masterlist improvisada ;)
『✵』 angst, 『❥』 fluffy, 『❀』 smutty
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TVSTRANGERTHINGS
One Nice Bug Per Day

if i look back, i am lost
Lint Roller? I Barely Know Her

祝日 / Permanent Vacation

No title available

Product Placement
ojovivo
trying on a metaphor
dirt enthusiast
noise dept.
YOU ARE THE REASON

Andulka

⁂

PR's Tumblrdome
AnasAbdin

oozey mess
almost home

★

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@srtarmina
masterlist improvisada ;)
『✵』 angst, 『❥』 fluffy, 『❀』 smutty
『✵』 Quadrilha pt.1
『❥』 Stupid Cupid
『❀』 Caçador de Tchutchuquinha (+18)
『❥』 Calourinha
『❥』 Back to the Future
『❥』 Quem de nós dois pt.1 | 『❀』 Quem de nós dois pt.2 (+18)
『❥』 Velha Infância
『❥』 Água de Chuva no Mar
『❥』 Proibida pra Mim
𝗗𝗘 𝗠𝗔𝗜𝗦 𝗡𝗜𝗡𝗚𝗨𝗘́𝗠 ↬ 𝐽𝜎𝜀𝑙 𝑠𝜀𝑟𝜄𝜀𝑠
『❥』 Quadrilha pt.2
『❥』 Amante Amado
『✵』 Saudosismo
『❥』 Invisível
『❥』 Formandos 2006
to anyone missing my writing please know i am also missing my writing
Tô escrevendo o especial de 50k de leituras do Quidditch Chronicles e MEU DEUS Theseus sofre mais que jesus e ouve Mitski o dia inteiro
COMPLETAMENTE INJUSTO!!!!! não ter fanfics de True Blood (tanto em português quanto em inglês) já é a segunda vez que to assistindo e cadê as fics????
Sonhei com o Antônio Carrara hoje q ódio pq não tenho esse homem pra mim
𝗗𝗘 𝗠𝗔𝗜𝗦 𝗡𝗜𝗡𝗚𝗨𝗘́𝗠 ⇢ 𝟬 𝟬 𝟱
𝟬 𝟬 𝟰 ⇠
Ao final da noite, Cíntia se juntou ao grupo para conversar com outros amigos de Joel. Não tinha muito contato com os calouros do primeiro colégio, então trocou apenas palavras superficiais, mesmo que estivesse se sentindo extremamente incluída no grupo. Fabrício parecia quase aliviado de finalmente ver os dois juntos, mas recebeu um sinal de Joel para que não fizesse qualquer brincadeira ou comentário sobre a situação. Estavam de mãos dadas, perante todo o colégio, mas ela ainda afirmaria que eram "só amigos".
Quando Anita pediu para que todos se juntassem para uma foto, Cíntia deu um passo para o lado. Deveria mesmo aparecer na foto? Aquilo podia ser algo pessoal, para guardar de lembrança. Não faria sentido uma garota aleatória aparecer na foto. Sem dizer nada, Joel envolveu um braço em sua cintura para impedir que ela se afastasse mais e novamente a puxou para perto.
– Sorri – sussurrou em seu ouvido e sentiu-a arrepiar.
Um sorriso genuíno apareceu no rosto de Cíntia e suas bochechas queimaram. Ele envolveu ambos os braços em sua cintura e ela nunca se sentiu tão bem. Seu interior estava explodindo de emoção. Olhou para Joel e esse olhou para ela, exatamente no momento em que o mímico apertou o botão. A captura do momento gravou exatamente como estavam: completamente apaixonados.
Anita passou a se despedir dos amigos e, quando Joel percebeu isso, se aproximou dela.
– A gente pode ficar só até domingo? Vai ter a eliminação do Brasil na Copa e eu… – virou seu tronco para ver Cíntia, que sorriu sem entender o que estavam falando – eu só preciso sair com ela de novo, pela última vez, ou pela primeira, – voltou a encarar a amiga – e independente de como estiver o futuro, acabaram as viagens no tempo.
– Fechado – balançou a cabeça positivamente, dando um sorriso amigável e um soquinho na mão de Joel.
Dois dias depois, estavam novamente reunidos na casa de Douglas para assistir ao jogo. Quartas de final, os ânimos estavam a mil. Joel gritou exatamente, ou talvez mais, do que havia gritado da primeira vez que viu o jogo; seus amigos acompanharam os gritos, principalmente suplicando para que o Brasil pelo menos empatasse com a França depois deles terem feito um gol aos 57 minutos de jogo.
Quando não se recuperaram, Joel sofreu igual. Não sabia porque estava esperando algo diferente. Os humores baixaram em uma esfera fria e triste, quase em uma nuvem carregada no meio da sala de estar de Douglas. Ajudaram a arrumar a casa e foram embora, cada um em direção a sua própria casa.
Joel e Cíntia andavam lado a lado, indo para a mesma direção.
– Como você sabia? – ela perguntou.
– Quem sabe eu não subornei os jogadores para perderem, só pra conseguir te levar pra sair? – Joel arqueou a sobrancelha de maneira sugestiva.
Cíntia cerrou os olhos e deu um soquinho em seu braço, arrancando um "ai" dramático, como se tivesse o atingido de maneira muito mais forte do que na realidade. Quando o garoto sorriu, passou a sorrir também. Joel tinha esse ar sarcástico e fazia piadinhas que confundia Cíntia, mas era exatamente isso que a atraia nele; na verdade, a esse ponto, não tinha mais olhos para nenhuma outra pessoa. Ele era lindo, engraçado e fazia-a sentir como a única mulher do mundo. Nunca chegou a gostar de alguém assim. Ele só precisava existir para conquistá-la, para completá-la.
Parou de caminhar por um momento e Joel parou ao seu lado.
– O que você acha de a gente se beijar sem ser amigo? – falou séria, apreensiva, como se não tivessem assistido o jogo inteiro com a mão no cabelo dele e a dele na coxa dela.
– Tá me pedindo em namoro?
Joel não deixou de exibir um sorriso de canto, quase malicioso. Cíntia pensou em fazer piada e disfarçar a situação, com medo de ser vítima de deboche ou ficar mal falada por levar um fora, mas o sentimento ao seu peito era tão forte que não conseguia mais se segurar.
– Tô – respondeu.
– Então, eu aceito – disse, após fingir que estava pensando.
Cíntia mostrou a língua e voltou a caminhar. Ouviu um "epa, epa, onde pensa que vai?" antes que Joel puxasse seu braço pelo pulso e seus pés se cruzassem à frente, de modo que quase caísse no colo de seu novo namorado. Seu corpo estava próximo do dele e os rostos mais ainda. Com as mãos dadas, iniciaram um beijo profundo e significativo. Não era obsceno ou regado por desejo, mas amoroso. Estavam namorando, finalmente.
Joel respirou fundo antes de entrar no restaurante. Era bonito, diferente de outros que haviam ido. Ficava ao segundo andar de um prédio histórico da cidade, de frente para uma praça linda, arredondada, um dos verdadeiros ícones arquitetônicos da capital. O verde parecia mais verde, principalmente por causa do céu azul e da incidência do sol nas plantas. Pegaram uma mesa do lado de fora, mas ainda na parte sombreada, justamente para observarem a vista. 2 lugares.
Cíntia já estava sentada, mas se levantou para cumprimentá-lo com um beijo na bochecha. Sentaram um de frente para o outro, antes de pedirem bebida e rapidamente olharem o cardápio. Quando a bebida chegou, já pediram o almoço. Trocaram conversa fiada sobre a semana, fizeram piada enquanto comiam e se comportaram como sempre, até que o riso de ambos cessou e se transformou em um silêncio desconfortável.
Se encararam por alguns segundos, sem desviar o olhar. Precisavam falar sobre aquilo, sobre o motivo do almoço. Cíntia abriu a boca, mas Joel foi mais rápido em sua fala.
– Desculpa por ter sido um babaca – disse.
Cíntia franziu as sobrancelhas sem acreditar no que estava ouvindo. Balançou a cabeça negativamente antes de levar sua mão para cima da mesa, posicionando-a em cima da dele.
– Você não foi. Acho que você só tentou lidar do seu jeito e eu tentei lidar do meu. Quando eu pedi um tempo, não foi porque estava arrependida do que a gente viveu ou porque não te amava mais. Eu amo, eu te amo muito. Eu só… você é meu melhor amigo, sempre vai ser, e eu só queria que nós dois pudéssemos ser…
– Felizes – ele completou e Cíntia afirmou com a cabeça.
Joel entendia. Não era por não terem sido felizes enquanto estavam juntos, mas pela possibilidade de serem felizes separados. Não podia tirar isso dela, não queria tirar isso dela.
Apertou um lábio contra o outro, ainda com o olhar contraído. Soltou o ar que segurava no pulmão e ficaram alguns segundos, que mais pareceram horas, se encarando; poderiam ficar ali por mais tempo ainda, simplesmente em silêncio. Em outra timeline, doeria demais continuar encarando-o ou ter uma simples conversa com Joel, não diria em voz alta que o amava, mas nessa tudo estava tão… bem.
Aos poucos, perceberem que o som do ambiente se moldou a uma música conhecida. O violão em seus acordes e a voz leve saindo do alto falante perto da mesa tocava "Eu sei que vou te amar" de Vinicius de Moraes, na voz de Maysa Matarazzo. Joel se levantou da cadeira e se colocou ao lado de Cíntia, esticando a mão de maneira convidativa.
– Levanta – pediu.
– Joel… – sussurrou, um pouco envergonhada com a situação.
Ele ergueu uma sobrancelha e Cíntia soltou um suspiro, sem acreditar que havia acabado de segurar sua mão e se levantar da cadeira. Não era possível que fosse fazer isso no meio do restaurante – mas era possível sim, já que Joel puxou seu corpo para perto, colocando uma mão em sua cintura e a outra na cabeça, posicionando-a em seu ombro. Se movimentaram lentamente, muito mais interessados no aconchego do que no ritmo da música.
– Você sabe que meu compositor favorito é o Vinicius de Moraes – sussurrou – desde o ensino médio.
Joel riu com o fundo da garganta, ela ainda se lembrava do poema… na verdade, jamais seria capaz de esquecê-lo. Naquele momento, se sentiam novamente com 17 anos, no início do relacionamento, e parecia que o tempo não havia passado de forma alguma. Quando Vinicius de Moraes passou a declamar o Soneta da Fidelidade, ao final da canção, disse:
"Que não seja imortal, posto que é chama,
Mas que seja infinito enquanto dure”
Joel sorriu levemente.
– Fomos infinitos enquanto duramos, não fomos? – disse, de maneira mais retórica do que interrogativa, à Cíntia, que começou a chorar. Tentou esconder as lágrimas no ombro do ex marido, molhando a manga da camiseta.
Se separaram alguns centímetros, para que conseguissem se olhar nos olhos.
– Eu quero que você viva, se encontre, que se veja tão maravilhosa quanto eu vejo e saiba que eu tô a um telefonema de distância – Joel disse, antes de dar um beijo em sua testa.
– Eu sempre vou te amar – respondeu, com os olhos fechados, sentindo o toque de sua pele.
Toda a situação era difícil de digerir, para ambos os lados, mas era necessário entender que a felicidade genuína é aproveitar cada momento junto como ele é, apenas viver os instantes no presente e entender que está tudo bem se as coisas acabarem, se foram boas enquanto viveram. O maior amor que Joel poderia oferecer naquele momento era respeitar as decisões de Cíntia, apoiar ela independente da situação. Terminar bem era melhor do que guardar ressentimento, entender que nenhum dos dois havia feito nada de errado, era apenas um processo da vida. Se Cíntia estivesse feliz, Joel se sentiria bem consigo mesmo; era sua única necessidade.
