Estou sentado no meio da praça de alimentação do Goiânia Shopping. Acabei de comprar " O último homem americano" por 14,90. Acabei de comprar um topsundae por 6,50, de caramelo, com muita paçoca. Quatro moças conversam numa mesa. Seis pré-adolescentes devoram suas delícias enquanto eu leio " a fascinante história de Eustace Conway, que aos 17 anos deixou uma vida confortável e mudou-se para as montanhas Apalaches." Mulheres recolhem bandejas cheias de copos, caixas de sanduíche, guardanapos ao molho, canudos babados, uma infinidade de cupons fiscais. Um senhor espera alguém para uma partida de xadrez, barba de avatar do The Sims, gravata vermelha, calça de bexiga alta, como se vestem os vovôs. Descem, solenemente, pelas escadas rolantes, jovens embrulhados em seus moletons dos colégios pré-vestibulares, como bebês empacotados por mães superprotetoras, porque pai não protege ninguém, nem o próprio pinto. Um casal come sushi como se fosse a oitava maravilha do mundo. Crianças comem seus hambúrgueres como se mamassem na teta frondosa do capitalismo, como se entubados num leito de UTI. O ar-condicionado não suprime o calor selvagem que emana dos templos da comilança. Estou sozinho, vivendo uma vida desconfortável, bem longe das montanhas Apalaches. Não tenho mais meus 17. Tudo é comida, pessoas gritando, bocas sujas, bocas cheias vazando alface pelos cantos, a morte em movimentos peristálticos.