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Não sei, às vezes não há direção para apontar onde dói.
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Todas as vezes em que notei ser uma espécie de abrigo, me senti um fantasma.
Não sei, às vezes não há direção para apontar onde dói.
A moça que detém o meu amor está agora criando raízes; seus seios estão colados à terra que a chuva ilumina, seus cabelos estão longe do sol que antes a banhava e mais perto do desconhecido. Eu que fico, então eu que sofro, mas a imagem dos dias não pertence a mim; pertence a ela, somente.
Tudo o que no dia está em destaque passou pelas mãos dela. O último livro que leu, a taça que deixou na pia, suas luvas em cima da cama, sua maquiagem no banheiro.
Seu perfume é maldoso comigo; ele dá o ar da volta, ele me diz para encarar a porta e esperar... Ter esperança.
A sensação que tenho é que a vida é lida por uma voz rouca, falha e desinibida, e quem, como eu, é acanhado, sente vergonha de viver em silêncio!
Olhe seu corpo: ele estrala, emitindo a existência pelo som. As mãos, olhe. Quando as ergo frente ao meu rosto, vejo que estou aqui, vivo. Quais caminhos minhas veias gostariam de percorrer além do meu corpo? Estou indiferente aos corpos que me cercam.
Quando vejo alguns rostos desconhecidos, lembro de conhecidos, mas nunca de forma direta. Meus dedos desenham o silêncio das vozes para que meu peito não conheça quem comigo fala. Dias e mais dias desorientado, fixo em uma sensação dormente.
Sinto um cansaço que vem do sorriso alheio, que permeia um dia falso. Sinto falta das mãos que tocaram meu antebraço pela noite; tenho comigo a sensação, e o desprezo por ela.
Quais caminhos minhas veias gostariam de percorrer além do meu corpo? Não sozinhas, mas com o sangue.
Os olhos da minha inconsciência atingem meu cerne. Justo meu olhar irreal, pelo qual me apaixono… é tão profundo e bonito porque parece nunca ter tocado algo real, nunca ter, de fato, uma forma. E o nada em meu mundo é tudo para o meu fascínio. O nada deveria ser nada, mas é sempre alguma coisa.
A noite em meu relógio cria um tempo fácil de sentir. É como o vento passando pelas orelhas; o que meus olhos observam muda a cada dia. Existem vezes em que não consigo levar tão facilmente meu corpo com o que pesa nele, então meu sono é prolongado.
Ainda sonho comigo mesmo. Dessa vez, eu levei as agulhas até mim. Perfurei meus joelhos e cotovelos, mesmo sabendo ser impossível, mas elas entravam como se não houvesse osso algum ali. E, sem saber o que eu injetava, apenas olhava para as agulhas e para minha expressão. Fazendo aquilo como se fosse normal, eu levei as agulhas até meus olhos. Subitamente, depois disso, acordei… calmo, com os pensamentos afogados. Uma das minhas mãos estava sobre o peito; eu não a sentia. Por algum motivo, ou nenhum, eu senti cheiro de sangue.
Acima de tudo, notei que estava querendo falar, porém não sabia o que dizer. Até agora não sei. Parece que morreu dentro de mim, como um sonho desaparece depois de um tempo.
Memorial III
Meu olhar fixo nas coisas resulta no meu desaparecimento; minha consciência ganha novas ideias a partir da memória criada e, de novo, o que vem de anos anteriores começa a queimar em mim. Chegará a hora que meu espírito ganhará uma boca para falar por mim e, mesmo assim, morto, eu frequentemente olharia para trás.
Até que um sonho me disse: Chega de manifestar o passado em uma realidade no presente!
Memorial II
Nada me pertence, mas as coisas que tenho e amo acabam tendo um valor — seja os intrínsecos a elas, seja os que depositei em forma de afeto. Eu, ou mesmo o tempo, começo a ter visões positivas dentro de mim, e foi depois de queimar feito uma estrela que me senti em paz, feito um monge.
Certo dia pensei em tirar minha própria vida, deixar para trás tudo que escrevi até aqui, mas, mesmo assim, não seria tudo. Se o fizesse, continuaria engasgado com a raiva e a melancolia. No momento em que os vermes começassem a se alimentar do meu corpo, meu espírito também faria parte — isso é algo que não desejo.