Não é um final de sessão da tarde, mas acaba sendo mais bonito que isso.
FIM.
𝗗𝗘 𝗠𝗔𝗜𝗦 𝗡𝗜𝗡𝗚𝗨𝗘́𝗠 ⇢ 𝟬 𝟬 𝟰
𝟬 𝟬 𝟯 ⇠ ⇢ 𝟬 𝟬 𝟱
Anita acordou com alguém batendo enfurecidamente em sua porta. Esteve no clube até altas horas da noite, porque estavam batendo na sua porta tão cedo? Mal conhecia as pessoas na Argentina, quem sabia onde ela estava morando? Era um cliente querendo as fotos? Quando abriu a porta, um rosto familiar apareceu e Anita o encarou, incrédula.
Seus lábios se partiram em choque, sem que conseguisse reagir. O que Joel estava fazendo na frente de sua porta? Não, com certeza aquela era uma bad trip da noite anterior. Antes de conseguir reagir e fechar a porta novamente, ele entrou furioso no apartamento. Estava igualmente nervoso com aquele encontro, mas vendo a situação da vida da amiga: apartamento bonito, trabalhando com o que gostava, ignorando todos os amigos, não pode deixar de sentir uma raiva genuína.
– Tá todo mundo fodido e você tá aqui? – vociferou, da maneira mais sincera possível. Suspirou. – A gente tem que voltar, Anita.
– Joel... – cerrou as sobrancelhas e balançou a cabeça negativamente.
– Você não sabe o inferno que eu passei até te encontrar.
Teve que realizar uma investigação intensiva até encontrar Anita. Ela não atendia telefone, não recebia os e-mails, não respondia cartas e a única maneira que ele sabia que não seria ignorado seria conversando pessoalmente. Teve que acompanhar sua agenda, seu nome no mundo da fotografia, quais dias estaria em Buenos Aires e exatamente onde morava. Trabalho árduo, mas ele faria isso quantas vezes fosse necessário, se isso significasse levá-la de volta à Imperatriz.
– Eu não aguento esse futuro – sua voz saiu quase como um sopro.
– Eu não mexo mais com viagem no tempo, Joel.
As olheiras em seus olhos haviam envelhecido-o por pelo menos 10 anos. Estava cansado, triste. Carregava esse peso nas costas de que jamais seria feliz novamente depois de tantos meses sem ver Anita, seu subconsciente já havia se conformado em viver naquela realidade tenebrosa. Todos estavam fodidos, mas Joel... sentia as consequências das viagens no tempo. Por que ninguém havia avisado sobre o funcionamento das timelines? Não era possível serem os únicos viajantes do Floguinho. Joel tinha medo de ter bagunçado tanto o tempo que jamais veria sua esposa novamente. Eles tinham estragado tudo.
– Nesse futuro, a Cíntia se matou – admitiu. – Foi há alguns anos, não tinha como eu ajudar. Quando eu acordei na kombi, ela já tinha...
Seu rosto se contorceu, tentando impedir que lágrimas se formassem nos olhos. Anita se aproximou do amigo e colocou uma mão em seu ombro, compadecida.
– Ela sempre teve depressão, mesmo na timeline original, tinha acompanhamento com psicóloga, tomava remédio mas alguns períodos eram piores que outros. A gente sempre se ajudou, eu sempre cuidei dela – respirou fundo e tampou parte do rosto com a mão, pensando no que falaria a seguir.
Era a primeira vez que contava detalhes sobre a separação para algum de seus amigos. Não falava sobre isso; não falava sobre como isso acabaria com qualquer casal, como segurar a mão da esposa na cama de hospital e levá-la para casa depois, sem trocar palavra alguma no carro, o pior sentimento que haviam passado.
– Ela tentou, você sabe – desviou o olhar e encolheu os ombros –, uma vez e depois disso ela nunca mais conseguiu me olhar nos olhos direito. Foi demais pra ela, demais pra mim. Ficava preocupado 24 horas por dia, tratei ela quase como uma criança mas... – suspirou – eu achei que íamos nos recuperar depois, sempre superamos tudo, mas ela foi embora e pediu o divórcio. E aqui eu não... eu não estava com ela, eu não pude ajudar.
Joel havia passado tanto tempo idealizando a vida perfeita, em que ainda estavam juntos e todos os problemas haviam sido superados que mal percebeu que o bom da vida simplesmente vivê-la. Queria que Cintia tivesse essa oportunidade. Não podia ser responsável por sua morte prematura, conseguiria viver assistindo sua vida de longe, através de stories de amigos, mas ela precisava estar ali, respirando o mesmo ar que ele.
– Eu amei ela mais que tudo, ainda amo, mas a dor é minha, de mais ninguém. Eu aceito isso. Não preciso que outros sofram por minha causa, porque eu não aguentei viver separado dela. Eu quero qualquer coisa, eu aceito morar na kombi e trabalhar como mascote pro resto da minha vida, desde que ela esteja viva.
– Joel, eu não posso.
– Não é só a minha vida que ta cagada, ou a da Cintia que não existe mais. Todos os seus amigos tão na merda – suspirou, quase se rendendo à possibilidade de que Anita se recusaria e teria que viver naquela timeline para sempre. – Se você não vai pra Imperatriz por mim ou pelos amigos que você tem lá, volta pra ver a sua casa. Sua mãe colocou a venda e com esse fundo imobiliário comprando tudo, vai saber o que vai acontecer.
Joel balançou a cabeça e respirou fundo. Não tinha mais o que falar e poderia fazer pouquíssimo, agora tudo estava nas mãos de Anita. Se virou para abrir a porta e ir embora, mas sentiu uma mão segurar seu pulso. Se encararam por um momento, os olhos dela atravessando a camada de lágrimas que havia se formado em seus olhos.
Estava decidido, voltariam para Imperatriz.
A viagem de cinco horas de avião, mais duas horas de ônibus se demonstrou de maior desgosto para Anita. Imperatriz se parecia mais com um grande lixão, com a fachada de grande parte da cidade anunciando "VENDE-SE", caçambas de lixo na frente das construções inacabadas e as pinturas completamente descascadas. Caminhões lotados de coisas, pessoas se mudando para fora de suas casas, o próprio IECET parecia vir de uma distopia, com um prédio totalmente abandonado e cheio de pichações.
Os habitantes estavam igualmente fodidos. Carol iria perder o emprego de professora de educação física após o fechamento da escola e tinha seu casamento indo de mal a pior, sequer conseguindo beijá-lo na boca ou se sentir intimista com ele nos últimos tempos. Joel teve que desviar o olhar quando percebeu isso, sentiu sua mão tremer e a única coisa que conseguia pensar naquele momento era o quanto queria que Cíntia estivesse ali para segurá-la.
Henrique estava trabalhando para o fundo imobiliário e tinha sua alma sugada todo dia pelo sistema, tendo abandonado completamente todos os seus sonhos e desejos para conseguir sobreviver. Fabrício e Luiza estavam casados, mas com o relacionamento tão falido que já nem se esforçaram em atuar como um casal feliz; odiavam um ao outro e faziam questão de demonstrar como se sentiam descontentes. Camila era uma ghostwriter, tendo que abrir mão de sua própria identidade para conseguir qualquer dinheiro ainda fazendo o que gostava.
Aquela era a pior realidade que Anita havia visto até o momento. Ao final da noite, foram parar na delegacia após vandalizarem propriedade privada, que acabaram descobrindo ser de Eduardo. O caderno roubado de Joel durante os jogos foi instrumento essencial para esse futuro desprazeroso: havia escrito todos os acontecimentos de 2006 a 2021, fazendo com que o inimigo pudesse fazer apostas e investir em áreas que não pensaria anteriormente. Agora, ele estava acabando com a cidade e com a vida de todos eles.
Quando Joel deu um soco no rosto de Eduardo, fazendo-o cair no chão com o forte impacto. Com essa pequena abertura, Anita saiu correndo em direção a sua casa, na procura de um computador para que conseguisse logar no floguinho.
Anita teria que lidar com a morte do pai novamente. Joel sabia disso e preferiu não se intrometer; estaria ali para o que a amiga precisasse, mas sabia que era algo que ela precisaria enfrentar sozinha. Mesmo durante o primeiro jogo da Copa Mundial de 2006, Anita não estava presente. Os amigos haviam chamado-a para ver se conseguia animar os ânimos, mas ela preferiu ficar em casa com sua mãe e sua irmã, assistindo o jogo em família.
Joel, Fabrício, Fernanda, Cíntia, Raquel e mais alguns colegas do terceiro ano se reuniram na casa de Douglas para assistir o primeiro jogo. A casa era enorme! Fizeram um churrasco e não havia quem não estivesse com uma garrafinha de bebida na mão – os pais do anfitrião fizeram vista grossa para isso já que todos os presentes já bebiam anteriormente e tinham pelo menos 17 anos.
Ficaram horas conversando ao redor da churrasqueira, tendo começado o encontro logo de manhã, considerando que as aulas do dia haviam sido canceladas em toda a cidade. O ar de dia de Copa, principalmente em 2006, era completamente diferente do futuro que Joel havia experienciado e a única coisa que passava por sua mente era agradecer por ter esses pequenos momentos.
Joel se ausentou do grupo para ir ao banheiro, na casinha perto da piscina. Quando a porta se abriu, deu de cara com Cintia, que estava utilizando-o antes do garoto aparecer. Se encararam por alguns segundos, reconhecendo pela primeira vez desde que havia encontrado-o no banheiro de que eles viviam em uma bolha de constante tensão. Ela levou a mão direita em direção ao cabelo de Joel, na tentativa de flertar o mais descaradamente possível. Estava na hora de tomar uma atitude!
– Eu achei que seu cabelo ficou bonito assim, quando parou de pentear pro lado – ela disse, passando a mão pela curvatura dos fios.
Joel foi pego de surpresa e não conseguiu impedir que sua boca se abrisse levemente, como se estivesse de queixo caído. Cíntia deu um sorriso sutil. Ele não precisava dizer nada, estavam conversando apenas por olhares – e nessa timeline, era a primeira vez que faziam isso. Por causa do seu encontro na rachadura do espaço-tempo, estava muito mais tranquilo com o andamento do relacionamento; queria apreciar cada momento, viver como se fosse o último e fazê-la feliz, apenas isso.
Quando Joel finalmente conseguiu pensar no que dizer, murmurinhos começaram ao fundo e se expandiram a um grito de Fabrício, indicando que o jogo iria começar. Tornaram seus troncos para encará-lo e perceberam que os gritos eram especificamente para os dois, mais longe dos outros integrantes do grupo.
– Eu preciso ir no banheiro – Joel disse, finalmente.
Cíntia sabia que aquele não era um fora, ou uma maneira rápida de sair da situação. Não se preocupou. Balançou a cabeça e deu um passo para o lado, permitindo que o garoto entrasse no banheiro. Em seguida, se juntou ao grupo já dentro da sala de estar.
– Só cuidado pra não derrubarem cerveja no sofá – Douglas avisou e os colegas riram, se mobilizando para dentro da casa.
