A desfragmentação de Amnesiac
Radiohead, Amnesiac (2001)
Destaque: "You and Whose Army?"
Algures entre 2001 e 2002 ouvi na rádio - a esta distância falha-me a emissora, mas arriscaria a Antena 3 - uma canção pela primeira vez, que identifiquei logo como sendo dos Radiohead: entre a voz e o timbre singulares de Thom Yorke, a letra abstracta e triste, e a guitarra melancólica no limiar do desespero, tudo ali era inconfundivelmente Radiohead. Ficou-me gravada na memória, aquela canção; seria incapaz de a cantar, claro, até porque com uma única audição fugaz jamais conseguiria memorizar uma letra (nem vamos falar do facto de ser absolutamente incapaz de cantar), mas a melodia tomou conta de um cantinho na minha mente e não mais saiu de lá. Só houve um pequeno contratempo: não apanhei na rádio o título da canção, pelo que durante anos não consegui encontrá-la em lugar algum.
E não foi por falta de a procurar.
Talvez aqui valha a pena recuar um pouco ao que era aquele tempo no que à música dizia respeito, pelo menos para mim: ouvia rádio; gravava cassetes que ouvia no meu leitor portátil*, no leitor de cassetes lá de casa ou, com alguma sorte, no carro com os meus pais (não, os gostos não coincidiam); e tinha alguns CD escolhidos com um misto de critério e oportunidade, pois eram caros, o rendimento disponível era escasso, e não havia grande acesso. Portanto, ouvia música de forma mais ou menos dispersa, fragmentada. Já gostava imenso de tudo o que tinha ouvido de Radiohead, mas por algum motivo nunca calhou comprar algum CD deles naqueles anos, do Pablo Honey ao Kid A; na aldeia não se vendiam CD, em Odemira vendiam-se poucos e, regra geral, maus, e em alguma ida a Portimão não calhou procurá-los; os meus interesses (e o meu escasso fun money) estariam noutros lugares. Esta fase deu lugar a outra, quando já frequentava o Secundário: a Internet começava aos poucos a democratizar-se, e com ela chegou o Napster, dando a possibilidade de obter uma quantidade imensa (para a época) de música. Legal, ilegal - éramos adolescentes na viragem do milénio, queríamos lá saber. Claro que eu não tinha computador em casa, e mesmo os meus amigos que tinham não podiam descarregar ficheiros: para além da enorme lentidão das ligações de 56kbps, havia o risco de se receber em casa uma bela factura telefónica. Mas o computador da biblioteca da escola, com a sua ligação RDIS, era perfeito para a pirataria adolescente; e tinha a sorte de os meus amigos mais próximos perceberem mais de computadores do que os professores de TI, pelo que sabiam bem como dissimular as aplicações e os downloads (ou então os professores sabiam muito bem o que andávamos a fazer, e não se importavam). E assim, primeiro no Napster e mais tarde nos seus sucedâneos (Kazaa, Limewire, e outros cujos nomes agora me escapam), íamos sacando canções avulso, pois discos completos eram mais complicados pela dimensão; já com ficheiros de três ou quatro megabites a coisa ia-se fazendo.
Ou seja: se antes da música online já ouvia música de forma fragmentada, com a música online a coisa ficou ainda mais dispersa. As mixed tapes deram lugar aos mixed CD (o "Nero" era um software muitíssimo popular, diga-se de passagem, tanto para fazermos as nossas compilações como para copiarmos algum CD que um de nós comprasse) que podíamos ouvir em casa, quando quiséssemos. Mas a partir do momento em que a música se deslocou dos formatos físicos, mesmo que digitais, para a Internet, a dispersão foi total: descarregava-se o que se podia, acumulava-se tudo em longas playlists no Winamp ou nos leitores portáteis de mp3 que começavam a surgir. E isto em larga medida passou para o que se seguiu, com o advento do streaming e as recomendações algorítmicas, mas não vamos por aí agora.
Quando aqui escrevi há mais de ano e meio sobre Amnesiac - sim, estou a fazer batota e a repetir um posto de escuta; já explico - referi essa descoberta fragmentada, e uma crítica na Pitchfork a adiantar a possibilidade assinalar o facto de que o quinto disco dos Radiohead terá sido um dos primeiros que toda a gente ouviu aos pedaços, entre a rádio e o digital, o que não o ajudou nada. Uma opinião tão plausível que quase entra no território da evidência, dada a especificidade de Amnesiac, que não é um disco como The Bends ou OK Computer (ou, mais tarde, In Rainbows), cheios de canções icónicas que podiam quase todas ser singles, que funcionam muito bem no seu alinhamento dos álbuns respectivos mas que também podem ser apreciadas ao acaso, fora da atmosfera criativa e do território sonoro de cada álbum (talvez "Fitter Happier", de OK Computer, seja uma excepção, e mesmo essa é capaz de sobressaltar qualquer ouvinte que já tenha lido 1984 ou Brave New World). Mas Kid A já não funcionará bem assim, e Amnesiac menos ainda; e se o primeiro ainda beneficiou de uma apreciação no seu todo, também pela expectativa em redor do que seria o disco seguinte dos Radiohead, e apesar da sua promoção, digamos, inusitada para uma banda daquela dimensão, já Amnesiac, uns meros oito meses mais tarde, foi apanhado no turbilhão da euforia do file sharing e da desintegração dos modelos convencionais da indústria musical. E aí a coisa complica-se, claro. Podíamos ter a sorte de apanhar uma "Pyramid Song", porventura uma das três melhores canções de toda a carreira dos Radiohead, ou uma "Dollars and Cents", ou uma "I Might Be Wrong", ou uma "Knives Out" - a tal canção que só podia ser de Radiohead e que me escapou durante anos, e que reconheci imediatamente no momento em que a voltei a ouvir, ao fim de tanto, como sendo aquela música e melodia e letra que me ficaram na memória sem que as conseguisse fixar! Mas também podia calhar "Morning Bell", e de repente ficaríamosna dúvida: mas isto não é do Kid A? (sim, e não) Ou então saía-nos na rifa uma "Pulk/Pull Revolving Doors", uma "Hunting Bears", ou uma "Like Spinning Plates", e daríamos por nós a pensar que raio era aquilo, se os ficheiros não estariam talvez corrompidos (comum à época), ou se o que o que saía das colunas ou dos auscultadores era de facto Radiohead.