De fato, eu gostaria de colocar meu espírito frente à minha carne para me ensinar lições que só o divino poderia — um espírito intacto.
Já encaixado nesse mundo, basta viver entre os blocos que guardam as flores em seus pequenos vãos. Eu sou um bloco, e minhas flores se mantêm aqui. Foi minha visão que as matou em uma realidade que não pertenceu a mais ninguém. Elas sussurraram por bastante tempo que o que eu estava fazendo doía muito, e parte dessa dor estava começando a fazer parte do meu rosto, enrijecendo cada olhar e cada palavra.
Pode ser que nada do que me ocorreu nos últimos meses tenha alguma relação, mas foi depois de uma solidão absoluta que qualquer ausência passou a se tornar, realmente, algo com um sentido. Faz sentido isso, faz sentido aquilo — faz sentido eu começar daqui de onde estou.
Memorial
Deixe estar se for um plano divino, já que não consigo sentir o que vem do solo!
No céu ou no sol, em ambos meu estômago queima, me sinto cansado quando cada parte do meu corpo parece pensar por conta própria. Deixe estar se for continuar assim, agora eu não tenho mais estômago para a imaginação, pode ser que a vida fique pela metade, pode ser que eu não tenha ânimo.
Quando eu falhar, irei desistir e me perguntar em que discurso minha voz adentra para fazer parte do luto, mas até nessa parte eu me deixaria de lado.
Deixe estar quando deixar de fazer parte do plano, quando o destino for afogado por duas mãos iguais as minhas, deixe estar como na primeira vez, só de acontecer algo novo a vida começa a ter uma cor na qual a dor passa a ser ausente.
Seus olhos com sons de água quando se fecham, seus olhos tão lindos. Que saudade tenho de ter meu coração próximo aos seus ouvidos! Desde você, nada mais parece ter voz para que eu ouça ou emoções para que eu ame.
Eu caminhei sem você, andei tanto e por tantos dias que agora todos os pássaros me conhecem. Os lugares em que passei me obrigavam a levantar a cabeça e colocar meus olhos no invisível que passava, para só depois descobrir que o que procurava não estava ali.
Eu serei esquecido primeiro ou você?
Eu mudei diversas vezes, na maioria delas, da noite para o dia.
Quando acordei esta manhã, vi que minha alma era a mesma. E, com certo ânimo, pude concluir: ela era uma continuação do que foi na noite anterior, pura alegria.
Talvez tenha vagado por aí, visto meus leões à solta, e de fato me deixado para viver outras experiências, experiências que, em mim, retornam como conversas constantes comigo mesmo.
Por que há essa divisão?
A alma que habita meu corpo cintila em sua liberdade inata. Sua consciência se expande muito além da minha, mesmo percorrendo os mesmos caminhos que eu percorri.
Meus traços são curtos; os dela, longos como galhos de árvores. Ela é um sopro, eu um ser humano.
Quando questiono, sou quase um deus; ela, em seu silêncio, já é.
Quando durmo, um autorretrato se cria instantaneamente. Minha alma impõe em mim uma releitura, uma nova adição de mundo, um fragmento dos lugares por onde passou.
Sonhar, acreditar que é real, e acordar para descobrir que não é… deve ser como morrer e perceber que morreu, digno de lamento, e, logo depois, continuar como se nada tivesse acontecido.
Lembro-me, com todas as cores e formas, dos sonhos alegres que tive, tão alegres que toquei o que me confortava.
Acordei.
E tive asco da realidade.
Bastava olhar fixamente minhas mãos para cair em um estado de acídia venenosa.
Eu roubaria sonhos, ou, quem sabe, teria duas almas.
Minha melancolia é um verdadeiro peso, um lamento infinito. Às vezes me canso de trazer comigo alguma esperança.
Nuances e sentimentos.
Será uma consequência que arde pelas mãos de Deus, ou uma sina que se encontra nas penas de algum sermão? Nada fiz para que sofresse tanto o meu querer, mas, de autor, facilmente irei para vítima; eu prefiro ser quem odeia!