Alguns se sentaram no chão e outros se espremeram em cima do sofá, que mesmo grande ainda não era capaz de acomodar aquele número de adolescentes. Cíntia se sentou mais ao meio, ao lado de Fabrício, mas esse se levantou quando viu Joel voltar do banheiro e recebeu um cutucão de Raquel, fazendo com que sentassem lado a lado. Fabrício e Raquel estudavam na mesma sala desde o ensino fundamental, mas foi apenas por causa de Cíntia e Joel que tiveram sua primeira verdadeira interação, em um esquema de "Operação Cupido".
Cíntia e Joel estavam tão perto; as pernas coladas uma na outra por causa do espaço do sofá, conseguaim até sentir o pelo dos braços um do outro. Às vezes se olhavam de canto de olho, mas não ousavam se afastar.
O time era incrível! Ronaldinho, Ronaldo Fenômeno, Cafu, Roberto Carlos e Kaká, com seu incrível gol contra a Croácia no primeiro jogo. Todos gritaram, vibraram e até levantaram de seus lugares para darem pulos de alegria. Ainda estavam assistindo a fase de grupos, mas não deixava de ser igualmente emocionante.
– Tá vendo? O Brasil vai ganhar – Cíntia falou, convencida.
– É, acho que vou acabar perdendo a aposta – Joel disse, suspirando com um balançar de cabeça. Tentou reprimir o sorriso que formava em seus lábios.
Também se reuniram na casa de Douglas para verem os outros jogos; sempre com bebida, comida e muito ânimo torcendo pelo time. E com o desempenho excepcional da seleção na fase de grupos e nas oitavas de final, até mesmo Joel começou a considerar que ganhariam o hexa naquele ano. Afinal, quem poderia afirmar que todas aquelas viagens no tempo não haviam causado um efeito borboleta extremo que levaria a França errar o gol? Esse era exatamente o princípio da teoria do caos.
Na quermesse, feita ao final do mês de junho, Cíntia estava com um vestido de caipirinha típico das festas juninas de Imperatriz. Havia dividido o cabelo em uma maria chiquinha e feito aquelas maquiagens com pontinhos na bochecha. Raquel estava sentada ao seu lado, vestida de noivinha, esperando Douglas aparecer para dançarem como um par na quadrilha, como escolhidos pelos outros alunos do terceirão.
– Que foi? – perguntou, percebendo o desânimo de Cíntia.
– Você acha que o Joel e a Anita tão saindo? Tô achando eles tão grudados... – desviou o olhar da amiga para os dois
– Ela sempre usa a mesma roupa, não parece? – Raquel comentou para tirar uma risada da amiga e deu certo. De fato, parecia que Anita só usava aquela camiseta de flanela vermelha e uma blusa cinza por baixo, com símbolo de qualquer banda.
Porém, o sorriso de Cíntia não durou muito e ela voltou a ter o semblante triste de antes. Tinha medo que o tempo de ação tivesse passado e ele já estivesse em outra. Justo agora que ela estava começando a entender seus próprios sentimentos? Mordeu a parte interna da bochecha e equilibrou o pé em cima do salto da bota, tentando se distrair em sua própria ansiedade.
Raquel não havia ouvido nada novo de Fabrício e, se Joel tivesse ficando com outra garota, seria uma das primeiras pessoas a saber.
– Por que você não toma uma atitude hoje? – Cíntia virou seu rosto assustada. Por que a amiga estava sugerindo isso?
– E se eu passar vergonha? Ele falar não...
– Você só vai saber se tentar.
Cíntia afirmou com a cabeça. Se levantou da mesa e rodou a festa algumas vezes, tentando criar coragem para chegar em Joel. Mas o que diria? "E aí, vamos beijar?", "Tô afim de você, o que vamos fazer quanto a isso?" ou simplesmente ficaria parada na sua frente sem conseguir responder? Quando respirou fundo e criou coragem, o seguiu até mais ou menos de trás do palco, antes de ouvir a Professora Beth gritar com ele sobre estar tentando trapacear o sorteio.
Joel não faria isso, com certeza não. Mas então o que estava fazendo? Cíntia apenas chegou a vê-lo novamente quando o sorteio do computador aconteceu – e o que Eduardo estava fazendo na escola? Não conseguia entender qual era a ligação com aquele caderno e porque ele, Anita e Joel saíram correndo pelas ruas, fora da festa, e seus amigos entraram em uma quase luta corporal contra os amigos de Eduardo.
Tudo aquilo era muito estranho. Não pude deixar de trocar um olhar arregalado com Raquel, rindo à distância. Se ela achava que sabia alguma coisa de Joel, com certeza não achava mais – mas sabia que Fabrício tinha a feição igualmente confusa, então aquilo era definitivamente uma novidade.
Em algum momento posterior, Joel havia voltado e jogado o caderno na fogueira. Estava conversando com Anita, mas não pareciam próximos de maneira romântica, apenas amigos... ou, pelo menos, Cintia esperava que fosse isso. Novamente respirou fundo e se encheu de toda a confiança que havia em seu corpo para abordá-los naquela situação. Deu uma acenada de cabeça para Anita e um sorriso, cumprimentando-a, então virou seu rosto na direção de Joel. Agora ou nunca, pensou.
– Eu tô cheia de curiosidade pra saber o que aconteceu, mas primeiro eu queria saber se você quer dançar quadrilha comigo – falou, decidida.
Mal piscava, esperando uma resposta. Ouviu Anita sussurrar um "vai lá!"antes de bater no ombro do amigo e empurrá-lo para fora da arquibancada. Joel sorriu e segurou na mão de Cíntia, arrastando-a para a pista de dança. Ambos exibiam um sorriso radiante no rosto.
Raquel e Douglas eram os primeiros da fila, puxando a quadrilha como os noivos. Alguns outros casais reconhecidos eram formados e outros um pouco inusitados também, mas todos se divertiam muito na dança e nas brincadeiras. Cíntia e Joel não conseguiam tirar os olhos um do outro, completamente entregues ao momento, aproveitando os braços dados e os sorrisos envergonhados que davam.
Depois do chilique dado pela Professora Beth e o depoimento motivacional apresentado pela irmã de Fabrício, a banda de Bruna, Henrique e Fagulha subiu ao palco para se apresentarem. Cíntia puxou Joel pelo braço para trás do prédio principal, antes de parar bruscamente numa área menos iluminada e colocá-lo de costas para a parede.
Para alguém que mal sabia se conseguiria chamar o garoto que gostava para dançar naquela noite, Cíntia estava se sentindo extremamente confiante naquele momento.
– Tá tudo bem se eu te beijar? – perguntou, olhando-o de baixo para cima com aquele olhar pidão que dava sempre que queria alguma coisa.
– Mais que bem – Joel respondeu, igualmente entusiasmado.
Joel, que por todos esses dias revivendo sua adolescência, teve pressa ao tentar adiantar seu relacionamento com Cíntia, sentiu que tudo se movia em câmera lenta naquele momento. A ansiedade de saber se o beijo vai ser bom, a sensação do toque na pele, o encontro dos lábios de quem ama e a eletricidade que se forma na movimentação dos corpos. Naquele momento, tinham todo o tempo do mundo. Todas as horas que Joel tinha eram dela, sempre foram; e, mesmo que não dessem certo no futuro, preferia percorrer aquele caminho apenas pela alegria de ser, de aproveitar aquele momento ao seu lado.
Se separaram com um sorriso no rosto. Cíntia mordeu o lábio inferior e passou o nariz pela bochecha de Joel, na mesma linguagem corporal que exibiria anos depois ao seu lado. Um riso fraco apareceu na garganta dele.
– Mas a gente é só amigo, viu? – Cíntia disse.
Ele envolveu sua mão por trás da nuca dela, fazendo com que ela jogasse a cabeça para trás. Não estava triste ou enraivecido pela ação de desconfiança, ela era jovem e tinha a maturidade de uma, de quem tem ressalvas quanto a relacionamentos e desconfia que a outra pessoa possa gostar verdadeiramente dela.
– Eu aceito ser "só seu amigo" – fez aspas com uma das mãos – se for desse jeito.
Cíntia sorriu e o beijou novamente. Estava feliz.
Pensando demais se eu vou fazer o final ser triste avassalador ou feliz…
comecei a escrever o último capítulo e eu ainda não decidi :)
𝗗𝗘 𝗠𝗔𝗜𝗦 𝗡𝗜𝗡𝗚𝗨𝗘́𝗠 ⇢ 𝟬 𝟬 𝟯
𝟬 𝟬 𝟮 ⇠ ⇢ 𝟬 𝟬 𝟰
O evento durou 3 dias, de quinta a domingo. Cíntia jogou vôlei, futsal, basquete e até conseguiu duas medalhas de prata na natação, nado livre e costas. Afinal, sem preparação alguma, quem conseguiria vencer no nado borboleta uma escola treinada com 12 anos de vitória consecutiva? Cíntia tinha certeza que a treinadora apenas havia inscrito-a para que não perdessem por desistência.
Queria que aquilo não tivesse afetado tanto sua auto estima. Sabia que era ótima em outros esportes e tinha conseguido prata contra outros oponentes que haviam treinado muito antes de sequer pensarem na competição. Um dos colégios tinha até um olheiro que escolhia alunos pro estadual! Não era um sistema tão meritocrático, Cíntia reconheceu isso, mas mesmo assim ficava cabisbaixa enquanto tomava banho e desembaraçar seu cabelo.
Nossa, seu cabelo! Deveria tê-lo trançado antes de ir para os jogos. Estava acostumada a seguir seu próprio cronograma capilar, levando horas entre o shampoo, máscara, condicionador, creme, gelatina e fitagem com a escova, mas se esqueceu que durante os jogos eram dezenas de alunos querendo utilizar o mesmo banheiro. Odiava deixar o cabelo preso, mas era o jeito. Fez tranças boxeadoras e esperou que aquilo fosse o suficiente até domingo à tarde, quando finalmente voltaria para casa.
Mal podia esperar os jogos de domingo. Estavam na final do handebol, a qual estava presente como reserva. Não fazia parte da equipe principal, mas havia sido chamada para aumentar o número de participantes, mesmo que ficasse apenas observando na maioria dos jogos.
O jogo contra o Betim Comid havia sido um dos mais fáceis da equipe. Contra o Santa Dorotéia, houveram alguns posicionamentos errados e desestabilidades emocionais causadas pela torcida da outra escola, o que fez Carol errar vários arremessos e ter que ser substituída por Cíntia. A equipe ganhou da mesma maneira, por 8 a 7. Um pouco de sorte, habilidade e principalmente aquele empurrãozinho final que foi Joel cantar com a torcida. Todos estavam precisando disso.
No período da noite, Cíntia e Raquel estavam conversando sentadas nas arquibancadas do pátio, perto daquele mini campo de futebol em que outras três pessoas estavam deitadas olhando as estrelas – se é que havia alguma no céu. De longe, conseguiram ouvir aquela risada específica e, ao virarem o rosto, encararam seu dono: Eduardo.
– Sentiram saudade, meninas? – perguntou, abrindo um sorriso.
Raquel revirou os olhos e se levantou, dando uma batidinha na calça para tirar o pouco de sujeira que havia grudado. Cíntia fez o mesmo e ambas desceram da arquibancada.
– Eu vou entrar – Raquel disse.
– Vou depois – respondeu, sem tirar os olhos do garoto.
Ao descer o último degrau da arquibancada, Eduardo lhe estendeu a mão para auxiliá-la. Cíntia aceitou e desceu, ficando definitivamente mais baixa que o ex colega de sala. Deu dois passos para o lado, indo mais para trás da arquibancada e ele a seguiu.
– Jogou bem hoje, depois que a Carol deu aquele piti – ela revirou os olhos.
– Você calado é um poeta.
