Leo ainda não sabia muito bem o que fazer, mas estava se esforçando ao máximo para não continuar chorando de modo que aquilo pudesse atrapalhar suas ações. Pensando nisso, tentando engolir o choro e voltando a se focar em Sawyer, ela voltou a se afastar, deixando a cabeça dele recostada no azulejo, certificando-se de que ele não escorregaria, enquanto levantava-se e reunia todas as toalhas possíveis em seus braços, levando-as até o quarto dele e dispondo-as sobre a cama do amigo. Suas mãos ainda tremiam, mas ela precisava continuar dando um jeito naquilo, tendo retornado para o banheiro agora para fuçar no armário de remédios, cujo estoque estava praticamente zerado.
Procurando ignorar aquilo, Leo remexeu naquelas prateleiras até encontrar o que queria. Colírio, alguns panos de algodão para primeiros socorros… Deveria ser o suficiente. Deixou tudo sobre a bancada da pia e voltou a se ajoelhar perto de Sawyer, já nem se importando mais com seu vestido completamente encharcado antes de finalmente fechar o registro do chuveiro e voltar a envolvê-lo em seus braços. Ao mesmo tempo, como pôde, livrou-se dos sapatos que usava, chutando-os para um canto qualquer do banheiro, de modo que pudesse se erguer outra vez, novamente levando Sawyer consigo. O corpo encharcado sobre o dela, visivelmente mais forte, mas ainda inconsciente, quase sem vida. Eleonor sentiu vontade de chorar outra vez, mas manteve-se firme, até conduzi-lo para a cama, procurando ao máximo deixá-lo sentado.
Quando conseguiu fazer isso, usou novas toalhas para enxugá-lo como conseguia, principalmente na altura do rosto e tronco, infelizmente tendo de livrá-lo da camiseta encharcada no final das contas, por mais que ela não quisesse fazer aquilo. Logo foi a vez das calças do mais velho, que ela removeu com a mesma cautela, mantendo-o protegido pelas cobertas que haviam ali – e pela companhia de uma Betsy que acompanhava tudo de muito perto – enquanto ia até o armário de Sawyer atrás de roupas consideravelmente quentes, mas que não fossem sufocá-lo, já que, aparentemente, o corpo dele estava passando por uma desregulação terrível de temperatura.
Quando encontrou algo que achou que serviria, veio a parte mais trabalhosa: vesti-lo novamente, depois de enxugá-lo outra vez. Leo não sabia se aquilo era suor frio ou a água do chuveiro ainda sobre a pele dele; de qualquer jeito, deu o melhor de si para vesti-lo outra vez. Sabia que não deveria levá-lo ao médico, definitivamente, mas deixaria-o minimamente apresentável para quando Dominique chegasse. Sem contar que o clima frio era realmente perigoso e não queria pagar para ver como o mesmo poderia inferir na condição já calamitosa do rapaz.
No final das contas, Leo estava suando também, sentindo seu vestido molhado grudando ao corpo, mas o que importava era que havia cumprido sua missão inicial. Até mesmo se esquecera dos itens que deixara na bancada da pia, agora levemente distraída pelos movimentos que fazia contra os cabelos escuros de Sawyer, enxugando-os da maneira mais sutil que conseguia com a ajuda de uma das toalhas que ela reservara para aquele fim. Betsy estava com a cabeça apoiada no travesseiro ao lado dele e agora que as coisas pareciam um pouco menos piores, Eleonor conseguia até apreciar a cena. Entretanto, por mais que quisesse continuar fazendo aquilo, passou a procurar o celular dele pela casa, acionando um dos contatos de emergência na tela quando encontrou o aparelho. Ligou para Dominique, explicou a situação do melhor jeito possível e quando acabou, foi até a sala outra vez, rapidamente para arrumar aquela bagunça toda, levando as caixas de medicamento que ele provavelmente consumira para o quarto, na intenção de deixá-las visíveis para que a mulher entendesse melhor o que acontecera com ele quando chegasse.
“Agora só temos que esperar.” Declarou com um suspiro, sentando-se na beirada da cama, ao lado de Sawyer novamente, verificando se a respiração dele encontrava-se um pouco mais aceitável. Voltou a correr os dedos pelas madeixas alheias, enquanto sentia as lágrimas voltando a escorrer por suas bochechas. Ficou em silêncio por alguns instantes, sendo impedida de dizer qualquer outra coisa devido aos soluços que paravam em sua garganta. Era naturalmente emotiva, alguém que se desesperava fácil, que se assustava em demasia diante de situações complicadas. Gostaria de ser um pouco mais forte, um pouco mais produtiva, mais corajosa. Todavia, sabia que nada era tão fácil assim, então só sabia se sentir inútil por não fazer muita coisa além de continuar ali, fazendo companhia a Sawyer, chorando. Até que a posição não tornou-se mais tão confortável assim e Wright acabou se ajoelhando ao lado da cama, de modo que pudesse olhá-lo de baixo, fitando os olhos entreabertos do amigo enquanto suas mãos procuravam por uma das dele. Mesmo gelada e muito semelhante aos cadáveres com que Leo já trabalhava, ela apertou os dedos de Sawyer entre os dela, tentando reforçar sua presença. Palavras podiam ser derivadas das alucinações que talvez ele estivesse tendo, mas gestos eram um pouco mais próximos de uma realidade que ele poderia sentir naquele momento.
