É uma verdade mundial que, às vezes, precisamos fazer coisas que não queremos realmente. Estudar para aquela matéria que você não é bom, ou trabalhar fazendo algo que você não quer geralmente são coisas mais comuns, mas no mundo bruxo, o leque de opções que entravam para a lista de fazer-coisas-que-eu-não-quero era muito mais extenso. Como por exemplo, falar sobre seu pai de merda. Não que isso fosse uma exclusividade dele, sabia que não precisava ser bruxo para ser filho de pais ruins, mas ter que detalhar a participação de seu progenitor numa guerra bruxa… Bom, esse privilégio era dele. Seria extremamente mais fácil se fosse um Potter, um Lupin ou um Weasley, que tinham histórias gloriosas para contar e se orgulhar de seus familiares, mas sendo um Zabini sabia que, assim como as famílias citadas anteriormente, a posição assumida na guerra era conhecida. Não era segredo para ninguém que, nos tempos de Hogwarts, Blaise Zabini era conhecido pela boa aparência que tinha orgulho em exibir, pelos rumores acerca do que a matriarca da família havia supostamente feito com seus seis maridos, e pela aberta aversão àqueles que não carregavam sangue mágico e puro - este era um detalhe muito importante, Tyler sabia bem - em suas veias. Blaise nunca fez questão alguma de esconder seu desagrado quanto a convivência forçada com aqueles que não considerava bons o suficiente para carregar o status de bruxo, como ele; contudo, também não era a favor do que Voldemort fazia, como demonstrou ao criticar a posição de Lucius Malfoy como um comensal. Ou ele apenas era arrogante demais para jurar fidelidade e obediência a alguém, responder a uma suposta autoridade; Tyler apostava na segunda opção. Independentemente dos motivos, os Zabini haviam optado por permanecer neutros quanto a guerra, e era por isso que Tyler estava ali, cedendo uma entrevista a Ava Davis.
A conhecia por intermédio de Maize que, apesar da diferença de idade, vinha mantendo uma amizade com a mais nova já havia alguns anos. Tyler, apesar de não ser exatamente próximo da sonserina, gostava bastante dela; admirava seu senso de justiça e a paixão com que ela fazia as coisas quando se dedicava a elas, e foi o que o motivou a aceitar dar aquele depoimento, porque afinal, não custava nada, certo? Não quando ele não tinha coisas boas para falar sobre aquele que há muito tempo não chamava de pai, simplesmente porque ele não merecia o título.
O sorriso oferecido a mais nova quando sentou-se de frente para ela foi genuíno, mesmo que agora achasse que ela não tinha visto. Ava parecia muito concentrada no que o ex-grifano julgou serem as perguntas que ela faria a ele, por isso aproveitou o tempo para pedir uma caneca de cerveja amanteigada, que não demorou a ser trazida. E então Ava falou, e o sorriso novamente enfeitava os lábios cheios do mais velho. “E aí, Ava” É como ele a cumprimentou, logo após tomar um gole de sua cerveja. Tendo certeza que ficou com um simpático bigode, passou língua pelo lábio superior, e então prosseguiu. “O nome é Nifflers and Kneazles. Tu viu o show? Foi foda, modéstia a parte. Na verdade não preciso ser modesto porque o crédito é mesmo do Gas, foi ele quem escreveu a música. Fucking genius, that little brat.”
Recostou-se então contra a cadeira, os braços cruzados contra o peito dando a ele uma pose relaxada, confortável. Pelo menos até a pergunta dela. Tyler tinha absoluta certeza que Ava seria capaz de notar a repentina mudança de humor, assim como de sua linguagem corporal. O sorriso morreu no rosto, ao passo que seu corpo endureceu na cadeira e ele suspirou. Sabia que, levando em conta a natureza daquele encontro, devia manter as coisas o mais cordiais e profissionais possíveis, mas em contrapartida, não tinha outra resposta senão a que deu a ela nem cinco segundos depois.
“He’s a fucking selfish, prejudiced, and arrogant cunt.” A lista de adjetivos poderia com toda a certeza aumentar, mas Tyler achou melhor parar por ali. Ele até mesmo se arrependeu por responder daquela forma, mesmo que fosse claro que sua bronca não era com a garota e sim com a pessoa de quem falavam.
Pigarreando, o Zabini inclinou-se para frente o suficiente para que pudesse apoiar os cotovelos sobre o tampo da mesa, e sua expressão suavizou quando ele voltou a falar. “Me deixa reformular. Basicamente, tudo o que você ouviu sobre Blaise Zabini, seja na época da guerra ou agora, é verdade. Ele é um homem amargo e preconceituoso, tem mania de grandeza e se acha melhor que todos nós juntos. Ele não assumiu uma posição na guerra apenas pra não correr o risco de estragar a cara em batalha, mas tenho certeza que aprovava o que Voldemort queria fazer; ou seja, era a favor da completa dizimação dos trouxas e nascidos trouxas. Definitivamente não é uma pessoa boa. A melhor definição pra ele seria scumbag, mas acho que você não pode colocar isso na matéria. Censura e tudo.” A tentativa de fazer piada no final de seu pequeno discurso foi falha, tanto para ele quanto para ela. Voltou a se recostar contra a cadeira, e só então desviou seus olhos dos dela, se sentindo exposto demais, e decidiu focar na caneca ainda cheia a sua frente. “Já deu pra perceber que eu e ele não nos damos bem, não é? Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para falar sobre Blaise se você ‘tá procurando alguma coisa mais emocionante.”