– Você sabe como me calar – arqueou as sobrancelhas sugestivamente e deu um sorriso malicioso.
Cíntia se manteve parada, de braços cruzados, ao vê-lo se aproximar, deixando-a com as costas colada no ferro da arquibancada.
– Eu te acho insuportável.
– Eu nem estudo mais aqui, você não vai ter mais que me ver depois dos jogos – ele respondeu, porque sabia o que falavam dele na escola.
Se ela quisesse ceder ao momento, beijar um cara gatinho, ele estava dando todas as argumentações corretas; não o veria mais depois do próximo jogo e ninguém ia ficar sabendo que haviam beijado ali atrás. Cíntia tombou a cabeça, fazendo um charme e mordendo o lábio inferior, antes de dar um sinal afirmativo com a cabeça, para que ele se abaixasse.
Antes que conseguissem se aproximar mais, uma luz forte bateu em seus rostos e os gritos estridentes da Professora Beth foram ouvidos, fazendo ambos espremerem os olhos antes de se dispersarem, cada um para um lado. Joel estava esperando não muito longe dali, sendo ele o responsável por avisar Professora Beth de que dois alunos estavam ficando atrás das arquibancadas – apenas esperava ter chegado a tempo de impedir os acontecimentos.
Quando viu Cíntia passar ao seu lado, engatou seu braço no dela, acompanhando seu andar.
– Você não ficou com ele, né? – perguntou.
– Com quem?
– Ora essa, "com quem"? – repetiu de maneira sarcástica e a encarou frente a frente. – Você não pode ficar com o Eduardo.
– Por que não? – franziu a sobrancelha. – Pera, como você sabe disso? Você tava me espionando? – desentrelaçou os braços e deu um passo para o lado. Seus olhos se arregalaram levemente, como se tivesse tido um insight, e depois os comprimiu novamente. – Foi você que falou pra Beth interromper a gente?
– Eu estou tentando cuidar de você, do seu futuro. Me escuta, ficar com ele ia ser um erro terrível e você ia se arrepender disso quando olhasse pra trás.
– Eu não preciso que você cuide de mim, Joel! Para de falar como se fosse meu pai – ordenou com a voz levemente agressiva.
Quem Joel pensava que era para determinar o que ela podia ou não fazer? O que era aquilo? Ciúmes? Eram amigos, só isso. Não podia tratá-la como uma concha vazia que não detêm vontades e desejos próprios.
– Boa noite – respondeu, séria, antes de caminhar para dentro do prédio.
Deixou-o sozinho, pensando naquele "boa noite". Estava com um tom tão monótono quanto da última vez que conversaram ao telefone tarde da noite, quando ele pediu para que ela contasse sobre seu dia. Pelo menos, dessa vez, havia se despedido, mesmo que com um olhar de desgosto no rosto.
Já no quarto, depois de colocar seu pijama, se enfiou no meio de suas cobertas no colchão ao lado de Raquel, que abaixou o livro que estava lendo apenas para ouvir o drama da amiga. Contou sobre os acontecimentos desde que Raquel havia saído da arquibancada e esta ouviu tudo calada, pois sabia que sua opinião seria certeira.
– Eu nem queria tanto ficar com o Eduardo, mas o Joel... sei lá. Por que ele – Cíntia enfiou o rosto no travesseiro e apenas alguns grunhidos saíram.
– Você gosta dele, sabe que ele gosta de você e não se decide – a fala de Raquel fez com que a outra virasse seu rosto para encará-la, apoiada no travesseiro.– A única pessoa que tá empacando algo é você.
– Eu não sei disso – respondeu de maneira manhosa, desviando o olhar.
– Você guardou todos os poemas que ele te escreveu – Cíntia não respondeu, se sentia um pouco envergonhada de ter essas informações sendo jogadas na sua cara. – E aceitou sair com ele caso o Brasil perdesse na Copa.
– Não vamos perder – respondeu, na defensiva.
– Mas você pensou sobre como seria sair com ele e não achou negativo, você aceitou sem pensar muito – ficou em silencio por um momento, ponderando se continuaria seu argumento. – Você sabe que o Eduardo não presta e mata ele todas as vezes que brincamos de "casa, beija ou mata". Não acha que pensou em ficar com ele porque não quer admitir que pode estar gostando de verdade de outra pessoa?
– Acho melhor a gente dormir, tem jogo amanhã – Cíntia disse, antes de virar para o lado contrário da amiga e se cobrir com o lençol até a cabeça.
– Você adora se autossabotar e odeia quando eu tô certa – Raquel disse, por fim, convencida.
Ela estava certa, quase sempre estava. Por que era tão difícil para Cíntia admitir que realmente gostava dele? Que não estava entendendo a situação de maneira equivocada? Preferia não pensar muito, empurrava para baixo do tapete, tratava pessoas boas de forma negativa para que saíssem de sua vida e pudesse culpar só a si mesma e continuar num eterno sofrimento. Era jovem e, como jovem, tinha tantos problemas de identidade e autoestima que as vezes se cegava inconscientemente, sem acreditar que merecia coisas boas – como um relacionamento com o garoto que adorava. Cíntia tinha seus problemas, todos mundo tem.
Precisava descansar, tinha um jogo no dia seguinte.
E que jogaço! Carol demonstrou sua pontaria deslumbrante ao arremessar uma bola na cara de Eduardo, que estava zuando-na por ter levado uma camisinha para os jogos. Porém, em seguida, foi expulsa da quadra e imediatamente substituída pela estudante estrangeira que ninguém sabia dizer o nome direito. Cíntia estava sentada no banco de reservas rindo quando viu Eduardo sair da torcida com seus dois duendes seguidores – não sabia seus nomes e não queria saber. Cruzaram olhares e as feições do garoto mudaram de raiva para uma completa humilhação, o que fez com que ela parasse de rir e voltasse a encarar o jogo.
Eduardo seguiu para o banheiro, queria que seus amigos parassem de falar para que pudesse sofrer um pouco em paz. Ele se odiava e queria que outros se odiassem também; sabia que não era boa pessoa, mas ainda tinha sentimentos.
– Já falei que nem doeu, mano – respondeu para os garotos insistentes, que perguntavam várias vezes se ele estava bem.
Quando viu Joel no reflexo do espelho, sabia quem seria o próximo alvo de sua ira. Estava com a roupa de mascote na metade e uma língua afiadíssima, seria melhor se tivesse ficado quieto.
– Ih o valentão apanhou? Será que agora cê aprende? – riu.
A face sarcástica de Joel se converteu em apreensão quando sentiu a mão de Eduardo engatar em sua nuca, aproximando o rosto dos dois. Sempre havia olhado para cima quando precisava falar com Eduardo, mas agora a situação era muito mais desesperante, com a mão do outro puxando-o para baixo e mais perto, ao mesmo tempo. Uma tentativa juvenil de mostrar dominância, mas ainda extremamente eficaz.
– Eu não aprendo – sussurrou com a mandíbula fechada e socou o garoto no estômago.
Joel caiu no chão em posição fetal pela dor, se contorcendo no chão na tentativa de se proteger fisicamente e impedir que os amigos de Eduardo tirassem sua roupa. Pediu para que "Edu", apelido que não usava a meses, parasse de olhar seu caderno e deixasse tudo dentro de sua mochila – o que, na verdade, ele sabia que eram pedidos em vão. Eduardo se aproximou do corpo esticado de Joel no chão, agora com a mochila que continha seus cadernos e roupas na mão.
Eduardo pensou que Joel merecia. Sim, merecia. Sempre que ele curtia de alguém, Joel estragava tudo; havia ouvido sua conversa com Cíntia na noite anterior, sabia que era ele que havia empacado a ficada entre os dois. Quando estava saindo com Fernanda, foi ele que contou sobre o caso com Carol e o plano de Fabrício e Anita. Ele também merecia alguém – mesmo que fosse um merda, merecia alguém. Além disso, havia abandonado-o. Fabricio e Joel haviam deixado-o sozinho depois que foi expulso. Ninguém o ajudou.
– Quem ri por último, ri melhor. Otário – falou, antes de desferir um chute no estômago de Joel.
Novamente voltou para a posição fetal, sendo deixado no chão do banheiro totalmente humilhado. Sentiu o gelado do piso e respirou fundo, pensando que pelo menos havia ido de samba canção ao invés de usar uma cueca apertada. O que faria em seguida? Não podia sair pela escola praticamente pelado, esse com certeza seria o novo pior dia da sua vida.
Quando o jogo terminou, todos comemoraram juntos, pulando na quadra, mas um pensamento não deixou de passar pela cabeça de Cíntia: onde estava Joel? Correu os olhos pela fanfarra, pelos grupos na arquibancada e em nenhum lugar encontrava o mascote felpudo que até o momento desconhecia o animal. Pensou um pouco e não se recordou de tê-lo visto durante o jogo.
A última vez que havia falado com Joel, ele estava indo ao banheiro se trocar. Cíntia pensou que isso já fazia muito tempo para que estivesse no mesmo lugar, mas não sabia outro lugar para começar a procurar – e por sorte começou por lá, já que encontrou Joel apenas de samba canção andando de um lado para o outro.
– Joel?
– Meu deus, que bom que você apareceu! – em um impulso rápido, abraçou a amiga. Cíntia ficou parada, um tanto surpresa com a situação.
– O que aconteceu? – deu um passo para trás, tentando ter um panorama maior para compreender a situação.
– Eles levaram minha bolsa e minhas roupas.
– Quem?
– Eduardo e os amigos dele.
Cíntia tentou manter-se séria para não encarar o corpo semi-nu de Joel, mas não pôde deixar de reparar a vermelhidão na sua barriga que provavelmente se desenvolveria em um grande hematoma na manhã seguinte. Joel percebeu o que ela estava encarando e tentou se esconder com a mão.
– Foi ele que fez isso?
– Eu disse que ele era má pessoa...
Cíntia piscou algumas vezes antes de afirmar com a cabeça, em movimentos curtos. Ainda estava em um estado de choque com o acontecimento; sabia que Eduardo não era flor que se cheirasse, mas não imaginava que desceria ao nível de agressão. Se aproximou de Joel e o abraçou novamente, por um segundo, deixando que acariciasse seu pescoço.
– Eu vou pegar uma roupa pra você – sussurrou.
Aos poucos, Joel parou de sentir seu toque. Tentou movimentar seu corpo em busca de sua mão; estava vulnerável e queria carinho, ela estava dando carinho… até não estar mais. A luminosidade ressonante do ambiente fez com que Joel tivesse dificuldade para continuar de olhos fechados. Onde estava? Parecia estar com um flash em seu rosto ou lanternas super potentes apontadas para si. Abriu os olhos lentamente ao seu acostumar com a luz local, observando primeiramente o vazio que o cercava.
Estava deitado em uma cama, conseguia senti-la fofa embaixado de seu corpo. Olhando para frente, também percebeu uma televisão em cima do móvel de madeira planejado. O chão era de taco claro e não tinha marcas de arranhões; no canto, uma caminha de cachorro com brinquedos espalhados e uma coberta totalmente mordida e babada. Estava no seu quarto, na cobertura? Não era real, parecendo que estava cercado por uma ilha de luz em um enorme vazio, mas era uma imitação perfeita de sua casa.
Se sentou na borda da cama e suspirou. Que lugar era aquele? Por que estava ali? Quando sentiu o outro lado da cama desnivelar com a mudança de peso, se virou para encarar quem tivesse aparecido ali.
