"Não sei como surgi. Não sei como me formei ou o que veio a se formar primeiro. Pouco tive de memória. Pouco soube sobre mim ou quem me carregava. Meus olhinhos ficavam fechados durante todo o tempo. Nem sequer tempo tive para abri-los. Meu corpo não reagia a nenhum comando meu, eu não o comandava, afinal. Mal sabia como realmente respirava. Havia sempre uma melodia que enchia o meu tempo vago de ênfase e desejo de sair. O tempo parecia não passar e a cada minuto ali dentro parecia esquentar cada vez mais. Mamãe passava a mão sobre mim, mas não podia sentir sua pele. Que a meu ver devia ser muito macia e confortável. Seus braços, que logo me acolheriam, era o meu maior desejo. Desejo... Apenas desejo. Ouvi papai reclamar que não me queria. Se pudesse, se conseguisse, talvez lágrimas pudessem se tornar visíveis em meus olhos. Mas eu apenas chorava, chorava com o coração. Lágrimas sangrentas, pesadas, densas. Lágrimas talvez, conformadas. Não podia reagir, sempre estive inerte, como provar que não era culpado de nada?! Sempre, percebia que ao amanhecer, uma voz doce sussurrava “Bom dia”. A voz que me faria sorrir por dentro. Dava-me ânimo, ânsia. Meu coração sorria desesperadamente. Desespero que me deixava em plena insegurança. Fazia-me beirar entre continuar em sã consciência ou mergulhar em uma insanidade imatura. Insanidade minha percebida quando ouvia a voz de papai gritar, feroz, deixava-me em uma árdua vontade de gritar, chorar, berrar, querer fazer alguém me ouvir. Ninguém me ouvia. Às vezes a voz de mamãe era feliz, uma alegria que me contagiava. Outras vezes, sua tristeza também me contagiava. Todo o sentimento que se fazia presente nela, por osmose também se fazia presente em mim. Os dias se passavam lentamente, nem sequer sabia diferenciar quando era dia ou noite. Ouvia mamãe dizer “O céu está lindo” e morria de vontade de também ver o céu. As estrelas, a lua, tão admirada. Outrora ela dizia “Eu desisto”. Eu também desistia por ela, por mim. Ouvia o som do chuveiro ligado. Cada gota de água que deslizavam por seu corpo, era como uma lágrima minha. Outro dia senti papai abraçar mamãe e pedir desculpa. Ela parecia não aceitar. Indignada, ela recuava, acusava, gritava. Sua voz fazia meu coração apertar. A forma como seu corpo reagia me deixava desconfortável. Agora eu realmente desistia, por ela. Eu não lutava, não conseguia, tentava. Meu coração lutava por ela. A cada batida. Eu queria estar lá. Eu queria ver seus olhos. Eu queria ouvir sua voz dizer novamente que me amava. Eu queria sentir o toque da sua pele, o tamanho do seu carinho. Eu queria cada carícia, ouvir o som da risada. O som da sua voz cantando enquanto tentaria me fazer dormir. Eu queria ver seu novo corte de cabelo e acompanhar com ela sua novela preferida. Vê-la chorar quando assistia a um filme de romance ou rir com um programa de humor. Mas todos os meus planos, mas todas as minhas ânsias estavam para acabar. Ouvi papai dizer que o dia havia chegado. Não entendi. Talvez eu tenha perdido alguma conversa deles. Talvez eu estivesse dormindo. Não sabia exatamente como ficar. Eminentemente me deixei inerte a qualquer coisa que estivesse para acontecer. Houve uma grande pressa. Tudo parecia acontecer tão rapidamente que de repente me perdia em todos os fatos. Agora, era o meu coração em desespero. Ouvi papai respirar fundo, pesadamente, enquanto mamãe deitava-se em algum lugar desconfortável. Houve então uma luz abaixo de mim e eu pensei que já estava na hora. Era hora de ver o mundo. Ver a mamãe, o papai. Ver as pessoas que eu mais amei durante tão pouco tempo. Poder sorrir enquanto visualizava os olhos alheios cheios de lágrimas. Mas eu estive errado o tempo todo. Mais lágrimas sangrentas, densas, intensas. Lágrimas minhas. Meu coração chorava novamente, agora, por mim. Algo de metal tocou em minha pele, se assim posso definir. Meus pés desapareceram então, sem muita demora, sem hesitar, foi à vez das minhas pernas. E assim então foi que o resto do meu corpo se desfez completamente. Eu já não veria a noite, as estrelas, a lua, o céu. Os raios do sol não tocariam em mim e a chuva jamais me molharia. Nenhum som de risada, choro, ou mais chuveiro ligado. Nenhum “eu te amo”, ou melodia pela manhã para me acordar. Cada átomo do meu pequeno e módico corpo se desfez. "
Relatos do incompleto. Callie P.















