Estava eu na fila do sossego,
esperando a minha vez de superar.
Calmo, tranquilo, quase leve.
A vida, em amarelo, menos cinza.
A chuva lá fora tinha gosto de recomeço,
e nos olhos não havia lágrimas.
O ar nos pulmões
era pena solta no vento,
e o tempo soava como um aliado
voltando vivo da guerra.
Então eu te vi.
De repente, sem perceber,
uma pequena chama surgiu na barra do meu casaco
e na ponta do meu otimismo fajuto.
Tentei apagá-la com tapinhas desesperados,
com balanços desajeitados,
mas a situação piorou.
O fogo se alastrou.
Me vi obrigado a me livrar daquele casaco
e ver meu processo de desapego dos últimos meses
virar cinza.
Joguei tudo no chão e pisei várias vezes,
ainda na tentativa de salvá-los.
Falhei.
O cheiro de queimado ardeu na garganta,
ardeu no peito, ardeu em saudade.
Como se não bastasse o desastre anterior,
e como se a realidade ao meu redor pudesse me sentir,
um temporal com ventos fortes começou a se formar,
por fora e por dentro.
A mudança súbita de temperatura foi imediata:
frio para quente, quente para frio,
a sinusite, a sinestesia.
A dor de espirrar, a dor de amar.
O amarelo morreu na aquarela,
e o cinza perfeito renasceu na tela.
Tentei manter o equilíbrio, a compostura,
não transparecer, não me deixar afetar.
Mas falhei.
Um Ícaro de asas derretidas,
um peixe fora d’água.
Tentando secar gelo
e tampar o sol com uma peneira.
O teste foi dado,
e eu fui reprovado.
Entre roupas encharcadas, olhos marejados,
o coração, de novo, pesado como chumbo.
Outra vez fui abatido em campo de guerra.