eu fui feito para o caos, e dele só saio para roubar as flores que entrego junto ao cinismo. e me perco nessa desesperada busca de um dia a mais, de um gole a mais, de um sopro que me leve adiante
Estava anoitecendo quando acordei aquele dia. Arrastei-me para o banheiro do quarto com tanta dificuldade, que quando me olhei no espelho, perguntei-me se havia bebido algo na noite anterior. Hoje é terça, cara, pensei. No banho, pensei no que eu deveria ter feito ao invés de dormir. Amanda almoçaria comigo, o cinema com Débora seria às quatro da tarde, e eu prometi a mim mesmo que terminaria o projeto da professora Emilia pela manhã. Droga.
Eu sei, sou um pouco desleixado. Deixo a desejar nos compromissos. Esqueço, deixo pra depois, não me forço, nem me esforço muito. Faço o que ta na minha frente. Acho que fui aprimorando esse defeito com o treinamento extensivo a que meus pais me submeteram, com todos aqueles gritos. Aprendi a abstrair a sobrecarga quando não consigo lidar com ela.
Peguei o celular e mandei três mensagens:
“Oi Amanda, desculpa, acordei agora. O almoço fica pra outro dia, ta?”
“Ei Debs, hoje foi um dia estranho pra mim. Acabei acordando agora. Me perdoa?”
“Professora, eu queria poder entregar seu projeto hoje. Estou me sentindo frustrado por não tê-lo feito. Podemos conversar pessoalmente sobre isso? Sei que é ocupada, mas um jantar seria mais suave. Vamos?”
Aproveitei para ver as mensagens recebidas. Vi algumas desagradáveis, outras desnecessárias, várias ligações de Ingrid, um texto enorme de Caio, milhões de e-mails do professor Nicácio, etc. Revirei os olhos. Ainda nu, na cama, quando a campainha tocou. A julgar o numero de ligações de Ingrid, não me surpreenderia se ela estivesse com a polícia ao lado para arrombar minha porta caso eu não respondesse no terceiro toque. Enrolei-me na toalha, e abri a porta ao mesmo tempo em que o celular vibrou na minha mão. Chamada de Ingrid. Olhei pra frente: era o Caio. Atendi a ligação como um pedido de salvação.
- Oi Ingri – olhei para Caio e mexi a cabeça como se pedisse para que ele entrasse.
- Onde você ta? É a vigésima vez que te ligo, cara!
- Eu tenho que pedir desculpas, tenho que me explicar ou a gente pode continuar a conversa fingindo que foi a primeira ligação sua?
- Grosso do caralho! – gritou.
- Não é grosseria. É preservação da minha individualidade. Eu tava em casa o tempo todo.
- Dormindo... Quer saber? Tudo bem, não vou ficar te enchendo não. Ia te chamar pra assistir alguma coisa legal.
- Pode vir, Caio ta aqui.
- Quê? Não vou não.
- Ingrid, pode vir! – rezei pra que ela entendesse que era mais um pedido do que uma permissão. – Inclusive se puder trazer cigarro, eu juro que vou te amar um pouquinho mais, hoje.
- Você ta desesperado, né? – a desgraçada me conhece. Eu a amo.
- Ok, meu bem. Tô te esperando. – desliguei na cara dela.
Eu me lembro dos primeiros dias de universidade. Eu, ainda no ensino médio, já frequentava as festas e ruas das universidades da cidade. Quando finalmente me tornei universitário, minha vida se tornou menos interessante, e mais turbulenta. Caio estudava no outro lado da cidade, e a lógica das nossas vidas ficou cada vez mais divergente. Eu gosto dele. Sempre gostei. Foi só bater o olho, e passei a entendê-lo como um cara muito gentil e simpático. Cheguei a pensar que ele podia ser o garoto que me faria largar os cigarros, porque soube que ele odeia. Só que não aconteceu.
- Ainda nos cigarros? – me repreendeu disfarçadamente. Evitei olhá-lo.
- O pulmão não me preocupa tanto. – e ri – Tudo bem? Eu não sabia que cê vinha, acabei de sair do banho. Vou me trocar e venho aqui.
Ele assentiu com a cabeça e eu entrei no quarto. Coloquei um short e voltei para a sala. Era dezembro e, mesmo sendo noite, a temperatura não me deixava confortável de blusa.
- Agora oi – e sorri gentilmente. Ele retribuiu.
- Olá.
- Como é que você ta? – o abracei e fui até a cozinha para ligar a cafeteira.
- Você não leu meu texto, né? – eu imaginei que a vinda dele tivesse relação com esse texto, mas não estava nem um pouco curioso para saber o que havia nele.
- Desculpa. Eu realmente acordei a pouco. Ainda tava lendo as mensagens quando você chegou. Quer café?
- Sim, por favor. O texto não era nada demais, realmente. Eu já te contei sobre vários ex namorados meus. Você me conhece um bocado. Eu me sinto muito confortável contigo. Quis te contar sobre esse cara que eu tenho vergonha de ter tido um relacionamento. Acabou.
- Você estava namorando? – continuei a evitar olhá-lo. Servi o café como um garçom.
- Até pouco tempo atrás sim.
- Poxa, que loucura, né? Desde quando? – eu tenho muito orgulho da minha capacidade de atuar. Às vezes me sinto mal, mas essa não era uma situação que me fazia mal.
- Depois de amanhã completaríamos 5 meses.
- Uau.
A verdade é que não me importava nada do que ele falasse. Eu estava no piloto automático. Preocupado com o café, com o que Ingrid me faria assistir, e principalmente quando ela iria chegar.
- Ele era um babaca.
- Por que vocês terminaram? – finalmente fiz a pergunta que ele precisava que eu fizesse. E ele passou os 10 minutos seguintes falando sobre uma relação abusiva, cheia de traições, ciúmes, brigas, desentendimentos e essas coisas que toda novela mexicana tem. Falei que isso era triste. Falei que esse tipo de relação é muito imatura, e sugeri que ele aprendesse com tudo.
- Eu não mereço isso, cara. Eu trabalho, estudo, não sou tão feio, e não trato as pessoas mal. Não entendo porque tenho que passar por isso.
- Você não tinha que passar por nada. – ele parecia não me ouvir, também. Mas não tirava os olhos de mim.
- Eu perdi tantas oportunidades nesse tempo...
- Você pode correr atrás do tempo perdido, Caio. Tu é inteligente, sagaz e não é tão feio assim – ri.
- É, nem sou tão feio, né? – ele parecia ironizar enquanto ria. – eu to aqui justamente pra isso. Correr atrás do tempo perdido.
Eu tava de costas, de olho na panela de brigadeiro. Na minha cabeça, simultaneamente, pensei estar petrificado, pensei que ele saberia se eu não agisse normalmente, e supliquei que Ingrid tocasse a campainha e me salvasse. Depois me subiu uma raiva, por estar constrangido, desconfortável, por me sentir acuado na minha própria casa por um garoto. Virei para ele e olhei nos seus olhos.
- O que isso significa? – ele me olhou com tanta determinação que cheguei a ficar com medo de um pedido formal de casamento. A cabeça de um ansioso...
- Cara, você é especial pra mim. Eu sei que você pode me fazer feliz. Quero fazer tudo certo pra ter você.
- Você quer namorar comigo? – perguntei com a voz tão afinada que eu mesmo assustei-me. Ele riu desconcertado.
- Bem, eu quero te conhecer mais de perto. Eu acho que a gente pode ter um romance, se isso acontecer. – falou com um tom tão sexy que quase tirei minha roupa.
Brigadeiro pronto, encostei-me na pia, pensei no quanto minha vida mudou, nos dias solitários, nos dias cheios de gente, nos dias em que eu chorei, sorri, em quando eu adoeci, pensei nas minhas viagens avulso pelo agreste e pelo sertão também. Ouvi uma voz bem baixinha, como um sussurro bem próximo do meu ouvido: “saudade, carinha”. Era o suíço me assombrando mais uma vez. Aí pensei no casal de idosos em bodas de ouro que fotografei na semana anterior. Pensei nos cigarros que estavam demorando demais pra chegar, fechei os olhos, respirei fundo:
- Caio, você entende que a gente se afastou bastante esse ano?
- Sim.
- Sabe desde quando exatamente a gente se afastou? – ele me olhou desesperado. – cinco meses.
- Eu sei, cara. Fui um otário.
- Não, poxa. Eu não ligo pra o fato de você ter se apaixonado, ou mesmo pra o fato de você ter escolhido viver uma história longe de mim. Eu gostava de você e te desejei felicidades de verdade. Ainda desejo. Mas eu não sou o cara que vai te fazer feliz, eu não chego perto de ser o cara que você se interessa. Porque você não conseguiria dizer em quantos dias vai fazer quanto tempo que me conheceu. Porque você não veio aqui porque quer ser feliz comigo. Você só está procurando ser amado, e eu estou cansado demais pra amar de graça. Eu não quero mais acreditar que alguém vá tentar ser pra mim o que eu sempre quis ter. Eu não aguento de novo, Caio. Essa coisa de amor, de felicidade, de afeto, romance. Isso não tem cabimento! Olha pra você. Tudo o que você quer é transar comigo. E eu daria pra você, se não fosse a sua mania terrível de me brochar falando das suas decepções amorosas. Eu sinto muito, mas se quisesse fazer tudo certo, saberia ao menos o tipo de ilusão que gosto de ouvir. – a campainha tocou. Eu mataria a Ingrid. Ela salvou o cara errado.
- Não sei o que dizer. Vou embora, e converso com você depois. Desculpe-me por qualquer coisa, cara. Não tive intenção de ser um babaca. – ele falou já correndo para a porta.
- Tudo bem, eu gosto de você. Te desejo tudo de bom. Até mais. – abri a porta e ele quase derrubou Ingrid por estar no caminho. E sumiu pelas escadas.
- Qual foi? - Ingrid perguntou entrando direto pra a cozinha, cheia de sacolas.
- Cigarro. – e ela jogou uma carteira de Marlboro para mim. Acendi e traguei pacientemente aquela bomba.
Eu sei, sou jovem, mas sinto que já dancei minha ultima musica. Eu entendo que isso parece radical demais, imaturo, incoerente demais. A questão é que eu não vou fazer “isso” de novo, porque amor não se acumula, não se pinta por cima do velho, não se recicla. Eu fiz isso uma vez. Beijei a boca da eternidade e pensei estar flutuando enquanto caia de um precipício. Tô lá embaixo agora. Meu coração, coitado, agoniza até hoje, sem bater nem parar. Eu não preciso dele, repito pra mim sempre que devo. Não preciso desse coração. Pode levar, garoto. Eu tenho um pulmão e esse fuma pra caralho. Porque você foi a ultima vez que eu fiz isso, e o que me deixa dormir à noite é saber que eu não farei de novo, nem se for você. Nem se for pelo teu rosto bonito, e teu gingado, e teu abraço. Nem se for pra ser a pessoa mais feliz do mundo por uns míseros segundos. Nem se você sorrir pra mim como se nunca tivesse apanhado na vida. De novo não.
Agosto é um nome lindo. Eu, que já gosto de palavras soltas, me empolgo com junções bonitas de letras sem nexo algum. Agosto, Augusto, a gosto, enfim. Foi bem no início desse mês que eu dei meu ultimo suspiro. A última farpa de esperança numa época tão fúnebre da minha curta e angustiada vida. Eu lembro. Estava sentado num batente da varanda, o coração batia num ritmo quase inexistente. Minhas pernas cruzadas, eu quase não as sentia. Minha visão era uma grande tela pintada por Van Gogh. Especificamente a que se chama “A noite estrelada”. Aquele cigarro tinha o gosto do mesmo que eu fumei no dia que passei 12 horas sem comer quando estava trabalhando no projeto da universidade, em Recife. Daqui eu me enxergo perfeitamente naquela cena. Um caco. Meu Deus, eu era um caco! Aí eu olhei pra cima, e depois para baixo. Acho que atirei minha alma nessas duas direções, naquele momento. Joguei a bituca fora, e pronto. Morri.
