Assim que o carro da senhora Isabel virou a rua, eu me dirigi ao caminho de minha casa. Cheguei em casa e fui direto para o meu quarto. Naquele dia havia muitos deveres de casa, então achei que seria melhor começá-los antes do almoço estar pronto, e talvez antes de anoltecer eu seria capaz de terminar minhas tarefas.
- Já fazendo de novo? – Bianca disse, referindo-se às lições,ao entrar em nosso quarto.
- Sempre são muitas – ela se agachou no chão e se escorou na escrivaninha em que eu estudo – Tudo sempre é muito pra você, Clara.
Parei de escrever e encarei meu livro. Ela está certa. Minha irmã acompanhou tudo o que eu já passei por causa de meus problemas ligados à ansiedade. Bianca sempre esteve por perto para me apoiar e conversar sobre tudo.
- Olha, eu sei que você se preocupa bastante com seus estudos e que demora para terminar suas atividades, mas você precisa dar um tempo para você mesma, não acha?
- Com o que você gosta de fazer. Ah, e depois nós duas podemos ter um dia de spa aqui mesmo – eu revirei os olhos e ela percebeu.
- Não me importa se você quer ou não, a gente vai usar máscaras de beleza e se maquiar. Agora eu tenho que ajudar no almoço com o papai cortando cenouras. Falando sério, quem gosta de cenoura? Ninguém aqui em casa come porque gosta. Você mesma só come porque fica com pena de eu ter cortado e ninguém comer.
- Beleza, agora vai lá - francamente, minha irmã consegue sair de um extremo a outro em segundos se ela quiser.
Fiz tudo o que eu tinha para fazer e ainda sobrou um tempo para eu revisar algumas matérias. O ano escolar começou há quase três semanas e eu já não aguento mais. Talvez eu realmente deva me concentrar no que eu gosto pelo ao menos uma ou duas vezes por mês. O dia seguinte é sábado e não tenho realmente nada que me prenda a ficar em casa enfiada em um livro de Física. Quem sabe eu consiga me destrair de meus pensamentos por um momento assim?
Fui pega de surpresa por minha mãe me chamando para jantar quando estava pensando nos planos para o dia seguinte:
- Venha comer, pequena astronauta – ela me chama assim quando percebe que estou muito longe da realidade.
- Já estou indo – sorri para ela ao me levantar – Ah, mãe, será que posso sair amanhã para, sei lá, comprar ou comer alguma coisa?
- É claro que pode. Com quem você vai?
- Na verdade, estou pensando em ir sozinha desta vez.
- Por quê? – mamãe perguntou preocupada.
- Não sei, só quero passar um tempo comigo mesma.
- Você está certa. É bom você querer fazer isso.
- Tudo bem, mas à noite é melhor você estar em nosso quarto coberta de máscara facial. Não ache que vai fugir de meu spa – Bianca disse, com cara de morta.
- Tudo bem, então – dei de ombros.
- E eu? Eu também quero passear! – Gustavo se virou para meus pais, que olharam para minha irmã.
- Nem vem. Eu já tenho planos – ela respondeu rápido.
- Eu posso ficar com ele se você quiser, mãe.
- Não é necessário. Seu pai vai levá-lo à sorveteria.
- Vou? – desta vez meu pai que se manifestou. Ele não estava nem ligando para nossa conversa, só estava comendo.
Minha mãe deu um olhar sério para papai e ele entendeu o recado:
- Sim, óbvio que vou. Vai ser íncrivel! – Eu ri da situação e quando terminei o jantar fui para a cama com meu celular. Não havia mensagens, mas eu tenho pouquíssimos contatos, então eu entendo.
Após alguns minutos Beatriz me mandou uma mensagem:
“ Oi, Clara. Queria saber o dia em que vão nos dar as falas para a peça da escola. Você sabe de alguma coisa? ”
Respondi que não, mas que ela deveria perguntar ao Felipe, já que sua mãe é professora e provavelmente sabe de alguma coisa. Pelo ao menos foi o que eu disse, mas Bia mandar uma mensagem para ele poderia ser uma brecha para os dois conversarem mais. Eu sou genial... ou nem tanto. Esqueci da vez em que meu melhor amigo me disse que Erick gostava da Beatriz. Tentei fazer com que esse pensamento sumisse justificando que minha amiga que decide com quem ela quer ficar no futuro, ou se prefere ficar sozinha. “Isso não depende de mim, e está tudo bem”, falei para mim e respirei fundo.
Dormir era uma ótima ideia naquele momento. O dia seguinte seria bom para mim e logo logo as coisas que me atormentam iriam desaparecer de minha cabeça. Tomei meu remédio para dormir, porque se não tomá-lo não consigo ter uma noite boa, e me deitei. As coisas são tão mais simples quando estamos adormecidos. Seria maravilhoso poder fazer isso sempre quando aparece algum problema na minha frente.