Marginal Mente entrevista Caseiro
(Na foto acima, Dam á esquerda, VH á direita)
Hoje, quem tá na casa é grupo Caseiro, grupo de rap goiano, nascido em 2014, composto pelos integrantes Dam (Daniel) e VH (Vitor Hugo Lemes). O grupo que integra o coletivo WU-KAZULO, traz em suas músicas um eu lírico em constante conflito com sigo mesmo e com os modos de existir ou de sub existir na nossa contemporaneidade. Isso acompanhado de inúmeras referencias, técnicas poéticas, jogos de palavras, colagens bem selecionadas e vídeos de animação psicodélicas ilustrando suas músicas. Sem tem uma coisa que pode ser afirmado com toda certeza, é que o trabalho do Caseiro não é obvio, não é previsível. É simples sem ser simplório, é artesanal com alto grau de sofisticação. Bom, as demais conclusões você mesmo, parça leitor, pode tirar após conferir a entrevista logo abaixo, acompanhada de 4 sons do Caseiro, e 1 um vídeo clipe do mais recente trabalho solo de VH, o EP intitulado “Pele Negra Mascaras Brancas”. Pega a visão aí!
ENTREVISTA
Marginal Mente - Porque o nome “Caseiro”?
Dam - Porque é um nome que reflete o início de todo MC, ou grupo de rap underground. Quem começa debaixo geralmente inicia fazendo tudo em casa. Home Studio, mixando no pc com as caixinhas do computador. Resolvi fazer disso a identidade pra levar essa característica junto, além de ser um nome fácil.
Marginal Mente - Como vocês definem o som de vocês?
Dam - Eu defino como a fórmula certa. Temos jeitos diferentes de escrever, porém temos as mesmas inspirações e base no rap. WU-TANG, Síntese, Atentado Napalm, referências e jogos de palavras. Embora tenhamos aprendizados diferentes, a gente consegue se encaixar com nossas diferenças.
VH - Então, como o Dam já salientou e a gente acaba ouvindo bastante por aí a ideia de que é um som muito underground, que até lembra Quinto Andar e tal... E é, em alguma medida, muito autêntico também. Começamos juntos no rap, ouvindo as mesmas coisas e muito embora temos formações diferentes, existe muito em comum, por exemplo o amor pela música e vontade de realizar, de dizer.
“Eu procuro falar sobre o interno em razão do externo. Como o mundo nos afeta”
Marginal Mente - Vocês vivem somente da música? É possível viver de Rap em Goiânia?
Dam - Não. Goiânia ainda é um ovo até pra música em si, quem dirá o rap. Eu sou estagiário.
VH - Ainda não, quem sabe um dia... Temos trabalhado pra que o trampo se torne cada vez mais profissional e alcance mais pessoas. O Daniel, por exemplo tem a marca do Wu-Kazulo, tem o projeto de um programa de rádio de rap em Goiânia, eu tenho meus trampos com poesia e literatura, o Valderundestein, o pretopoetapreto e algumas coisa pra publicar. Entretanto, ainda é muito difícil viver de arte em Goiânia, principalmente se você vem de um lugar que claramente destoa (com perdão da ironia) da grande maioria de espaços elitizados na cena cultural da city.
“Eu aspiro tocar as pessoas, falar com elas, entende? Da mesma forma que sendo preto, filho de mãe solteira, pobre, quando você ouvia Racionais, por exemplo, na infância, você se identificava”
Marginal Mente - Nas letras de vocês o que é mais urgente a se falar?
Dam - Eu procuro falar sobre o interno em razão do externo. Como o mundo nos afeta. Jogo de palavras, metáforas são apenas formas de expressar. Desde retratar o cotidiano do jovem pobre/preto até falar de escolhas, depressões, amor e afins. Não tem limites pra poesia.
VH - Meu processo criativo, talvez até inconscientemente, acaba por mobilizar muitas referências. Então eu falo de coisas que me tocam, que me afetam de algum modo. Gosto muito de literatura, música, cinema, da mesma forma que a filosofia tá muito presente na minha vida, então isso acaba refletindo nas composições, porque acredito que a arte e a cultura são também formas de emancipação dos indivíduos. Só que embora isso apareça bastante, é importante ter em mente a história do rap, como música negra, como música de protesto, como instrumento de subversão. Ou seja, existem demandas importantes a serem abordadas, urgentes, como você bem colocou. Então a opressão que emerge das mais variadas formas, pela polícia, pelo Estado, pela burocracia, pelo racismo, pela economia, pela tradição, o machismo institucional, a violência arquitetada e etc. é sempre pauta. As questões raciais tem me mobilizado cada vez mais também. Por fim, acredito que a principal questão remete à responsabilidade do MC com a cultura, o peso que tem um mic como possibilidade de que venham à tona os discursos historicamente silenciados.
Marginal Mente - Onde vocês almejam chegar com o trabalho de vocês?
Dam - Eu particularmente quero entrar na cena atingindo outros públicos, diferente dos que já estão na cena do rap. Como fazer isso? Não sei, mas sei lá. Não tem limites pra música, queremos chegar em todo lugar.
VH - Eu aspiro tocar as pessoas, falar com elas, entende? Da mesma forma que sendo preto, filho de mãe solteira, pobre, quando você ouvia Racionais, por exemplo, na infância, você se identificava em alguma medida por encontrar um discurso que falava quase que diretamente com você, e você acabava por se sentir representado, em alguma medida. É um pouco isso, logicamente em menor escala, mas a inspiração é essa.
