25 de Fevereiro de 2011.
Essa foi a exata data em que a vida de Rafael se mostrou totalmente diferente e, mais especificamente, o momento quando o garoto viu uma pequena garotinha na ala da Maternidade do hospital. Ele ainda não estava sabendo sobre a situação de sua mãe, sobre ela não ter resistido aquele parto de risco. Então, por hora, estava sendo o dia mais feliz de sua vida. Cada mexida daquela menina arrancava um sorriso do menino de 12 anos. Ele estava apaixonado pela nova irmãzinha.
Logo viria a enfermeira lhe pedir para preencher a ficha de nascimento da garotinha. Seu pai, Kim HyoJun, nem ao menos presenciou o parto, estava trabalhando e não atendeu o telefone quando Rafael o ligou da ambulância e o garotinho era de menor na época, não poderia acompanhar a mãe. Agora, precisaria escolher o nome da irmã, só havia ele ali para escolher. Lembrava de algum nome que sua mãe havia lhe dito, um que ela achava lindo de todas as formas. Isso, seria esse. A enfermeira escreveu "Ana Clara Kim" em sua prancheta e Rafa não desgrudava os olhos do vidro daquela sala cheia de bebês.
Rafael ficou sabendo de Lúcia, sua mãe, apenas quando seu pai chegou correndo, desesperado pelo atraso, e os médicos contaram a ele sobre a mulher. Ouvia a conversa escondido no corredor ao lado, o choro alto do pai era audível, provavelmente, pelo hospital inteiro. Ele era um homem bom, apenas tem a ingenuidade de colocar o trabalho na frente da família.
Ana Clara foi liberada para ir para casa no mesmo dia que o corpo de Lúcia foi liberado para o enterro. Aquele dia foi agitado, mas Rafael preferiu ficar em casa com a bebê. Não queria que os primeiros momentos da garotinha fosse se despedir da mulher que a gerou.
30 de Julho de 2015.
Rafael agora tinha 16 anos e aquele era o último dia de suas férias de inverno do seu último ano no colégio.
Lavava a louça naquela pia encharcada e repleta de gordura enquanto Ana brincava com a comida em sua cadeirinha. O pai, como sempre, estava fora a trabalho, mas desta vez em uma viagem. Geralmente ele ficava por São Paulo, mas desta vez a viagem o levou para outra cidade. Estariam só os irmãos naquela casa silenciosa e vazia.
— Rafina... — Falou Ana em seu jeito meigo. A primeira palavra da garota dita uns anos atrás fora o nome do irmão desta forma. Virou apelido desde então para a menina de 4 anos. — Quelo histolinha...
A famosa Historinha.
Rafael sempre foi criativo para criar histórias mirabolantes para a irmã. Desde bebê, ela apenas parava de chorar quando o Kim maior sentava perto dela e começava a lhe contar algo. Geralmente, ele criava as próprias histórias, mas, daquela vez, não tinha paciência. Estava atarefado com a casa e o volta às aulas, não tinha cabeça para inventar um novo mundo para sua pequena companheira.
— Ai, Ninha... O Rafina não consegue te contar uma historinha agora...
Pronto, a cara de choro da garotinha já estava em seu rosto e em segundos Rafael se arrependeu do que foi dito.
— Okay, okay... Não chora, tá bom? Eu vou te contar uma historinha. — Falou enquanto, apressadamente, secava as mãos no pano da pia e se virava para a outra, está que agora sorria em orgulho pela chantagem emocional ter funcionado. — Me dê alguns minutos só, viu?
Respondeu em suspiro, caminhando com rapidez para o seu quarto. Ler uma história já criada para a irmã não diminuiria magia da tal historinha, certo? Tratou logo de procurar em sua prateleira de livros algo que a menina fosse gostar, mas apenas tinha livros para o vestibular naquele momento.
Não. Ele tinha um, no caso o seu favorito. Ela com certeza gostaria de Alice no País das Maravilhas.
Voltou para a cozinha com livro, de um jeito animado e ansioso. Imaginou logo sua irmã, um pouco mais velha, tendo o seu livro favorito, como também favorito. Seria uma característica fofa dos irmãos.
