Apertando os lĂĄbios pintados ao ver mais um cliente deixando a loja, Yanfei nĂŁo pĂŽde deixar de reparar que o movimento estava mais lento que o usual. Observando por longos minutos os assentos vazios com jogos de chĂĄ abandonados e incensos que nĂŁo haviam queimado metade de suas vidas com uma expressĂŁo neutra, Yanfei fez a coisa mais lĂłgica; ocupou uma das mesas, serviu seu prĂłprio chĂĄ e fez questĂŁo de deixar as cortinas de seda vermelha fechadas para que pudesse se iludir com a noção de privacidade.Â
A Ășnica reação que teve ao ouvir o sino soar suavemente, indicando que estava sendo agraciada com um cliente, foi de encher a prĂłpria xĂcara mais uma vez. Ela provavelmente esmagaria aquele sino antes do amanhecer.
â Fugindo da mĂșsica caĂłtica do lado de fora dessas paredes? â indagou nĂŁo precisando sequer aumentar sua voz para que esta escoasse pela casa de chĂĄ.
Mais um dia de folga e Jandi caminhava pela cidade, atenta a tudo e a todos. Em dias como aquele, onde ela nĂŁo precisava trabalhar ou se preocupar com a faculdade, a garota sĂł gostava mesmo era de fazer duas coisas bem simples; ou passar o dia procurando material para o seu blog e postando nele, ou perambular pela cidade sem rumo algum.Â
A garota, que morara praticamente maior parte de sua vida em Ansan, nunca conseguira se acostumar com todo aquele caos e agitação das ruas de Seoul. Aquele âpasseioâ, portanto, nĂŁo era motivado apenas pela curiosidade; era muito mais como uma tentativa de se acostumar Ă quela nova realidade. Entretanto, as coisas estavam um pouco mais tensas que o comum naquele dia. As pessoas se moviam com mais pressa, falavam mais alto e pareciam muito mais impacientes que o comum. SĂł em meia hora de caminhada, a jovem jĂĄ perdera as contas de quantas vezes alguĂ©m esbarrou nela e saiu sem nem mesmo lhe pedir desculpas - o que era uma tremenda falta de educação, em sua opiniĂŁo.
Nesse meio tĂŁo confuso e disperso, uma construção mais antiga e de aura mais âtranquilaâ se destacava; uma casa de chĂĄs. Num minuto, Jandi estava parada, pensando em como nunca em toda sua vida havia ido em um local como aqueles, ou participado de uma cerimĂŽnia tĂŁo tradicional como aquelas. No outro, lĂĄ estava a loira, abrindo a porta do estabelecimento antigo, curiosĂssima a respeito do que encontraria ali.
NĂŁo deu nem dois passos e jĂĄ escutou a voz de uma outra mulher, acabando por levar um pequeno susto, expresso em um leve sobressalto. Mordeu o lĂĄbio e passou pela divisĂłria formada pela cortina vermelha, podendo finalmente ver a dona daquela voz. Era uma mulher de aparĂȘncia bem jovial, porĂ©m de olhos que pareciam exalar certa... periculosidade.  â Quase isso... â  soltou uma risada encabulada e se aproximou mais um pouco, continuando:  â Confesso que foi muito mais pela curiosidade. Eu nunca entrei em uma casa de chĂĄs antes. â  soltou um pequeno riso e levou uma de suas mĂŁos atĂ© a parede mais prĂłxima, delineando todos os seus contornos antigos com a ponta de seus dedos.  â VocĂȘ er... Trabalha aqui? â Â