Existe um tipo de cansaço que não vem do corpo.
Vem de sentir demais.
De oferecer o coração inteiro, sem economia,
e ainda assim se perguntar, em silĂȘncio:
por que nunca parece ser suficiente?
Ă como estender as mĂŁos com tudo o que vocĂȘ tem â
carinho, presença, esforço, cuidado, paciĂȘncia â
e vĂȘ-las voltarem vazias.
Como se amor pudesse ser medido.
Como se existir por inteiro ainda nĂŁo bastasse.
Ăs vezes a dor nĂŁo nasce da falta de sentimento.
Nasce justamente do excesso.
De sentir tanto que transbordaâŠ
e mesmo transbordando, não alcançar.
VocĂȘ tenta ser melhor.
Mais leve. Mais forte. Mais compreensiva.
Mais fĂĄcil de amar.
Menos complicada. Menos intensa. Menos vocĂȘ.
E aos poucos percebe o peso disso:
o de se remodelar inteira
na esperança de finalmente caber
em um lugar que talvez nunca tenha sido feito para te receber.
E entĂŁo fica essa pergunta presa no peito:
quando foi que eu comecei a acreditar que precisava merecer amor através do esforço?
Talvez algumas feridas nasçam daĂ â
desse desejo desesperado de ser suficiente para alguém
enquanto vai deixando de ser suficiente para si.
Mas a verdade mais difĂcil de encarar
Ă© que nem toda ausĂȘncia significa falta em vocĂȘ.
Nem todo vazio que alguém deixa
Ă© um espaço que vocĂȘ falhou em preencher.
Ăs vezes vocĂȘ deu tudo.
E tudo ainda era tudo.
E ainda que alguém não tenha sabido enxergar,
isso nĂŁo diminui o tamanho do que vocĂȘ entregou.
Talvez a cura comece no dia em que vocĂȘ parar de se perguntar
âpor que nĂŁo fui suficiente?â
e comece a perguntar
âpor que precisei me diminuir tanto para tentar provar que era?â


















