- Você vai ser médica! - Dizia a mãe - Nossa, uma doutora na família! - exclamava algum conhecido. - Minha filha vai ser ou médica ou advogada, mas o que ela decidir eu apóio. - Dizia o pai. -Você tem que ser engenheira, entrar pro time das exatas, engenharia é o que dá dinheiro hoje em dia. - Falavam os amigos da escola. - Não. Você tem que fazer arquitetura já que é das artes, porque vender arte na praia não dá dinheiro. Arquitetura sim, você vai ter dinheiro e vai desenhar, fazer maquete, vai ser feliz. -Explicava uma amiga. -Errado. - Dizia outro alguém qualquer - Você tem que fazer psicologia, afinal já é a minha psicóloga. Você nasceu pra ajudar, é isso o que te completa. -O que? Psicóloga? - Falava a mãe indignada- Eu não vou ter filha doida em casa, ela vai ser médica e ponto. -Mas e se ela quiser ser psicóloga? Psicólogo é outro tipo de médico. - afirmava o pai. - Você tem que ser igual a Matilde, minha filha. A Matilde sim é uma filha excelente, ela acorda cedo, trabalha, estuda, ajuda a família, não reclama, tá sempre de bem com a vida e ainda tem tempo para os amigos. Ela é o orgulho da família. Quer outro exemplo?! Então seja como a Maria que terminou os estudos e tá cuidando do filho da vizinha e estudando em casa pro vestibular. Ou então seja como o Joaquim que trabalha e paga a própria faculdade. Que tal ser como o João que tem seu próprio sustento e paga as próprias contas desde os 16?! Ou como a Marília que teve um bom casamento e tá bem de vida, longe de mim querer isso pra você, mas é uma possibilidade caso o plano A da faculdade não der certo. - Ah não me diga que você já pensou em ser professora? É um trabalho tão mal remunerado, ainda tem que aguentar enchesão de saco de aluno, provas pra corrigir, problemas e mais problemas. É terrível, escolhe outra coisa. Você escreve tão bem, já pensou em jornalismo?. -Indagava algum professor infeliz. -Eu vou te passar a guarda dessa menina, porque ela só sabe ficar chorando no quarto por causa de faculdade. Eu não aguento mais uma filha desse jeito! -Exclamava a mãe ao pai. -Passar a guarda pra mim pra quê? Se ela já vai fazer 18 anos, já vai se tornar uma mulher adulta, já vai ser responsável por si mesma. Falta bem pouquinho, quando isso acontecer deixa ela se virar sozinha. -Falou o pai. -Não sei mas o que eu faço com ela, é o tempo todo essa faculdade. Já bati nela ontem e bati agorinha de novo. -Indignava-se a mãe. -Bateu por que? Deixa ela, ela tem que crescer, o tempo de corrigir era quando estava pequena, se você não fez isso agora não dá mais.- Afirmou o pai. - Eu devo ter jogado pedra na cruz, só pode.-Falou a mãe. - Você já vai fazer 18 anos, querida. Está na hora de crescer e ser adulta. - afirmava o pai. -Você tem que ser como aquelas pessoas que eu te falei, minha filha. Você tem que dar um rumo pra sua vida você já vai fazer 18 anos. - dizia a mãe. -Vamos agir a vida! -Exclamava os dois. - Okay. Minha vez de opinar sobre a minha própria vida. A Matilde, querida mamãe, não conversava com a mãe até nos conhecermos, ela reprovou em algumas matérias e por isso não está na faculdade. Ela também pagava no ensino médio para alguns colegas fazerem suas provas e trabalhos. Ela dizia que estudava, mas na verdade era tudo fachada, pois a nota no Enem dela foi um fracasso. Ela também tem papai dono de duas lojas na cidade, ou seja, ela tem como manter o emprego porque é filha do dono. Matilde sonha em ser delegada federal, mas quase toda noite tá nas festinhas bebendo, ela tem compromisso com o trabalho, mas não conseguiu conciliá-lo com o ensino médio. A Maria vive reclamando do filho da vizinha, cuida dele mais pelo dinheiro e pela falta de coragem pra dizer pra mãe dele o quanto ele é insuportável. O "estudar em casa" dela se resume em escrever textos de relacionamentos fracassados que ela tem ou teve com algum rapaz ou amizade. A sua tão amada coitada Maria chegou faltando dois minutos pro portão fechar no Enem e nem levou caneta, sorte que eu estava lá e emprestei. Joaquim gasta todo o dinheiro que ganha saindo com os amigos, com a namorada, ou com as amantes. A faculdade quem paga são os pais. João paga as próprias contas desde muito novo porque é obrigado, mas ainda mora com os pais, não paga aluguel. Se eu quisesse ser como Marília eu teria casado aos 13 e tido trocentos filhos já, pra poder cuidar da casa, das crianças e do marido. Mas essa não é a minha realidade, o que eu quero é ser independente, o que eu quero é trabalhar naquilo que gosto, ter satisfação e prazer no meu trabalho. Quero poder não ter uma rotina diária, não quero viver na mesmice. Quero ser feliz. Quero estudar a mente humana, quero estudar a alma, quero ser eu mesma sem nenhuma restrição. Quero não cobrar aquilo que deve ser espontâneo. Quero ser psicóloga, quero ser professora, quero ser arquiteta, quero ser engenheira, quero ser filósofa, quero estudar sempre é nunca deixar de aprender. Quero ser eu e não um complemento de alguém. Quero ser feliz aos meus 18 anos.