João,
Decidi escrever essa carta de despedida. Já te dei uma no seu aniversário mas essa será diferente: além de não encontrar o destinatário final, essa carta é uma despedida pro você que construí dentro de mim. Quando você foi embora senti pela primeira vez na vida que alguém tinha fisicamente levado um pedaço meu. Isso nunca havia me acontecido antes e depois disso fiz uma carta me despedindo dessa parte também.
Ainda não sei o que aconteceu dessa última vez, não entendi nada mas ao mesmo tempo acabou tudo. Tenho lido Tudo sobre o amor da bell hooks e várias partes me fizeram pensar em você. Uma delas foi sobre o homem usar a mentira pra manipulação afinal a dominação patriarcal é mais forte que o amor, o que o impossibilita de amar e receber amor. Onde há negligência, não há amor. Onde há mentira também não podemos encontrar essa ética de vida. É estranho pra mim ter essa visão de você, tão destoante de tudo que sempre pensei.
Achei que você fosse gentil, amoroso, respeitoso e prestativo mas talvez eu só tenha visto o que quis ver. No livro da bell hooks vi que estava disposta a aprender a amar de forma saudável com você, não sei se consegui a minha parte em meio a tantas confusões na minha vida e contigo em paralelo.
As vezes converso com você na minha mente, as vezes ainda te vejo pela minha casa. As vezes sinto ódio e nojo também mas ao mesmo tempo fico grata por tudo isso. Talvez nosso propósito afinal não seja atrasar a vida um do outro pra conhecer outras pessoas como você disse, talvez seja pra me ensinar a abraçar o meu órgão fantasma que me deixou quando foi embora contigo e pra entender que meus limites precisam ser mais rigorosos as vezes.
Ainda me pergunto o que foi verdade e o que foi mentira, não é um bom pensamento de se ter mas às vezes me ocorre. Também me pergunto se sua mãe fala de mim quando vocês conversam, se seus amigos também perguntam, se um dia a gente vai se encontrar em um lugar qualquer já que os roteiristas da minha vida parecem ter saído diretamente de the office.
A verdade é que quero te deixar ir e tenho feito um bom trabalho de forma geral. Mas você abalou muito minhas estruturas, foi como um terremoto mesmo. As vezes consigo ver seu quintal, te ver sentado nele, lembro dos dias dançando forró enquanto cozinhava ou fazia café e me pergunto se você ainda me vê nesses momentos também.
Eu sinto verdadeiramente sua falta mas não desse alguém que conheci nos últimos meses, sinto falta de quem você foi. Sinto falta do meu eu que você levou, falta de te ouvir falando de coisas da vida, de como você enxergava a beleza e o melhor no outro. Sinto falta do jeito que você me abraçou na estação de trem quando me encontrou da última vez, de dormir junto, de jogar junto também. Sinto falta dos sonhos que tínhamos juntos mas que agora se tornaram apenas meus.
Você mudou muita coisa pra mim e acho que por isso se tornou tão importante. Aqui não quero mais falar sobre como acho que você se sente ou das dúvidas que me implantou mas João, precisava mesmo ser assim?
Quero com essa carta conseguir perdoar, te deixar distante no meu passado e sem espaço no meu futuro. Quero ter a coragem de dizer que chamarei a polícia se você aparecer apesar de no momento duvidar que você apareça e que eu teria essa coragem.
O que você fez ou faz com tudo o que fui na sua vida, é problema seu. Eu te amei como nunca tinha amado e me permitido amar alguém antes, esqueci de tudo que já tinha passado no momento que te reencontrei. Queria que o roteirista da minha vida pudesse voltar no tempo mas isso também já não dá mais. Eu sinto muito por como acabamos e não por você mas por mim mesma. Espero algum dia poder amar alguém mais que te amei ou com a mesma disposição que tive, espero também que você consiga se encontrar.
Essa é a última carta que te escrevo, com um desfecho bem diferente da que te entreguei. Isso é um adeus para quem fui e pro nós que nunca irá existir.
Adeus, João. A gente já não se cabe mais.