Dito de outra forma: às peças parece desconexo, pois Amnesiac não foi feito para ouvir aos bocados. Tem uma sonoridade muito particular, conjura uma atmosfera muito própria, suscita um determinado estado de espírito; e não era (não é) fácil cumprir todas essas condições, mais a predisposição de ouvir quase 45 minutos seguidos de música sem interrupções. Mas se essas condições forem cumpridas, se entrarmos no disco logo pela estranheza da batida estridente de "Packt Like Sardines", então encontramos ali três quartos de hora absolutamente espantosos ao sabor da fusão experimentalista de rock e electrónica que Yorke, os irmãos Greenwood, O'Brien e Selway cozinharam na viragem do milénio, quando decidiram que os Radiohead não seriam apenas mais uma grande banda de rock, mas algo diferente, único, mais ousado, mais imprevisível.
Imagino que os fãs e os críticos que ficaram confusos em 2000 com Kid A não terão ficado mais esclarecidos em 2001 com Amnesiac, cuja estranheza não deixaria adivinhar qual o caminho que a banda seguiria dali em diante: regresso ao rock mais musculado de "Dollars and Cents"? A canções mais melodiosas como "Pyramid Song" ou "Knives Out"? Ou continuaria a electrónica e o experimentalismo do disco anterior, pelas pistas deixadas por "Packt Like Sardines" ou "Hunting Bears"? Ou alguma outra coisa ainda mais bizarra?
A esta distância, sabemos que o que se sucedeu foi Hail to the Thief, porventura o disco mais furioso e mais abertamente político dos Radiohead. Mas antes de lá chegarmos - esse só viria em 2003 - tivemos este Amnesiac, álbum irmão de Kid A, diferente como todos os irmãos acabam sempre por se revelar: será porventura mais melancólico, talvez mais furioso num momento ou outro, decididamente mais experimental: salta de guitarras para ondas Martenot, de electónica nunca dançável (ou quase nunca) para distorção longa (é ouvir "Like Spinning Plates", que mais tarde daria uma versão extraordinária ao vivo, com Yorke a trocar a distorção pelo piano), até desaguar no quase jazz da enorme "Life in a Glasshouse", uma das canções mais singulares dos Radiohead, que contou com a participação da banda de Humphrey Lyttleton e que terá sido tocada e cantada ao vivo apenas uma única vez, numa passagem pela televisão. Ouvi-lo lembra-me um pouco aquele mar de que tanto gosto, frio e picado pelas ondas: sobe às alturas com "Pyramid Song", "You and Whose Army", "Knives Out" e "Life in a Glasshouse"; desce abruptamente em "Pulk/Pull Revolving Doors", "Hunting Bears" e "Like Spinning Plates"; e nesta ondulação e rebentação encontra um equilíbrio perfeito, com as várias canções nos seus diversos registos a sucederem-se de uma forma que à primeira audição poderá talvez parecer estranha, mas cujo ritmo faz mais e mais sentido a cada vez que lá regressamos.
E agora que regressei a Amnesiac, a este seu todo tão invulgar como recompensador, o que destacar? Na primeira passagem que fiz pelo álbum escolhi "You and Whose Army?", que digo sem hesitar ser a minha canção preferida dos Radiohead, que saltei tantas e tantas vezes no modo aleatório do leitor de mp3 até ao dia em que por algum motivo não pressionei o botão forward e a ouvi toda, e me deixei capturar. Já que quis voltar a escrever sobre o disco a propósito do seu 25º aniversário, e por considerar que merece um texto um pouco melhor do que aquele que desenrasquei há ano e meio, ocorreu-me fazer um destaque diferente. "Pyramid Song", canção enorme, merecê-lo-ia sem dúvida. Ou "Knives Out", essa música tão esquiva. Ou "Life in a Glasshouse", com aquela letra tão assustadoramente premonitória (once again we are hungry for a lynching / that's a strange mistake to make) e aquela sonoridade tão particular à qual a banda nunca regressaria nos trabalhos seguintes. Mas depois de Madrid em Novembro não há volta a dar: ver e ouvir "You and Whose Army" naquele concerto, perante aquele público e com aquela energia, foi um momento espantoso que não me sairá da memória tão cedo. Mantenho-a como destaque, talvez improvável, daquele que poderá bem ser também o mais improvável disco dos Radiohead, este surpreendente Amnesiac. A ele continuarei a regressar vezes sem conta, como ao mar no Verão, em busca do ritmo reconfortante das suas ondas.
*Não era um Walkman; nunca tive um, com muita pena, pois a Sony fazia uns aparelhos espectaculares. E caros.