Era ela. Cíntia. Havia passado tanto tempo interagindo com ela adolescente e estava sem vê-la desde o divórcio que sentiu-se encarando um fantasma. Era uma alucinação? Levou sua mão até a bochecha da amada, passou a outra pelos seus cabelos enquanto tomava cuidado para não desmanchar o penteado. Conseguia tocá-la, sentia sua pele na dele – e a quanto tempo não fazia isso!
– É você de verdade? – ela deu de ombros, sorrindo. – Como eu interpreto isso?
– Como você quiser.
– É a minha última vez viajando no tempo?
– Não sei. Vai ser?
– Por que você não me responde com "sim", "não"? Sabe, coisas mais objetivas.
– Tem realmente algo objetivo em tudo isso?
Joel se levantou da cama. Deu uma volta em volta da cama, antes de parar na frente da cômoda da televisão. Abriu uma das gavetas, vendo exatamente todos os itens de vestimenta que costumava guardar ali. Haviam dividido: o guarda roupa era dela, a cômoda dele. Tudo estava perfeito, exatamente como era antes.
– Isso é um buraco de minhoca? Ou eu morri? A Anita nunca disse que eu corria risco de vida viajando no tempo – sua expressão era de estranheza, as sobrancelhas juntas de confusão.
Cíntia se levantou da cama e foi até Joel. Envolveu os braços ao redor de sua cintura e levou seu corpo para perto do dele, apoiando a cabeça em suas costas.
– Você é tão lindo – sussurrou e Joel teve que respirar fundo com o ato , era exatamente o que costumavam ficar. – Eu nunca quis que fossemos infelizes para sempre.
O comentário o pegou desprevenido. Soltou um suspiro de dor e seu rosto se contorceu junto, o retirando do abraço para que pudesse encará-la frente a frente. Cíntia permanecia calma, com o olhar aberto e brilhante, completamente ao contrário de seu ex marido, que suplicava por qualquer piedade.
– O que eu tenho que fazer pra gente ficar junto? – perguntou, passando a palma das mãos pelo braço da amada, em um gesto de carinho.
– Você sabe que essa não é a pergunta.
– E qual a pergunta? – franziu o cenho, se abaixando para ficarem na mesma altura.
Cíntia tombou a cabeça para o lado direito e foi sua vez de passar a mão pela bochecha de Joel. Acompanhou com os dedos a extensão de sua barba, o desenho de sua orelha, passou a unha pela carótida e o sentiu arrepiar pela ação. Joel fechou os olhos, aproveitando o toque recebido. Poderia ficar ali para sempre.
– O fato de não ficarmos juntos em outras timelines significa que aquelas em que ficamos são mais especiais ainda – respondeu ainda de olhos fechados. Essa não era a pergunta ou a resposta referenciada pela amada, mas precisava dizer isso a ela.. – Eu não vou desistir dessas timelines especiais.
Cíntia deu um sorriso triste.
– Se você me despir de quem eu sou, ainda continua sendo eu? – tombou a cabeça para o lado contrário. – Talvez nem tudo seja sobre você.
Não havia parado para pensar sobre como havia tirado todas as memórias favoritas que ela tinha sobre o casal. Só porque não haviam dado certo, a história que tiveram não tinha sido importante? Ficaram juntos por tanto tempo e grande parte da linguagem do casal havia sido moldada por isso. Acabar com suas felicidades compartilhadas, criadas de maneira genuína, era uma justificativa plena para permanecerem juntos?
Cíntia se aproximou de Joel e selou seus lábios nos dele. Foi leve, macio e tinha gosto daquele gloss de morango que ela usava para hidratar a boca. Percebeu o piscar de luminosidade à sua volta e, quando abriu os olhos, percebeu que estava novamente dentro daquela kombi toda cagada. Soltou um grito de raiva e bateu no volante, ativando a buzina e fazendo todos os pombos da rua voarem assustados.
Anita havia resolvido voltar justo naquela hora? E sem avisar Joel? Ainda estava morando naquela kombi horrível e, ao olhar para o lado, percebeu a fantasia de mascote que esperava para ser usada. Sacou o celular do bolso, como havia feito da última vez e procurou por "Amor", sem resultados; buscar "Cíntia" nos contatos e no whatsapp também não surtiu o efeito desejado. Precisava saber o que havia acontecido com ele nos últimos anos, com Cíntia, Anita e todos os seus amigos.
𝗗𝗘 𝗠𝗔𝗜𝗦 𝗡𝗜𝗡𝗚𝗨𝗘́𝗠 ⇢ 𝟬 𝟬 𝟮
𝟬 𝟬 𝟭 ⇠ ⇢ 𝟬 𝟬 𝟯
Joel e Anita combinaram de postar uma foto no Floguinho naquela mesma tarde, fazendo com que ambos aparecessem em 2021 instantes depois.
– QUE MERDA! – Joel gritou, dentro de uma kombi.
Que porra era aquela? Aquele era seu carro? Olhou pelo retrovisor interno da kombi e percebeu o quão lotada estava; desfez o cinto e virou o tronco para trás, encarando as mais diferentes roupas jogadas e peças de casa que poderiam caber dentro do local. Estava morando dentro daquela kombi? NÃO. Onde estava a cobertura? Sua IPA? Bono? Prendeu a respiração e procurou nos bolsos pelo celular.
Pesquisou por "Amor" no aplicativo de chamadas, mas nenhum nome apareceu. Tentou mudar a pesquisa para "Cíntia" e, novamente, nada. Bateu o pé algumas vezes no piso do carro, sussurrando "pensa, pensa" para si mesmo. O que não estava vendo? Abriu o Whatsapp e procurou pelo nome, percebendo que tinha uma conversa com a garota, mas sem o contato salvo.
Em que realidade catastrófica eles estavam tão mal que ao menos tinham o contato um do outro? Por que o DDD era 31? Ela morava em Belo Horizonte? Que merda era aquela, sempre moraram juntos em São Paulo.
+55 (31) 99*******: Joel, a gente pode conversar?
+55 (31) 99*******: Por favor
Joel: você é casada
Joel: a gente não deveria ter transado
Joel: esquece disso e não me manda mais mensagem
+55 (31) 99*******: Foi você que veio atrás de mim
+55 (31) 99*******: Quer saber, vai se fuder
Os olhos de Joel se arregalaram. A conversa inteira tinha 7 mensagens e datava de um ano antes; nenhuma outra contribuição havia sido feita ou, se tinha, havia sido excluída. Ele pediu para que ela não mandasse mais mensagem e ela respeitou seu pedido. Mas que porra era aquela? Seu estômago embrulhou, ela estava casada com outra pessoa. Ele era amante? Não, nem mesmo tinha aceitado aquela posição. Foi só uma vez.
Essa realidade era pior que a outra. Passou a mão no rosto e dirigiu em direção a sua antiga cobertura. Morava no mesmo prédio de Anita. Ela ainda estaria lá? Precisavam voltar ao passado e resolver tudo aquilo. Quando estacionou, a amiga estava descendo as escadas.
– Pode me explicar o que tá acontecendo? – pediu pelo vidro aberto.
Anita não perdeu tempo antes de abrir a porta do passageiro e entrar na kombi, mandando ele sair dirigindo. Colocou o cinto de segurança enquanto Joel ligava o carro. Aquilo tudo parecia um pesadelo.
– Que merda é essa, Anita? Eu acordei dentro dessa kombi toda cagada e a Cíntia tá casada com outra pessoa – tentou dar de ombros, mas sem tirar as mãos do volante.
– Acontece que você mudou o presente – bufou antes de mostrar que seu dedo anelar ostentava um anel maravilhoso – e eu vou casar com o Fabrício. Bem vindo à nova realidade!
– Eu que mando poema e você que casa? – comentou sarcástico antes de rir de nervoso.
O rosto de Joel se contorceu em dor, mais psicológica mas igualmente física. Tinha um cansaço inato que carregava desde o divórcio e saber que sua mulher estava casada com outra pessoa na realidade que ele havia alterado para conquistá-la, talvez fosse demais para ele.
Para piorar, agora ele morava em uma kombi.
– Você falou que ia arrumar tudo – reclamou.
– Eu achei que ia… – Anita tentou se defender e tirou o celular do bolso.
Começou a passar as imagens do Instagram, procurando qualquer novidade sobre seus amigos. Henrique estava em uma banda de rock, iria fazer show em Taubaté e agora estava casado com Carol. Luiza havia bloqueado a irmã mais nova e Cíntia…
– A Cíntia casou com o Eduardo? – Anita perguntou mais para si mesma do que para Joel, surpresa com a informação. Porém, ele foi igualmente surpreendido.
– O QUE? – freiou a kombi com tudo.
Ambos foram levemente lançados para frente e Joel pegou o celular da mão de Anita. Não, não, não. Não iria aceitar aquilo. Na foto, Eduardo e Cíntia estavam na praia, segurando drinks caprichados, com a localização em algum resort que Joel nunca havia ouvido falar. Estavam comemorando bodas de madeira! A legenda era longa, o que fez Joel apenas passar os olhos por cima para adquirir as principais informações: estavam juntos a 5 anos, se faziam mais felizes a cada dia, blá blá blá, não acreditavam que uma simples ficada nos jogos interescolares de Imperatriz daria nisso.
Deu um soco no painel do carro, o que fez Anita se retrair de susto.
– QUE MERDA – passou a mão no rosto. – Eu achei que tinha deixado tudo certo com os poemas e as indiretas… pra no final ela ficar com o Eduardo? Aliás, como isso foi acontecer?
– Precisamos voltar – Anita disse e Joel confirmou com a cabeça.
– Acho que vi um notebook velho ali atrás.
A vida de ambos estava um pesadelo atrás do outro, de todos os seus amigos também. Aquela realidade era um verdadeiro pesadelo! Joel queria acordar e ainda estar envolto nos braços da esposa, com o ar condicionado ligado e os dois de conchinha no meio das cobertas, para que pudessem se esquentar ainda mais. Suspirou. Nessa realidade ela estaria assim com Eduardo… ou com algum outro amante que não fosse Joel.
Seriam infelizes em todas as realidades?
– Você acha que isso liga? – Anita perguntou, olhando o notebook velho e pesado.
– Vai ligar.
Sua voz saiu com um misto de assertividade e raiva. O notebook iria ligar, nem se tivessem que conectar a bateria do carro para trazê-lo de volta à vida. Aproveitou que já estava com o carro parado e foram até o bar na frente, um tanto esquisito mas com energia o suficiente para que colocassem o computador conectado a uma tomada. Era tudo o que precisavam antes de acessar o Floguinho.
Em segundos, estavam novamente na casa de Anita, no exato tempo e lugar de antes de partirem. Anita não entendia porque os dois estavam viajando juntos, totalmente conectados, mas Joel parecia mais confuso ainda do porquê era tão difícil fazer com que Cintia ficasse com ele. Foi tão fácil da primeira vez… conseguia lembrar dos toques da sua pele subindo pela barriga de Joel, sua risada contagiante sempre que Joel fazia uma piada meia boca, sabia até o número do batom que ela gostava de usar.
Foi fácil até não ser mais.
– E agora? Como a gente se livra daquele futuro? – Joel questionou, tentando não se ater muito às memórias do que havia acontecido naqueles poucos momentos.
– Consertando as coisas por aqui – Anita respondeu e ele afirmou com a cabeça.
Sem pensar muito, Anita pegou um quadro que usava para prender as fotos de seus amigos e tirou todas, deixando algumas no canto para que fossem usadas na elaboração do projeto. Era uma artista, preferia que os planos fossem mais óticos e didáticos. Joel passou a anotar as questões debatidas em seu caderno, para que pudesse estudar depois o plano.