“Por que você fez isso?” Perguntou mesmo sabendo que não obteria uma resposta. A boa e velha Eleonor, que chorava como se cascatas, cachoeiras escorressem por seus olhos, estava de volta. E mesmo que já estivesse chorando há alguns bons minutos, a dor não estava realmente indo embora. Ver Sawyer daquele jeito realmente estava acabando com seu coração, com o que restava de sua sanidade. Estava mais difícil de respirar, o cérebro de Leo já não parecia muito capaz de raciocinar… Não duvidava que poderia acabar desmaiando ali mesmo, já que a loira costumava levar suas emoções a outro patamar. “Na verdade eu compreendo os seus motivos, eu também já os tive, mas… Foi em uma época onde eu não te conhecia. Onde eu não sabia exatamente o que estava fazendo nesse mundo, sem ninguém para me fazer companhia até que descobrisse… Mas você tem à mim. À Betsy.” Dizia. Sua voz continuava trêmula, embargada pelo choro, enquanto Leo tentava respirar fundo para que pudesse continuar falando sem parecer tão triste. Sem sucesso, entretanto. “Sawyer… Por favor. Eu nunca fui de te pedir muita coisa para não te irritar, mas…” Um leve riso até escapou nesse momento, mas foi soterrado por uma nova onda de choro. Era tão angustiante e sufocante que Leo sentia que seu peito iria explodir, enquanto debruçava-se sobre a cama e recostava sua testa nas próprias mãos que continuavam envolvendo a do maior. “Fica comigo. Por favor, por favor. Não me deixa sozinha. Eu preciso de você. Por favor, por favor… Por… Favor…”
De todas as pessoas que podiam o ver daquela forma, Leo era uma das poucas que não podiam. Ele não queria ser um exemplo total de fraqueza para Leo, queria mostrar que a vida poderia ser mais, queria ser para ela o Sawyer que um dia fora. Não havia nada no mundo que Leo pedisse que Sawyer não fizesse. Embora a principio detestasse assistir Barbie nas sessões deles de cinema, a loira havia o ensinado a gostar daquilo, não porque achava Barbie interessante, mas porque sabia que a deixava feliz. Embora tivesse um jeito no minimo torto de demonstrar o que sentia, Eleonor era de longe uma das pessoas que Sawyer mais amava. E embora ainda fosse muito próximo de seus pais, Leo era muito mais do que sua amiga, assim como Betsy ela era sua família. E por isso ele estava ali, lutando com toda força que tinha para ficar mesmo que boa parte do tempo desejasse partir, não seria justo com ela. Ele não conseguia ter certeza, mas podia jurar que a loira estava chorando, e bem, aquilo era algo que o assustava. Ele detestava saber que era a causa do choro dela. Como sua companheira fiel, Betsy o seguia para todo o lugar que Leo a levava, também choramingando. “Eu vou ficar bem.” a fala arrastada e embolada provavelmente se devia ao tanto de comprimidos para dormir que ele havia tomado. A verdade era que a partir daquele momento Sawyer já não conseguia distinguir a realidade da fantasia das alucinações que iam e viam.
“Você não pode ficar aqui.” ele murmurou olhando para o nada, mas bem, em sua mente Arabella estava ali, como normalmente estaria, sorrindo acidamente, e falando exatamente tudo que ele não queria ouvir. Ele chegou a tampar ambos os ouvidos e balançar a cabeça negativamente, mas como poderia arranjar uma forma de calar a voz de sua mente? “Você não vai levar ela.” ele falou mais uma vez com agora os olhos marejados. “Não vai!” seu estado apenas piorava. Mas a certeza de que não era real chegou quando ele avistou os dois olhos grandes, da cor de caramelo, esbugalhados e curiosos como de costume. E não demorou para ver os outros pares de olhos, quase da mesma cor, porém com uma grande diferença: a presença do medo. Eram Chiara e Charlie, ele reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar, arriscaria a dizer que eram os únicos olhos que ainda tinham a completa capacidade de enxergar uma bondade que já não existia mais no corpo do homem. Sawyer então deu alguns tapas na própria cabeça como se de fato fosse adiantar. Mas como ele esperava, elas ainda estavam ali, assim como Arabella e uma porção de coisas que se escondia em sua mente. Quando ouviu o nome de @blanchvrd ele começou a negar veemente com a cabeça. “Nick não.” murmurava, já era demais que Leo o visse assim, detestava saber que Dominique também assistiria o show de sua desgraça.
O corpo de Sawyer tremia de uma extremidade a outra, talvez estivesse apenas com frio, não sabia explicar o que sentia, dado ao fato de que sentia mais coisas que poderia contar ou falar. Ele sentiu o exato momento que Leo segurou sua mão e bem, ouviu sua pergunta, mas aquilo ele sequer conseguia responder para si mesmo, Sawyer era autodestrutivo por natureza e aquela era sua possível resposta para tudo. Embora não tenha tido coragem de arriscar qualquer resposta, mantendo suas forças em tentar ficar acordado mas ainda sim fitando a loira. Ver ela chorar era com certeza o que de longe o que mais doía e por isso ele tirou forças de sabe-se lá onde para levar a mão ao rosto dela e limpar um pouco de suas lágrimas e abrir um sorriso minimo. “Você estragou toda sua maquiagem.” O medo, a angustia da amiga era quase que palpável, ela estava apavorada, o que fez ele assentir com a cabeça pra cada palavra que a outra dizia. “Eu vou ficar bem.” ele prometeu, nunca havia percebido o quão importante era para Leo, não até ver aquele olhar. “Vaso ruim não quebra, acredita em mim.”