Marginal Art’s entrevista Joice Santos
Marginal Mente: Quantos anos você tem?
Joice Santos: 28, virando pros 29 em menos de um mês
Marginal Mente: Conte-nos quem é Joice Santos?
“Se “ser” é o que é imutável, eu sou mineira, sou filha das águas, minhas afetividades não são normativas, o meu corpo é político, a minha estética é manifesto, eu sou mulher negra, sou prolixa e ainda desesperada por tirar meus pés do chão.”
Joice Santos: Eu sofro com essa pergunta desde o ensino médio, acho! Filosofia, no colégio em que estudei nessa época, era matéria extra, opcional, sem nota e fora do horário regular das aulas... em resumo, eram encontros semanais em roda com um estudante de períodos medianos de Filosofia que deu de enfiar na cabeça de uns 10 adolescentes do segundo ano teorias sobre “ser” e “estar”. A gente só precisava cumprir créditos adicionais – eu estudava em um colégio federal, era aquela fase embrionária das faculdades interdisciplinares e dessa coisa toda do próprio estudante montar sua grade de matérias, acho que eles só estavam testando – e existiam opções desde esportes à aprofundamentos matemáticos, mas estava eu lá na Filosofia, fundindo meu cérebro pra sempre com a lógica de que o ser é mutável e o que é mutável não é, apenas está!
Eu já fui muita coisa. Acho que queria ser aeromoça quando pequena... pra tirar os pés do chão, viajar, conhecer muitos lugares e não ter amarras. Fui o estereótipo da Regina George por boa parte da adolescência e isso rendia associações extremamente risíveis, mas que podem ser problematizadas por toda uma vida. Fui produto de uma cultura estética esmagadora que alisa o cabelo de crianças negras a partir dos 4, 5, 6 anos e não para nunca mais. Cumpri o checklist completo da adolescente rebelde, problemática e desviante e, ao mesmo tempo, fugi da norma e das estatísticas pra uma garota negra periférica e de família desestruturada.
Mãe professora, pai operário, separados oficialmente – e se odiando – desde os meus 12 anos, que é quando eu saí do interior do Rio e fui morar em Juiz de Fora (MG), que é minha terra de verdade. Foi em Juiz de Fora que eu me criei, literalmente, aprendi e entendi o conceito de família, amor, respeito, amizade, consideração, identidade, individualidade e coletividade e apreendi tudo isso muito mais nos amigos que fiz nas ruas do que dentro de casa. Em Juiz de Fora eu caí sem paraquedas no universo da moda e descobri o quanto as imagens tem poder. Fiz tecnólogo, uma especialização, deu aulas de história da moda, desenvolvi coleções para confecções, fui vitrinista, assistente de produção em desfiles, tive uma marca de roupas. E tudo porque fiz um pedido de bolsa errado no Prouni... eu queria mesmo era Psicologia, mas me confundi naquela coisa toda de renda familiar e não deu. A faculdade de moda era particular, a mensalidade não era tão alta assim por ser o 1º curso superior desse tipo na cidade e o meu desespero de fazer uma faculdade era enorme, então fui ficando. A universidade federal veio depois, quando eu já estava engatando o estágio no 1º emprego oficial e a ficha do que eu estava fazendo em um curso de Artes demorou pra cair. Eu só vivia correndo entre cumprir o mínimo de créditos pra não perder a matrícula e chegar no horário no trabalho. Até que ficou demais e eu parei. Liguei pro meu pai, pedi ajuda, disse que precisava terminar aquilo de algum jeito. Fiquei 1 ano e meio só estudando e vivendo finalmente a faculdade. E foi quando eu me voltei pra ilustração. Antes era só... “ilustração de moda”: garotas altas, muito magras, brancas, de preferência. Estar em uma universidade federal, viver isso – o campus, as pessoas, as militâncias – fez com que eu me percebesse em essência e tangenciasse questões que nunca me haviam saltado aos olhos com tanta potência. Os corpos desviantes, as estéticas, a negritude, as definições do feminino, a normatividade. Tudo isso é fundamento no que escoa em mim em forma de ilustração.
Se “ser” é o que é imutável, eu sou mineira, sou filha das águas, minhas afetividades não são normativas, o meu corpo é político, a minha estética é manifesto, eu sou mulher negra, sou prolixa e ainda desesperada por tirar meus pés do chão.
Marginal Mente: Você é artista visual a quanto tempo?