Nasci às 9 da manhã daquele agosto ainda frio de dois mil e dezessete. Tirei a roupa ainda no quarto, joguei no cantinho, com o amontoado de roupas sujas que resolvi lavar bem muito. Eu me perguntava se todas as pessoas apreciavam o silêncio de uma manhã como eu. Quer dizer, eu sei que tem os pássaros, e as motos e os carros ficam passando na rua da gente, e às vezes até aquele barulho de reforma, mas o silêncio das bocas é o mais divino. Eu não ouvia ninguém, e era maravilhoso poder fechar os olhos e sentir que não tinha ninguém falando, e falando, e falando. Eu juro que agradeci por não precisar dizer bom dia a ninguém. Ensaboei-me duas vezes no banho, lavei o cabelo com muito cuidado, como um ritual, coloquei o café no fogo, e coloquei uma roupa bem folgada. Eu era qualquer coisa, menos estiloso. E eu amava isso. Só às onze eu liguei meu celular, e de repente todas as bocas do mundo pareciam balbuciar coisas na minha cabeça.
“Cara, não esquece que você precisa estar na reunião de amanhã às 13 horas. Sem você eles vão aprovar aquela idéia absurda de diminuir as luzes do estacionamento do edifício.” Ana
“Oi Cara, como é que você ta? Não tenho notícias tuas faz um tempinho. Precisamos nos ver. Você me deve um sorvete.” Roberto
“Caaaaara!!! A Ana ta puta com o negócio do estacionamento. Não me deixou em paz ontem! Olha, meu microondas quebrou e eu não to conseguindo lidar com essa vontade de comer pipoca. Já acordou? Posso ir aí? Chego nesse instante.” Gabriella
“Boa noite, gato. Tá fazendo o que? A galera ta aqui tomando aquela catuaba que tu gosta. Tá afim de vir não?” Gustavo
Revirei os olhos com tanta força que cheguei a sentir uma leve dor de cabeça. Gabriella poderia me deixar aproveitar pelo menos minha manhã. Mas eu gosto muito daquela garota. A presença dela nunca seria algo ruim, pra mim. Quando pensei em respondê-la, ela já tocara a campainha.
- Ai que saudadinha! Como é que você ta? Tem margarina aí, né? Trouxe Coca-Cola porque sei que tu não toma. – falou olhando em direção a cozinha enquanto me abraçava.
- Bom dia, Gabi. – e fechei a porta.
Passamos as duas horas seguintes conversando sobre coisas aleatórias, como a queda que ela levou no corredor da faculdade no dia anterior, e as estampas das minhas cuecas. Eu já estava pronto e atrasado para a reunião, mas Gabi me convenceu a parar numa lojinha de conveniências para comprar um isqueiro. Eu não desci do carro, e me arrependi muito, porque ela também comprou vodca. Eu estava distraído num dos milhares de assuntos sem conexão que tivemos durante a ida até a faculdade, e o telefone tocou. Imaginei que fosse Ana e atendi pelo auto-falante do carro:
- Oi – falei num tom de calma.
- Carinha? – era outra voz.
- Quem é? – olhei para Gabi como se fosse uma pergunta para ela também.
- Sou eu, poxa.
- Desculpa, não consigo adivinhar. Diz teu nome.
- Tá com alguém aí?
Eu fiquei calado por alguns segundos. Fixei no semáforo, e imaginei um monte de gente diferente. Eu estava incomodado com a situação, com a pergunta, e com a convicção de que eu saberia quem era apenas pela voz. Não poderia ser outra pessoa. Esse leão eu conhecia.
- Eu to sim, to dirigindo, inclusive. Se não puder se identificar, tudo bem, só desligue a chamada, por favor.
- É o suíço. – aí eu gelei. Senti meus braços travarem segurando o volante. Gabi murchou ao meu lado, engolindo a vodca e afundando no banco. Acho que durou cinco segundos até eu resolver respondê-lo. Ele nunca usara esse apelido antes. Nunca.
- Ah, e aí, garoto. Tempão, né? Aconteceu algo? – eu forcei tanto, que falhei na tentativa de parecer natural.
- Nada, só vim dar um oi mesmo.
- Oi – eu disse rindo artificialmente.
- Oi. Tá com saudade não? – pensei em gritar, dizer que sim, ou chorar e dizer que não precisava daquilo. Foram os primeiros sentimentos que vieram à tona. Mas eu comecei a ficar irritado com aquilo. Eu não entendia. Não o entendia. O que ele queria? Mijar em mim para demarcar território?
- Devo estar.
- Tá. Dirige aí. Tchau. – eu pensei em dizer tchau, mas...
- E tu, de mim?
- Tchau.
E desligou. Eu nunca entendi muito o motivo de nós seres humanos sermos tão vulneráveis quimicamente. Um som, uma imagem, um leque de possibilidades de abalar o equilíbrio funcional dessa tão extraordinária espécie. Parei no estacionamento da universidade, com uma sensação de peso no estômago. Como se algum pé estivesse em cima. Descansei os braços no colo, olhei pra cima, Gabi estendeu o litro de vodca. Não consegui negar. 10 minutos depois eu estava cumprimentando a reitoria e algumas personalidades importantes da instituição. Eu podia sentir os olhares deles. Era como se eu estivesse usando uma fantasia. Saí algumas vezes para beber escondido no banheiro, depois não lembro mais de muita coisa. Alguns flashes de uma caminhada até o estacionamento, depois uma conversa com Gabi, depois um aperto de mãos num colega da minha turma. Só voltei a me lembrar das coisas quando estava num bar, sozinho.
Eu estava sentado numa daquelas cadeiras altas do bar, já na quarta rodada de qualquer vodca, quando pensava que bebidas já não adiantavam. Caralho, elas perderam o efeito. Quê mais? Pensei. Liguei para Ingrid.
- Oi, cara.
- Oi, Ingri. Tava dormindo? – perguntei com um pedido de desculpas implícito.
- Na verdade, não. Tô na cozinha. Deu vontade de cozinhar, e tô sem sono, daí tô de fantasma hoje... – a julgar minha amiga, eu poderia jurar que ela estava sendo irônica, mas ela falou com uma seriedade que cheguei a surpreender.
- Sério? Por quê?
- Não faço ideia. Juro. Acho que foi porque Maria falou de uns bombons que aprendeu a fazer no YouTube. Enfim, e você?
- Eu tô num bar, agora. Tava pensando aqui numas coisas... Por que a gente não gostava daquele menino do cursinho? Aquele modelo das aulas de biologia?
- Sim! Não sei. Acho que porque ele não gostava do meu cabelo rosa. Aí a gente começou a não gostar de várias coisas nele, até você começar a odiá-lo. – me perguntei mentalmente o que ele acharia da cor atual do cabelo dela. Era o roxo mais lindo que já vi no cabelo de alguém – Tá com alguém aí? Tu poderia vir pra cá, conversar comigo enquanto eu cozinho algo. Tem vodca.
Não pensei em nada além de como verbalizar a frase “chego daqui a pouco”. Paguei a conta e saí. No caminho pensei em como eu era otário, e como eu mudei desde o colegial. Era bem mais fácil ser recíproco, para mim. Quando alguém gostava de mim, eu gostava daquela pessoa. Até numa intensidade mais forte, às vezes. Se me esnobassem, eu geralmente esquecia os nomes, ou simplesmente apagava da minha memória. Pensei no suíço, e em como isso não se aplica mais a minha vida. Aí eu fiquei irritado por estar pensando nele. Quer dizer, todos os caminhos do meu cérebro levam a ele. Cada pensamento, cada fonte de imaginação, cada começo de estrada termina naquele garoto. É fácil associar qualquer coisa da minha vida a um cara que não vale o elo. Eu provavelmente cheguei à casa de Ingrid com uma feição abatida, porque a cara que ela fez foi engraçada.
- Oi, querido. Tá namorando de novo? – eu poderia jurar que ela perguntaria se eu estava usando drogas.
- Drogas. – ela riu. – o quê?
- Você se droga desde os 14 anos. Isso é mais um dos teus casos de decepção. Lembra quando você ficou doente naquele trabalho de literatura? Cê queria fazer um musical e acabou não conseguindo organizar, daí no dia da apresentação, você ficou tão decepcionado com o desempenho do grupo, que passou o resto da semana sem falar com toda a sala. Era essa a tua cara. – ela me conhecia. Pra caralho.
O nosso professor de literatura sabia como nos deixar entusiasmados com os conteúdos, e naquele trabalho, ele tocou em um dos meus instintos mais sensíveis: a crítica artística. Eu era apaixonado pelas mensagens implícitas passadas pelos artistas em qualquer dos setores. E para o meu grupo, ele havia nos instigado a fazer um projeto de curta-metragem em cima dos álbuns de Caetano Veloso. Ah, a tropicália... Eles fizeram um vídeo de 12 minutos com a moldura de leõezinhos e a trajetória de um rapaz com uma blusa rosa do movimento “Diretas já”, que fumou maconha, foi cantar “Cálice” para a polícia militar, e levou uma surra. Passei semanas tentando convencer a minha mãe a me transferir, até abstrair aquilo.
- Sinto falta dos cafés do cursinho – falei num tom de lamento exagerado.
- Eu sinto mais falta dos pastéis da escola.
Conversamos sobre nossos episódios desde o terceiro ano até o curso pré-acadêmico enquanto ela cozinhava algo chamado sunomono e um tipo de arroz com uma cor tão estranha que deduzi que não tivesse glúten, ou que fosse saudável. Eu não falava aquilo com frequência para ela, mas sempre que estávamos juntos, eu simplesmente reafirmava pra mim que ela era a minha alma gêmea, uma parceira que combinava mais comigo do que meu próprio rosto. Isso me deixava confortável.
O dia amanhecia lá fora, e a garrafa de vodca já beirava o fundo. Eu me apoiava com o cotovelo na mesa enquanto falava para Ingrid que todas as obras de Shakespeare eram uma grande sacada estratégica para o público da época, e que esse foi o único motivo pelo qual ele se tornara tão conhecido, não pelo talento. Ela mexia a cabeça em reprovação no mesmo ritmo com o qual mexia a panela de brigadeiro.
- Você não gostou de Hamlet? – a expressão de decepção dela era puro sarcasmo.
- Ah, o mercado da arte...
- Às vezes eu acho que você só é socialista por causa da lógica capitalista dentro desses espaços. Inclusive, no que deu aquele coletivo que você se meteu?
- Firme e forte. Você sabe, eu não consigo admitir que os romances clichês se tornem os filmes mais bem pagos do cinema, e que exista fast fashion. – ela riu.
- É por isso que eu gosto de odonto. – e eu revirei os olhos.
- É melhor do que Psicologia.
- Nisso sempre concordamos.
Paramos de falar por alguns segundos. Eu comecei a ouvir os pássaros e os carros passando, e ela, concentrada, despejava o brigadeiro num recipiente. A obstinação dela era digna de alguém que suportava todo o preconceito do curso sem jamais pensar em faltar aula por cansaço mental.
- Porque você não sente saudade do passado? – perguntou como alguém pergunta as horas. Quase um soco na minha nuca. Ergui-me, pisquei algumas vezes tentando focar nos meus joelhos, e senti uma grotesca vontade de ficar em pé, mas não o fiz.
- Eu simplesmente não preciso mais do tempo que gastei. E não gosto da expectativa de repetir coisas boas. Sei que vou me frustrar, sei que não vai acontecer. Não preciso reviver nada. É um tempo que serve apenas de base para o presente. – ela parou, olhou para mim como se estivesse confusa, pegou a garrafa de vodca, jogou no lixo e disse:
- Você tava cuspindo a vodca fora ou isso foi um lapso de sobriedade? – eu ri.
- Mas eu gosto de colecionar passados. Quando faço algo, penso em como isso vai ser pra sempre, e até mesmo meus planos para o futuro são criados pensando em onde estarei depois, como se já pensasse na marca que ficaria na minha vida.
- Que você guarda mágoas eu sei.
Eu fui embora, e ela me deu o recipiente de brigadeiro. Ingrid insistiu para que eu dormisse lá, e ainda tentou me enrolar com mais conversas aleatórias. Eu simplesmente estava bêbado demais para mudar de ideia. Eu desejava minha cama, e que quando eu acordasse, me deparasse com o teto do meu quarto. Nada mais. Despedi-me com um abraço melancólico e fui.
