“I try to find fluidity in whatever I speak about or show. It should be like I’m taking your hand, taking you through the film. I’m not really telling a story, I’m telling you what cinema is in my life.”
Agnès Varda Born May 30, 1928
Game of Thrones Daily

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“I try to find fluidity in whatever I speak about or show. It should be like I’m taking your hand, taking you through the film. I’m not really telling a story, I’m telling you what cinema is in my life.”
Agnès Varda Born May 30, 1928
Vagabond (1985) Dir. Agnès Varda
Movimento
Tem dias que a gente tá com uma preguiça danada de viver, e olha que o meu café da manhã sempre me anima (melhor refeição do dia de todos os tempos!). Mas a gente tem que fazer, tem que estar em movimento - esse último ensinamento é de um dos meus amigos mais fofos do universo. Pacelli é uma luz no mundo, por mais que ele faça troça dele mesmo e viva dizendo o quanto é triste. Na semana passada, num daqueles dias em que tudo parece estar caindo sobre nossa cabeça, inclusive a chuva porque a gente não tem guarda-chuva, Pacelli me buscou no ponto. Quer prova de amor maior que essa? Não contente, me consolou sobre a vida, me ajudou num trabalho e ficou bolando teorias sobre a vida (baseadas num pesquisador que ele me indicou). Pacelli até me sugeriu embarcar num mestrado. Ele também tem seus dias difíceis, em que não consegue sair da cama. Mas está aí. Tentando. Em movimento. Distribuindo abraços, participando, pensando. E quando tudo está difícil, mas caminhar é preciso, ele se reorganiza novamente. Aí está o movimento. Arruma o quarto, arruma a cabeça. Ele me ensinou a fazer isso, e é o que tem rolado melhor para mim que sou assim, meio doidinha. Hoje rolou. Estou feliz por isso. O meu tempo é esse, o meu beco é esse. Noutro dia, quero falar sobre Lebo.
Início
Dois. Isto poderia ser sobre dois, que é muito mais sonoro que um ou três, e, sobretudo, romântico. Arroz em cima do feijão ou o feijão em cima do arroz? Biscoito ou bolacha? Jekyll ou Hyde? Definitivamente, isto não é sobre dois, mas sobre verter o corpo. Beber do copo desfeito o gelo cortante que entra no céu da boca. É sobre beijar o asfalto cinza, quente e nojento e gritar "obrigada, Senhor". É sobre all those things I feel or am, mar de infinitude, pontos conexos e chorar convulsivamente. Isto poderia ser sobre dividir-se, e até assim poderia ser descrito, mas é mesmo sobre um espectro.
Faltaram os outros tipos do espectro, mas taí um vídeo informativo. É, eu tenho estado em mania...
Retro Landscape.
Surreal Mixed Media Collage Art By Ayham Jabr.
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Minaj has a problem when it comes to lyrical interpretation.
Minaj has a problem when it comes to lyrical interpretation.
Sobre dar a deixa
Os palhaços ensinam que a vida é sobre dar deixas. Um silêncio gentil, um mistério, a carteira jogada no chão de quem é? Pode ser sobre estender a mão vazia, quente e líquida, ou então sobre estender a mão ocupada pela caneca de leite quente com mel, pronta para ser saboreada pelo outro. O passado é uma sombra que todo mundo carrega. Eu, você, a velhinha mal encarada do consultório. Os passados sobretudo carregam e penetram suas raízes profundamente na fundação de cada um de nós. Passamos a vida indo de loja em loja atrás do veneno ou da tesoura perfeita para impedir que essas raízes acabem por tomar os nossos pés inteiros. A fuga perfeita. Hoje eu não quero fugir. Eu quero colocar os meus mil pedacinhos de volta e abraçá-los, abraçá-los, apertar até não caber mais coração no peito. Eu quero palavras gostosas e livres, quero amor em cada parte. Eu quero me dar a deixa e deixar que os braços me alcancem.