Ava afasta o canudinho dos lábios e sorri quando Tyler começa a falar sobre sua banda. O quão legal é isso? Ter um irmão rockstar ou que possua qualquer título que se aproxime disto. Claro que o mais velho não sabia desse parentesco e Ava nem mesmo sabe como tocar no assunto. Não tocará, não por agora, não até que o conheça de verdade. Porque tudo o que sabe sobre Tyler Zabini é raso, superficial. Este é o motivo real pelo qual Ava está ali, esgotando seu tempo do fim de semana em Hogsmeade, pronta para forjar uma entrevista supostamente para fins acadêmicos a fim descobrir qualquer coisa sobre Blaise Zabini. ╾ Vou me certificar de que a próxima entrevista seja sobre vocês e não sobre… Isso. ╾ Aponta para seu caderno de anotações, incerta sobre o que conseguirá extrair da conversa com o Tyler.
Não coisas boas, conclui quando ele começa a falar sobre o pai. O pai deles. Em tese, pai de Tyler, já que nunca a teria reconhecido caso não fosse por decisão judicial. Não sabe por que espera postura diferente de alguém que lhe nega reconhecimento por quase uma década e meia. Mas a parte sonhadora de Ava, a que ela esconde por trás de toda a ferocidade e paixão em tudo o que faz, acredita até aquele momento que pode ter uma família de verdade com aquela nova descoberta. Engano o seu. Tenta manter a expressão neutra. Caso Tyler seja observador, a garota não usa a pena de repetição rápida como normalmente faz. Apenas a segura estática sobre o papel antes de rabiscar qualquer coisa imitando uma escrita no caderno. Para que ele não desconfie das suas reais intenções ali.
É a vez de Ava pigarrear, sua postura é séria e profissional. Sua linguagem corporal não mais a denuncia. Talvez por isso esteja na Sonserina e não em qualquer outra casa depois da indecisão do chapéu seletor ao alocar a menina em seu primeiro ano em Hogwarts. Nota também que Tyler está na defensiva e que talvez deva mudar sua abordagem. ╾ Então ele se considera ou considerava superior… Provavelmente não sabia que Tracey Davis, minha mãe, era mestiça. Eles estudaram juntos e eram amigos, alguma coisa assim, eu acho. ╾ Ava ri por mera tentativa de adicionar descontração no momento, porque ela é muito boa em fingir. ╾ Eu realmente não posso, se bem que com a troca temporária de diretores, talvez eu deva me aproveitar do bom coração de Neville Longbottom. ╾ Dá a ele seu melhor sorriso, o qual não sabe se faz parte do teatro ou é verdadeiro, em solidariedade. Porque se Blaise é tudo isso o que ele está falando, deve ser um tormento ser filho dele. A realização de que está no mesmo barco lhe transmite uma sensação ruim. Mas, ao contrário de Tyler, ela ainda pode fugir.
Balança os ombros para cima e para baixo, dizendo a ele por sua linguagem corporal que não se importa com o fato de ele não ter dito coisas boas sobre Blaise. Na verdade, se importa muito, mas não pode demonstrar que sim. Morde o lábio inferior por ter todas as suas perguntas desestruturadas por aquele pequeno fato de ele e Tyler não se darem bem. ╾ Eu só me importo com a verdade, Tyler, você gostar ou não dele… Não interfere na matéria. ╾ Mas interfere em sua vida, porque Ava não quer estar relacionada a uma pessoa como Blaise. Sua vida com somente uma da partes negligentes já havia sido ruim o suficiente até aqui, não precisa de mais um deles a tratando mal. ╾ Existe algum motivo para que vocês não se deem bem? Além do fato de você ser mestiço e ter acabado de dizer que ele ainda é um homem preconceituoso. O que me leva a concluir que você, o único filho, não foi capaz de mudar as perspectivas dele… Esse é o quão egoísta, preconceituoso e arrogante ele é. Ficou bem claro. ╾ Diz tudo isso com a sensação de algo entalado na garganta e só então Ava percebe que quer chorar. Por Tyler e por ela, que havia sido arrastada para o meio daquilo tudo contra a sua vontade. Olha para seu relógio e respira fundo. Olha para ele novamente, com os olhos límpidos, sem qualquer resquício de que ela segura o choro. Abaixa o tom de voz, para que a conversa não ultrapasse o perímetro que a mesa deles ocupa. ╾ Fora de tópico, mas eu sempre tive a curiosidade, acho que todo mundo tem… É verdade que Yeamaya Zabini matou seis maridos?