Eu mudei diversas vezes, na maioria delas, da noite para o dia.
Quando acordei esta manhã, vi que minha alma era a mesma. E, com certo ânimo, pude concluir: ela era uma continuação do que foi na noite anterior, pura alegria.
Talvez tenha vagado por aí, visto meus leões à solta, e de fato me deixado para viver outras experiências, experiências que, em mim, retornam como conversas constantes comigo mesmo.
A alma que habita meu corpo cintila em sua liberdade inata. Sua consciência se expande muito além da minha, mesmo percorrendo os mesmos caminhos que eu percorri.
Meus traços são curtos; os dela, longos como galhos de árvores. Ela é um sopro, eu um ser humano.
Quando questiono, sou quase um deus; ela, em seu silêncio, já é.
Quando durmo, um autorretrato se cria instantaneamente. Minha alma impõe em mim uma releitura, uma nova adição de mundo, um fragmento dos lugares por onde passou.
Sonhar, acreditar que é real, e acordar para descobrir que não é… deve ser como morrer e perceber que morreu, digno de lamento, e, logo depois, continuar como se nada tivesse acontecido.
Lembro-me, com todas as cores e formas, dos sonhos alegres que tive, tão alegres que toquei o que me confortava.
E tive asco da realidade.
Bastava olhar fixamente minhas mãos para cair em um estado de acídia venenosa.
Eu roubaria sonhos, ou, quem sabe, teria duas almas.