Tirou Ana da cadeirinha e a levou no colo até o quarto dos dois. Dividiam desde sempre, ele na cama e ela no berço, onde a colocou assim que estando no cômodo. Sentou-se na cama, de frente ao berço, e deu de cara com o olhar curioso da irmãzinha em sua direção. Era a primeira vez que ele contava uma história a ela que não viesse de sua cabeça. Seria um momento histórico.
— Você vai gostar dessa, Ninha. Eu amo... — Disse, encarando a capa dura do livro. Era seu exemplar mais conservado em meio aos Machado de Assis e Aluísio Azevedo surrados da prateleira. — Ok, vamos lá...
Pronunciou, abrindo cuidadosamente enquanto sentava em "perna-de-índio" sobre o lençol.
• • •
" ...Quando repentinamente um Coelho Branco com olhos rosados passou correndo perto dela.
Não havia nada de tão extraordinário nisso; nem Alice achou assim tão fora do normal ouvir o Coelho dizer para si mesmo: —"Oh, céus! Oh, céus! Irei me atrasar!" (quando refletiu sobre isso depois, ocorreu-lhe que deveria ter reparado nisso, mas à hora tudo lhe pareceu bastante natural); mas quando o Coelho efetivamente tirou um relógio do bolso do colete e olhou para ele, se apressando... "
Rafael interrompeu o começo da história com um barulho vindo da cozinha. Seu olhar se tornou preocupado. Estavam sozinhos ali e não era difícil algum ladrão resolver invadir a casa, levando em consideração o horário da noite e onde moravam. Ana ainda estava acordada, então Rafa apenas mirou a ela um sinal de silêncio com seu dedo e menininha, de um jeito fofo, repetiu o gesto, ficando quieta em seu berço. Ela sempre obedecia o irmão, ele era o mais perto de paternidade que ela tinha.
O Kim mais velho, então, se levantou da cama, deixando o livro fechado sobre a mesma. Se apressou a pegar uma raquete elétrica para mosquito que tinha, no caso sua única "arma" no momento. Ele apenas tinha a opção de fritar a cara do sujeito que nem um pernilongo irritante.
Caminhou vagarosamente para a cozinha, em posição de ataque. Olhava para os lados e nada. Nenhum sinal de gente. Teria sido o vento? Não, as janelas estavam fechadas. Então o que...
Um coelhinho branco de colete social pulou na sua frente vindo de dentro de um dos armários. Assim que viu Rafael, o animal pulou em susto, começando a correr pelos cômodos. O ato imediato do garoto foi deixar a raquete, desligada, em um lugar qualquer e correr atrás do coelho veloz pela casa. Chegou um momento que o animalzinho desistiu, se entregando ao menino. Sua feição era familiar.
Familiar com o que tinha lido a pouco. Um coelho branco de olhos rosados usando colete e, o mais incrível, com um relógio de bolso pendurado à roupa.
— Só pode estar de brincadeira com a minha cara...
Ana Clara havia ganhado um coelhinho, pelo jeito.
01 de Novembro de 2019.
Em seus 21 anos de vida, mesmo ele e a irmã sendo fluentes na língua pelo seu pai, Rafael nunca tinha ido para a Coréia do Sul até aquela semana e, pela primeira vez, não era uma viagem de negócios do pai. Era legitimamente para ver sua família.
A árvore genealógica dos Kim era um tanto confusa. Seu pai e família paterna eram coreanos, nascidos na Coréia. Em uma viagem a trabalho ao Brasil, conheceu sua mãe, Lúcia Kim. Ela não era coreana, mas os pais dela sim. Em resumo, Rafael e Ana Clara eram brasileiros de sangue coreano, uma grande mistura.
Nisso, um encontro familiar, que tinha o intuito de reunir a família pelo menos uma vez, se tornou a catástrofe iminente.
Rafa veio conhecer os que se denominam "G.E.M.S." logo ao chegar no Aeroporto Internacional de Seul. De primeiro instante, já podiam ser vistas propagandas, merchandisings e telões sobre eles.