Espectro
Aos 11, todo dia tinha cara de eternidade e eu só esperava que a hora do almoço chegasse logo para que eu fosse para casa. No meu quarto, junto das lágrimas eu vertia o pedido agudo a Deus para que ele me levasse. Eu não conseguia mais lidar com as pessoas. Aos 15, os poucos amigos que eu tinha "na vida real" já não existiam mais. Meus melhores amigos eu tinha encontrado no Orkut. Meu hobby era ler e escrever, porque assim libertava um pouco daquela sombra que me perseguia no peito. Me encontrei na poesia. Aos 17, entrei na faculdade. Talvez eu fosse boa para aquilo. Talvez não. No fim do primeiro ano, flashbacks da puberdade e a sensação de que tudo estava desmoronando. Foi minha maior crise depois de muito tempo. Os dias não tinham sentido e por isso eu passava tardes chorando no sofá de casa. Mais uma vez eu queria me suicidar. Aos 18, comecei a frequentar a psicoterapia. Eu sabia que precisava de ajuda e consegui ir atrás disso. Os eixos foram movidos e eu comecei a me sentir melhor. Passei maquiagem depois de muito tempo. Deixei de usar roupas de banda. Comecei a usar shorts e vestidos. Muitos avanços para mim, que não esperava nada. Desde então, reviravoltas. Crises profundas misturadas a tempos de paz e tempos de muita euforia. Viagens, bebida, festas, uma quase overdose de drogas, sexo com desconhecidos de toda parte, tatuagem, cabelos coloridos, muito aprendizado sobre tudo e sobre todos. Aos 22, meu veredito foi dado. Tenho ciclotimia, um dos espectros da bipolaridade. Quando eu era pequena, tinha medo de que passaria minha vida vendo tudo cinza, e de que a morte seria a única solução para isso. O destino não deixou que essa sombra me carregasse para sempre. Eu sinto cores, eu sinto cinza, eu sinto tudo. Sempre senti que minha morte antecederá os 30. O futuro é incerto.
Nó #1 - Alexsandro
Alexsandro e eu, nós dois com nossos ainda poucos 22 anos, nunca fomos ao Japão. Também nunca saímos do país. Conheci-o em um dia de inverno paulistano, enquanto ele lia escondido por debaixo das cobertas uma pilha de quadrinhos da série InuYasha, tal qual um menino cujos pais já mandaram ir dormir, mas ainda é muito cedo para isso, poxa vida. Ele estava aproximadamente 17000 quilômetros distante dali quando minha voz o transportou de volta para a zona norte da capital paulista. Que droga. A questão é que precisava perguntar se ele precisava de algo para comer ou beber, ou se estava quentinho o suficiente para enfrentar a noite. Apesar de incomodar sua leitura, o menino de pele preta, cachinhos e tatuagem na bochecha direita me recebeu com um lindo sorriso no rosto, e eu sabia, ali, que sua existência me marcaria para sempre. Meu novo amigo me ensinaria sobre imperadores, dinastias, nomes de flores, e tudo aquilo que havia aprendido com os mangas, muito loko mesmo. Tudo isso enquanto empurrava com o suco o lanche recém engolido. Nos despedimos e seguimos nossas vidas, que se cruzariam novamente dali a dois meses, perto do metrô Carandiru. Como cê tá? Eu tô bem, e você? Seu nome é Alexsandro, não é? Te conheci há um tempo atrás. É verdade, você tem razão, a gente se conheceu no Terminal, não é? Eu tava lendo os mangas. Desculpa, é que hoje eu tô um pouco ligado. Dessa vez, meu amigo parecia um pouco mais como um samurai, ou um ninja, pronto para qualquer combate e sob o efeito de qualquer droga que o fizesse pertencer aos 74% das pessoas em situação de rua em SP usuárias de alguma substância (http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/sp/3-em-cada-4-moradores-de-rua-usam-alcool-ou-drogas/n1237648458532.html). Naquele dia fiquei aliviada por saber que ele não carregava consigo uma espada. Ele falava sobre a Bíblia, caminhos, seus dois anos na