Joice Santos: Eu comecei a expor minhas produções a cerca de 1 ano.
Antes eram colaborações em produções de amigos e pilhas de projetos engavetados! Eu não achava que era bom, que era suficiente.
Marginal Mente: Porque retratar a mulher negra?
Joice Santos: Porque é quem eu sou. Porque precisa. Porque a gente merece.
Não tem como se orgulhar, se reconhecer, se espelhar quando não tem espelho, quando não tem representatividade.
Eu não tô dizendo que sou eu a responsável por esse desbravamento, saca? Tem uma lista imensa de gente de calibre fazendo isso e eu não tenho pretensão de me comparar. Eu só tô engrossando o coro dos descontentes! Porque eu quero chegar num rolê artístico e ver meu corpo lá, ver minha cara lá, minha pele, minhas manchas, minhas marcas, meus pelos, meu cabelo, meus volumes. Eu quero saber que eu não sou a única, que existem mais de mim, que eu não tô sozinha e que alguém achou isso que eu sou tão interessante que resolveu representar. E eu quero ver isso sempre, de várias maneiras, em vários lugares. Quero não precisar ir numa exposição feita por mulheres negras, sobre mulheres negras, pra ver mulheres negras... nem negros, nem corpos plurais. Eu quero que o mundo entenda que nós existimos e pare de nos tratar como exceção, porque nós não somos exceção, exceção é a capa da revista sem marcas, sem volumes, de manequim 36 e cabelo liso.
A gente precisa se ver. Eu preciso me ver. Preciso sentir isso ao meu redor e quero que outras pessoas sintam também.
Marginal Mente: Qual sua análise da forma que a mulher negra é retratada nas artes em geral?
Joice Santos: Eu ia dizer que “não é”, porque eu estava pensado na pintura clássica e ali a gente não encontra muitas representações da mulher negra como um ser humano – é algo muito mais próximo do objeto ornamentativo ou do animalesco. Você poderia me citar Debret, mas o Debret nos leva ao ponto das artes em geral: é o olhar sobre exótico encrustado de signos que distanciam essa figura do seio da sociedade. Com raríssimas exceções, a representação do negro ainda é a representação do outro que nada diz sobre mim, eu não reconheço como meu semelhante e, sendo assim, eu o excluo do meu universo ou olho pra ele, numa distância segura, de maneira estereotipada.
Os avanços midiáticos que vemos acontecer atualmente são fruto de décadas de militância e ocorrem, em parte, porque não há mais como conter a troca de informação e a conexão entre pessoas com um mesmo propósito ao redor do mundo.
Especificamente sobre a tv e as novelas no Brasil, que são fonte essencial na formação da opinião, da cultura e da ética de parte significativa da população, as representações das mulheres negras deram alguns passos à frente e isso ajuda, é claro, mas é o mínimo que esperamos.
De maneira geral, as representações de empoderamento e equidade estão sim mais numerosas, mas ainda as percebo restritas ao ambiente já “desconstruído” de quem as produz. É quase antropofágico as vezes e penso que precisamos de mais mecanismo pra acessar de maneira insistente quem ainda nada de bom grado no mar dos estereótipos.
Em resumo, ainda há muito que se conquistar.
Marginal Mente: Como você vê a visibilidade das mulheres artistas?
Em ascensão. Com muitos percalços, mas em ascensão. Porque tem vários pormenores nessa titulação: ser mulher, ser artista, ser mulher-artista... isso causa um arrepio doloroso na espinha de uma sociedade que é patriarcal e baseada em bens de consumo de obsolescência programada. O nariz da “família tradicional” torce por completo, mas nós resistimos.
MM: A pouco tempo você expôs seu trabalho em Goiânia numa exposição restrita a mulheres negras, qual a relevância desse tipo de evento?
Joice Santos: Representatividade. Visibilidade. Empoderamento.
Como eu disse antes: eu quero me ver, saber que tem outras como eu e quero que outras como eu sintam isso também. Porque isso nos fortalece, nos dá identidade e dignifica a nossa existência. Reunir artistas negras é enriquecedor para as próprias artistas e para o público. Todo mundo ganha porque, não fosse isso, talvez estivéssemos isoladas, tendo nossas produções tratadas como exceção e acreditando nisso. Eu queria mesmo é que não fosse necessário, que ser mulher e ser negra fosse só mais uma especificidade de artistas interessantes que podem ser encontradas nos mais diferentes espaços dedicados à Arte ou não. Mas ainda é, então que bom que existe.
