────── 🕸️ pelos deuses! aquele ali passeando na praia é ARACNE? ah, não, é só KATERINA ZANELE KATINA, uma ESTRATEGISTA FINANCEIRA E OPERADORA DE REDES DE APOSTAS E TRÁFICO nos agraciando com sua beleza nos halls do aletheia hotel. as moiras avisaram: mesmo com os TRINTA E UM anos nesse novo corpo, segue tão PERCEPTIVA e RANCOROSA quanto na antiguidade. repararam também que ele lembra muito ANAMARIA VARTOLOMEI? a maldição levou tudo, menos sua beleza. que prazer tê-lo como HÓSPEDE do nosso hotel!
⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀Adotada ainda bebê em um orfanato de São Petersburgo junto de outra criança abandonada no local, cresceu em uma casa estável, cercada de cuidado e oportunidades. Ainda assim, desde muito cedo, havia algo nela que nunca parecia completamente em paz. Enquanto sua irmã adotiva ocupava espaço com facilidade — falando alto, rindo fácil e enfrentando o mundo de frente — Katerina aprendia a observar. A escutar atentamente. A se retirar antes de ser ferida.
⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀Na infância, as duas eram próximas na medida do possível. Dividiam quarto, brinquedos e segredos pequenos. Mas, conforme cresceram, uma fricção invisível começou a se formar. Não havia um evento específico, nenhum grande trauma que explicasse essa mudança em sua dinâmica. Apenas uma sensação persistente em Katerina: a de estar sempre sendo comparada, medida, ofuscada e, ao mesmo tempo, julgada. A irmã parecia tudo aquilo que o mundo aprovava. E ela, aquilo que passava despercebido. Nunca soube explicar por que sentia tanto desprezo e desconforto perto de Milaya. Sabia apenas que era real. Instintivo.
⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀Enquanto Milaya seguiu um caminho previsível de disciplina, ordem e autoridade, Katerina escolheu o oposto. Desde jovem, demonstrou talento para números, padrões e estratégias. Via conexões onde outros viam caos. Aprendeu cedo a manipular sistemas, a entender regras apenas para descobrir como dobrá-las. Sua mente funcionava como uma teia: precisa, estruturada e resistente.
⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀Na vida adulta, construiu uma existência dupla. Oficialmente, leva uma vida discreta, sem grandes holofotes. Extraoficialmente, está ligada a estruturas que vivem nas margens: redes de apostas ilegais, movimentações financeiras obscuras, decisões tomadas em salas fechadas. Não é usuária, não é impulsiva, não se perde no próprio vício… ela controla. Observa. Coordena. Puxa fios invisíveis enquanto outros acreditam estar no comando.
⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀As férias no Hotel Aletheia, surgem como uma tentativa desesperada de ambas de apaziguar o que vem se tornando insustentável. Um último esforço para reconectar duas irmãs que se amam, mas não se suportam mais. A decisão de embarcar nessa viagem não se dá por esperança, mas por curiosidade. Algo em Katerina sente que aquele lugar guarda respostas ou rupturas.
⋆ @adcnis said "this is fine. i’m fine. everything’s fine. (it’s not fine.)"
Os dígitos massagearam as têmporas, como se antecipassem uma dor de cabeça iminente. Era uma suposição válida, fundamentada na falta de clareza que tivera durante os últimos dias. ─── Eu sei que vou me arrepender de perguntar isso, mas... ─── O suspiro pesado interrompeu a fala. ─── Você está mesmo bem ou está sendo dramático? ─── O julgamento pesava em suas palavras, evidenciando a falta de disposição de Katerina. ─── No caso da segunda opção, saiba que não tenho muita paciência. ─── Se adiantava em dispensá-lo. O mistério acerca das pessoas que retornavam para o hotel os unia, mas pretendia focar sua atenção e energia naqueles que se mostravam mais equilibrados para buscar por respostas.
⋆ @milaisathena said "you said you wanted excitement!"
