Somos Sinfonias Dissonantes.
Em música, uma sinfonia dissonante é o uso de notas contrastantes, com o objetivo de expressar emoções específicas e criar um efeito artístico próprio daquela sinfonia. Seu uso é intencional, apesar de parecer estranho a ouvidos (e corações) desatentos. A Sinfonia n° 1 de Beethoven, composta em 1800, é um exemplo disto. Porém, esse escrito não é sobre as sinfonias dissonantes na música, mas sim sobre nós. Somos sinfonias dissonantes.
A vida humana foi criada por Deus para ser uma sinfonia harmoniosa, sem variações e inconstâncias. Porém, nosso pecado nos tornou incapazes de alcançar os tons da sinfonia celestial (Rm 3.23). Desde então, a dissonância se tornou corriqueira, banal, aceitável. Viver em contrastes dissonantes é tão comum quanto cair de bicicleta. "Mas que mal há nisso? Afinal, a dissonância em uma sinfonia acaba por deixá-la mais bela, não é?"
A resposta é não. Não existe beleza e tão pouco prazer em ouvir um iniciante em piano tocar uma sinfonia de Beethoven no tempo errado e com as notas erradas. Uma sinfonia dissonante só é bela quando feita por especialistas. Eis a razão de nós sermos sinfonias tão feias, sem ritmo, tocadas errado. Não temos condições de harmonizar as notas contrastantes da vida. Em nós pode existir o desejo de fazê-lo, mas não há capacidade para tal (Rm 7.19). Talvez consigamos tocar bem uma das Nocturnes de Chopin, por exemplo, se nos esforçarmos bastante. Mas com certeza, não conseguiremos tocar bem a sinfonia do viver humano, mesmo com milhares e milhares de anos praticando.
Em nosso caso, somente Deus pode tornar bela nossa sinfonia dissonante. Ele faz isso resgatando-nos de nossa feiura harmônica e pondo-nos no ritmo hamonioso e belo de sua sinfonia celestial, que é sua graça em Cristo Jesus. O que cabe a nós é entregar todo nosso viver a ele, assim como um aspirante a violonista, depois de esforços fracassados em tocar por si mesmo, entrega o instrumento nas mãos do mestre, para que o veja tocar. O aluno, depois de ver o mestre violonista tocar, pega o instrumento de volta e torna a se esforçar para fazer o mesmo. Este não é o nosso caso (ao menos não deveria ser). Não tomamos a nossa vida de volta das mãos do Senhor com a intenção de tocar tão bem como ele. Pelo contrário, aprendemos que só podemos viver em uma bela sinfonia dissonante, quando o Senhor é quem toca o instrumento e nós nos contentamos e descansamos em seu trabalho.
Que o Senhor, pela sua graça em Cristo, traga beleza à nossa dissonância.
Carlos Bonina.











