﹙ ⎯⎯ ⋆ 𝑾𝑨𝑹𝑴 𝑩𝑳𝑶𝑶𝑫 𝕆ℕ ℂ𝕆𝕃𝔻 𝕃𝕀ℙ𝕊⠀ ⠀⸺⠀ ⠀)⠀ ⠀para olhos humanos, bjorn wilhelm sehested é apenas um homem de cinquenta e quatro anos, nascido em copenhague, dinamarca e residente de nova iorque desde os anos 2000. mas, para aqueles que conhecem os segredos que se escondem nas sombras da noite, sabem que é um vampiro de duzentos e quarenta e dois anos, membro e arconte dos nocten, que se disfarça entre os mortais como curador de arte e dono do obsidian & gold, uma casa de leilões localizada em manhattan.
ㅤㅤ ㅤㅤ darling, you were champagne and cyanide. a silver smile lit by a cigarette, danger worn like cologne and cruelty dressed in velvet. the kind of lover who ruins and still gets worshipped. roses and razorblades tangled in your hands while i drowned in your charm, begging for more as you carved ruin into me. holy as sin, beautiful as death.
⋆ 𝑷𝑬𝑹𝑺𝑶𝑵𝑨𝑳𝑰𝑻𝒀⠀ ⠀⸺⠀ ⠀Bjorn é a definição de sofisticação calculada. Cada gesto, cada palavra e até o mais ínfimo olhar é medido como parte de um jogo maior. Ao longo dos séculos, aprendeu a transformar a crueldade em arte. Não apenas no ato de ferir, mas no modo como constrói o fascínio em torno de si. Se apresenta como atencioso, quase delicado, fazendo com que outros se sintam vistos e compreendidos. Mas essa atenção nunca é gratuita: é uma armadilha sutil, uma forma de conduzir as vítimas para a sua teia bem projetada.
Com o passar dos anos, já não guarda lembranças nítidas do que significa ser humano. O que restou foi a habilidade de imitar humanidade com perfeição. Emula risos, gestos de cuidado, até mesmo pequenos maneirismos que tornam sua presença magnética e até inesquecível. Tudo parte de uma encenação refinada. Por trás do charme, reside a frieza de um predador. Vingativo, metódico e dissimulado, Bjorn não esquece e a brutalidade com que age contrasta de forma cruel com a imagem polida que cultivou.
Mas nem tudo em Bjorn é artifício ou cálculo em nome dos Nocten. Existe uma parte de si que permanece intacta, que não pertence à sua máscara, mas à sua essência: o amor pelas artes. Desde sempre, pinturas, esculturas, música e literatura foram não apenas um refúgio, mas uma verdadeira paixão, algo que abraça com entrega sincera. No trabalho artístico, encontra um espaço em que sua devoção é real, desprovida de segundas intenções. Quanto aos humanos, embora os enxergue como criaturas frágeis e inferiores em muitos aspectos, não os despreza; ao contrário, sua curiosidade sobre eles só se intensificou com o distanciamento da própria humanidade. Fascina-se ao observá-los, como se estudasse uma tapeçaria viva de sentimentos e fraquezas. E, quando seu afeto ou respeito por alguém é genuíno, sua lealdade se torna inquebrável. Um raro lampejo de verdade em meio à escuridão que molda sua existência.
⋆ 𝑩𝑰𝑶𝑮𝑹𝑨𝑷𝑯𝒀⠀ ⠀⸺⠀ ⠀Nascido em 1783, em Copenhague, dentro de uma família aristocrática que carregava séculos de influência política e militar na Dinamarca, Bjorn era o mais velho entre os quatro filhos da família. Os Sehested sempre foram conhecidos por sua linhagem ligada à corte, navegadores e militares de prestígio. E o jovem Bjorn cresceu em meio a essa herança de tradição e responsabilidade. Recebeu uma educação refinada, marcada pelo estudo de línguas, história e filosofia, além de uma iniciação precoce na música e nas artes plásticas, algo comum entre nobres que desejavam afirmar seu prestígio cultural. A adolescência dele foi moldada por um período turbulento da Europa: os ecos da Revolução Francesa chegavam até o norte e o espectro das Guerras Napoleônicas já se formava no horizonte.