Familiar a ela, o olhar lançado na direção de Milaya exalava a mais pura reprovação. Desconhecia o motivo por ainda insistir em iniciar certas discussões com ela. ─── Eu vou fingir que não está implicando que esse caos sem explicação é entretenimento. ─── Há muito tempo pretendia deixar o hotel, uma vez que havia concluído ter sido arrastada até aquele lugar contra a sua vontade e sem um porquê genuíno, antes mesmo de ter subitamente despertado no dormitório para o qual — sem sombra de dúvidas — seu check-out certamente fora confirmado. ─── A visita a esse lugar me fez começar a valorizar ainda mais a monotonia e uma rotina regrada. ─── Prosseguiu, se recusando a alimentar a ideia que ela sugeria. ─── Agora, quando vamos embora daqui? ─── Não dependia da irmã para se despedir de Santorini e retomar a rotina distante da ilha, mas instigava a outra com o objetivo de descobrir mais sobre seus planos, descobrir o que planejava para o restante das "férias compulsórias" que em nada havia beneficiado o relacionamento entre ambas.
O olhar dirigido a outra não instigava uma discussão, mas sua postura tampouco permitia que fosse interpretava como alguém disposto a recuar. Encontrava-se mais ríspida do que o habitual, e atribuía à própria irmã toda a desordem que a tirava do eixo desde a decisão de fazer aquela viagem — que se estendia por muito mais tempo do que gostaria. ─── E pelo que exatamente eu deveria pedir desculpas? ─── Buscava aprender qual havia sido seu erro, embora soubesse que a dificuldade para se desculpar era um defeito que a acompanhava desde cedo. ─── Eu sei que todo mundo aqui anda confuso e desestabilizado, mas, por favor... ─── Com isso, pedia por um pouco mais de resiliência. Desaprendera como agir na companhia de indivíduos mais sensíveis.
"Eu não sei muito bem..." Foi o que conseguiu sair de sua boca no instante em que o contato com a pessoa havia iniciado. Eles estavam compartilhando uma pequena dose do que lhes acontecera, mas, Marwan estava inseguro sobre tudo, especialmente porque em um piscar de olhos as coisas haviam mudado sem qualquer consciência sua. "Juro pra você, eu tinha acabado de desejar feliz ano novo aos meus pais e irmãos. Nós nos abraçamos, agradecemos a Alá pela vida nova e mais um ano com saúde, fui dormir e de repente estou aqui." Mexeu a cabeça, inconformado. Como as coisas pareceram tomar esse rumo tão sem nexo? Era o questionamento de um bilhão de dólares. "Minha única resposta pra isso tudo é que, das duas uma: fui drogado e raptado do meu lar, ou sou sonâmbulo e simplesmente peguei um vôo de volta pra cá sem sequer me lembrar. Mesmo morando aqui, ainda é estranho que eu tenha acordado dentro do hotel. Mas é óbvio que é estranho, né?!" Virou o olhar para a pessoa próxima de si. Se esta não tivesse uma resposta conivente para a situação deles, então que enxergasse no rosto de Marwan a confusão explícita para o confortar.
O orgulho fazia com que Katerina se privasse de qualquer expressão, de qualquer sinal de interesse ou desconcerto diante daquele assunto. A verdade era que a insegurança em relação àquelas lacunas a deixavam furiosa, principalmente quando não fora escolha sua a visita até aquele hotel — o ponto de convergência entre aqueles que permaneciam sem respostas. ─── E é ainda mais óbvio que não se trata de um caso de sonambulismo ou rapto, não é? Quer dizer, acha mesmo que todos que alegam não saber como vieram parar aqui sofreram do mesmo? ─── Sua língua era mais afiada do que a capacidade de admitir que aquele era um assunto que demandava o mínimo de delicadeza ao ser discutido, uma vez que afetava diretamente as emoções dos envolvidos. ─── Só sei que esse lugar é um denominador comum, então, talvez, esconda alguma resposta. Mas não quero soar conspiracionista. ─── Portava-se com certa frieza, uma qualidade que possivelmente poderia ajudá-la a decifrar aquele mistério.
five times angered: ( five times the sender made the receiver angry ) @owlyouneedislove
─── 1. aos nove anos:
Depois de semanas ensaiando em silêncio no quarto apertado, repetindo falas baixinho para não incomodar ninguém, Katerina acreditava que sua participação na peça de teatro do colégio seria um raro instante de reconhecimento. O figurino coçava, as mãos suavam, mas ela sabia cada palavra. Quando chegou a vez de Milaya tomar a frente, um esquecimento virou improviso, o improviso virou riso, e o riso se espalhou pela plateia como algo vivo. O público se inclinou para frente, os aplausos vieram fáceis. Tardiamente, ela também recebeu seus elogios e flores ao fim da peça, mas já não importava. A atenção tinha escolhido outro lugar para ficar, e Katerina aprendeu que esforço nem sempre compete com carisma.