Acordei às sete da noite com o aterrorizante som da campainha. Era como se explodisse uma vontade de chorar alto, e de quebrar tudo o que tivesse ao redor. Nem percebi que estava só de cueca quando abri a porta. Eu havia esquecido totalmente que tinha uma reunião com Carlos para o projeto dele. Meu semblante passou de irritado para assustado bruscamente.
- É, vi algumas histórias no Instagram da Gabi reclamando da sua seminudez crônica... Posso entrar? – Quis fechar a porta e me jogar pela varanda do outro lado da sala.
- Claro! Desculpa. De verdade, eu acabei de acordar, aí não pensei que fosse você. Que vergonha. – deixei a porta aberta e saí rapidamente para o quarto enquanto falava – fica a vontade aí, vou só ficar médio apresentável.
- Relaxa, eu tô achando super engraçado. – ele parecia fingir normalidade, mas a cara de choque dele era inegável.
- Eu fico feliz que seja a única pessoa constrangida da situação. – coloquei um moletom preto que chegava perto do meu joelho. Acho que foi presente da Brígida. Voltei à sala ainda envergonhado com a situação, mas tentei fingir ter superado, também.
- E aí? Como é que você tá? Aceita uma bebida? Vodca, vinho, café, chá, água, suco de laranja...
- Ah, tô bem. Cansado, com toda essa movimentação para entregar esse projeto no prazo, mas bem. Não, não. Obrigado.
- Ah, de qualquer jeito preciso fazer o café, pra funcionar algo aqui.
Eu fui para a cozinha e ele sentou numa das cadeiras altas do balcão que divide a cozinha da sala. Tirou três fichários da bolsa e espalhou sobre o balcão. Abri o recipiente com brigadeiro e o coloquei entre aquele monte de papéis, enfiei duas colheres, e uma delas levei à boca enquanto fazia café. Ele falava sobre a viagem que ele fez à Pensilvânia, e sobre um castelo que visitou. Contou nos mínimos detalhes, como se fosse precisar deles para dizer algo. Eu não entendia nada. Aliás, nada fazia sentido desde que abri os olhos. Nem quis refletir sobre antes disso, porque precisava me concentrar no que o homem falava.
- Eu sei que a Idade média de verdade não foi lá essas coisas, mas tenho que admitir que a conexão com o íntimo, naquela época, era muito mais potente. Aquilo cheirava a solidão. Aí resolvi fazer.
Coloquei os dois antebraços no balcão, competindo com os fichários e o pote de brigadeiro. Dei um gole no café, e olhei para o primeiro fichário. Várias fotos de tijolos antigos, empilhados sem cimento. Alguns quebrados, ou trincados. Dei outro gole, e olhei para o segundo, com trepadeiras escuras infectando o branco dos papéis. E o terceiro fichário estava cheio de croquis. Olhei para ele com a expressão mais limpa que pude fazer.
- Você vai me transformar no Napoleão?
- Não.
- No Drácula?
- Mais ou menos – e franziu a testa.
- Em um dos senhores dos livros de George R. R. Martin? – então ele riu.
- Sim.
Depois de alguns goles de café comecei a ver sentido no que ele falava. Ele se baseara num castelo para desenvolver uma coleção. Pensei na Brígida, e no quanto ela ficaria empolgada. Percebi que sinto falta dela, mas logo voltei a me concentrar nas ideias, e no que ele queria de mim. O brigadeiro acabou, eu coloquei o recipiente e a xícara de café na pia, ele guardou os fichários na mochila, e depois fizemos sexo ali mesmo, no balcão. E depois eu fui deixá-lo na casa dele, porque precisava comprar cigarros, de qualquer forma.
Às onze da noite eu estava na minha cama novamente, imaginando como seria se fosse primavera. Chorei um pouco antes de cochilar.
Terça-feira. Acordei às quatro e meia da manhã, meio atordoado, lento, com as sobrancelhas franzidas e o tríceps coçando. Quis enxergar, mas se eu acendesse a luz, a vida faria menos sentido ainda para os meus olhos. Entrei no banheiro, e ainda conseguia ver minha silhueta pelo espelho, por causa da luz que vinha da pequena janela instalada entre o Box e o suporte para toalhas de mão. Comecei a pensar no que eu tinha, e o que eu precisava. Eu tinha um carro, que não era exatamente meu, mas eu poderia ficar com ele em dias de semana, uma bike legal para os fins de semana, sistema de som na minha minúscula casa alugada, café na despensa, amigos legais, uma barba que me deixa bonito em algumas fotos, uma carteira de cigarros no porta-luvas do carro da minha tia e outra dentro do estofado rasgado da poltrona da varanda. Eu tinha uma vida acadêmica estressante e um coordenador de curso que me perseguia, presidia o diretório acadêmico do meu bloco, tinha uma agenda lotada de eventos políticos e acadêmicos, minha mãe me ligava com freqüência, mas sem apego, e meu pai também. Eu tomava sorvete poucas vezes no mês.
Encostei na parede atrás de mim. A cerâmica azul clara estava gelada. Tudo estava gelado. Talvez fosse isso. Sorvete. Eu devia tomar mais sorvete, na vida. Por isso eu chorava tanto quando escurecia. Esse devia ser o motivo de querer fugir, ou de querer jogar uma garrafa de vidro pela varanda e acertar alguém. Esse devia ser o motivo de eu querer ligar para o suíço e dizer que ele é o amor da minha vida, ou de repetir diversas vezes que o odeio. É. Esse precisava ser o motivo de eu gostar tanto de alguém que não vale o elo.
Mas se eu tomasse sorvete, queria que fosse com ele. Então como?
O banho no escuro também estava gelado, mas ao sair acendi a luz. Já eram mais de cinco quando me sentei pelado na varanda, coberto apenas pelo edredom azul que minha mãe nem sabe que eu trouxe da casa dela. A luz do sol ainda estava fraca, distante. Eu sentia vontade de desligar todos os sons e ficar só olhando aquela cena. O céu, as casas, os pássaros, os fios dos postes... Acendi um cigarro e fiquei ali por vários minutos, até o sol aparecer. Aí eu levantei e fui até a cozinha, liguei a máquina de café e acendi outro cigarro. Olhei o celular e tinha centenas de notificações, mas não visualizei nenhuma. Digitei apenas “qual o problema com a minha cabeça?” no status. Peguei um pouco de café, voltei para a varanda, e fechei os olhos. Pedi a Deus para me dar algum pouco de esperança. Pedi que Ele me dissesse alguma coisa legal, para eu entender o significado de tudo isso. “Tudo o quê?” pensei. 22 anos e eu não sabia para onde ir, ou o motivo de minha vida ter chegado a esse ponto. Uma completa desorganização e falta de autocontrole. Um caos. E eu ainda não chegara a pensar especificamente na vida amorosa. E o telefone tocou. Coincidentemente, o toque de chamada era “Love On The Brain”, quando atendi e descobri que era o suíço.
- O que tem tua cabeça? – falou como se estivesse apressado
- Mais coisa do que realmente deveria caber.
- Mas tu ta sentindo alguma coisa? – acho que ele se preocupou. Ou talvez fosse um desejo meu.
- Eu não estou dando defeito, ainda. Tô bem. É só uma madrugada.
- Ok. Ainda está morando só? –ele mudou de assunto tão bruscamente, então eu entendi que era apenas um desejo meu, a preocupação.
- Sim.
- Legal.
- Por que você ligou?
- Não sei.
- Legal.
- Eu gosto de você, cara. – aí eu não soube mais o que dizer. Pensei em dizer que o amo, mas ele ia desligar. Aí eu pensei em dizer que gosto dele também, mas ele ia desligar. De repente, percebi que ele desligaria depois de qualquer fala minha. Então apenas suspirei. – o quê?
- Nada, só queria ouvir mais. Não desliga agora.
- Tu já terminou aquele projeto da faculdade? Nem me mostrou.
- Terminei sim, a nota foi legal. Te mando depois. Deixa teu e-mail nas mensagens.
- Ok.
- Acho que tenho algum evento aí.
- Quando?
- Não sei. Preciso ver na agenda, mas lembro que é esse mês.
- Ok. – não sabíamos mais o que falar. Eu não queria parecer um louco que cria aleatoriamente assuntos para dialogar. Passamos mais de cinco segundos calados até ele romper o silêncio – deu, né?
- O quê?
- Já deu. Vou desligar.
- Ta bem. Tchau. Eu também gosto de você. Muito.
- Tchau.
Foi ele quem me ligou, mas estava satisfeito em ter conversado comigo nas primeiras três frases. Depois, falou apenas para não me deixar irritado. No fim, a conversa me deixou confortável. Fui até o quarto vestir uma roupa legal para ir até a faculdade, e coloquei “Love On The Brain” para tocar nas caixinhas de som espalhadas pela casa.
Uma gargantilha preta, uma blusa cinza com estampa de flores rosas, shorts curto e sandália de couro. Coloquei uma jaqueta de veludo caramelo no carro. Eles me odiavam, Gabriella, Ana, Jeison... Me viram de longe, e começaram a berrar “brega!”, “jeguenaldo!”, “erro gráfico!”.
- Qual foi? – perguntei, mas já não ligava mais para os deboches.
- Você vai assim para Garanhuns? – Gabi perguntou. Achei que fosse sarcasmo, e fuzilei-a com o olhar. – É sério cara, a semana de arte e moda é hoje a tarde, mas você prometeu que ia almoçar naquele restaurante chique com a Ramona e eu. A gente vai depois da primeira aula.
Eu não sei se fiquei feliz, preocupado, entusiasmado, chocado ou tudo isso junto, mas com certeza estava nervoso.
- E agora? – falei. Ana bufou e saiu com Jeison em direção à sala.
- Se for se trocar vai ter que perder a primeira aula. – Gabi falou em tom de birra.
- Vai ter que perder comigo, então.
- Otário – falou e seguiu para o carro.
Eu o vi. Ele usava uma de suas camisas brancas, como sempre. Jogou a nuca para trás e abriu os braços, com um sorriso de preguiçoso.
- E aí?
- E aí? – o abracei e ele se afastou. Eu sempre fico nervoso, inquieto.
Conversamos coisas aleatórias. Sobre tudo: a família dele, os bichos de estimação dele, os nossos amigos em comum, o que temos feito da vida... Sobre nada. Até que ficamos um olhando para o outro, sem dizer nada. Eu tinha certeza que ele podia ouvir o que eu estava pensando. Estava nítido. Meus olhos me entregavam. O meu sorriso, a forma como meus ombros estavam tensos, a respiração, o tic nervoso do pé direito, as mãos com vida própria... Tudo em mim gritava para ele tudo o que eu queria esconder. Mas eu não conseguia.
- E agora? – perguntei.
- Vamos beber? Ou você vai dirigir?
- Preciso saber pra onde Gabi vai, antes.
- Ela ta com Ramona, né?
- Sim.
- Vamos passar num mercado e comprar uma cachaça. – sorri e o acompanhei.
No caminho, encontramos um amigo dele: “Vinicius, do curso”. Cumprimentei Vinicius, que nos chamou para a festa que aconteceria a noite. O suíço confirmou a presença, e nos despedimos. Compramos a bebida e fomos para uma praça.
Estávamos sentados, conversando sobre as ultimas festas que fomos, rindo das histórias enquanto anoitecia. O sol tava no finzinho quando um grupo de maracatu apareceu e começou a ensaiar bem ali. Eu fiquei tão feliz, pulei pra perto, e comecei a dançar sozinho. Eu acho que as pessoas ficaram olhando para mim, mas eu não ligava realmente. Só queria sentir aquilo. Ele se juntara a mim, depois. Aí tudo começou a parecer um monte de flores. Tudo ficara mais intenso, e bonito, e forte, e brilhoso quando o batuque rugia. Meu coração acompanhava cada “Tum”. Eu fechei os olhos, e entendi que estava bêbado.
- Não achei que você gostasse tanto. – ele falou perto do meu ouvido.
- Eu amo. – olhei para ele rindo. – Eu sentia falta disso, no sertão.
- Não tem?
- Não. É muito raro.
E voltamos a dançar. Não demorou muito, até encher de gente ao redor. Ele me deu mais algumas doses daquela cachaça, e bebeu igualmente. Não lembro de muitos detalhes, lembro apenas da camisa branca dele, da sapatilha vermelha da moça que também estava ali para apreciar o ensaio, de algumas pessoas filmando, de alguns integrantes fardados do grupo, que interagiam com as pessoas que estavam dançando, e de uma ligação de Gabriella.