Quando adulto, Bjorn foi lançado na vida pública como oficial e diplomata, acompanhando tratados e movimentações militares no auge do poder dinamarquês no mar do Norte. A Dinamarca, contudo, foi abalada duramente em 1801, durante a Batalha de Copenhague, quando a frota britânica esmagou a marinha dinamarquesa. Bjorn, aos 18 anos, assistiu ao bombardeio da cidade e às chamas que consumiam parte de sua herança nacional e também de sua família, com a perda dos irmãos caçula para a guerra. Uma marca que nunca desapareceria de sua memória. Anos depois, em 1807, ele já ocupava uma posição de comando menor quando os britânicos voltaram a atacar Copenhague, resultando em um dos cercos mais violentos da história do país. Mais uma vez, viu sua pátria subjugada e o orgulho da aristocracia dinamarquesa humilhado. Essas experiências moldaram nele uma austeridade quase impenetrável, uma desconfiança das potências estrangeiras e uma visão pragmática sobre a fragilidade do poder humano.
Com o passar dos anos, a família Sehested viu sua fortuna reduzida pelo declínio do poder dinamarquês, mas preservou um acervo de valor inestimável: peças de arte, documentos históricos, objetos orientais trazidos por antepassados navegadores e relíquias adquiridas ao longo de gerações. Bjorn tornou-se guardião desse patrimônio, desenvolvendo uma obsessão pela preservação e pelo valor simbólico dos objetos. Ele se destacava em salões e círculos intelectuais, frequentando a corte e estabelecendo relações com nobres, diplomatas e artistas, sempre carregando um ar de elegância que não parecia abalada pela situação da família, ou do país.
Aos 50 anos, já viúvo de um casamento arranjado que nunca lhe trouxe verdadeira afeição, nem filhos, Bjorn parecia destinado a envelhecer como um patriarca melancólico de uma linhagem em decadência. Foi nesse período, no início da década de 1850, que cruzou o caminho de uma sociedade vampírica discreta que se movia pelas sombras de Copenhague. Diferente dos jovens transformados pela impulsividade ou necessidade bélica, Bjorn foi escolhido tardiamente por seu intelecto, sua postura e sua capacidade de adaptação em círculos sociais de prestígio. Tornar-se imortal após uma vida inteira dedicada à tradição e à sobrevivência da memória da família foi para ele tanto um fardo quanto uma libertação: carregava agora o peso de séculos, mas também a promessa de ver seu acervo crescer além do limite da vida mortal.
Por algumas décadas após sua transformação, permaneceu em torno da Dinamarca, movendo-se entre cidades portuárias, mansões aristocráticas e encontros secretos dessa pequena sociedade vampírica, que se ocultava em meio ao caos da modernidade nascente. Observou os reinos se transformarem, as linhas políticas mudarem, a burguesia ascender e a aristocracia perder terreno, mas nunca deixou que sua postura fosse abalada. Carregava consigo a gravidade do velho mundo, mas agora com uma frieza que o destacava ainda mais dos mortais ao seu redor.
Após décadas circulando discretamente pela Europa como vampiro, Bjorn decidiu se afastar da pequena sociedade que o transformou. Sentia-se limitado, sufocado pelos caprichos de seus pares, mas sobretudo estava atraído por algo que não podia ignorar: uma vampira cuja presença despertava nele sentimentos profundos, uma conexão que ele jamais experimentara, nem mesmo com sua falecida esposa humana. Por amor e desejo de uma vida mais íntima, ele partiu para a Ásia, estabelecendo-se em Kyoto, Japão, cidade de templos monumentais, jardins refinados e vida cultural sofisticada, onde ambos poderiam viver discretamente, cercados de beleza e arte.