─── 2. aos doze anos:
Foi numa conversa confidencial, sentadas no chão do quarto, com a luz apagada e a porta encostada, que Katerina tentou explicar aquela sensação constante de ser diferente. Falou sobre pensar demais, sobre observar coisas que ninguém parecia notar, sobre o cansaço de nunca conseguir desligar a própria cabeça. A resposta da irmã veio rápida, quase automática, dita sem olhar. Não houve discussão, nem pedido de desculpas. Só um silêncio estranho depois. A partir daquele dia, passou a guardar pensamentos, pois compreendia que certas partes de si não encontram abrigo do lado de fora.
─── 3. aos quinze anos:
Katerina confiou algo pequeno, mas extremamente íntimo para a irmã, durante um dos raros momentos de confidência entre elas. Não revelara nada grave, mas verdadeiro. Dias depois, ouviu o mesmo assunto surgir na mesa da cozinha, comentado com naturalidade, como se nunca tivesse sido um segredo. O tom usado por Milaya era de preocupação, talvez com o objetivo de ajudá-la, mas o efeito foi outro. Em silêncio, sentiu o rosto esquentar, o corpo enrijecer.
─── 4. aos vinte e oito anos:
O jantar em família era comum, previsível, desses que terminam sem grandes marcas. Entre comentários triviais e risadas pontuais, surgiu um comentário casual por parte de Milaya, sobre crescer sem precisar esconder nada para chegar onde se chegou. Ninguém respondeu. Os talheres continuaram a bater nos pratos, o vinho foi servido normalmente. Katerina permaneceu em silêncio, com o olhar baixo e o pensamento distante. Não houve raiva explícita por parte dela, apenas uma decisão definitiva de que nunca mais explicaria suas escolhas para ninguém.
─── 5. antes da viagem para Santorini:
No aeroporto, cercada por malas e anúncios indecifráveis, Katerina comentou com ceticismo que talvez aquelas férias não resolvessem nada. A resposta veio cortante feito lâmina: “Talvez se você parasse de fugir, isso seria diferente.” Não se atreveu a discutir. Não tentou se explicar. Apenas sentiu o peso antigo se acomodar no peito mais uma vez.
Girando na própria órbita, os olhos cristalinos de Katerina quase se voltaram para a nuca ao ouvir a irmã. O atrito entre ambas parecia ter se tornado uma constante, e duvidava que o consumo excessivo de álcool ajudaria naquela questão. Mas, o que mais poderia esperar de uma viagem arquitetada pelo desespero de resgatar algo tão frágil, para um destino paradisíaco e em uma período tão próximo das festividades de fim de ano? Beber ali era quase um dever e uma parcela dela se recusava a condenar Milaya por isso. ─── Dito em tom de ameaça... ─── Nunca a parcela externalizada, é claro. ─── Se você já fala mais do que a boca sóbria, logo vão te confundir com uma sirene. ─── A provocou por hábito e conveniência, embora estendesse o braço para oferecer apoio a ela. Certamente se divertiria vendo-a perder o equilíbrio, mas logo o humor cessaria no instante em que presenciasse outro hóspede se divertindo às expensas da irmã.
O olhar lançado para o rapaz comunicava mais do que qualquer palavra, frio como o tom azulado que o coloria. Não incomodava ninguém e desejava não ser incomodada em retorno. Talvez fosse parte de sua postura austera ou o fardo do arrependimento por ter embarcado naquela viagem com a irmã adotiva, mas interpretava a questão do outro como crítica, possivelmente por tê-la identificado como um indivíduo deslocado entre os demais. ─── E o que exatamente quis dizer com isso? ─── A expressão se manteve impassível, enquanto os braços se cruzavam diante do corpo. ─── Tem algum problema? ─── Antes de uma resposta, buscava afugentá-lo com o confronto.