amor. Amor.
Os encontros passaram a ser frequentes. A princípio apenas de domingo na casa dele, mas com o tempo já não se limitava a estarem somente no quarto, fazendo amor. Ele já não conseguia se relacionar com nenhuma outra mulher das quais estava habituado a ter relações. Não por questões de fidelidade ou tampouco de monogamia, até porque eles não tinham estabelecido nada entre eles a não ser se encontrar e curtir o momento, e ela sabia muito bem disso e aceitava. Mas ele havia perdido o interesse de estar com outras mulheres. Antes era como se ele obtivesse de cada uma algo diferente, uma emoção, uma maneira de ser visto, um modo de ser desejado. Mas agora ele sentia como se daquela garota recebesse tudo isso e mais um pouco, só pelo fato dela o fazer se sentir essencial na vida dela.
Um certo dia, saindo da casa dele após passarem um bom tempo juntos, notaram que ventava muito e a garota estava desabrigada. Ele apanhou um agasalho dele e a vestiu. Ao saírem do bloco onde ele morava,- que dava de frente para o estacionamento, aberto, onde todos do condomínio tinham ampla visão de qualquer movimento e estavam sempre a observar pelas janelas - ele agarrou a mão daquela linda garota que já caminhava saltitante e sorridente, pelo simples fato de estar vestida com uma blusa dele e a olhou com tanto afeto e alegria por vê-la tão contente; Seguiram caminhando de mãos dadas e aquilo foi um marco para ambos, pois sem se expressar verbalmente, ambos se deram conta de havia muito mais do que eles imaginavam por trás daqueles encontros esporádicos. Eles estavam apaixonados e ele já não se preocupava em esconder aquela relação. Vesti-la com sua blusa e pegar na mão dela, foi a maneira dele dizer pra ela: “Te fiz uma promessa, não foi?”.
O que poderia vir a ser a história da “Chapeuzinho vermelho e o Lobo mal", se tornou a história da “Bela e a Fera”. Por ironia do destino, a Fera foi abatida.
A garota morava no quarto andar do primeiro bloco do condomínio, aquele onde tudo começou. Sempre que ele passava ao voltar do trabalho, ali estava ela, na janela, esperando por ele. Já sabia o horário que ele estaria por ali. Sempre que ele queria vê-la, se dirigia para a parte de trás do bloco e assobiava de uma maneira estratégica, um som que só eles dois sabiam discernir o timbre e o significado. Ela saia pela janela ansiosa e atenta, olhando para baixo bem próximo da parede, onde sabia que ali, bem escondidinho, veria a cabeça dele, caso fosse ele mesmo. Essa cena se repetiu durante alguns meses, pois apesar deles não se importarem de serem vistos juntos, a mãe dela ainda era vista como um empecilho para eles, por ser bem provável que não aceitaria aquela relação.
Um certo dia, eles estavam conversando na frente do bloco onde ele morava e de repente começa a chover. Ele pega a chave do carro do pai dele e a convida para ficar acompanhá-lo dentro do carro. Ela aceita e corre junto com ele até o carro para não se molharem. O clima começa a esquentar no carro e os dois se entregam um pro outro ali mesmo, no meio daquele estacionamento, em meio a uma tempestade, vidros embaçados e muita intensidade. Uma das vizinhas - das mais fofoqueiras - percebe que a garota entrou no carro com ele e para o azar dos dois, aquela vizinha não iria reter aquela informação só pra ela, nem que a pagassem. No outro dia ele recebe a notícia de que a mãe dela havia descoberto a relação entre eles e golpeou como se fosse uma criança mal criada. Como era de se esperar, a mãe dela a proibiu de encontrá-lo e ela quase não saia de casa. A única maneira que restou para que ele pudesse vê-la novamente era através daquela janela, no Quarto Andar.