“Eu particularmente acho que a cena está se dividindo em vertentes singulares. Alguns eu acho que estão regredindo, outros estão indo no caminho certo.”
Marginal Mente - Quais as vantagens de integrar um coletivo como o WU-KAZULO?
Dam - Facilidade no trabalho. A gente grava muito no estúdio WKZL.
VH - Sem contar que temos a oportunidade de aprender muito com uns monstros da cena.
Marginal Mente - Qual a visão de vocês sobre o momento do Rap Nacional?
DAM - Eu particularmente acho que a cena está se dividindo em vertentes singulares. Alguns eu acho que estão regredindo, outros estão indo no caminho certo. É bom para nós pois sabemos o ritmo do jogo, e podemos fazer nossa própria vertente.
VH - Evidentemente é um momento de expansão. Muita coisa vem sendo produzida em larga escala, e fica até difícil acompanhar a cena totalmente. Ao mesmo tempo que o rap tem alcançado outros espaços, o que em alguma medida é importante, existe a preocupação com o modo com que esses discursos aparecem. E sem dúvida tem muita gente produzindo muita coisa foda por aí, seja no bom e velho underground, seja no mainstream. Acho que o lance é perceber os benefícios dessa expansão e saber pesquisar
Marginal Mente - Qual a visão de vocês sobre o momento do Rap Goiano?
DAM - Ainda é muito novo, então creio que é o momento certo para chegarmos e mostrarmos do que somos capazes. Vamos conquistar nosso espaço gradativamente e no tempo certo.
VH - Talvez refletindo um pouco o cenário nacional e internacional, a cena em Goiânia também tem se expandido. Muito gente produzindo, fazendo em prol do movimento e sem dúvida muita gente boa, dividida em vários seguimentos e vertentes. Porém, há ainda muita coisa a ser discutida, revista e problematizada, os espaços por exemplo. Talvez nos falte por vezes uma certa maturidade pra algumas coisas, mas as várias propostas de disseminação do movimento devem ser enaltecidas.
Marginal Mente - Vocês estão trabalhando em algum lançamento?
Dan - Estamos com o EP Caseiro no projeto aí, vai ser moldado do 0. A mixtape do VH foi o pontapé inicial. Vamos chegar com tudo nessa cidade.
VH - Como o Dam falou, tamo lançando progressivamente no canal do Caseiro no youtube a mixtape "Pele Negra, Máscaras Brancas" que é inspirada no livro homônino do filósofo negro e argelino Frantz Fanon, e é também meu primeiro trabalho autoral como MC. É um trampo que se propõe a discutir não só o racismo, a descolonização do pensamento, a resistência e a marginalidade em seus mais variados âmbitos, mas circundar também a temática da amplidão não só da música, como da arte e da expressão negra, de modo geral. Existe essa preocupação com fazer um trampo que se proponha autêntico, saca? Desde a criação da arte da capa e dos instrumentais até o cuidado com cada colagem... E principalmente, existe uma preocupação com o que tá sendo dito. Esse é um pouco do conceito da mix, daí cada faixa acompanha uma ilustração do Bergkamp Magalhães - que assina também a arte da capa, e um pequeno release. Inclusive saiu ontem o primeiro clipe, Marginal Latina, produzido pela A Casa de Vidro e filmado pelos brothers Eduardo Carli e Ramon Ataíde. Essa é a quarta faixa e essa semana saí um som com o A Jay Ajhota, também no canal. A maioria das produções é assinada pelo Saggaz, do Wu-Kazulo, que tá por conta também da mix e da master e tem também produção do Adriel Vinícius, que chega pesado numa track e o clipe deve sair logo mais. Gravamos algumas faixas no estúdio da NEO, mas a maioria foi no estúdio do Wu-Kazulo. Daí tem som com a Luz Negra, com o Dam, com o Coiote K'ment, Dough Bee, Saggaz e mais algumas novidades. Estamos trabalhando em alguns clipes e logo mais já tá disponível a mixtape na integra.
Marginal Mente - Manda um salve pra favela, dá a o papo aí?
DAM - Queria deixar um salve pro WU-KAZULO, toda região noroeste, e geral que acompanha nosso trabalho. Chegamos pra somar na cena e vamos mostrar muito rap do bom ainda. Caseiro tá em casa
VH - Por fim mano, salve favela! Um salve pras margens, pra todos aqueles que são marginalizados e oprimidos na condição de qualquer minoria que seja, dentro de uma estrutura hegemônica e elitista que se propõe universal mas nunca se ligou aos nossos universos. Resistamos! Viemos pra tomar de assalto cada vez mais, ocupar os espaços que são nossos por direito e sermos ouvidos! "É tudo nosso, nada deles!"
SONS
1 - DIAS PASSADOS
2 - CATACLISMO
3 - CONTO DE ONDE AS ÁGUAS CORREM NO TETO
4 - SUAVE É A NOITE
"Suave é a Noite" é a terceira faixa da mixtape "Pele Negra, Máscaras Brancas" e foi uma das primeiras faixas gravadas pelo Caseiro. chega agora com uma nova roupagem, com prod. do Saggaz Beats e vídeo e ilustrações produzidas por Berkamp Magalhães.
5 - VH - "Marginal Latina" Feat. Bergkamp, Video-clipe de Eduardo Carli e Ramon Ataide. ( Quarta faixa da mixtape "Pele Negra, Máscaras Brancas", do VH )