Um grupo de extermínio ao diferente. Não demorou mais que alguns segundos para o garoto achar a ideia absurda logo na imigração e, minutos seguintes, os viu com os próprios olhos. Guardas armados com rifles e armaduras de ferro. Ana até mesmo se agarrou ao braço do irmão por medo. Era a hora de falarem com eles, afinal, por mais que parecessem nativos, suas identidades e passaportes diziam o contrário.
Os filhos ficaram em um corredor extenso enquanto o pai falaria com a polícia local. Explicar coisas básicas como quanto tempo iriam ficar, onde ficariam, quanto dinheiro tinham. Os tópicos comuns.
Até que um estrondo, similar com um bater na mesa, pôde ser ouvido. A Kim mais nova logo se escondeu atrás das costas do irmão e, por impulso, Rafael se esgueirou para ouvir a conversa pela porta.
" ... Ela está morta! Eu já disse! Faz 8 anos! E eu não sou um singular, nem minhas crianças! "
A expressão franzida do filho mais velho era evidente. Singulares? Já tinha ouvido falar deles, mas por que eles estariam falando disso naquele momento?
Outro estrondo, este fez com que os garotos se afastassem de supetão da porta, esta que se abriu e um guarda armado surgiu. Armado de fato, levava uma arma de fogo, no mínimo, do tamanho de Ninha.
Rafael olhou por trás do guarda, assustado, e viu seu pai em lágrimas. Ele nunca chorava, apenas chorou uma vez e quando sua mãe havia falecido. Só ouviu uma frase vinda do progenitor e foi a última que ouviu dele.
" CORRAM! "
Os irmãos não tiveram outra ação se não seguir a ordem do pai. Ana não era tão rápida quanto Rafael, então logo foi pega no colo pelo maior, que corria daquele corredor na maior velocidade. O garoto desviava de guardas como nunca havia desviado, se sentiu aliviado por ter sido do time de futebol da faculdade. Era bom corredor.
Quando percebeu estava já na área comum do aeroporto, precisavam ver a saída. Droga, estavam do outro lado dela. Pensou que poderia parar para respirar, mas nem isso. Olhou para trás e viu mais guardas. Por que estariam correndo atrás deles? Eles não eram singulares ou especiais...
Ou eram...?
Rafael só havia feito algo inexplicável uma vez: White, o coelhinho de Ana que, inclusive, era levado em uma das mãos da menina em uma gaiolinha. Ela nunca largava o coelho desde a noite que ele apareceu.
E ele apareceu ao ler sobre o Coelho Branco da Alice. Não... Como Rafael pôde ser tão burro assim? Ele era o motivo deles estarem ali. Sua irmã também? Ela também tinha tal poder? Não era hora para discutir isso. Precisava agir rápido.
Precisava ler algo.
Saiu em disparada em meio à multidão até chegar em frente a uma livraria. Um título. Era só o que precisava. Com a irmã no colo, passou os olhos pelos livros em exposição. Aparentemente só funciona se lesse em voz alta.
Achou.
— Andeuloideu Heonteo! — Leu quase que em um grito e torceu pelo melhor. Rafael não era tão religioso, mas naqueles segundos rezou tudo que sabia.
Eis que a ajuda literária apareceu.
A porta principal do aeroporto explodiu em um barulho estridente e, da fumaça das chamas, surgiu um vulto em armadura ferro luminoso. De início, estava chocado, mas ao ouvir a pronúncia robótica vinda da figura, sorriu. Sorriu aliviado.
"ANDROIDES! ANDROIDES! EXTERMINAR! EXTERMINAR!"
Primeiro, pensou que falavam dos irmãos, mas logo viu um raio lazer em direção a um guarda G.E.M.S, que foi ao chão. O tal exterminador confundiu os guardas com androides, provavelmente pelas armaduras revestidas em metal que usavam. Agora o título fazia sentido.