“Representatividade. Visibilidade. Empoderamento. “
MM: Atualmente você trabalha em alguma exposição individual?
Joice Santos: Tenho produzido algumas sereias negras em lápis grafite e aquarela na mesma pegada da “Corpos Coisificados” que esteve em Goiânia e testado modificações digitais pra essas e outras ilustrações anteriores. Esse tem sido meu foco ultimamente – essa interação do manual com o digital.
Estive em Minas recentemente para produzir alguns sketchbooks com essas ilustrações e espero disponibilizá-las para venda on line logo (por enquanto estão disponíveis apenas na Casabsurda 703... que é um lugar incrível, aliás)!
Fora isso, pretendo voltar a produzir roupas ainda esse semestre. Me distanciei bastante dessa área nos últimos tempos, mas o suporte do vestível me agrada muito.
Tudo pode virar exposição no fim!
MM: Quanto custa uma obra sua?
Joice Santos: Depende muito do tamanho, da complexidade, das horas de trabalho, do material e, principalmente, da tiragem.
A reprodução de uma aquarela em A3, sem limite de tiragem pode ser vendida a 20,00. Uma aquarela original, sob encomenda, nesse mesmo tamanho e sem reprodução poderia ser acima de 400,00.
MM: Como as pessoas reagem ao seu trabalho?
Joice Santos: Eu não tenho como te responder isso!
“No fim, eu tenho um universo muito ligado à música e ao espaço urbano, então tudo que coloca o corpo, o corpo da mulher e, em especial, o corpo da mulher negra, em interação com essas questões me interessa.”
MM: O que é um estudo desassistido sobre corpos coisificados?
Joice Santos: Essa série começa a acontecer na retomada da minha produção de ilustrações. Inicialmente eram apenas estudos de corpos mesmo... um exercício de formas e volumetrias corporais, luz e sombra, essas coisas. Em meio a isso, resolvi revisitar ilustrações e estudos acadêmicos antigos sobre corpos e estéticas. Foi aí que notei que, por mais que eu questionasse academicamente os padrões corporais e estéticos, minhas ilustrações não refletiam esses questionamentos. Então comecei a retratar corpos memoriais; fui buscar na minha memória e nos referenciais mais pessoais os corpos e estéticas que quase nunca são retratados e, mais que isso, são rechaçados por serem como são.
É um estudo desassistido porque não parte de referenciais fixos, estéticas ou figuras icônicas. Sou eu e minhas referências pessoais retratando mulheres possíveis, sem me apoiar numa identidade visual renomada. São mulheres orgulhosas e em paz com seus corpos; corpos estes que são tratados como objetos defeituosos e a serem retocados por um mercado de consumo que se incomoda – e não lucra – com mulheres satisfeitas com suas marcas e volumes. Para esse mercado – e para a sociedade que o alimenta – esses corpos não podem ter potência positiva, então é preciso diminuí-los, reduzi-los a mercadorias substituíveis... coisificáveis.
MM: Quem são suas referências?
Joice Santos: De Rosana Paulino à Carol de Niterói. De Angélica Dass a Wilson Tibério. De Chimamanda Ngozi a Lupita Nyong’o e Will Smith. Os Gêmeos, Nina Simone, Luna Aabenhaim, Marina Abramovic, Yossi Loloi, Mc Tha, Patrícia Avelino, Emicida, Flora Matos, Berna Reale, Orlan, Rincon Sapiência, Glória Groove, Froid, Baiana System, Rico Dalassan, Omar Duro, Pekena, Negahamburguer, Oprah, Djamila Rlibeiro, Nátaly Neri...
No fim, eu tenho um universo muito ligado à música e ao espaço urbano, então tudo que coloca o corpo, o corpo da mulher e, em especial, o corpo da mulher negra, em interação com essas questões me interessa.
Marginal Mente: Sua formação é em moda. Como a moda dialoga com suas obras e como suas obras dialogam com a moda?
Joice Santos: No início de tudo, eu cumpria uma “fórmula de bolo”... porque existe esta fórmula, o “desenho de moda”. Poses padrão, altura padrão, proporção padrão. Eu só repetia.
