sometimes we just have to let it go.
Maize Parkinson, desviando-se das supersticiosidades, nunca creditou que energias negativas traem energias negativas. Todavia, aquela teoria dos cosmos era a única explicação plausível para que sua vida estivesse do jeito que estava: uma merda. Nas últimas semanas, a calmaria era completamente inexistente na vida de Maize, que podia contar nos dedos de uma só mão quantas vezes havia passado por momentos tão difíceis que definitivamente não se configuravam como o habitual drama ou olhar exagerado que ela tendia a ter sobre certas situações triviais. Estava na aula de Fundamentos da Comunicação Organizacional no Ministério quando avistou a coruja que ela sabia muito bem ser de Heron, seu avô, pousando muito graciosamente sobre o parapeito de uma das grandes janelas na lateral da sala. A aula consistia em estudo de casos, que ia da má articulação de certos bruxos em frente à imprensa a coisas mais sérias envolvendo a instituição Ministério da Magia em si, em que um grupo representava a situação e no fim da aula apresentavam a solução para a turma. O grupo que apresentava a melhor solução prática tinha o benefício de poder escolher qual seria o formato da próxima avaliação. Maize, para não prejudicar seu grupo, deixou uma série de anotações pontuando as melhores alternativas e sinalizando o porquê de serem as melhores. Em cinco minutos de conversa com o professor, conseguiu ser dispensada da aula sem maiores prejuízos. Ela teria ignorado se fosse qualquer outra coruja. Mas Heron nunca mandava corujas, fora no seu aniversário. Ela estava certa, a carta presa à coruja trazia a notícia de que Cassiopeia Parkinson - née Black - havia falecido naquela madrugada. Pedia também para que ela ficasse incumbida de avisar Pansy Parkinson da fatalidade, vez que o próprio Heron não tinha conseguido contatar. Não era insensibilidade, mas Maize simplesmente não conseguiu esboçar qualquer reação sequer. Não na hora em que recebeu a notícia, não na hora que contou para Pansy, não nos preparativos do funeral e nem mesmo no velório em que todos os amigos da família estavam com as varinhas erguidas prestando homenagem à Cassiopeia - que em vida não tinha sido uma pessoa tão boa assim, mas tinha suas particularidades positivas que ficariam na memória de Maize pra sempre.
Tem esse problema, de internalizar seus sentimentos e fingir que nada está acontecendo e nada a incomoda. Às vezes ela pensa que preferiria chorar, viver as etapas do luto como qualquer pessoa normal. Mas ela era tão parecida com Pansy Parkinson em certos aspectos, ela não chorava - exceto de raiva em algumas ocasiões -, apenas em situações muito particulares. Ela não chorou quando Esther contou que havia sido convocada na terceira chamada da Universidade Romena que ela queria frequentar desde sempre, sua primeira opção antes mesmo do DIAM. It is what it is. Esther tinha ido embora deixando-a sozinha no apartamento que dividiram desde o primeiro ano no Dumbledore’s Institute of Advanced Magic. Não chorou quando Tyler contou que ele havia sido aprovado no programa Medibruxos sem Fronteiras em parceria com a Varinha Vermelha, logo depois de fazerem as pazes depois de uma briga que pareceu infinita para Maize, o que nunca impediu que ele estivesse lá por ela ou de ir parar em uma delegacia trouxa para livrá-la de uma indiciação por direção imprudente. Tyler was her prince in shining armor. Então era claro que ficou completamente sem chão quando seu melhor amigo no mundo inteiro disse que ele e Adrien estavam de partida, sem previsão para voltar. Mas ela não demonstrou. Ela sorriu. — “ That’s so cool, man, saving lives and shit... You’re like a super hero... Only better. ” — Ela brincou, mas aquilo era legal mesmo, nobre, ela diria. Estava muito orgulhosa de Tyler, mas também tinha aquela parte dela que sentia muito pelo “abandono”.
Ela sabia, de verdade, que Tyler não estava a abandonando, era claro que não e Maize se repreende muito por sequer ter pensado isso mesmo que por uma fração de segundos. Porque Tyler estava lá, no funeral de Cassiopeia, por mais que ele não gostasse dos avós de Maize - ela também tinha seus próprios problemas com eles. Ele perguntou, mais de uma vez, se ela queria que ele adiasse sua viagem. E em todas as vezes Maize quis gritar que sim, mas ela não o fez. Porque existe uma coisa sobre as mulheres Parkinson: elas nunca ficam entre uma pessoa e seus sonhos. Foi Pansy quem respondeu por ela com um sorriso fraco. — “ We’re going to be just fine, Tyler, I promise you... We promise you. But thanks for caring. ” — Maize tinha suas dúvidas sobre ficar tudo bem. A primeira vez que ela chorou, em todos aqueles dias péssimos, foi quando se despediu de Tyler, logo depois de se despedir de Adrien. — “ Love you in case I die. ” — Maize sussurrou baixinho enquanto o abraçava o mais forte que podia, foi quando as lágrimas começaram a cair em um choro silencioso, molhando a camisa que Tyler usava naquele dia. Ela não queria chorar na frente dele, mas foi inevitável não se emocionar com a ‘não-despedida’, já que ele insistiu que para que considerasse aquilo como um ‘até logo’, ela poderia o visitar sempre que quisesse um hiatus, onde quer que ele estivesse. Era um combinado. — “ Love you in case I die. ” — Ele devolveu tipicamente. — “ Don’t die, tho. ” — Maize acrescentou em meio a risada que se mesclava ao choro e se afastou, enxugando as lágrimas com as mangas da blusa. Oferecendo um sorriso a Tyler, indicando que estava tudo bem, que ele não precisava se preocupar com ela.
Maize perdeu algumas aulas, várias aulas nas duas últimas semanas. Porque a Parkinson tinha seus próprios mecanismos de enfrentamento, válvulas de escape para continuar... vivendo. Ela se isolava do mundo sempre que passava por tempos difíceis. Limitava-se a se mostrar como um porto seguro para Pansy - que estava devastada, mas não demonstrava, Maize sabia disso porque Pansy vinha trabalhando o dobro do que já trabalhava e não dormia, porque via a mãe revirar álbuns de fotografia antigos todas as noites desde a notícia da morte de Cassiopeia. E quando não estava no apartamento da mãe em Manhattan, estava em Salisbury com Heron, este já não escondia estar devastado. Maize resolveu que deveria aproveitar seu tempo com ele, por mais que fossem divergentes em muitas opiniões, ele precisava dela e precisava de Pansy. Estar ali para os outros acabou fazendo com que ela não se importasse com os seus próprios sentimentos at all, afetando várias relações interpessoais da ex-sonserina e a fazendo repensar em várias outras. Porque o contato com a morte tem esse efeito sobre as pessoas, faz com que elas reflitam sobre tudo o que estão ou não fazendo. E Maize usava seus momentos completamente sozinha para fazer isso, em um padrão muito já conhecido por ela: Childish Gambino e um bong de vidro, nos mesmos moldes em que ficou durante o período que resolveu se afastar da universidade em seu primeiro ano. Exceto que, desta vez, tinha autoconsciência de que não podia deixar que aquele seu estágio do coping mechanism não poderia se estender por tanto tempo quanto da última vez. Precisava fazer por si mesma aquilo que vinha fazendo por Pansy e por Heron.