- Oi Gabi.
-Tu vai voltar pra casa hoje? – ela perguntou em tom de choro.
- Tu quer? – perguntei em tom de choro.
- Não.
- Tô bêbado. – falei e ela riu.
- Te ligo qualquer coisa. Me liga também. Beijos.
- Beijo. – e desliguei.
Eu não lembro como aconteceu, mas o suíço me beijara. Aos poucos fui sentindo sua mão nas minhas costas, e o movimento da sua língua. Uma progressão de sentimentos foi emergindo a cada segundo que passava enquanto estávamos ali. Quando paramos, ficamos apenas abraçados. A gola da blusa dele tinha o mesmo cheiro do moletom cinza, e daquele travesseiro do quarto dele. Quis chorar, mas só disse que gostava dele.
- Eu também gosto de você, cara. Mas eu gosto bem mais de mim.
Ele me afastou e foi de encontro a Joana. Depois foi a minha vez de cumprimentá-la. Abracei aquela garota minúscula como se pedisse socorro. Acho que ela percebeu, mas não deu tempo. Eu comecei a me sentir mal, apoiei as mãos nos meus próprios joelhos e comecei a vomitar. Não lembro de muito, algumas frases soltas, algumas mãos me segurando, depois me deitaram numa maca. Um beliscão no braço, algumas risadas, depois alguém chegou perto de mim e perguntou se eu comi algo. “Droga, a comida”, pensei. Depois eu estava na casa de Ramona, e o suíço estava tirando minha blusa. Ele me levou para o banheiro, e tirou todo o resto da minha roupa. Foi o banho mais gelado que já tomei na vida. Ele me torturava, e ria. Mas também tomava cuidado, e não me deixava cair. Ensaboou-me duas vezes com certa delicadeza, apesar das viradas bruscas que me fazia dar. Desde a cena na praça até ali, eu não conseguia abrir os olhos, mas em um momento específico, quando ele começou a massagear meus cabelos com xampu, eu abri os olhos só por um segundo, e o vi. Os olhos dele brilhavam de concentração, e sua boca parecia se divertir com aquilo. Eu chorei, mas ele não percebeu. Estava chorando quando ele me virou mais uma vez, ligou o chuveiro quente e começou a ensaboar minha bunda. Depois deu algumas mordidas. Eu já tinha forças para virar sozinho. Eu poderia tê-lo beijado. Eu quis fazer, mas estava deprimido demais para tentar. Me perguntei se ele sentia saudade. Me perguntei o que ele estava fazendo ali. Ele desligou o chuveiro e me secou com tanta delicadeza. E secou o meu cabelo, e minhas pernas... Me vestiu e me levou até o quarto. Me joguei na cama, e fechei os olhos. Pedi desculpas, e ele brincou sobre eu estar perdendo a festa que aconteceria. Depois sumiu, e eu dormi. Sonhei com uma jangada, e um cachorro que ficava latindo para mim, mas um latido estranho. Como um ronco. Acordei às cinco da manhã com o ronco da Gabi. “Acorda”, falei. A gente tinha que ir. Eu tinha trabalho para apresentar na primeira aula.
Todo o caminho de volta foi estranho. Gabriella dormia no banco ao meu lado, eu parei duas vezes para fumar cigarro. Depois de chegarmos à cidade, eu estava olhando fixamente para um semáforo fechado, quando Gabi acordou e me olhou:
- Em que está pensando?
- Que tipo de cara ama desse jeito? – ela fechou os olhos, suspirou e pegou no meu ombro.
- Fudeu – falou.
Não conversamos mais nada até chegarmos na faculdade. Ela ligou o som do carro e deixou tocar o álbum de Tove Lo.
Respiro fundo até que não exista mais ar. Respiro e morro cada vez que a fina linha de minha vida cruza com a tua. E o sangue que jorra com o desatar do nó é tão frio, mas tão frio, meu amor, quanto a madrugada da tua cidade linda e cheia de brilho e de silêncios. Eu me desespero com tuas fugas porque o que tu leva não é só a si. Eu fico contigo em alma, e vago esperando que cê volte em mensagens, cartas, ligações... Nem conto as vezes que morri na espera. Nem tento explicar as vezes que gritei tanto por um sinal da tua vinda que perdi a voz, a vez, a vontade de esperar. E cá estou eu, nessa varanda, olhando pra cima, e depois pra baixo.
dizem por aí, meu bem, que amor não surge do nada e que ir embora faz parte da estadia da vida, mas eu nunca aprendi.
dizem por aí também, que somos todos soltos, somos seres não pertencentes. e disso eu sei.
e tem algo mais bonito que isso? essa certeza de que foi você que escolheu tá ali até tuas asas não aguentarem mais e tu alçar voo.
e alçar voo não é esquecer
porque ficar não é obrigação
e ir embora não é dizer adeus.
e eu te planto nos meus versos e às vezes até te sangro
porque por amor eu te deixei ir
mas por amor eu deixo a porta aberta pra tu lembrar de não esquecer mesmo se não quiser voltar.
porque amor é livre e você também e talvez por isso eu amo você.
Já era terça-feira. Eu faltei aula ontem porque não tava muito bem, mas eu nunca to muito bem, comentou Joana, eu concordo. Duas semanas de aula fria. Horas sentado numa sala sem a menor presença mental. Bem, nessa terça eu levantei com um pouco menos de vontade de continuar na cama. O céu lá fora continuava nublado, chuvoso, cinza... Eu lembro da minha mãe dizendo que é quando mais precisamos ter energia dentro de nós. Achei que fosse pela preguiça, mas hoje entendo bem. Coloquei o moletom cinza de sempre. Aquele dos melhores e piores momentos. Aquele de quando caiu óleo na minha roupa porque eu estava muito apressado pra uma reunião do movimento estudantil. E de quando eu estava viajando pra perto do suíço e o coloquei no meu colo pra tapar um pouco do frio que arrepiava os pelos das minhas pernas. O melhor momento eu não conto agora...
A aula, como todos os dias letivos das ultimas duas semanas, não rendeu mais do que uma presença na chamada. Passei mais de três horas ouvindo novamente a mesma pergunta: “você tá bem? O que houve?” Eu devo ser um ator de merda mesmo, pensei. Voltei à casa pensando em me limpar e voltar para a cama, mas a Joana disse que o Augusto estava chegando essa tarde, e que ficaria aqui em casa. Eu gosto do Augusto. Ele é o tipo de cara que não tem graça, mas é confortável. Quem faz o almoço? Eu destruiria até a receita simples de um macarrão instantâneo, com esse humor.
- Quem mais vem? – perguntei.
- Acho que a Ingrid vem pra cá, curtir com a gente...
- Só? – Joana parecia indiferente demais. Eu já imaginei o pior.
- É. Não sei, migo. Ela disse que vai aparecer. É possível que o Beto apareça, mas não disseram nada. – finalmente externou a preocupação.
- Tudo bem. Se ele aparecer eu fico no quarto, não fica nervosa.
- Não precisa. Eu levo todo mundo pra um barzinho.
- Tanto faz.
Segui para o meu banho, e ajudei a Joana com a comida. Eu gosto do cheiro do coentro, da forma como as folhas grudam no dedo, quando estão molhadas. Eu gostava da cebola, mas ela me irritou com essa coisa de arder os olhos. Beto era legal, mas eu não queria mais estar perto dele, porque dói e não vale a pena. Cansei de cortar vegetais. Lavei as mãos e fui para a cama com um nó na garganta. Meus pulmões se contraíam involuntariamente, e uma vontade de chorar inundava meus olhos, já fechados, rezando pra aquele sentimento passar logo. Eu sempre entendi que as coisas acontecem por um tempo, apenas, e que a estimativa desse tempo explica muito sobre a necessidade daquilo acontecer. Eu tava na merda há duas semanas e deixei de ver necessidade naquilo desde o terceiro dia. De bruços, passaram-se 10 minutos e a dor já se tornava parte da minha realidade. Eu estava dormente, parado, pensando...
Que saudades de estar bem. Daquele abraço, do jeito como ele olhava pra mim, só pra me acorrentar, mesmo... Era bom. Eu não nego que era bom. Não gosto de fingir. Eu sei que parece humilhação, nos dias de hoje. Aceitar que está a mercê de alguém e não de mim. As pessoas, hoje, precisam dessa autossuficiencia para que tudo flua, mas eu não sei fluir. Sei, no máximo, ir.
Alguém bateu na porta do quarto, mas tava aberta. Ainda com a cara no travesseiro, perguntei quem era, e ouvi a voz do Marcelo. Virei instantaneamente, surpreso com a visita, ele me olhava como ao cadáver de um cachorro.
- Oi
- Oi... Tudo certo? Acho que Augusto ainda não chegou. – tentei ignorar a expressão no rosto dele.
- Tudo... Ele chegou junto comigo. E você, o que aconteceu?
- Nada demais...
- Foi o caubói? – ele perguntou e eu ri – então foi o suíço.
- Na verdade não foi. É esse o problema.
- Entendo... Espero que você fique bem de novo.
Ficamos calados por segundos, até eu me levantar como se tivesse deixado toda a tristeza na cama, e fui ver o Augusto.
Passamos horas conversando, bebendo, comendo... Augusto estava cada vez mais corpulento, e Joana parecia atraída. Marcelo, sempre gentil, simpático, conversava como um diplomata. Então a campainha tocou. Ingrid, pensei, pedindo secretamente que Beto não viesse junto. Pedido negado.
Cumprimentei a todos e segui para o meu quarto. Todos entenderam, apesar do Augusto ter expressado desentendimento. Ouvi cochichos de Ingrid e Joana, e me muni de headphones. Enquanto escolhia a música, recebi algumas mensagens de Beto:
Não sei por que você está me tratando dessa forma. Não tenho nada a ver com a vida dos dois. Inclusive, vocês eram amigos! Por favor, não me trata dessa forma.
Parei por alguns segundos, atônito, depois me vesti depressa e sai sem sequer dar tchau. Acho que ouvi Joana perguntar aonde eu iria, mas não dava tempo. Minha cabeça já tava longe. Quando parei, estava na fila do caixa, com uma carteira de cigarros na mão, pensando em como eu tava sendo um grande imbecil. Era bem verdade, eu não deveria estar agindo dessa forma com Beto, ou comigo, ou com a vida. Eu e o suíço éramos amigos. Ele deixava claro o tempo todo, com seu jeito estranho de dizer que é sozinho no mundo, e que gosta de ficar “de boa” pra tudo.
A gente tinha isso de estar sempre numa roleta russa, em que ele me abraçava ou me jogava no chão. E era sempre dolorosa e irritante a forma como eu esperava aquilo. Eu nem percebia que pra mim já estava tudo bem, quando acabei pegando o Beto. Minha consciência de quem eu sou sumiu por um tempo. Eu fiz tudo errado? Caralho. Não. Eu sou sozinho, e nunca foi por escolha minha. Eu sou sozinho por causa dessas rasteiras, pelos sumiços, pelos “não”. E isso me levou pra mais além! Eu sou sozinho com um moletom maior que eu, tentando um jeito de ficar bem, num mundo onde cada vez mais é preciso fingir. E eu me afundo a cada dia em que tento de novo, porque cada nova tentativa é uma ilusão criada por tantos outros caras como o suíço...
Mas ele era pra ser diferente, e é por isso que sempre volto, que sempre falta. E é por isso que eu gosto de me prender de qualquer jeito, mesmo. Numa automutilação. Algo em mim pede que só dessa vez, seja diferente. Seja como naquelas histórias de perdão. Porque eu não sou racional mesmo. Jogo com o que sinto, não importa muito o que devo sentir. E bem enquanto eu tragava aquele cigarro, eu só sentia vontade de ficar frente a frente com ele, pra dizer “vai tomar no cu” antes de um beijo que matasse a saudade.
Liguei para Joana
- Vocês tão onde?
- Já estamos saindo. Vamos para o Metal Beer.
- Fiquem aí. Já estou chegando.