O que parecia ser uma breve felicidade acabou em tragédia. Sua companheira se envolveu com forças perigosas e foi assassinada por bruxas rivais, deixando Bjorn tomado por raiva e solidão. Incapaz de lidar com a perda, ele retornou à violência de sua juventude: participou de conflitos humanos, servindo como oficial em guerras que se desenrolavam pelo mundo, especialmente durante o período de instabilidade na China e no Sudeste Asiático na década de 1930, quando conflitos internos e invasões estrangeiras criaram campos de batalha onde ele pôde testar sua disciplina militar e seu sangue frio.
Com o tempo, sua longevidade começou a atrair atenção. Pessoas notaram que ele não envelhecia; rumores surgiram, ameaçando revelar sua verdadeira natureza. Para se proteger, Bjorn precisou forjar sua própria morte, desaparecendo das cidades asiáticas e destruindo cuidadosamente quaisquer rastros de sua existência anterior.
Anos depois, já nos Estados Unidos, buscou refúgio em uma vida de aparências, cercado por arte, cultura e a ilusão de normalidade. Mas a escuridão não o abandonara. Sua elegância estudada, a retórica polida e o olhar sempre atento chamaram a atenção dos Nocten, que enxergaram nele mais do que um simples apreciador de refinamentos. Tornou-se Arconte, habitando dois mundos irreconciliáveis. À luz, frequenta salões sofisticados, cultivando contatos e manipulando poderosos com palavras suaves e presença magnética. À sombra, é o carrasco, eliminando rivais e desafetos com eficiência clínica, na maioria das vezes. Assim construiu sua reputação: um predador de gestos contidos, cuja elegância era apenas o verniz de uma brutalidade meticulosamente controlada.
⋆ 𝑯𝑬𝑨𝑫𝑪𝑨𝑵𝑶𝑵𝑺⠀ ⠀⸺
⋆ Bjorn já foi casado duas vezes: a primeira, ainda humano, em um arranjo familiar com uma mulher dinamarquesa que ele respeitava, mas nunca chegou a amar. Ela faleceu em decorrência da violência da guerra e o relacionamento não gerou frutos. A segunda, décadas depois de sua transformação, com uma vampira que foi sua verdadeira companheira e paixão. A morte dela deixou um buraco que nunca mais se fechou e desde então, prefere manter apenas envolvimentos passageiros, evitando qualquer laço que possa se tornar uma nova ferida.
⋆ Ao longo de mais de dois séculos, Bjorn dominou inúmeras línguas, conseguindo se passar por nativo em quase todas. Ainda assim, recusa-se a apagar o sotaque dinamarquês: uma marca que cultiva deliberadamente, por vaidade e identidade, tornando-o não apenas parte vital de seu charme, mas também uma lembrança do homem que um dia foi.
⋆ Apesar da aversão natural da sua espécie, Bjorn mantém uma estranha atração pelo fogo. Não ousa se aproximar demais, mas costuma observar lareiras, velas e fogueiras por longos minutos, como se buscasse neles algum tipo de resposta.
⋆ Bjorn tem um cuidado quase ritual com a forma como se apresenta. Prefere roupas clássicas, tecidos de qualidade e detalhes discretos, mas nunca extravagantes. É vaidoso com o cabelo e com as mãos; mantém as unhas impecáveis, um hábito adquirido ainda humano, que atravessou os séculos intacto.
⋆ Com tanto tempo de não-vida, Bjorn desenvolveu o hábito de estudar por puro prazer. Música, filosofia, poesia, história, arquitetura, já mergulhou em tudo em algum momento. Tem memórias vívidas de assistir concertos de Beethoven e óperas em Viena e, embora raramente fale sobre isso, guarda cadernos antigos com notas e reflexões que escreve até hoje.