Henrique precisava sair da banda e encontrar Anita em Paris. Carol deveria ficar com Douglas. Camila não podia desistir de escrever. Luiza precisava voltar para casa e ficar com o Fabrício – por mais que Anita não tivesse muita certeza da última parte, ainda um pouco mexida com o beijo e os toques recebidos em seu noivado de momentos. Cíntia precisava ficar com Joel.
– Você lembra quando começou a ficar com ela? – Anita perguntou, na tentativa de estabelecer um fluxo temporal parecido ou, pelo menos, tentar reverter o que haviam feito de errado até agora.
– Na timeline original, a gente ficou algumas vezes depois que terminamos o ensino médio, quando voltávamos pra Imperatriz: aniversário do Fabrício, Ano Novo, essas coisas, mas foi só quando deu um problema na minha empresa e ela foi me ajudar que eu chamei ela pra sair… ela tinha acabado de se formar em direito.
Anita franziu a sobrancelha. Tudo aquilo aconteceria mais para o futuro, e ela não sabia muito bem como poderia ajustar o presente para que continuassem casados. Porém, pior ainda, foi o sentimento estranho e insistente que apareceu ao fundo do seu cérebro: independente do que fizessem, tudo entre os dois estava acabado. Aquela não era a "timeline original", na verdade, na timeline original, Joel estava sozinho no casamento – seja por já terem se divorciado ou por nunca terem ficado juntos, Anita não se importou em perguntar na época.
As feições de confusão e tristeza deixaram Joel um pouco ansioso. Por que Anita não falava nada? O que estava pensando?
– Eu já ferrei tudo por aqui, né? – perguntou.
– Não, não – balançou a cabeça. – Vamos por partes… a gente pode interromper a ficada da Cíntia e do Eduardo nos jogos.
– Isso! – escreveu em seu caderno – E eu preciso ganhar o meu computador na quermesse, porque vai ser assim que eu vou aprender computação, conseguir meu primeiro emprego e voltar a ter minha cobertura.
– Ta mesmo pensando na sua cobertura, Joel? – Anita riu.
– Não era você que tava morando em uma kombi – mostrou a língua.
Em seu caderno, escreveu o número "42 = apostar na quermesse para ganhar o computador". No fundo, aquele era o jeito de Joel manter a casa que moraram durante 7 anos – tinha tantas memórias nela! Todos os filmes que assistiram sentados no sofá, os lugares que transaram, as refeições que faziam juntos, as reuniões de amigos na casa, a mudança ocasional de móveis que Cíntia adorava fazer e o cantinho de Bono.
A residência era mais do que um simples domicílio; era um sinalizador que Cíntia poderia voltar a hora que quisesse, ele estaria ali.
– Tá escrevendo o que aí? – uma voz perguntou.
Joel olhou para cima e fechou um dos olhos, protegendo-se da incidência da luz direta do sol em seu olhar. Sabia que era Cíntia pela voz, mas apenas conseguiu observá-la quando esta se abaixou para se sentar ao seu lado.
– Nada – respondeu, fechando o caderno rapidamente.
– O que é? É segredo? – riu. – Vai, me conta! A gente é amigo.
A sua risada era tão contagiante que fez com que Joel também abrisse um sorriso no rosto. Cíntia havia fisgado-o. Usou de sua fraqueza momentânea para pegar o caderno de sua mão e abrir na página que achava estar aberta assim que chegou. Joel suspirou. O olhar da garota foi de animação a um estranhamento incomum, com as sobrancelhas juntas de confusão. Definitivamente não acreditava no que estava lendo.
– Você não acha que o Brasil vai ganhar a Copa? – perguntou.
– Não – balançou a cabeça em negativo.
Não leu mais do que poucas linhas antes de fechar o caderno, sem ligar para outras anotações. Aquilo já era absurdo o suficiente para ela, não acreditava que o amigo pudesse ser tão pouco patriótico. Devolveu o caderno em sua mão.
– A gente ganhou a última. Por que não ganharíamos essa? – seu tom era uma mistura de indignação com ânimo, uma certeza absoluta do time que teriam. Joel abriu a boca para falar algo, mas foi interrompido. – A gente é pentacampeão, pô!
Joel riu. Tinha saudades da efervescência que era a Copa, principalmente em anos tão bons para o desenvolvimento do Brasil, como no começo dos anos 2000. Era adolescente e não pensava em política, desmatamento, quebra da bolsa… apenas em trocar figurinha e assistir aos jogos.
– Quer apostar comigo? – disse, antes de tombar a cabeça para o lado de maneira provocativa.
Cíntia apertou os olhos, pensando na possibilidade. Ergueu a mão.
– Se eu ganhar, você vai fazer meu próximo trabalho de física – Joel sorriu. Pensou que teve sorte por não ter pedido algo tão difícil, mesmo que ele já soubesse o resultado da aposta. Riu consigo mesmo pelo pensamento e ela não entendeu, pensou que estava desafiando-a ainda mais.
– Se eu ganhar – fingiu pensar por alguns segundos – você vai sair comigo, nós dois.
Ergueu a mão, indo de encontro com a dela.
– Fechado.
Cíntia apertou a mão de Joel, firmando o acordo. Logo mais teriam o resultado da aposta – o que era muito claro para o viajante no tempo, mesmo que a outra não soubesse disso ainda. Na verdade, ele e Anita eram relativamente discretos quanto às viagens e a manipulação dos eventos, até então não tendo feito qualquer alteração significativa ou dado informações importantes do futuro. Nem sempre funcionava do jeito que eles queriam, mas jamais eram descobertos.
Não que Cíntia tivesse tempo para suspeitar que o amigo e a irmãzinha de Luiza tivessem qualquer envolvimento com algo tão fictício quanto a viagem no tempo. Para ela, isso era coisa filme – De Volta pro Futuro, Feitiço do Tempo e Efeito Borboleta – e estava totalmente focada em coisas reais, como os jogos interescolares. Mesmo antes sendo apenas uma jogadora de vôlei, quando o número mínimo de atletas para as equipes femininas não chegou ao seu número mínimo, Treinadora Lúcia passou a encaixar atleta de todos os esportes nas modalidades faltantes.
Logo quando chegou na entrada do IECET, avistou Joel vestido com uma roupa felpuda, segurando a cabeça da fantasia que parecia um… animal. Não conseguiu entender que animal era aquele, ou o que deveria representar.
– Por que tá vestido assim? – perguntou, tombando a cabeça para o lado e colocando as duas mãos na cintura.
– A treinadora Lúcia vai me dar 10 em educação física sem que eu precise ir às aulas – ele riu e ela retribuiu com outro riso. O cabelo de Joel estava levemente molhado, mostrando que a roupa era definitivamente quente e que não estava sendo um trabalho fácil ficar ali na frente recepcionando os recém chegados.
– Em compensação, ela me botou pra jogar em todos os esportes possíveis – suspirou. As semanas estavam sendo uma loucura, com treinos ininterruptos, sem qualquer diminuição de trabalho e prova.
Joel colocou a mão felpuda no ombro de Cíntia, de modo a
– Vou estar de fantasia, torcendo pra você – sorriu.
Ela não quis admitir, mas sentiu um leve nervosismo subir de seu estômago até o pé da garganta. Era Joel olhando em seus olhos? Aquele sorrisinho que ele dava? Não, com certeza era apenas ansiedade dos jogos.
𝗗𝗘 𝗠𝗔𝗜𝗦 𝗡𝗜𝗡𝗚𝗨𝗘́𝗠 ⇢ 𝟬 𝟬 𝟭
PRÓLOGO ⇠ ⇢ 𝟬 𝟬 𝟮
Ao recitar "Trem-Bala", ganhou vários aplausos de colegas admirados com seu talento com poemas. Seus olhos estavam na plateia, encarando Cíntia, que o olhava de volta. Estava deslumbrada com suas palavras e, com certeza, nunca tinha pensado que seu colega de sala tinha um lado artístico.
Se aquilo era um sonho, Joel não queria acordar nunca! Quer dizer, sabia que aquele era o pior dia de sua adolescência, mas ver Cíntia tão jovem a sua frente o faria enfrentar qualquer ridicularização que poderia sofrer depois.
Quando desceu do palco, caminhou em direção da jovem, que agora já havia se virado para conversar com suas amigas. Precisava falar com ela, pelo menos mais uma vez. Não sabia o que estava acontecendo e quanto tempo aquilo duraria, não sabia sequer como podia ter viajado no tempo, mas precisava falar com ela. Entretanto, antes de chegar ao banco da garota, sentiu uma mão puxá-lo para o lado.
Anita tinha um semblante irritado e estava segurando seu braço forte demais. Foram alguns sussurros raivosos até que entendessem porque ambos sabiam a letra de "Trem-Bala" e que eram viajantes do tempo, presos nos seus corpos de adolescentes.
– Por que invadiu minha conta? – Anita continuou com os sussurros irritados, se segurando para não falar muito alto e deixar com que outras pessoas descobrissem os seus segredos. – Joel, qualquer coisinha que a gente fizer aqui vira uma bola de neve lá na frente.
– Minha ex me bloqueou – desviou o olhar.
Falar aquilo em voz alta soava patético e apenas reafirmava o quão no fundo do poço ele estava. Do topo da escada, conseguiam ver todos os alunos correndo e conversando, sem que tivessem ideia do futuro que os aguardava. Jovens cheios de vida rondavam os corredores e tudo que Joel conseguia fazer era fechar os olhos e suspirar, se apoiando no corrimão.
– No floguinho? – ele afirmou com a cabeça e o rosto da amiga se contorceu em compadecimento – Puxado.
– Eu queria ver nossas fotos da adolescência, lembrei que vocês eram amigas e… – continuou encarando os estudantes da escada. Quer dizer, ainda não eram amigas, virariam amigas depois do ensino médio.
Anita balançou a cabeça em negativo.
– A gente tem que voltar.
– Por que? – Joel virou o rosto bruscamente. – Eu vi você em Paris com o Henrique. Você está vivendo sua vida super feliz, com o que sempre sonhou e eu tenho que continuar sofrendo com o meu divorcio? – balançou a cabeça freneticamente, em negativo. Não iria aceitar isso. Aproximou seu rosto da amiga e encarou profundamente seus olhos. – Quantas vezes você viajou no tempo até ter o futuro que quis? Eu só tô pedindo pra consertar as coisas com a Cíntia, consertar meu futuro.
Anita ficou em silêncio. Tinha 30 anos e era a primeira vez que havia visto alguém tão apaixonado ao ponto de mudar o passado para que continuasse com a pessoa no futuro – não que muitos tivessem essa chance, claro, mas era verdadeiro. Poderia argumentar que ela mesma estava fazendo viagens no tempo para ficar com Henrique, mas não era a mesma situação; fazia isso pela sua carreira, para manter suas amizades e consertar a vida de sua prima Carol. Quando participou do casamento de Luiza, ficou ao redor de tantos casais sem sentido que era inspirador ver alguém verdadeiramente apaixonado.
– Tá, eu… preciso arrumar algumas coisas com a Luiza – se lembrou do porque tinha aberto o floguinho primeiramente, antes de ter dado um bug. – A gente fica, mas só um pouco – fez sinal de pouco com o dedo e ele abriu um sorriso.
– Fechado – apertaram as mãos.
O olhar de Anita oscilou para Henrique, dentro da sala de aula, e de repente se lembrou que havia deixado o celular dele carregando dentro do armarinho, precisava ligar para sua irmã. Fez um sinal com a cabeça para Joel e o deixou ali. O garoto não perdeu tempo antes de descer as escadas atrás da ex mulher.
