Em uma das conversas que tive na terapia, lembrei dos olhos da minha avó. Ela tinha olhos azuis e brilhantes — os mais lindos que já vi. Ela não sabia, mas falava com os olhos.
Foi num dia comum, perto do meio-dia, quando recebi a primeira mensagem silenciosa deles. Ela atendeu a um telefonema e, nos primeiros segundos da ligação, não disse uma palavra. Apenas os seus olhos me contaram tudo, antes mesmo que sua boca se movesse.
— Entendi, depois conversamos, vou colocar o almoço para Raquel.
Ela não queria que eu soubesse. À época, eu era só uma criança. Mas não adiantou: seus olhos já tinham me contado. Já sabia que era um dia triste para nós.
Depois disso, descobri tudo sobre ela. Sabia quando estava feliz ou triste, bastava olhar. Quando ela estava brava, eu tinha que ouvir duas reclamações: a dos olhos e a dela!
Quando fazia minha sobremesa favorita (pudim), tentava esconder e fazer surpresa. Mas não adiantava, os olhinhos azuis sempre me contavam.
Com o tempo, outros olhos também começaram a falar comigo.
Lembro dos olhos do meu primeiro amor. Sabia que era amada mesmo sem ouvir. Ainda era um segredo — meu e dele.
Os olhos das minhas irmãs, então... esses entregavam tudo! Elas viviam perguntando como eu descobria tantas coisas. E eu respondia, sorrindo:
E a verdade é que eu não sei como isso funciona. Nunca soube. Mal presto atenção, apenas acontece.
Os olhos apenas falam. Às vezes gritam. Às vezes imploram para serem entendidos.
Quer ver coisa terrível? Quando desviam o olhar! Dá para ver a agonia dos olhos ao não conseguirem entregar tudo o que querem: ficam inquietos, tropeçam, se perdem.
Bom, um grande segredo meu agora está sendo revelado. Talvez, ao expor isso, eu perca a habilidade de ouvir os olhos — apenas superstição, rsrs. Mas não faz mal.
Ainda que silenciosos, sei que eles continuarão a falar — para quem quiser ver.
Escrito e publicado em 30 de abril de 2025.