Como Imaginar Coisas Que Não Existem: Termina a 31ª Bienal de São Paulo
Por Marta Inez Rodrigues Pereira e Roberta Okura
Mujeres Creando (Bolívia) – Espaço para Abortar, 2014 (http://www.31bienal.org.br/pt/post/1579)
Terminou no último domingo a 31ª Bienal de São Paulo, que aconteceu entre 6 de setembro e 7 de dezembro de 2014 no Pavilhão da Bienal do Parque do Ibirapuera. Teve curadoria geral do escocês Charles Esche, ao lado dos espanhóis Pablo Lafuente, Nuria Enguita Mayo, e dos israelenses Galit Eilat e Oren Sagiv. Contou também com Benjamin Seroussi e Luiza Proença como curadores associados e com Sofia Ralston como assistente curatorial.
Esta não foi uma Bienal fundada em objetos de arte, mas em pessoas que lidam com outras por meio de projetos colaborativos, fomentando uma discussão contínua que pudesse ser desenvolvida durante a Bienal e levada além após o seu encerramento. [1]O tema principal era o “conflito”, que foi apresentado por meio de projetos baseados em situações, histórias, casos ou assuntos não resolvidos, que hoje necessitam de ações grupais para serem discutidos e, quem sabe, solucionados. Como exemplos claros, podemos citar as questões associadas ao aborto, ao homosexualismo e à prostituição.
Qiu Zhijie (China) – Mapa, 2014 (http://www.31bienal.org.br/pt/post/1540)
Assim, as obras/projetos apresentados incluiam muitos trabalhos com vídeo, textos escritos, visual carregado de informações e, de certa forma, mostravam uma certa desordem. Os projetos, de fato, informavam o tema de forma eloquente, talvez até cruamente para aqueles pouco habituados ou dispostos à discussão de assuntos moralmente carregados. O tema e a apresentação da Bienal exigiam do visitante tempo e disposição para que uma longa sequência de assuntos difíceis pudessem ser plenamente absorvidos.
Juan Carlos Romero (Argentina) – Violência, 1973-1977 (http://www.31bienal.org.br/pt/post/1369)
A 31ª Bienal apresentou um número menor de trabalhos do que as edições anteriores mais recentes, o que possibilitou uma melhor circulação e um ambiente aparentemente mais adequado para a apreciação e a reflexão. Por outro lado, como já comentamos, grande parte dos projetos era de difícil assimilação e, mesmo em menor número do que o habitual, faziam da visitação uma tarefa um pouco exaustiva. As visitas guiadas, que normalmente são uma opção para o visitante, tornaram-se quase uma necessidade para aqueles que buscavam ter uma compreensão mais completa das questões discutidas na exposição. Talvez por isso, esta Bienal atraiu um total de 472 mil visitantes ao longo do período de exibição, um número 50 mil abaixo da edição anterior do evento, organizado em 2012 pelo curador venezuelano Luis Pérez-Oramas.
Éder Oliveira (Brasil) – Sem título, 2014 (http://www.31bienal.org.br/pt/post/1495)
A proposta da curadoria é, sem dúvida, nobre e interessante. Os assuntos abordados eram de extrema relevância social, oportunos num momento em que se discute, mundo afora, de forma privada e pública – e com diversas manifestações atraindo milhares de pessoas – política, economia, religião, diferenças sociais, ecologia e outros temas que geram tantos conflitos. No entanto, talvez pela extrema dificuldade de apresentar cada um desses temas de forma mais “branda”, a 31a Bienal pode ter tido dificuldade em atingir o seu objetivo diante do público, sendo exceção apenas pequenos grupos ou alguns indivíduos. A complexidade e a forma de apresentar as questões de maneira demorada, além do fato de os projetos não terem grande apelo visual, fizeram com que muitos visitantes não se interessassem em gastar o tempo necessário para compreender a relevância da discussão e se aprofundar nos temas. Assim, alguns sairam dessa Bienal frustrados e até insatisfeitos.
Etcétera… e León Ferrari – Errar de Deus, 2014 (http://www.31bienal.org.br/pt/post/1582)
Vale, portanto, a reflexão sobre a forma de apresentação de temas tão complexos. Considerando o objetivo e a necessidade de atrair o público em geral para a reflexão e discussão dos temas abordados, talvez fosse um caminho mais fácil, ou pedagógico, apresentar esses temas de maneira esteticamente mais atraente, facilitando a assimilação, mesmo que, para isso, a discussão tivesse que ser levemente postergada para um próximo momento. Que a arte tem, também, o papel de discutir temas difíceis não se discute, mas um evento orientado ao grande público ganharia ao mostrar esses temas de uma forma que a maior parte do seu público pudesse, de fato, se atrair, se interessar e, por fim, se engajar.
Mark Lewis (Reino Unido) – Invenção, 2014 (http://www.31bienal.org.br/pt/post/1556)
Em meio ao furor de comentários a favor ou contra a comercialização da arte, outro aspecto a ser destacado é o caráter não-comercial de grande parte das obras exibidas nesta Bienal. A arte sempre foi e será, de alguma forma, comercializada, mesmo que isso não implique necessariamente em trocas monetárias. Resta-nos aguardar para ver se, no futuro, o destino dos projetos dessa Bienal, ou outros similares, será o mesmo da vídeo-arte ou das instalações que, no início, eram consideradas invendáveis e hoje são amplamente colecionadas por instituições ou mesmo pessoas físicas.
Ines Doujak (Áustria) – Lançadeiras de Tear, Trilhas de Guerra, 2009 (http://www.31bienal.org.br/pt/post/1542)
Como (...) coisas que não existem? Como mostrar aos outros coisas que não existem? Como atrair as pessoas para coisas que não existem? Como comercializar coisas que não existem? Como compreender coisas que não existem? Aparentemente, a Bienal atingiu o seu objetivo: a reflexão sobre temas complexos.
Thiago Martins de Melo (Brasil) – Martírio, 2014 (http://www.31bienal.org.br/pt/post/1537)
Por fim, apesar da exaustão de cada visita, podemos dizer que a 31a Bienal de São Paulo fez ótimas escolhas em relação a temas de grande importância atual. Com isso, apesar da dificuldade enfrentada para compreender muitos deles, esta Bienal nos levou de fato à reflexão e à discussão de diversos aspectos complexos.
No último dia 9 de dezembro, foi anunciado o curador da próxima Bienal de São Paulo: Jochen Volz, historiador alemão, Diretor de Progamação das Serpentine Galleries, Londres, e Curador de Arte de Inhotim.
[1] http://www.31bienal.org.br/pt/information/754