Pensou, por um momento, se chamá-la de "ex mulher" era o ideal para a situação. Estavam tão jovens, ambos com 17 anos, e com uma relação inexistente durante o ensino médio. Sabiam o nome um do outro e conversavam sobre a matéria, vez ou outra sobre alguma fofoca, mas nunca se envolveram verdadeiramente naquela fase da vida.
"Qualquer coisinha que a gente fizer aqui vira uma bola de neve lá na frente" foi o que Anita havia dito. Talvez não devesse mexer tanto no passado… não. Quando viu Cíntia escrevendo em seu caderno, sentada sozinha na biblioteca, sabia que faria qualquer coisa para ficar perto dela, aqui e agora. Ele mudaria o passado e mostraria para ela que sempre havia sido apaixonado; isso poderia impedir que se divorciassem no futuro.
– Ei, Joel! – Cíntia chamou, ao vê-lo parado no canto da porta.
Ele arregalou os olhos, sem entender. Ela sabia o que ele estava pensando? Por que havia reagido tão bem ao momento? Sempre haviam tido uma conexão esquisitíssima. Joel se aproximou da mesa que ela estava sentada e ela se levantou, guardando os marca textos dentro do estojo.
– Já fez o trabalho do Rodrigão? – perguntou e ele balançou a cabeça negativamente. – Não tô entendendo nada e ele esqueceu total que hoje era dia de apresentação, não deixou nem um dia a mais pra gente entregar.
Seu tom era mais de desabafo do que de explicação, como se Joel estivesse totalmente a par da situação e compartilhasse de seu pensamento. O Joel de 17 anos provavelmente já havia até mesmo feito o trabalho, com uma afinidade impressionante com a matéria, mas o de 32 não tinha ideia do que estava acontecendo. Mesmo assim, não perdeu a chance de se inserir na
– Quer que eu te ajude? – sugeriu.
– Nossa, por favor! – sorriu e continuou guardando as coisas dentro da bolsa. – Eu posso te chamar no MSN mais tarde?
Cíntia era dessas garotas que quando sorria, todo o lugar se iluminava; seu olhar era perfurante no coração e agora Joel percebia que isso era uma característica própria sua, desde a adolescência. Como demorou tanto tempo para descobrir que o amor de sua vida estava bem ao seu lado? Como demorou tanto tempo para perceber que os toques haviam diminuído e que ela já não mais conseguia conversar encarando-o nos olhos? Que preferia dormir antes que ele chegasse em casa para evitar que conversassem?
– Posso? – repetiu, percebendo que o garoto a sua frente estava perdido em seus próprios pensamentos.
– Claro! Claro… – repetiu duas vezes e forçou um sorriso, com as sobrancelhas arqueadas de surpresa. – Eu mesmo já tava indo embora, então a gente se fala daqui a pouco?
– Eu tenho treino de vôlei agora, pode ser mais tarde? – olhou para o relógio de pulso (que saudade de quando todos usavam isso, Joel pensou). – Umas 6 horas?
Afirmou com a cabeça e viu-a colocar a bolsa atravessada pelo ombro. Cíntia ergueu a mão, como modo de cumprimentar um "tchau" simples para o colega de turma. Joel fez o mesmo, com um sorriso bobo.
As 6 horas em ponto, já estava na frente do computador esperando por uma mensagem. Onde ela estava? Alguns minutos passaram antes que o nick de Cíntia aparecesse ao canto da tela, indicando que havia acabado de ficar online.
➹¯`·.¸¸.·´¯`·.¸¸.- Cíntia -.¸¸.·´¯`·.¸¸.·´¯❥: O volei atrasou, malz
_Joel: de boa
➹¯`·.¸¸.·´¯`·.¸¸.- Cíntia -.¸¸.·´¯`·.¸¸.·´¯❥: quer tc ou video?
_Joel: video eh mais facil
Em segundos, a chamada de vídeo havia começado, uma completa evolução na maneira de conversar que apenas havia sido conquistada pelo MSN, pelo menos na época. Cíntia ainda estava com os cabelos presos num rabo de cavalo após o vôlei – sabia muito bem que deveria lavar o cabelo na manhã seguinte, já que não daria tempo do cabelo secar se lavasse de noite. Joel também sabia disso, na verdade, sabia de todo o cronograma capilar que Cíntia desenvolveria nos próximos anos.
No fundo, Joel estava feliz por ter sido ela a sugerir que realizassem a tarefa por vídeo. Ficou alguns segundos apenas encarando a imagem da garota; ela tirou o caderno da bolsa e seu material junto. Aquilo tudo era irreal demais, quase ficava hipnotizado por atitudes comuns da garota.
– Vamos começar? – perguntou, fazendo com que ele saísse de seus próprios pensamentos.
Tudo já estava feito no caderno de Joel e, à medida que conseguia entender as contas que havia feito e a base teórica utilizada, ia explicando e orientando Cíntia, que tinha os exercícios dispostos com números diferentes e em ordens diferentes. Tinham que se comunicar bastante para que não falassem cada um de um exercício, ou compartilhassem contas erradas. À medida que a conversa evoluiu e o trabalho acabou, também começaram a falar de fofocas cotidianas da escola e de suas vidas pessoais.
Cíntia nunca achou que Joel pudesse ser tão gente boa. Ela sorria para a câmera, agora já tendo deixado os cadernos de lado para focar na conversa. Piscava os olhos e os pixels, mesmo que em baixa qualidade, mostravam seus cílios. Como podia ser tão linda em um momento tão comum?
– Achei muito bonito o poema que você apresentou – elogiou. – Não sabia que você gostava de escrever.
– Eu vou te amar por toda a minha vida – Joel disse, sem perceber que as palavras haviam saído de sua boca.
Eram pensamentos tão intensos que haviam arranjado uma maneira de sair por seus lábios. Joel sentiu sua respiração parar por um segundo e Cíntia comprimiu os lábios, ambos claramente chocados com a declaração. Um silêncio ensurdecedor se instaurou no ar, por quase 10 segundos antes que qualquer um deles dissesse algo.
– A minha mãe tá me chamando aqui, depois eu volto – Cíntia disse, antes de desligar a chamada.
Em um pisque, o perfil da garota ficou vermelho, indicando que estava ocupada. Que merda Joel havia feito? Eles mal conversavam naquela época e estavam apenas fazendo um trabalho de física, sem nenhum indicativo que gostavam um do outro. Isso com certeza se enquadraria no que Anita disse sobre mudanças.
E se ele voltasse ao presente/futuro, não sabia como chamar, e tudo tivesse mudado? E se nunca tivessem ficado juntos? Ela poderia tê-lo achado precipitado, beirando a maluquice. Havia se ausentado tão rápido que ele duvidava que ela fosse capaz de encará-lo no dia seguinte, mas precisava arranjar de reparar a situação. Rolou muito na cama, pensando no que iria dizer quando finalmente visse-a, qual explicação daria para aquela frase. Era verdade, de fato, mas teria que inventar qualquer coisinha besta para passar despercebido.
Então, quando a avistou na manhã seguinte, se aproximou de sua carteira logo antes da aula começar e dos alunos chegarem; teve sorte das amigas de Cíntia estarem atrasadas e ela estar totalmente sozinha. Joel se sentou na carteira a sua frente e virou para trás, ficando cara a cara com a garota.
Como esperado, ela desviou o olhar.
– Desculpa se eu te deixei desconfortável ontem. Você falou que gostou do poema e eu ia te mostrar outro que eu escrevi – ela cerrou o cenho mas voltou a encará-lo. Era isso então? – É uma releitura de "Eu sei que vou te amar" do Vinicius de Moraes.
Arqueou as sobrancelhas, um pouco sem acreditar no que ele havia dito, mas igualmente curiosa para ouvir. No fundo, era um pouco cética ao fato de jovens da sua sala escreverem poesia, não conseguia acreditar que um garoto hormonal de 17 anos que só pensava em sexo seria capaz de interpretar tao bem esse tipo de poema.
– Já tá terminado?
– Já
– Posso ouvir?
Joel afirmou com a cabeça. Havia planejado tudo na noite anterior. Sacou um papel dobrado do bolso, uma folha comum com pautas, e declarou para a garota o texto escrito em grafite:
"Eu sei que vou te amar
A cada batida do meu peito, eu sei disso Por toda a minha vida, eu vou te amar Em cada despedida, eu vou te amar Desesperadamente
Porque nenhuma distancia é capaz de reduzir a dor
O tempo que passa, não passa
Me fixei naqueles minutos antes da partida Eu sei que vou te amar
Porque demorei mais que o necessário pra lavar os lençóis
Comprei astromélias novas pra casa, porque sabia que gostava
E cada verso meu será Pra te dizer Que eu sei que vou te amar Por toda a minha vida
Eu sei que vou chorar A cada ausência tua, eu vou chorar
E mudo o passado, presente e futuro
Pra apagar o que esta tua ausência me causou
Eu sei que vou sofrer A eterna desventura de viver À espera de viver ao lado teu Por toda a minha vida"
Alternava o olhar entre as palavras e os olhos da garota, que a cada verso aprecia aceitar mais a história que havia lhe sido contada. Em determinado momento, estava até mesmo balançando a cabeça, totalmente imersa no poema. Quando terminou, dobrou novamente a página e guardou no bolso, olhando para Cíntia por alguma aprovação. Foi agraciado com um sorriso meio bobo, de quem não controla muito bem como se sente em relação ao que acabou de ouvir.
– Legal, é bem profundo – coçou o braço, um pouco envergonhada. – Foi mal ter sumido ontem, eu só achei…
– Tá de boa, até já esqueci – brincou e ela afirmou com a cabeça.
Joel voltou ao seu lugar com um sorriso no rosto. Situação controlada. Amizade preservada. De longe, quando Cíntia virou para encará-lo, até mesmo deu um sorriso amigável para ele; talvez Joel fosse diferente dos outros garotos. Quando Raquel se sentou ao seu lado, tombou a cabeça e olhou para a amiga.
– O Joel namora alguém? Ou já namorou alguém? – desviou o olhar para Joel no outro lado da sala, pelo canto do olho.
– Não que eu saiba.
– Você não acha que ele deu uma mudada? – desviou o olhar para Joel no outro lado da sala, pelo canto do olho. – Ele parece mais maduro, vivido.
– Não viaja – Raquel respondeu, balançando a cabeça negativamente, com as sobrancelhas franzidas.
Cíntia deu de ombros e se voltou para frente, olhando o professor entrar e se preparar para a aula. Do outro lado da sala, Fabricio apertava os ombros de Joel. Costumava se sentar atrás deste para que conversassem durante a aula inteira – com Joel pedindo várias vezes para o amigo calar a boca durante a explicação do professor.
– Agora você faz poema pras meninas? Vai ser difícil competir com você – riu e Joel retribuiu sarcasticamente com um "ha ha ha".
Porém, quase comicamente, uma ideia genial havia brotado em seu cérebro e, se estivessem em um desenho animado, poderia ver uma lâmpada se acender acima de sua cabeça. Aquele comentário seria a chave para o sucesso do seu casamento. Durante a semana, passou a deixar pequenos papéis nas coisas de Cíntia, com frases fofas de poemas e citações de músicas que ainda não haviam sido lançadas em 2006.
Da primeira vez que viu o papel em seu estojo, se perguntou o que aquilo estava fazendo ali já que não se lembrava de ter escrito (e a caligrafia era bem diferente da sua). Ao encarar o conteúdo, cerrou o cenho, muito confusa.
