O que se pode esperar de alguém de quem já não se espera nada?
Talvez nada. E, ainda assim, esperamos. É um dos vícios mais discretos da alma: ela continua estendendo a mão mesmo depois de aprender que o vazio não a segura.
É triste ser aquele que foi magoado e ignorado. A dor tem um modo singular de permanecer; ela não grita o tempo todo, apenas se acomoda em um canto da consciência e, de quando em quando, recorda-nos que esteve ali primeiro. Contudo, penso que exista uma tristeza ainda mais profunda: a de quem aprendeu a ferir como linguagem e a indiferença como hábito. Que espécie de inverno terá atravessado uma pessoa para transformar o afeto em ausência? Que cicatrizes precisou esconder para acreditar que o coração alheio pesa menos que o próprio?
Há, naturalmente, exceções. Nem toda crueldade nasce da dor, assim como nem todo sofrimento produz bondade. Mas, na maioria das vezes, é o quebrado que quebra, o faminto de afeto que desconhece o alimento que lhe falta, o mal-amado que, por nunca ter aprendido a reconhecer o carinho, passa diante do sentimento dos outros como quem atravessa uma casa escura sem perceber os retratos nas paredes.
E eu? Eu quase sempre ocupo o lugar do magoado. Não porque o mundo me tenha escolhido como vítima, mas porque sinto. Sinto demais. Enquanto alguns atravessam os acontecimentos como pedras levadas pelo rio, eu retenho cada correnteza. Isso me incomoda. Há dias em que invejo a indiferença, mas desconfio dela. Pagar pela sensibilidade é caro; perdê-la, entretanto, custa ainda mais.
Talvez os antigos estivessem certos ao dizer que o homem é condenado a conhecer a si mesmo. Porque, no fim, não são as ofensas que mais nos transformam, mas aquilo que fazemos com elas. Posso permitir que a dor me ensine a repetir o mal ou posso deixá-la ensinar precisamente o contrário: que ninguém deveria carregar sozinho o peso de existir.
No fim das contas, a maior tragédia não é ser ferido. A maior tragédia é acostumar-se tanto às próprias feridas que se passa a acreditar que sangrar os outros é apenas a continuação natural da vida. E, se isso for verdade, prefiro permanecer entre os que sentem demais a tornar-me alguém que já não sente o suficiente para perceber a dor que causa.