Voltei para o mercado e comprei algumas cervejas. Eu ficaria bem. Eu precisava ficar bem de novo. Quando cheguei à casa, pedi desculpas a Beto, e a todos. Disse que podiam ficar lá em casa, e que não incomodariam, mas preferiram ir. Tomei todas as cervejas sozinho, ouvindo Seafret e respondendo mensagens sobre meu texto semanal. Envolto em meu moletom, agarrado ao meu colar de pedra, aquele colar de pedra... A visão já turva, quando enviei uma mensagem de texto:
Eu uso tudo o que me lembra você, porque eu sou otário e eu gosto de lembrar a dor que você me causa, e o som da sua voz e da sua respiração quando você tava perto de mim, e o silêncio caía sobre os nossos corpos na minha lembrança. Eu uso tudo que lembra você porque recordar é continuar sentindo o gosto bom do teu beijo nos tempo em que ele era tudo que me fazia bem.
Eu disse um dia que sou cachoeira, mas dói demais tanta queda.
A grande loucura é que nós amamos. Mesmo sem esperanças, mesmo na tristeza, mesmo sem entender o amor. Ainda que se possa sofrer milhares de vezes, somos capazes de amar na mesma igualdade. O amor se recusa a ser infeliz.
Te amo. Te amo de um jeito que eu tento explicar e não sei. Palavra fica presa. Engasgo, afogo e uso palavras pela metade. Na hora H sempre falta uma vogal. Mas quer, de novo, saber? Meu coração nunca foi pela metade: sempre foi-inteirinho-seu.
Eita, menino
Eu que já tava acostumado
Dou risada desse laço
Que sufoca
Enquanto você
E eu
Em versos separados
Damos risada
E sufocamos o costume bom
Que era acordar de sobrancelhas juntas
Olhando com aquela palavra
Que arrasta a tua língua
E o meu querer
Mas dou risada desse
Que o céu agora é lindo pra eu brigar com o mundo
Deixo pra depois
Deixo o depois ficar me vendo
Enquanto penso que depois você
E aí, menino, o depois nem chega
De tão infinito que eu fico.
Sentia vontade de chorar, mas não saía lágrima alguma. Era só uma espécie de tristeza, de náusea, uma mistura de uma com a outra, não existe nada pior. Acho que você sabe o que quero dizer, todo mundo, volta e meia, passa por isso, só que comigo é muito frequente, acontece demais.
A gente poderia falar as coisas
Qualquer coisa
Anything at all
Por você as madrugadas inteiras e as palavras todas
Eu diria ou escreveria numa boa
Sem cobrar os juros
Por você tudo
Talvez o meu egoísmo converse muito em demasia
Talvez eu exagere nos fluxos e fluxogramas e diagramas e nas palavras em si o tempo todo
As teorias todas eu gosto de debater e verbalizar me perdoa
Me perdoa
Só que o não dito é o pano de fundo da grande maioria dos fins e por deus eu juro que a única coisa que não suporto agora é acabar
O tempo lá fora tá sereno, que nem as lembranças e bitucas de cigarro que tenho preguiça de jogar fora e de me desfazer com a força que eu tenho mas que costumava abdicar só para me manter. Eu disse costumava. O amor, dizem, é construído, e eu aceito senti-lo. Mas não podemos colidir, meu bem, não iremos. Tô pegando na minha mão pra me expandir pra me soltar do chão, pra não me manter. Das dores, a maior.
algumas pessoas quebram nosso coração e os cacos nos ferem por tempo indeterminado
você mexeu com a parte mais sensível em mim. quando você chegou, sabia da minha sensibilidade, sabia que eu tinha aversão a perdas. eu nunca soube lidar com elas. mas você insistiu. fez promessas. você realmente me fez acreditar que alguns momentos podem ser eternos. e alguns se tornaram. só que você não disse que só seria eternos nas minhas lembranças e que machucaria tanto relembra-los
agora vivo com essa carga emocional de ser sozinho e não conseguir me reabrir para me reabitar
Mas quando eu te vi indo para longe de mim, a única coisa que eu quis fazer foi correr e te puxar pelo braço, dizer que a dor de te ver partir é insuportável, te pedir pra ficar mais dez minutos ou me abraçar até o meu coração se acalmar. Eu te vi ir, te vi secando as lágrimas enquanto meu peito ardia de vontade de ter você outra vez.
Dezembro. Jogado nas cadeiras desconfortáveis da varanda, os últimos minutos de luz do dia pairavam entre as poucas nuvens daquele fim de tarde quente. Tirei uma carteira de cigarros da almofada, na cadeira. O celular, na mesinha, sempre vibrando. Não que eu tenha qualquer popularidade, mas os grupos em que me jogam são bem barulhentos. As notificações são constantes. Fumei mais de um cigarro olhando o céu e pensando em como o tempo é lento, e as pessoas são demoradas, e as vinte quatro horas são tão curtas, que eu prefiro nem usá-las.
Levantei para ligar a cafeteira, e ouvi uma ligação atrás de mim. Não parei. Já tinha falado com minha mãe essa tarde. Duas ligações. Devia ser alguém me chamando pra hoje. O que eu vou jantar? Pensei. Terceira ligação. Laura, só podia. Na hora do jantar, porra. Voltei à varanda irritado com a perturbação. Quarta ligação e quando peguei o aparelho vi “Suíço-pernambucano”.
— Oi! Que surpresa boa! – falei.
— Oi, que demora! Tá com alguém, aí? – um pouco ríspido na fala. Mas ele é sempre bem duro no jeito de dizer coisas.
— Não. Tava na cozinha vendo algo pra jantar. Aconteceu algo? Que legal ouvir tua voz! – eu não disfarçava o entusiasmo. Ele nunca me ligara antes. Era estranho, mas eu gostei daquilo.
— Não sei. Tem certeza de que não tem ninguém aí? – fiquei confuso, e um pouco irritado.
— Eu tô em casa, cara. São seis horas, e eu tô preparando meu jantar. Não precisa perguntar duas vezes algo, porque a resposta vai ser a mesma. Até se for mentira.
— É que cê tá de cueca, com uma carinha de pós foda tão linda. – e a voz dele ficou diferente. Me lembrou o dia em que eu fiquei agitado e ele pegou no meu braço e começou a dizer que eu deveria sentar e olhar pra ele, pra a gente conversar com calma.
Mas aí me bateu um aperto no coração. Um pânico, por não entender bem o que aquilo significava. Cueca? Ele tá me vendo! Passei os 5 segundos mais longos da minha vida procurando e procurando... Aí eu vi, do outro lado da rua, um rapaz e uma mala, sorrindo pra mim. Todo sem jeito, como se tivesse sido pego na cena do crime. Eu só conseguia falar “não acredito” tão baixo que só podia ser entendido por leitura labial. Queria descer e abrir a porta sem tirar os olhos dele. Não deu, então corri pela casa, pela escada, abri a porta numa tremedeira de se rir. Ele já chegou falando que a Laura tinha dado o endereço, e eu, nem falei nada. Primeiro o abraço. Eu sei, ele nem gosta de muito contato. É todo autossuficiente, e no quinto segundo já quis se soltar. Mas eu estava precisando acreditar que ele apareceu de novo, e que aquilo, que era bom pra caralho, era real. “Tá bom”, ele disse. “Bora entrar”.
Ele jogou as malas no quarto e fomos à cozinha ver o que jantar. Eu não parava de tagarelar sobre o quanto isso era estranho, e sobre o quanto ele precisaria me ajudar a recepcioná-lo porque eu não sabia se cozinhava espaguete ou pedia pizza.
— Cuscuz – ele disse.
Eu ri, e peguei as xícaras. Ele gosta de café, eu sei. Ele me olhou com cara de incredulidade. Fiquei confuso. Aí ele me beijou.
— Tava com saudade não? – quase brigando. Eu tava. Só tinha esquecido, mas tava.
Jantamos um ao outro, por horas. Até cansarmos, e ele ir para a varanda fumar. Eu, que não fumo, fui cozinhar. Mas sempre indo para perto, ter certeza de que não era sonho. E, se fosse, aproveitar o tempo todo. O gosto de cigarro nele só aumentava a vontade de ficar ali naqueles lábios, pra sempre. Eu ri, e o cuscuz passou do ponto. Porra.
Eu confesso. Tenho um jeito meio torto de ver as coisas. De levar a vida. De me interessar por ela, principalmente. Gosto dos retalhos. Do que me tira do eixo. Só que eu nunca estou no eixo. E dou risada disso. É triste e engraçado. Eram mais de nove, e eu estava deitado na cama, imaginando alguma programação para aquela sexta, enquanto o suíço tomava banho no meu banheiro. Posso usar tua toalha? perguntou. Eu deixei.
Liguei para a Laura. Talvez ela quisesse sair com a gente. Ela estaria ocupada, disse. Mas no dia seguinte nos veria. Olhei mais. Ninguém. Ah, o Mario! Poderíamos brincar de casal, e ir ao Danni’s Burguer, eu com o suíço, e o Mario com Danilo. Cara, ele vai amar o Danni’s, pensei. “Desculpa, cara. Combinei com a minha prima de ir pra um aniversário da cunhada dela”. Tudo bem. Ninguém. Quase todos os meus contatos eram garotos estúpidos com quem tive algum sexo. Não eram ninguém. Eu não tinha ninguém e comecei a sentir o meu coração acelerar. Aí olhei pra o teto e vi o gesso se movendo, e vindo até mim, e a respiração foi ficando ruim. O gosto na minha boca. Eu via a luz do banheiro, porque a porta estava aberta.
— Que foi? – ele perguntou.
— Nada. – e virei, desesperado. Agarrei o travesseiro, de costas pra ele. Apertei com muita força. Que sentimento ruim do caralho.
— O que foi, menino?! – a voz preocupada, ele tentava ver meu rosto, acho que ele pensava que eu estava chorando. O meu coração parecia pesar mais que o meu corpo todo. Eu afundaria aquela cama. Quis gritar. Sou louco, mas não quero ser. Não gritei. Ele ficou tão desesperado quanto o dia em que provei aquela droga da Ana e comecei a gritar no meio de rua. O tempo ficou rápido, e as coisas dentro de mim, que já voam, pareciam estar num ambiente sem gravidade. Eu sentia que ia morrer. Nem ouvia mais nada. Depois, tudo o que eu senti foi o corpo dele, ainda molhado, em cima de mim, me sufocando mais do que eu já entendia estar. E eu parei de respirar. Era um abraço, ou algo do tipo, eu acho. Não tentei sair. Algo em mim dizia “não há saída”. Então eu comecei a deixar pra lá. Meus músculos foram cansando de forçar, e a minha respiração, ainda parada, não incomodava. Ele passou mais alguns segundos ali. Pareciam horas, mas era bom. Aí eu abri o olho, e vi tudo normal. E as paredes estavam bonitas, que nem quando eu pintei, no ano retrasado. Soltei o travesseiro. Ele saiu de cima de mim, e ficou tudo bem. Fechei o olho de novo. Me deu sono.
Eu acho que cochilei por uns segundos. Poderia ser um minuto, se eu tivesse cronometrado. Ele levantou minha cabeça pela nuca, e me deu um copo de água. Eu quis rir, mas bebi. Não era só água. Quase cuspi.
— O que foi aquilo? Tua pressão baixou, caralho. Quer me matar de susto? – ou eu estava com os ouvidos sensíveis ou ele estava gritando comigo. Mas era o suíço. Grosso até o fim.
— Não sei. A cafeteira tá ligada? Preciso de um café. – eu falei olhando para depois do quarto, ele olhava pra mim, parecia meu pai quando pedia uma resposta para ter como discutir a situação. Tentei levantar, mas meu pulso estava fraco. Aí eu tentei de novo, e deitei sem querer. Depois, sentei, e tentei mais uma vez. Ele me ajudou.
Sentamos na varanda calados. Dei uma golada no café, e continuou o silêncio. Por um segundo imaginei ele mudando de assunto, falando do céu. A lua era quarto crescente, e dava pra ver Vênus dali. Dei uma segunda golada e ele novamente perguntou.
— O que foi aquilo? – bem calmo. Acho que a seriedade pede calma.
— Não sei, cara. Senti algumas coisas, fiquei nervoso, o mundo girou. Não sei o que foi. – dei outro gole no café. Ele me olhava, ainda. Peguei a almofada do sofá e tirei dela a carteira de cigarros. Ofereci a ele, que pegou sorrindo.
— Escondendo? – sarcástico.