"Dói sem tanto te lembrar
Dando voltas e fazendo meu mundo bambo girar
Mal tu sabe que meu peito
Tem só falta do teu fogo
E nosso jeito torto de seguir"
Era inesperado, mas com uma lírica belíssima. Era destinado a outra pessoa ou poderia guardar para si? Olhou para os lados, ninguém parecia estar procurando por isso. Dobrou o papel e colocou de volta no estojo. Cíntia se questionou o porquê daquilo. Era para ser uma declaração de amor? Virou sua cabeça para o outro lado da sala, e percebeu que Joel já estava encarando-a.
Ele rapidamente desviou o olhar. Cíntia não sabia como se sentir.
No dia seguinte, encontrou outro bilhete em seu estojo.
"Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante"
Durante uma semana, após todos os intervalos, ela procurava dentro de seu estojo ou na capa do caderno qualquer bilhete diferente dos anteriores. Não era exatamente um admirador secreto, já que sabia exatamente quem estava deixando as mensagens. Porém, quando ficou um dia sem qualquer bilhete, parecia que toda a esperança gerada havia acabado. Não, tinha que saber o que havia acontecido.
No segundo intervalo, se aproximou do grupo de amigos sentado na videoteca. Joel estava conversando com a irmã mais nova de Luiza, o irmão mais novo de Fabrício e alguns outros amigos do primeiro colégio. Não os conhecia muito bem, mas decidiu abordá-los.
– Joel, posso falar com você? – perguntou.
Anita deu um empurrão no amigo para que ele se aproximasse da garota. Precisavam ajustar aquilo rapidamente para poderem voltar ao presente/futuro. O restante do grupo estava confuso, sem entender muito aquela interação, e cochichando um com os outros sobre o motivo de Joel estar tão nervoso ao conversar com Cíntia.
– Foi você? – perguntou, mostrando um dos papéis que havia recebido nos dias anteriores.
– Se tiver sido?
– Por que tá fazendo isso?
– Você disse que gostava dos meus poemas, tô só te mostrando outros – deu de ombros. – Por que?
Joel era um ótimo ator, conseguindo reverter a situação totalmente para beneficiá-lo. Cintia desviou o olhar e mordeu o lábio inferior, definitivamente sem graça com aquela interação. Ela havia interpretado tudo errado? Ele podia nem ao menos ser um admirador, eram apenas amigos. Soltou um "ah" quase inaudível e balançou a cabeça.
A verdade era que ambos estavam apenas conversando por mal entendidos e não sabiam o que cada um pensava realmente. Achavam que a situação estava totalmente sob controle, mas não poderia estar mais longe disso.
Pensando demais se eu vou fazer o final ser triste avassalador ou feliz…
𝗣𝗥𝗢́𝗟𝗢𝗚𝗢 ↬ 𝐽𝜎𝜀𝑙 𝑠𝜀𝑟𝜄𝜀𝑠
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Joel terminou de lavar a louça do jantar, colocando os tupperwares no escorredor de pratos para secarem até o dia seguinte. Estava comendo os restos de comida da geladeira que havia trago da casa da minha mãe por pelo menos dois dias. Podia pedir um delivery, mas nenhuma lanchonete, japonês ou pizzaria entregaria o que eu realmente queria comer – ficava horas observando o aplicativo e sempre fechava, às vezes até optando por não jantar. Comer comida congelada era muito mais fácil, já que não gostava de deixá-la vencer.
Pra que valia uma cobertura quando não se tinha mais ela andando de pijama no apartamento? Não sabia. Quando respirava fundo, ainda conseguia sentir seu perfume flutuando no ar e se lembrar do lençol no fundo do guarda roupa que havia deixado de usar por causa da mancha de batom vermelho. Ligava a televisão e ficava observando o jogo de quarta, mas não consigo torcer como antes; não gritava, mal se mexia, apenas levava a cerveja à boca e pensava. Pensava. Pensava muito.
Pensava porque doía. Era a única coisa que conseguia sentir, mesmo depois de um ano e meio. A dor se entrelaçou ao seu senso de identidade: sem ela, era triste. Sem ela, não conseguia sentir nada além desse aperto no peito… e ela não estava em lugar nenhum. A dor era a única coisa que havia restado de seu relacionamento – e se libertar dessa dor seria esquecê-la para sempre.
Não havia mais quem fizesse as mesmas piadas ou que o atentasse com cosquinhas no meio de uma conversa civilizada. Conseguiam se comunicar apenas entre olhares de canto e toques no braço, ele sabia quando ela choraria pela mudança em sua respiração, mas jamais conseguiu prever que ela pediria um divórcio de maneira tão abrupta.
Ela estava ali um dia e, no seguinte, pediu para que as amigas pegassem suas coisas na portaria. Se encontraram em um local neutro, para colocarem um ponto final em tudo que haviam sofrido. O casamento não tinha sido perfeito, na verdade, haviam passado por tantas tristezas que era quase impossível continuar com aquela relação… não, Joel ainda achava que tristeza no relacionamento ainda era meia tristeza. Ela não compartilhava da mesma opinião; não conseguia encará-lo.
Tudo aquilo era uma merda.
Joel observou o relógio. 03:27. Não conseguia dormir. A parte gelada do travesseiro havia ficado quente e, por mais que trocasse de lado ou de posição, nada parecia confortável o suficiente. Tentou fazer um chá calmante, mesmo odiando o gosto, e até tomou uma pílula do remédio para dormir, mas continuava com o olhar pregado no teto. O prédio estava tão silencioso que conseguia ouvir os carros passarem na rua, buzinando pelo trânsito da cidade de São Paulo.
Ligou a televisão, na tentativa de colocar qualquer barulho ambiente que o fizesse dormir – mas não gostava da selva, da chuva, do barulho de ventilador ou qualquer outro desses que se procura no youtube para pegar no sono mais rápido. Mudou de novamente o lado da cama e lia a bula do remédio, procurando alguma instrução do que fazer caso a primeira dose não funcionasse e precisasse tomar uma segunda. Não podia. Pegou o celular e encontrou o contato; não estava mais marcado como “Amor”, mas ainda havia um coração ao lado do nome. Ligou.
A ligação tocou uma, duas, três vezes e foi atendida, bem antes do que ele imaginava que ela deixaria tocar. Já estava acordada? Também não conseguia dormir? Estava na mesma situação de desespero que ele? No fundo, procuraria qualquer sinal de que ainda estavam conectados.
– Aconteceu alguma coisa? – sua voz não estava sonolenta, ao contrário, parecia atenta. Se tivesse acordado naquele momento, isso mostraria que ainda se importava com ele, não?
– Não. Eu só queria ouvir a sua voz – admitiu e soltou um suspiro audível pelo celular. Sentiu uma pontada de culpa quando percebeu que havia acordado-a para nada de importante.
– A gente não tem o que conversar.
– A gente era casado, morava junto. Como não tem o que conversar? – sua voz se exaltou. Como ela podia dizer aquilo? Como não sentia saudade de acordar com o cheiro do marido ao lado? De jantar junto, dividindo uma cerveja artesanal enquanto contavam sobre seu dia? Ou de caminharem no parque com o cachorro? Não sentia saudade de dividirem o armário? Dos bilhetes fofos que deixavam em post-its?
– Era, Joel. Passado.
Não soube o que falar e o silêncio se instaurou no ambiente. Ela não sentia aquilo? Por que? Joel apenas queria poder voltar pro lugar onde pararam antes de se perderem no caminho. Olhou novamente a tela do celular, a chamada continuava rodando.
– Ainda tá aí? – perguntou.
– Eu vou desligar.
– Não desliga. Espera – disse, em um suplício de pena. Ela não soube o porquê, mas esperou. Joel sentiu que, em algum lugar do seu subconsciente, ela queria continuar na ligação, queria falar com ele. – Me conta sobre seu dia, por favor.
Um silêncio se instaurou novamente na ligação e eu olhei para ter certeza de que ainda estávamos conectados ou se ela havia desligado. Estava pensando em falar algo ou continuaria em silêncio? Na verdade, Joel não se importaria de apenas ficar em silêncio durante toda ligação, desde que conseguisse ouvir um pouco de sua respiração para ter certeza que ainda estava ali.
Ela suspirou.
– A gente não pode continuar se enganando assim, Joel – era a segunda vez que o chamava pelo nome e não por um apelido carinhoso, como costumava fazer. – Vai dormir.
Sem ao menos se despedir, desligou a ligação.
Como podia dizer aquilo? Eles haviam feito planos para 2021, 2022, 2023 e os anos subsequentes. Haviam prometido que seriam o futuro um do outro, se beijado na frente dos amigos e das testemunhas do cartório. Ela não sentia como a vida era fria sem o outro? Queria receber seus carinhos, seus afetos e até mesmo sua cara de brava que o fazia querer apertar suas bochechas.
Tinham a alma interligada. Ela mesmo havia dito isso quando noivaram, alguma coisa coisa um fio vermelho que nos interligava espiritualmente. Não acreditava nessas coisas antes, era um homem da ciência, mas não havia explicação lógica para o sofrimento que estava passando sem sua amada.
Puxou o notebook da mesinha de cabeceira e tentou entrar nas redes sociais dela, sem sucesso. Estava bloqueado em todas, até mesmo no floguinho. Gostaria de poder ver as fotos que haviam tirado na adolescência, quando se conheceram e começaram a sair quando tudo ainda era tão fácil. As fotos estavam em seu perfil, restrito apenas para poucos amigos… como Anita.
Saiu de sua conta e colocou o username da amiga, tentando uma senha qualquer, que deu erro. Pensou mais um pouco e tentou outra senha, abrindo a página oficial do floguinho. Porém, antes que conseguisse procurar o perfil de sua ex-mulher, algo mudou.
𝗗𝗘 𝗠𝗔𝗜𝗦 𝗡𝗜𝗡𝗚𝗨𝗘́𝗠 ↬ 𝐷𝜀 𝑉𝜎𝑙𝜏𝛼 𝛼𝜎𝑠 𝟷𝟻
┈┄┉┅✧ Joel tenta consertar as coisas com sua ex-esposa, ou melhor, o amor de sua vida. Joel x oc!Cíntia
Wᴀᴛᴛᴘᴀᴅ
𝗣𝗥𝗢́𝗟𝗢𝗚𝗢
𝟬 𝟬 𝟭
𝟬 𝟬 𝟮
𝟬 𝟬 𝟯
𝟬 𝟬 𝟰
𝟬 𝟬 𝟱
𝗣𝗟𝗔𝗬𝗟𝗜𝗦𝗧
𝟭. DE MAIS NINGUÉM, marisa monte; 𝟮. VOCÊ NÃO ME ENSINOU A TE ESQUECER, caetano veloso; 𝟯. A NOITE, tiê; 𝟰. DEPOIS, marisa monte; 𝟱. AMADO, vanessa da mata; 𝟲. ELA UNE TODAS AS COISAS, jorge vercillo; 𝟳. CASO INDEFINIDO, cristiano araujo; 𝟴. UM AMOR PURO, djavan; 𝟵. MEU SANGUE FERVE POR VOCÊ, sidney magal; 𝟭𝟬. CORAÇÃO SELVAGEM, belchior;
Dois capítulos FEITOS da história!!! Vou escrever mais um antes de postar.
Aliás, o título vai ser de uma música da Marisa Monte. Chutes? KKKKKK
Por um lado, não tenho tempo. Por outro, tive uma ideia muito boa pra uma fic de 5 a 10 capítulos com o Joel.