Daqui a cinco minutos, não saberei para onde olhar: para os olhos de Deus ou para o mundo. Preciso tocar algum anjo sem nome e adquirir sua infância.
Me tornei ruim demais em ser bom quando penso no passado; aquele pequeno corpo, em um enredo de arames, me entrelaçou em fraqueza.
Não sei o que é mais desconexo em mim, mas, pelas horas que passam e a dor aumenta, não vale a pena investigar. A dor é a pergunta e a resposta, é o medo e a coragem. Essa dicotomia insensível planta em mim o gosto amargo.
Ó, Deus, como eu desistiria sem pensar em como tudo ao meu redor continuaria em forma plena, sem se mover ou receber uma nova cor?
Cinco anos III
Sua ausência se transformou em desaparecimento. Não há nada mais em sua chuva que me atraia, nem seus ventos, nem seu frio.
A tristeza por debaixo de nossas coisas foi útil para as minhas decisões, para que, enfim, eu conhecesse o alívio de deixar ir.
Bem, pensar em você agora é me tornar uma âncora humana, com a carne exposta às horas que não passam; é ter um arame como um enfeite em minha garganta, impedindo meu dizer.
Você passou a não ter mais face!
Cinco anos II
Nas costas de um estranho sonho, eu vi sua morte quase encolhida. Alguém me disse para não olhar, mas olhei, e assim que fiz, a voz sumiu por completo. O silêncio esmagou o meu sono, e minha realidade, nesse instante, é obscura e pondera tudo que vejo. Por que desse olhar? Por que desse instinto gravado em sua lápide?
Perdão, mas tudo que tenho agora é esse fascínio de poder ver o mundo sem você, porque, de todas as cores, sua alma cintila ausência. Essa é a única cor na qual minha vida se pinta, em uma melancolia fervorosa.
Sonhe, meu bem! Sonhe que está caindo até realmente atingir o chão.
Cinco anos
Em meus sonhos, ela renasce. Foi em uma neblina negligenciada por mim. Eu não queria ter que amar a chuva que tem o nome e a forma dela, mas amei sem querer. Eu caí, me pareceu um impulso divino.
A maneira que estou amando agora é como se estivesse amando o nada, e ela, sendo tudo em minha visão, não percebe minha agonia. Caso fosse criar histórias sobre mim e ela, um casal baseado no que sei, eu falaria um idioma, e ela, outro. Eu não consigo explicar mais como seria, mas seria complicado dessa forma.
Na cidade, chove. O escuro toma conta de cada canto, habitável ou não. A água que cai do céu para em frente às luzes dos faróis dos carros e, ao me virar lentamente, eu não sei qual luz me atinge. É o sorriso branco do destino, às vezes amargo em meu âmbito pessoal. O sorriso branco do destino se torna alguns olhares medíocres, um aceno mal dado, ou o sorriso branco do destino conta uma piada: amá-la parece ser a minha.
— De onde você vem, deve ter mais algumas flores que lhe cabem no coração; você deve usá-las como seu perfume.
—E de onde você tira essas frases?
—
“Você nem ao menos sabe que tem olhos tão bonitos.”
Deus deve ter me dado esse destino. Eu, agora, não sou fiel ao que ele me deu. Posso me desgrudar a qualquer momento e te deixar na cova da qual a solidão tem forma de leões.
Na minha vez, foram cinco anos levando mordidas, sendo estraçalhado pelo questionamento: ela ainda se lembra de mim?
Me tornei um palhaço, traí meu próprio corpo, ignorei as feridas só para tê-la por perto.
Não foi ingenuidade, foi a sobra da desgraça. Fiz da minha vida um apelido para o inferno.
Não sei como terminar isso, então creio que sempre terá uma parte nova.
Sempre que ouço minha própria voz, ouço também a minha dor.
Em um quadro apenas, me veio a imagem de muitas poses suas, quadro a quadro, sua arte em minha cicatriz.
Sua inexistência é sexy. Eu posso te moldar, inventar sua voz, dormir vagueando entre minhas criações.
Assim que, por um acaso, você se tornar real, eu irei sumir com minha criatividade indecente.
Não há ninguém para sofrer junto.