— Escondendo o quê? Tá vendo alguma coisa aqui, pra esconder? – irônico. Rimos, e olhamos o céu juntos, finalmente. Eu suspirei sem querer.
— Fiquei preocupado. Você sempre tem isso? – ele fixava o olhar no céu. Me perguntei se ele estava olhando a lua ou Vênus. Haviam algumas constelações ali, para se olhar. Mas nada se comparava.
— Acho que sim. De vez em quando. Não sei. Você tá vendo Vênus?
— Sim. É linda. A lua também está incrível hoje. Me lembra um monte de coisas boas. Você tá fugindo do assunto?
— Tô.
— Certo.
— Quer beber?
— E se você tiver um ataque cardíaco? – olhou pra mim, meio sério, mas era uma piada.
— Aí você pula em cima de mim, e termina de me matar. – eu ri, e ele também. Levantei e fui me vestir. – Vamos pra a orla ou compro um vinho no barzinho da avenida do bairro?
— Aqui é bom. Essas cadeiras parecem nunca ter sido lavadas, de tão impregnado que tá teu cheiro. – falou, da varanda, enquanto eu colocava um short no quarto.
Coloquei um dos shorts de ir à padaria de manhã. Ele me olhou com cara de reprovação, e eu ri. Ninguém liga pra o que eu visto depois de estar com uma garrafa de bordô na mão, falei. Fomos até o mercado mais próximo, mas já estava fechado. Tentamos o bar, mas só tinha bebida barata. Eu gosto. Aliás, são ótimas, mas para outras ocasiões. Aí eu estava pairando pela avenida. Todo esfarrapado, de bar em bar, atrás de um bordô, quando algum número desconhecido me liga.
— Oi. – não gosto de “alô”
— Oi. – não reconheci a voz, mas era de alguém que já falara comigo antes.
— Quem é?
— Não lembra? Luís.
— Ah, oi Luís. E aí? – falei educado, mas eu estava mais concentrado no vinho.
— E aí? Tá procurando alguém? – falou num tom ambíguo, irônico. Irritou um pouco.
— Olha, nesse momento eu tô procurando um vinho. Bordô, especificamente.
— Tô te vendo daqui. Deixa esse menino de lado e vem cá, que eu te dou vários bordôs e uma sexta maravilhosa. – aí eu ri. Primeiro eu ri, depois comecei a procurá-lo. Não achei agradável a ideia de ser visto por pessoas e não vê-las antes. Era a segunda situação da noite. E a primeira desagradável. O vi sentado na mesa de um dos bares lá na frente, onde eu não tinha passado ainda. Estava com uns amigos. Parecia bêbado, mas eu não o perdoaria. Aquilo foi escroto o suficiente. Sorri descaradamente pra ele, de longe. Olhei pra o Suíço, que não entendia nada.
— Você não vale isso tudo. Fique sóbrio e conversaremos. Tchau.
Beijei o rosto do suíço e peguei o braço dele, pra que atravessássemos a rua.
— Vamos pegar um táxi. Não vai ter bordô aqui.
— A gente pode comprar um normal mesmo, poxa. Tô afim de rodar a cidade não. – ele falava e eu já estava dando a mão para um táxi.
— Não vamos rodar muito. Sei onde tem e tá aberto. É rápido. – falei como uma criança querendo convencer alguém. Eu sei que não convenceria, mas já estava entrando no carro. Ele teria que entrar. E o fez. – Posto orla, por favor.
O táxi era calado, mas ficava sempre olhando a gente pelo retrovisor. Pensei muita besteira, e fiquei rindo sozinho. Ele já estava irritado porque eu não dizia o que era. Depois comecei a mostrar os lugares. Me empolguei um pouco quando passamos no caminho para o Danni’s. Ele riu com aquilo. Seguimos o caminho todo comigo falando sobre como eu gosto daquele hambúrguer. Ao chegar no posto, fomos para a loja de conveniências, peguei o vinho e coloquei ao lado de uma vodca. Ele me olhou, com aquela cara. Eu lembro dela. É uma cara de adulto. Adulto safado. Eu gosto daquela cara. Deixei o vinho gelado ao lado da vodca, e fui pra a sessão de confeitos, procurar jujubas e balinhas de café. Escolha, falei saindo.
— E o ataque cardíaco? – falou de longe, e eu ri.
Cheguei no caixa com três pacotes de jujuba e várias balinhas de café, jogando no balcão. Tinha um vinho suado lá. Olhei pra ele, rindo, e peguei outro. Eu tava feliz pra caralho. Caiu a ficha. Ele apareceu mesmo. E, nossa, ficou tudo tão bonito no mundo. Quis beijá-lo. Ele entendeu e ficou rindo. Saímos da loja de conveniências, eu já estava com um pacote de jujubas na mão.
— Me sinto um pedófilo vendo você segurar essas jujubas. – eu ri alto, e percebi que um pessoal olhou pra mim.
— Olha quem tá ali! – ouvi um comentário, de longe. Aí olhei, e vi a Amanda e o namorado dela, encostados no carro. Ela abriu um sorriso enorme, e percebi que ela olhava a rua, tentando atravessar para falar comigo. Fui à direção dela. Aí eu vi o Bruno saindo da outra porta. Parei no meio do caminho, entre as duas vias. Eu não iria lá. Estava todo mundo bêbado naquela noite? Ele mal conseguia sair do carro. Abracei Amanda fechando os olhos. Me deu uma tristeza... E ela me confortou.
— Que saudade – ela falou.
— Pô, também tava.
— Eu tô bêbada, a gente tá bebendo a um tempão e eu não vomitei. Hoje tem Mad. Vamos? – ela falava com dificuldade.
— Hoje não, meu bem. Eu só vim comprar uns mantimentos pra voltar à casa.
Quando saí do abraço, o namorado dela apertou minha mão, antes mesmo de ela se distanciar. Aí eu senti outra mão na minha cintura.
— E aí, Jorge. Massa? – e ele respondeu. Bruno me agarrou como uma cobra, se enrolando, tentando me abraçar. Fiquei irritado. Quase empurro ele, e o jogo no meio da rua, para algum carro passar por cima, mas deixei. O toque dele ainda me desarmava.
— Que saudade – ele falou, ressonando no meu pescoço. Olhei pra o Suíço, do outro lado da rua. Quase que o chamando. Ele entendeu, mas fingiu que não.
— Cê tá bêbado, Bruno. Licença. Gente, adorei ver vocês, mas tô com visita em casa.
— Tu sempre tá com visita em casa, né? – ele gritou. Um grito carregado de ironia. Eu não estava louco, ele gritou, e quem estivesse ali ouviria.
— Você tá bêbado. Vá melhorar. Ou morra longe de mim. – não gritei, mas a minha voz ficou obscura. Quase rouca. Nada intencional, foi automático. Amanda fingiu não estar ali, e Jorge servia de apoio para Bruno se segurar. Cruzei a rua em direção ao Suíço. Vamos embora, falei.
— Onde eu tô você já esteve, cara! – ele seguia gritando, de longe.
— Pois é, melhora também!
— Volte pra mim! – me subiu um rancor. Uma sensação ruim na boca. Eu nem enxerguei muito. Comecei a gritar.
— Não precisei de você pra melhorar! Vá tomar no cu! Vá pro inferno! Cê tá achando que sou um otário? Vá pro inferno!
Eu nem percebi, mas larguei as sacolas de confeitos no chão. Eu já estava empurrando ele, e o Jorge me segurava com tanta força, que achei que estivesse me batendo, ao invés de ajudando. Olhei pra ele transferindo o ódio pelo Bruno, e ele entendeu. Aí me soltou. Eu estava respirando muito forte, e o Suíço segurou meu braço.
— Vamo embora. Essa galera tá bêbada. Vai se trocar? Não vou ficar aqui nessa situação ridícula. – olhei pra ele. Meu olho começou a alagar. Senti uma vontade de sentar naquela calçada e chorar, mas ele estava segurando meu braço. Não era bem segurando, era dando energia. Não falei nada. Peguei as sacolas no meio da rua. Sorte que o sinal estava vermelho. Tudo ficou mudo. Lá no fundo, eu ouvia Bruno gritar. Não sei se era miragem ou era real. Filho da puta.
Filho da puta.
Filho da puta!
Ele estragaria minha noite. Como tantas outras. Como todas as outras. Completou-se o drama com uma garoa. Pelo menos isso, pensei. A noite ficou triste, mas bonita. Seguimos até um ponto de táxi mais próximo. O Suíço do meu lado. O meu rosto já estava molhado e comecei a pensar que ele nem sempre estaria do meu lado. Que eu enfrentaria muitas coisas sozinho, na vida. Que a vida é sozinha, não importa quantos amigos nós tenhamos. E, se não tivermos, não faz diferença. Eu chorei e ele nem viu. Sou bom nisso.
Eu estava na cozinha. Sentado na pia, esperando o café ficar pronto. Não liguei para as regras. Acendi um cigarro ali mesmo. Ele, sentado à mesa, me olhando, fumando o dele, no celular, colocou Cícero para tocar. Ele sabe que eu gosto, mas me olhou como se perguntasse se poderia. Tentei sorrir, e falhei, mas ele entendeu. Açúcar ou adoçante... Peguei as xícaras.
— O teu café é tão amargo...
— Desculpa, é o meu jeito.
— Ser amargo?
— De fazer café. – e olhei pra ele, meio rindo, mas confuso. – Cê me acha amargo?
— Eu acho que você me parece uma pessoa bem insípida, por não gostar de sofrer. Não é ruim, é só uma constatação. – falou olhando para o café.
— Me parece ruim. – me calei e peguei o pote de açúcar. Deixei perto dele. Ficamos calados por uns segundos. Só se ouvia o som da colher mexendo na xícara de porcelana que ele usava. – Devo ser um pouco amargo.
— É sim.
— Mas a culpa não é minha, entende?
— Entendo sim.
— E de quem é? – perguntei. As lágrimas já estavam querendo descer pelo meu rosto. Aquela conversa ficou pesada.
— Não sei, cara. De ninguém, talvez. Aconteceu. Deixa isso pra lá. Vamos pra a varanda, beber. – ele parecia querer levantar o astral, mas estava empoçado comigo. Levantou e foi pra a varanda.
Comecei a me sentir mal por recepcioná-lo daquela forma. Era uma das pessoas mais importantes que passaram pela minha vida. Não por nada, mas porque eu queria que fosse. E que ficasse. Eu não pediria, claro. Nunca peço. Por mais que eu queira. E não é por orgulho, é por entender que algumas pessoa precisam ir, pra ficarem bem, e bem longe. Por ser melhor, de alguma forma.
Odeio. Odeio. Odeio a imagem do Bruno na minha cabeça, me levando para um escuro que dói, que rasga, que fica mexendo no meu coração que nem espeto virando numa fogueira enorme, mas não daqueles fogos que dão energia. É daqueles que só queimam. Eu estava virando uma brasa porque não conseguia deixar de sentir uma coisa tão forte por um filho da puta. Peguei um vinho na geladeira, taças, cigarros, desliguei a cafeteira, e apaguei a luz da cozinha.
Ele estava sentado na minha cadeira preferida, um dos pés encolhidos. O cotovelo apoiado no joelho, segurando um cigarro, gostei da imagem. Gosto dele. Dei-lhe uma taça. Enchi seu copo.
— Você é amargo? – perguntei.
— Não sei. Pareço? – olhou pra mim, intrigado.
— Parece um pouco. É ruim?
— Não. Mas não me sinto amargo.
— Bom. Doce e forte. – ele riu, encolhendo os ombros. Eu quase ri, também. Gostei de ver aquilo.
— Gostou da vista? – apontei pra a lua, com o queixo.
— Gostei. É linda.
— Não é como lá, mas é o que eu tenho aqui.
— Eu tava com saudade de você. – e me olhou. Como um olhar que poderia ser triste, mas não era. Não soube decifrar.
— Mesmo isso aqui sendo um pedaço do que eu fui?
— Cê tá inteiro. Só não tá em ordem.
— Nunca estive. – e ri.
Fizemos sexo ali mesmo. Não me lembro como. Ele tem esse poder de me tirar do juízo em alguns momentos. Parece um flash. Tudo apaga, e quando lembro, estava ali. Depois apaga, e quando acende eu estava ali. E ali. E ali. Nus, eu deitado sobre os estofados das cadeiras, ele sentado, encostado num pequeno muro da varanda, com mais um cigarro. Eu tentando reestabelecer a respiração. Peguei a segunda taça de vinho, ele não secara metade da primeira.