rua, capoeira, tatuagens, maçonaria, poesia. Foi quando tirou de fato, de sua mochila, o livro sagrado - talvez não tão sagrado quanto seus quadrinhos. Ao fundo, enquanto crianças riam e brincavam, meu amigo, meio desajeitado naquele momento, abriu em qualquer passagem, leu em voz alta pausadamente e tentou refletir sobre ela sem ter muito sucesso. A gente precisa aprender, ele dizia. Emendou contando sobre uma amiga muito gente boa e muito cabeça que, cansada de sua realidade, foi morar na rua por um tempo, mas logo foi internada em um manicômio. Faleceu, parece. Eu não conseguia acompanhar o raciocínio do meu amigo, mas tentava seguir seus passos. Em nosso segundo encontro, confesso, tive um pouco de medo dele, ao passo que doía vê-lo assim. Nos despedimos, agradecemos um pela companhia do outro. Confesso que depois chorei e sofri muito: me projetei no lugar de Alexsandro, vivendo na dureza do concreto, sem qualquer lugar para ir quando a noite acabasse. Chorei porque, naquele momento, me dei conta que a noite não tinha fim para o meu amigo. Meninos teimosos e sabedores de magias não deveriam, nunca, serem privados de qualquer dignidade. Na próxima vez, se ainda encontrar Alexsandro vivo, perguntarei se ele sonha em ir ao Japão.
...
Talvez eu nunca tenha entendido os pontos E nem a razão do ponto final Embora teu jeito reticente sempre tenha contado um pouco da tua história.
Lido muito mal com tudo aquilo que vai além da vírgula ou da exclamação.
Tatuada na pele a tua imagem tratei de contar os naufrágios, os tempos em que depositei telhados em casas fugazes, todas elas cheias de espelhos.
Refletidas as máscaras Percebi o meu rosto perdido em um túnel espiral. Ora lá, ora cá, Tempo de contemplar o abismo.
SP
São Paulo tem esse conforto do pôr-do-sol, da comida quentinha que sai das panelas, das pessoas doces que invadem o cinza. Tem também essa tristeza que se avoluma e enche o coração. São Paulo parece um lugar cheio de almas que nunca se encontram, embora andem aos pares por aí. Almas à espera de um abraço que nunca chega. São Paulo é sempre esse meio entre uma coisa e outra, ou os dois pontos extremos, inconciliáveis. Não dá para ser pleno em São Paulo. Esse fim da tarde, essas casas, esses casais que me enchem o coração de conforto também fazem chorar quem vive na miséria. São Paulo se parece muito comigo.
Receita para a família
Antidepressivos para as tristezas, cremes hidratantes para as rugas. Um punhado de aspirinas para as dores. Não queremos dores. Comidas congeladas, pois não há tempo a perder. Alguns desconhecidos para tirar fotos. Alguns ditados populares, porque não se mexe em time que está ganhando. Acrescente doses de açúcar para tirar o gosto amargo dos noticiários de fim de tarde. Rende uma porção de tédio. Consuma fria.
abandono
num súbito momento feito de um clarão virtual e distante de mim - embora a distância me seja muito mais próxima do que a luz, que a um metro e meio me interpela - noto que me abandono.
nesses instantes, o domínio meu sobre a vida, que nunca na verdade existiu, vaza das mãos como a areia que mergulho os dedos, sinto que vivo mais intensamente, ainda que sinta quase como não sentindo. quanto ao resto: uma grande angústia um grande e imenso tic e tac cheio de muitos outros tics e tacs que demoram a percorrer o relógio e atrasam a vida que passa lá fora e enchem de dúvida e torpor.
no minuto estúpido que me dou conta do que fui, jaz a vida que em mim resta, ou restava, ou talvez não a vida, mas o clarão, o lampejo, de abandonar-se como numa morte presumida.
o instante magnífico de ser muito mais ou muito menos do que poderia imaginar, sem nem mesmo perceber que existo muito mais feliz quando não penso.
Um pouquinho de tudo.