A partir do momento em que fui tomando consciência de mim no mundo, olhando pra dentro, me conhecendo e me compreendendo melhor, o que tentei fazer foi pensar fora da caixa. É claro, existe um padrão – em quase tudo na vida, mas também existe muita coisa acontecendo além disso e muita coisa muito magnífica que confronta o padrão. E eu penso em corpos o tempo todo, em como o corpo pode ser um estandarte do sujeito. E a moda tem isso também. A moda precisa do corpo pra existir. É o corpo que a carrega, seja pelas passarelas ou pelas ruas. Têm pessoas, muitas pensando, criando, produzindo estéticas a partir de um determinado conceito, mas nada disso é efetivo se o sujeito que habita o corpo não vestir a ideia. O que possivelmente tangencia a minha produção e moda é o questionamento da ordem em que essa interação se dá: é a moda que veste o corpo ou o corpo que veste a moda? Dá pra questionar isso de diversas formas. Algumas pessoas apresentam corpos plurais nas passarelas. Algumas pessoas protestam ou fazem performances. Eu retrato mulheres negras satisfeitas com a própria aparência.
“Acredito de verdade que Arte é política, mesmo quando não quer ser. Tudo que se produz em nome da Arte levanta uma bandeira.”
MM: Conte-nos um pouco do seu processo criativo.
Joice Santos: Basicamente, defino uma temática e deixo as coisas fluírem. Alguns amigos dizem que esse é o caminho mais doloroso, mas é como eu gosto de trabalhar... ver as formas e as sombras se definindo conforme o processo acontece. Se é, por exemplo, um rosto que me proponho a fazer, isso é tudo que sei quando começo a ilustração. As linhas de expressão, o formato dos olhos ou da boca, isso vai se desenvolvendo conforme a harmonia do todo. Pra uma produção mais eficiente, eu deveria ser mais metódica, mas não é assim que eu sou. As vezes vejo alguém na rua, ou um detalhe que me chama atenção em alguma imagem e parto disso. O resultado final eu nunca sei. Não tenho esboços de nada. Não sou boa em fazer a mesma imagem duas vezes e, sinceramente, gosto disso. Nada é muito igual na vida mesmo.. por que minhas ilustrações seriam?
MM: Você nos contou que foi dentro da universidade publica que conseguiu se enxergar e se orgulhar se uma negra. Pode nos detalhar esse processo? Como a universidade te ajudou?
Joice Santos: Bom... acho que, principalmente, várias situações confluíram, mas, de qualquer forma, a universidade teve papel essencial nisso tudo.
Eu venho de uma família materna afrodescendente que, como a grande maioria, tem o embranquecimento como meta estética, então eu alisei meu cabelo dos 6 aos 24 anos. Além disso, eu não convivia com uma cultura de empoderamento ou mesmo que tivesse alguma conotação positiva em relação a negritude. Meu pai ainda usa negro e preto + adjetivo pejorativo como forma de xingamento e no intuito de ofender as pessoas. E isso é extremamente incompreensível pra mim porque, afinal, não dá pra não notar que a minha mãe é negra, que eu sou negra, e ele não se casou obrigado – pelo contrário, ao que consta. Eu não tenho memória de ouvir dentro de casa ou nesse seio familiar materno se quer a palavra “negro”. Quando o senso chegou ao meu colégio, eu sabia intuitivamente que deveria marcar “pardo” nas opções de cor porque ser negro não era legal e eu, bem, eu nem era tão negra assim! Não havia muitos negros nos colégios pelos quais eu passei e, de qualquer forma, a maioria não fazia parte do meu convívio cotidiano. A cultura que eu compreendia não pautava a minha pele ou os meus traços étnicos – provavelmente sim, na verdade, mas eu simplesmente não enxergava. O racismo-nosso-de-cada-dia, velado e disfarçado de gosto ou opinião, passa isento por mim. Eu não me via como negra. O estágio que não virou emprego não podia ser uma questão de aparência... talvez eu só fosse mesmo inexperiente e a outra garota, um pouco mais velha, rostinho e cabelos de boneca de porcelana, talvez ela fosse melhor. O afeto negado era só gosto, nada a ver com a minha pele. Talvez sim. Talvez não. Não dá pra dizer que eu tive uma lista infindável de situações que, quando revisitadas, notei que eram racismo puro. Ao mesmo tempo em que eu não me enxergava como negra, eu dei a sorte de conviver com um número vasto de pessoas para as quais o tom da minha pele não era um fator de distanciamento ou exclusão. Acontece que isso não é o suficiente. Acontece que isso é o mínimo que a gente espera de pessoas não-negras. Faltava ainda eu descobrir que ter a cor que eu tenho, ter os traços faciais que eu tenho, que ousar expor os meus cabelos naturais, tudo isso me colocava diante do mundo sob uma perspectiva de agressividade e repulsa.