— Porque o elemento água tem conexão com a sensibilidade? – perguntou, totalmente perdido. Olhei, confuso, depois intrigado...
— Não sei. Acho que a água é tão instável... Como um coração. – fechei os olhos.
— E os rios?
— Boa pergunta. Eles sentem?
— Acho que eu sou um rio.
— Eu não me sinto um rio, mas também não tenho cacife pra ser o mar.
— Pode ser uma lagoa. Acho que sou uma lagoa, na verdade.
— É pouco, pra mim. Eu acho que tenho correntezas... Acho que tenho muito movimento.
— Cachoeira.
— É! Cachoeira! – fiquei empolgado. E quando percebi, me calei. Cachoeiras são mortais, até para peixes. O que tem no fundo? Perguntei. Nada. Alguns crustáceos. Sou uma cachoeira enorme, pensei. Que jorra tanto, tanto, que nem parece bonita.
— Sou um açude. – ele falou bem determinado. Acho que ele também estava refletindo, de lá. Eu ri, me encostei nele. Dei um beijo no seu rosto. O açude mais lindo, falei. Ele ficou olhando para o nada, lá longe.
— Cê gosta de cachoeiras? Perguntei. Não sei. Acho que sim. São bonitas, e tem umas cavernas lindas, por dentro. Não sei escalar, mas acho legal, ele disse. Eu ri, e o beijei. Um beijo de obrigado. Não sei. Por estar ali, talvez. Eu não sabia dizer. Era um beijo de gratidão. E cheio de vontadinhas, também.
Nem percebi e o vinho secou. Fomos para o quarto e fizemos sexo até a luz do sol nos lembrar de ver o alvorecer.
Senti um leve calor na região do buço. Como um vapor. Abri os olhos sem enxergar muita coisa, porque tinha algo dificultando a vista. Aí senti um cheiro de café, e fui vendo o sorriso aberto do Suíço. Fechei os olhos rindo. Ele adora essa novela. É daqueles que não descansam enquanto não nos fazem apaixonar. Mas eu gosto do mimo, do cuidado que ele toma. Do jeito como ele parece ser para sempre. Queria ser criança, só pra não ter medo, e nem certeza de que ele vai embora. Levantei, segurei a caneca. Ele me beijou.
— Bom dia. Laura ligou pra tu e eu atendi nervoso, porque não quis que cê acordasse antes de eu terminar o café da manhã. – falou enquanto eu entrava no banheiro, ainda nu.
No banho, cantei Pretty When You Cry involuntariamente. Depois ouvi risos fora do quarto. Chegando na sala, a Laura estava muito empolgada com a garrafa de vinho que não bebemos no dia anterior. O Suíço olhou para mim, e tudo o que eu queria era estar invisível, só para que nada daquela cena mudasse. Mas não deu. Laura deu um gole no vinho, pelo gargalo. Ele levantou e tirou uma tapioca da lancheira térmica. Depois me olhou como uma criança. Você demorou, tive que improvisar no recipiente, falou.
— Algum dia vou te ver composto nessa casa. Sua mãe! Ela te deixa ficar só de cueca, aqui? – Laura falou, rasgando minha tapioca.
— Tira a mão! – e sentei. Peguei minha tapioca de sobrancelhas cerradas. – A minha mãe me viu nu por anos.
Tomamos nosso café conversando. Laura sempre foi tagarela, e o suíço mal falava nada. Depois fomos nos aconchegar na sala. Discutimos sobre que filme assistiríamos. Laura dominava nas sugestões. Aí o meu celular tocou. O número era desconhecido, mas eu tinha gravado aquilo como uma memória de encarnações passadas. Não atendi, dei um gole enorme na xícara de café. O suíço me olhou:
— Antes do almoço? – foi sarcástico. Eu sabia que era uma brincadeira, mas precisava de algo para descontar o mau humor que desceu no meu semblante.
— Eu sou uma prostituta mesmo, não é? Fala aí Laura. Quantos eu pego por dia? – Laura não estava me olhando, e, inocente, entrou na piada, rindo.
— Não sou boa de matemática, mas antes de entrar aqui me preservo com camisinha feminina. – o suíço olhou rindo, como se pedisse para que eu levasse na brincadeira. Ela percebeu o clima e olhou para mim confusa.
— Tenho 20 anos, chupo bem, e sou cheio de clientes fixos. Quer saber quanto eu cobro? – falei olhando para o Suíço. Ele ficou calado. A Laura engoliu os lábios. O celular tocou novamente. Aí ela viu, e rejeitou a chamada. Parecia até mais furiosa do que eu.
— O que esse filho da puta quer ainda?
— Não sei. Ele é um vírus que não consigo me curar.
— Bruno? – o suíço perguntou, confuso e irritado.
— É – Laura respondeu.
Tomei o vinho da mão dela, Dei um gole enorme. Outra ligação. Eu estendi a mão para desligar o celular, mas ela atendeu.
— O que caralho você quer? – ela gritava.
— Só quero falar com ele, rapidinho. Pedir desculpas. – Bruno parecia estar chorando, do outro lado.
— Desculpas? Sabe como você pode se desculpar pelas coisas que fez?
— Sei
— Então não volte a ligar pra ele. O namorado dele está aqui, e ele está bem. Está feliz. Será que você poderia deixá-lo feliz, não existindo para ele?
— Não consigo ficar longe dele, Lau. Cê sabe. Eu só... – levantei do sofá e fui para o quarto. O suíço se preparava para me seguir, mas fechei a porta. Aí tudo ficou mudo.
O meu quarto tem parede revestida de lousa. Nada de janelas. O gesso do teto não tem quadradinhos. É liso. A cama, de casal, toda cheia de lençóis, ainda bagunçada do dia anterior, cheirava a um perfume masculino não muito forte, mas que fixou na fronha onde o suíço dormira. Eu estava observando a luminária artesanal que José me deu no meu aniversário de dezenove anos. Senti meu rosto molhado, e comecei a me perguntar por onde andava José. Eu amava aquele menino. Conversávamos tanto, sobre tantas coisas. Ele, das namoradas. Especificamente a que vivia dando chiliques. Eu, do Bruno. Ou das coisas que fazia para esquecê-lo. Fiz de tudo. Tudo mesmo. Só não tentei me matar. Pensei se resolveria. Depois pensei em fazer. Aí peguei a luminária. A garrafa de vinho barato do dia em que fui a uma festa com José e bebi tanto que ele precisou pedir ajuda ao dono do evento para ajudá-lo a me carregar até o carro. Deus sabe como ele me deixou na sala da minha casa. Ouvi, lá longe, batidas na porta. Aí percebi que estava chorando, e deixei a luminária no lugar. José era um otário que enjoou de conversar comigo depois de ter encontrado uma namorada que o fizesse bem. Eu poderia quebrar aquela garrafa e enfiar na minha cara. Não faltava coragem, mas eu senti um medo de morrer. Não pelo fim. Não. Era a ideia de existir alguma eternidade. E como seria? Tudo o que sou agora seria eterno? Será que viveria num mundo atemporal onde a pouca possibilidade de esquecer Bruno deixaria de existir? Sem esperanças? Isso é o céu? Quando me dei conta, o Suíço estava gritando do outro lado, quase derrubando a porta.
— Cara, abre! Abre! Eu vou derrubar!
Abri com o olho quase fechando. A claridade me incomodava, àquela altura. Ele me abraçou em desespero. Parecia ter resgatado um cão de um bueiro. Eu só sabia chorar.
— Tá tudo bem, não fica nervoso não. Tá tudo certo, ó: a Laura resolveu. Pare de chorar. Não gosto de te ver chorando. Sobrou jujuba de ontem. Quer? – falou a última frase tão sério que eu comecei a rir, mesmo com as lágrimas escorrendo.
Ele correu até a sacola jogada no chão, e abriu um pacote de jujubas. Café, falei. Ele disse que ligaria a cafeteira. Não, café. E apontei para a sacola. Ele procurou mais e abriu uma balinha de café rindo.
— Na boca. – e eu ri. Depois me deu um beijo no olho. E me empurrou para fora do quarto. – agora deixa de frescura. Laura escolheu O cisne negro.
— De novo? – olhei para ela. Ele disse que nunca viu, falou. – não tá faltando ninguém, não?
— O meu Savinho. Pedi pra ele passar no mercado e comprar mais vinho. Quer mais alguma coisa? – não.
Sempre que assisto a Cisne Negro, ficou mal. Então fiquei entre a cozinha e a sala, assistindo a partes, beijando o suíço, irritando a Laura com empurrões, e cozinhando o almoço. Savinho chegou rápido, e se juntou a mim na mesa da cozinha. Só comigo, ele já assistiu aquele filme seis vezes. Conversamos bastante. Rimos. O Suíço, inebriado pelo filme, irritado pelos comentários da Laura. O almoço ficou pronto, e, numa tentativa de me mover rapidamente, percebi que estava bêbado. Olhei a garrafa de vinho na mesa. Seca. A de mais cedo já estava no lixo. Savinho estava abrindo a rolha do próximo. O filme acabou, e sentamos todos na mesa. Depois de alguns comentários sobre o filme, vindos, majoritariamente, de Laura, nos calamos enquanto nos servíamos. Coloquei o prato do Suíço. Minha tia me ensinou a cozinhar Canelone de frango aos treze. Acompanhou-se com arroz. Queria saber combinar vinhos com comida, mas sempre gosto do tinto suave. O silêncio se rompeu com a voz de Sávio.
— Cara, que legal que você tá bem. E eu gostei bastante do casal formado.
Olhei para o suíço, que me olhou de volta. Rimos, como um segredo que sabíamos que estava guardado. Eu gosto dele. Eu queria estar com ele para sempre, porque era bom. Se é verdade que a gente leva alguma coisa conosco até o fim da vida, orei baixinho a Deus, pedindo para ser ele.
Não me lembro de muito depois daquele almoço. Acho que bebi demais. Savinho trouxera mais de 4 garrafas de vinho. A minha memória voltou a funcionar às sete da noite. Estava entrando no banheiro, o suíço me ajudando. Bêbado, também. Fizemos sexo ouvindo Body Electric, e nos produzimos para o sábado à noite. Dia de mad!
Não aconteceu nada de mais na festa. A Laura foi embora às duas, com o Sávio, já caindo. Encontrei muitos conhecidos. Dançamos muito. Apresentei o Suíço para todos. Ele tentou, pulou, dançou, mas não era o lugar dele. Eu podia ver a forma como ele não sabia onde estava e aquilo o incomodava. Às duas, assim que a Laura saiu, sugeri que dividíssemos um doce. Ele disse que tudo bem. Realmente tentamos. Mas aí eu olhei para o monte de gente estranha, e até os conhecidos que de conhecidos não tinham nada. Quis ir embora.
Vamo embora?
Perguntei. Ele assentiu com a cabeça e me beijou, como se quisesse dizer: eu tentei.
A varanda estava fria. Eu me abraçava ao suíço como quem precisava de algum calor. Qualquer coisa. Ele percebeu o desespero, e foi buscar um edredom no quarto. Tentei não pensar naquilo como uma recusa de estar próximo a mim, mas aquilo não magoaria. Só era engraçado. Aliás, olhando para a cor do jogo de cadeiras, ali, eram engraçados. Algumas eram de um cinza um pouco escuro. Outras, quase branco. Aí ele chegou, e sentou do meu lado, colocou as minhas pernas no colo, nos enrolou com o edredom, e me abraçou. Eu queria verbalizar que aquela foi a segunda melhor surpresa de todas. Deixei pra lá. Aquele abraço foi tão lindo, que me deu vontade de ficar em silêncio, só para que a gravação, no meu cérebro, não poluísse. Te amo, mentalmente. Ele olhou para mim, e me deu um medo de que ele tivesse escutado. O frio não passava, aliás. O meu queixo estava tremendo e ele me olhava tão intensamente.
— Cê ouviu? – falei, nervoso.
— O quê? – ele olhava nos meus olhos como se procurasse algo.
— Nada. – tentei olhar para o céu, mas ele segurou meu rosto.