" O Exterminador de Androides. "
Aproveitou a deixa para correr com a irmãzinha para fora do aeroporto, caindo na área de táxis. Entrou no primeiro em que sua visão parou, ambos os irmãos sem fôlego.
— Rafina, cadê o papai? Para onde a gente vai? — Ana queria chorar e seu irmão sabia disso. Ela não chorava pelo choque, mas a menina sempre foi muito sensível. Quando em mais tranquilidade, cairia em lágrimas.
— Eu... Eu não sei, Ninha...
"Eu posso ajudar. Sei de um lugar seguro para deixar vocês."
Estranhou o taxista falar com eles, afinal, como entenderia o português? A resposta do senhor fez sentido ao ver os olhos reluzentes em laranja assim que virou para os garotos. Ele era um deles. Ele era um singular.
— Está falando de onde? — Perguntou Rafael. Ele nunca daria bola para estranhos, ainda mais junto da irmã, contudo, aquilo era um momento de desespero.
"Não se preocupem. Vocês vão gostar de Seeds Academy."
O taxista não disse mais nada durante a viagem.
1- Língua Mágica I
Pode trazer algo que ler em voz alta para a realidade desde que seja, no máximo, do tamanho de seu braço. Seres vivos apenas animais de pequeno porte, e correm o risco de virem sem vida para o mundo real.
2- Manipulação Literária I
Pode modificar frases de um livro, contanto que seja impresso. Limitação se vale para apenas modificações de até 3 palavras por vez, não podendo ser substantivos.
3- Manipulação do Papel I
Consegue manipular folhas de papel desde tenha algo escrito e que ele saiba do que se trata. Pode manipular o papel para se transformar em qualquer coisa que seja do tamanho do papel, mas precisa ser relacionado com o texto escrito.
4- Língua Mágica II
Agora pode trazer seres e objetos de médio porte para a realidade ao ler algo em voz alta. Tamanho máximo seria dos pés à cintura de Rafael. Chance de trazer algo animado sem vida diminui.
5- Mimetismo dos Contos de Fadas
Consegue imitar ou recriar características ou poderes de algum personagem literário, desde que já tenha lido o livro de onde venha.
6- Manipulação da Tinta I
Consegue materializar, em vez de trazer para realidade, o objeto ou ser em questão, ainda na regra de ser de pequeno porte, em uma versão composta por tinta. Resistência da tinta é fraca.
7- Língua Mágica III
Seres e objetos de grande porte agora podem ser trazidos para realidade, desde que seja, no máximo, da altura de Rafael. Seres animados, no entanto, não conseguem ser trazidos para a realidade com vida ainda, caso sejam de grande porte.
8- Leitura Melhorada
Consegue ler um livro inteiro em segundos(100 páginas por segundo), podendo contribuir nas outras habilidades, como Mimetismo dos Contos de Fadas e Manipulação do Papel.
9- Manipulação Literária II
Consegue agora ter livre mudança das frases de um livro, apenas se limitando no número de frases a ser modificadas. No máximo, 5 frases por vez.
10- Língua Mágica IV
Consegue trazer para a realidade, ao ler em voz alta, automóveis e ambientes, desde que na escrita não mencione a presença de seres vivos. Demanda muita energia e Rafael ficará fraco em seguida do uso da habilidade. Podem ser escritos na hora e lidos em seguida, mas tendo a limitação de serem obrigados a ser escritos por tinta.
11- Manipulação do Papel II
Agora consegue transformar papel, ainda sobre algo que esteja escrito, mas pode, desta vez, unir folhas de papel umas nas outras para materializar situações e seres ainda maiores do que uma pequena página.
12- Manipulação de Tinta II
Com essa evolução, consegue materializar seres e objetos maiores com tinta e sua resistência se torna equivalente à resistência de Rafael. O humanoide de tinta apenas cairá se Rafael cair também.
13- Língua Mágica V
Agora consegue trazer livremente qualquer ser ou objeto, animado ou não, com vida ou sem vida e, em relação a pequeno e médio porte, não precisa vindos de um livro impresso. Podem ser lidos de qualquer tipo de escrita, não tendo mais a limitação de tinta.