O fato de eu não gostar de “parecer com todo mundo” me levava sempre a buscar estéticas que falassem mais sobre a minha identidade do que sobre a tendência do momento. Isso foi o que me levou, lá pelos 24 anos, a cortar o cabelo 3 vezes num período de um mês e meio até não ter mais pra onde cortar. No fim, eu tinha um cabelo alisado, raspado na nuca e nas laterais, com a raiz crescendo e eu sem saco de pagar uma nota pra retocar aquela miséria de cabelo que ainda existia no topo da minha cabeça. Então um amigo viu um vídeo sobre dreads de lã, achou que eu ia gostar, me propôs de testarmos e 3 meses depois, quando eu tirei aquela lã toda, eu tinha um black em ascensão e eu ficava só me perguntando como é que eu não tinha visto isso antes! Era o meu cabelo, de verdade! E eu nunca tinha visto como ele era! E ele era incrível!
Esse período coincide com o período em que eu consigo passar um tempo maior na universidade pra além da correria entre trabalho e sala de aula. Então eu conseguia finalmente conhecer as pessoas, conversar com elas, me reconhecer nas suas dores e alegrias, entender do que tudo aquilo que eu senti até ali se tratava, dar nome aos bois, descobrir grupos de estudos, absorver empoderamento, enxergar os problemas, pensar soluções.
A UFJF tem inúmero problemas, mas a diversidade cultural e a vontade de que ela continue acontecendo – e cresça cada vez mais – não é um deles, pelo contrário, é uma militância geral que toma corpo nos mais diversos âmbitos, desde ações sociais e culturais à reivindicação de matérias que contemplem uma formação menos eurocêntrica. Referência é o que a universidade pública me proporcionou. Eu sei que nem todas as universidades são assim. Eu sei que o campus e a comunidade acadêmica são uma bolha. Mas, na minha percepção, o que a gente precisa é expandir essa bolha cada vez mais; mostrar pra outras pessoas que é possível, que elas não estão sozinhas nos seus questionamentos e dúvidas e incertezas e que não é utopia, que há exemplos, que dá pra fazer, que dá pra ser e que é lindo quando a gente se conhece.
MM: Como é ser uma mulher negra no Brasil?
Joice Santos: É difícil. Eu sei. Você sabe. É senso comum. E negar isso não é inocência, é crueldade. Nós morremos mais, temos menos acesso à saúde, educação e direitos, estamos nas estatísticas da pior maneira possível. O nosso corpo sofre mais, é mais julgado, é mais medido. A nossa mente sofre mais. Estamos mais desamparadas. Não é simplesmente ser mulher num mundo machista. É ser mulher negra. Há pouco mais de 100 anos tinham estudos clínicos que “comprovavam” nossa inferioridade humana, nossa incapacidade manter laços afetivos ou de aprimoramento intelectual, nossa insensibilidade à dor – afinal, não tínhamos lá muitos sentimentos – e apetite sexual voraz. É pouco mais que 4 gerações atrás, então retirar isso do imaginário das pessoas e faze-las entender o tamanho desse absurdo ainda é complicado porque essa ideia se sedimentou com verdade inquestionável traduzida em estereótipos que a mídia lucra em reforçar da mulata fogosa, da ama subserviente e instintivamente protetora, da periférica sem instrução e raivosa.
Nós lutamos. Matamos mil leões por dia pra termos o mínimo de respeito. Nós tentamos não sucumbir. Nos apoiamos. Criamos bolsões de alento e respiro no sufocante do cotidiano. É isso que fazemos e, até onde sei, não temos pretensão de parar.
MM: Pra você a arte deve ser mais plástica, política ou indiferente?
Joice Santos: Acredito de verdade que Arte é política, mesmo quando não quer ser. Tudo que se produz em nome da Arte levanta uma bandeira. Até ser indiferente, não se envolver, é uma bandeira. E por mais que o autor diga que não, a história se encarrega de dar sentido, enxergar conexões, criar teorias. No fim, toda manifestação artística é política.
MM: Manda um salve pra favela.
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