— Tua pupila tá muito dilatada. Você tá chapado! – ele falou quase sussurrando, como um susto. Eu nem lembrava que tinha tomado doce. Fiquei rindo. Depois fiquei com medo. Depois encostei mais nele, como se fosse possível. – Por aqui tá tudo bem, mas eu tô um pouco, sim.
Continuei calado. Acho que quando sinto medo, ou vontade de chorar, ou cansaço, da vida, do mundo, eu me calo. Minha mente parecia uma câmera, observando a cena por fora do meu corpo. Dali, eu via dois rapazes, enrolados num edredom. Cigarros na mesinha. A clavícula dele seria a minha almofada preferida. Eu lembraria disso. Acho que ele olhava o céu. Ou estava de olhos fechados, não dava para ter certeza. Fiz um som, como uma criança, e senti a bochecha dele se movimentar. Como um riso. Depois murchou.
— Você parece estar aqui, mas com a mente em milhões de coisas, como se não estivesse aqui. – falou bem calmo.
— Pareço não estar presente pra você?
— Às vezes, sim. Na maior parte das vezes, aliás.
— Por que você pensa assim?
— Não sei. Só sinto.
Continuei de olhos fechados, imaginando o ambiente. Acho que não tenho mais calor. Não falo de temperatura, mas de alma. Meu espírito não consegue existir para estar. Eu queria estar, queria. Queria de verdade estar ali.
— Isso é tudo que consigo. Meu máximo. – a voz quase não sai. Aí ele me afastou, me beijou o rosto, acendeu um cigarro.
— Eu não ligo, cara. Não foi uma reclamação. – eu ouvi aquilo como a tradução de “vê se não chora”. – Tem mais.
— O quê?
— Você não perguntou quando eu volto. – ele falou tragando tão forte, que a faísca soltou um estalo. Me subiu uma ânsia de vômito.
— Você podia ficar. – e ele riu. Talvez mais pela seriedade com a qual falei, do que com a possibilidade. – É sério. Tem espaço pra colocar tuas coisas aqui. Daqui a dois meses, três, a gente pode até mudar para uma casinha de dois quartos. Aqui é pequeno, mas dá pra a gente por enquanto.
— Eu não estou no mundo real, aqui. É só um outro lugar. Uma outra realidade. Gosto da minha vida, lá. Tenho minha faculdade, meus amigos, minha família... – aí se calou.
Olhei para o céu, e via muitas coisas estranhas. Aí senti uma coisa puxando meu estômago. Fome, pensei. Levantei, e fui à cozinha. Liguei a cafeteira, peguei abri o pote de rosquinhas, sentei na pia. Ele me seguiu
— Nem pense em chorar. – falou, olhando para mim, quase com medo da situação.
— Não vou. – falei calmo. – Vou ficar com saudades.
— Eu queria que você fizesse parte da minha vida, lá.
— Eu faço, virtualmente.
— Não é real.
— Você é muito estreito. Aqui não é real. Lá, só é real, se for a projeção do que eu sou aqui, na sua rotina.
— Cê acha que isso é comum? Nós, aqui?
— Eu acho que nada é comum, por aqui. Pra mim é normal que não seja comum. É a minha realidade. Eu te entendo. Sei que isso aqui não é como você é. Eu gosto muito de você, e vou sentir sua falta. – ele me olhava, meio confuso, meio feliz. Ou com orgulho. Ou estranhando a frigidez como lidei com o assunto. – Eu não tenho mais estômago para partidas, meu bem. Desculpa. Eu só... Deixo. Dói, mas é a minha realidade... Onde não dói?
— Eu vou amanhã no fim da tarde. Hoje, no caso. Quero chegar lá e dormir bem, segunda vai ser pesada.
— A gente almoça na ilha, antes de ir. Que tal?
— Tudo bem.
Peguei a xícara e senti pelos eriçados na asa, olhei e vi uma escuridão embaixo da caneca. Fiquei sem ar. Levantei da pia mas não senti minhas pernas. Gritei alto e ele segurou meus braços como se domasse um animal.
— O que foi, caralho? – perguntou nervoso. Olhei a xícara, não tinha nada. Tudo normal. Olhei para ele, depois fui até a varanda pegar um cigarro. Tremendo.
— Tô doido. Preciso dormir.
— Você não é normal. E eu queria que fosse só agora, com o doce. – aí eu olhei para ele, como se aquilo tivesse me magoado. Mas não era verdade.
— Sabe qual é o meu problema?
— Qual?
— Eu sou uma cachoeira. – ele abriu um sorriso. – É sério. Eu sou uma cachoeira. E dentro de mim, é oco. Tem uma caverna enorme, e cheia de morcegos. As pessoas gostam de brincar na parte mais baixa, no lago depois da queda. Muitos se afogam, mesmo assim. Não é por querer que o faço. Os que tentam ficar na parte de cima se dão mal. Eu sou uma coisa que se move, mas que não sai do lugar, porque tudo o que sobra, depois que toda a brincadeira acaba, são morcegos.
— Bruno é um morcego?
— Bruno é o Drácula, que doma todos os morcegos em mim. Ele sabe como atiçá-los, acalmá-los. Sabe do que mais? Você não sabe, mas você também consegue. Não é por nada. Eu não estou me declarando. Mas é um fato, e eu gosto disso. Só é triste que você não esteja por perto.
— Posso fazer uma pergunta? – ele falou, olhando para a cafeteira.
— Diga.
— Os garotos com quem você fica, compulsivamente, são uma tentativa de domar os morcegos? – aquilo pesou. Passei alguns segundos calados, antes de admitir.
— São.
— Eles conseguem?
— Não.
— Então por quê, tantos?
— Esperança.
— Não percebe que o caminho tá errado?
— Eu encontrei você.
— Que moro à mil quilômetros de distância.
— Eu sobrevivo a quedas maiores, em metros, por altura.
— Acha que daríamos certo?
— A gente dá certo, bem agora.
— Estou falando de namoro, a distância.
— Você não é uma cachoeira, meu bem. E o amor é pra quem sabe tomar no cu. – eu ri, num sarcasmo.
— Você gosta de sofrer, não é?
— Claro!
— Se eu sentir saudades, vou fugir de você.
— Então você quer me notificar sobre um futuro adeus?
— É.
— Isso porque você não gosta de sofrer...
— É.
— Então tá.
E ficamos calados por mais de dez segundos.
— Você entende porque eu gosto de sofrer? – rompi o silêncio.
— Não.
— Você vai embora, e de qualquer jeito vou sentir saudades. Eu não terei como escolher. Mesmo que a gente se deixe, se exclua um do outro, fica algo. A lembrança boa. Eu gosto de sofrer, porque eu gosto da ideia de você aparecer aqui e me fazer bem. Eu gostei de ver você brincando com a Laura, e de te apresentar às pessoas como um namorado. Eu sabia que você me machucaria assim que abri a porta e senti um cheiro bom, vindo do teu pescoço. Mas eu gostei. Eu gosto. Não nego. Prefiro isso. Quando cê for amanhã, vai sobrar a lembrança, a saudade, e um pouquinho de dor. Mas aqui tá tudo doendo sempre, e não é por escolha. Então eu só deixo, e dou risada.
Ele parecia cansado de me ouvir. Me beijou como se não estivesse nem aí para o que aconteceria amanhã, ou quando o sol nascesse. Nós fizemos o sexo mais descontrolado da minha vida. Ali, na mesa da cozinha. Depois no sofá. Depois na cama. Eu não cansaria daquilo, porque eu sei que não ia demorar a eternidade. Eu queria que fosse pra sempre. Não por querer casar com ele, ou qualquer coisa romântica. Eu só queria que ele estivesse perto, porque ele me parecia uma boa âncora. Não. Um tritão. Ele sobreviveria ao meu caos, se quisesse. Mas ele não queria, e eu não pediria. Eu não pediria nunca. Porque eu gosto de ser a cachoeira indomável, às vezes. E ninguém nunca tiraria isso de mim. Não lembro quando dormimos, só me lembro de acordar com muita sede.
Olhei a hora no celular. Quase duas da tarde. Me arrumei, tomei uma xícara de café, bem forte, como sempre. Esperei que ele se arrumasse. Laura ligou.
— Tudo certo, na Bahia? – falei, rindo.
— Caaaara! Eu tô morrendo. Me ajuda. Que ressaca do caralho!
— Pega uma garrafa de vinho e mistura com vodca, de novo.
— Savinho tá de cama. Não fala a palavra vinho que já não tem mais nada pra se vomitar, por aqui. – eu ri.
— Por aqui tá tudo bem.
— Vão sair hoje à noite? Eu não tô pra festa, mas em casa, batendo um papo, eu topo.
— Ele vai embora às 17.
— Quê?
— É.
— Poxa! – parecia uma criança desapontada.
— É.
— Cê tá bem?
— Tô sim. Vou almoçar na ilha, que cê acha?
— É uma boa. Mostra aquele barzinho pra ele!
— Pensei nele. A comida de lá é muito boa.
— Ok. Vou desligar, Savinho tá gemendo. – eu ri, e dei tchau.
Ele saiu do quarto, me deu um beijo, sem falar nada. Parecia diferente. É como se soubesse que havia pouco tempo. Não falamos nada. Ele foi até a varanda e acendeu um cigarro. Eu, ainda na cozinha, fiquei olhando, de longe. Quis ir pra perto, mas algo dizia que ele queria aquela varanda só para ele. Depois do segundo cigarro ele veio até a cozinha.
— Tá com fome?
— Tô
— Bora almoçar.
Ele me amava. Eu sentia porque eu podia ver no jeito como ele me tocava, e na forma como ele se preocupava com o meu olhar perdido, para rio, para o nada, para os arbustos escondidos do outro lado da ilha, da pedra, do planeta. Eu sei que ele queria me fazer bem, e isso era suficiente. Eu o amava também. De um jeito diferente. O jeito dele também era diferente, aliás. Era bom, finalmente. Finalmente eu encontrei um amor bom. Ia doer, também, mas era uma dor diferente. Eu não estava louco por ele. Eu era louco, mas por ele, o amor estava ainda engatinhando. Pensei que, se eu fosse mesmo forte, e diferente do mundo nojento lá fora da caverna da cachoeira, eu poderia criar aquele amor com calma, e ele cresceria bom. Conversamos sobre a cidade, sobre coisas superficiais. Nostalgias de rio, brisas leves de verão, natais... O deixei na rodoviária.
— Falta alguma coisa? – ele falou, me olhando de lado. Não entendi muito bem.
— Como assim? Pra se dizer? – ele me olhou... Continuou olhando...
— Eu sou um açude. Quando você aparecer, vou estar ali, com o mesmo amor de sempre. Não prometo aparecer de novo, porque tô vendo que vai machucar. Mas eu sou um açude que gosta muito de você. – eu ri.
— Então, meu bem, um dia a gente se encontra.
— Quem sabe, né.
Nos abraçamos, bem rápido, para que não ficássemos tatuados um no outro. Não olhei mais nos olhos dele. Me virei e fui.
Ok. Minha vida agora é uma merda, de novo. Peguei o celular, rolei as mensagens desde sexta, e vi um “me dá moral” do Gabriel. Respondi com um emoji, e ele já estava digitando quando eu comecei a rir descontroladamente no meio da rua. Eu havia esquecido que ele era um açude. Que idiota, eu fui. Quanto drama, cara! Pensei.
Liguei para Gabriel:
— Bora sair hoje? – falei.
— Marquei com umas amigas, também. Pode ser?
— Só se for verdade que você tem doce para mim. – ele riu do outro lado. Surpreso.
— Mas é claro! Você não presta! Minha amiga tá de carro, a gente passa na tua casa às nove?
— Ok – e desliguei.
Baby, baby, baby, que a morte escorra pelo meu caminho como um sonho bom, como um tempo que não seja lerdo, lento, alento para preguiças. Das lembranças, guardo o que não pude sentir, pois o que já vivi, só é bom na cabeça. O meu tédio não me deixa voltar. Repetir, para mim, só quando se anda na mesma estrada, mas com novo asfalto, novos pés. Desculpe, baby, não sei ficar parado na dor. Que, aliás, é minha gasolina. Sou piloto de fuga, e o que me cabe é gritar. É cair. Feito cachoeira. Te afogo porque já estou embebido. Te afogo porque, assim, te guardo, do meu jeito, em mim