bloody underworld.
O livro de bolso sobre anatomia humana em geral era um disfarce silencioso para evitar contato desnecessário. Ainda mais depois de mais um plantão no hospital que também ajudava a encobrir-lhe a verdadeira identidade. O último trem pareceu um verdadeiro milagre; poderia voltar acompanhado de mais silêncio. Porém, não foi bem isso o que encontrou no vagão que acabou entrando. Burburinhos ressoavam entre os pouquíssimos passageiros naquele vagão em particular. Decerto não era nada comparado à confusão que escutava nas tão desconfortáveis manhãs, mas estava começando a incomodar… Assim, achou um canto para se alocar, que calhou de estar bem na frente de uma moça que também parecia querer se afastar daquele “barulho todo”; Seu semblante era igualmente inquebrável e, por certo, ela não apreciaria ter a paz de um olhar distante perturbada por um estranho, portanto, levantou o olhar para a moça, bem como o pequeno livro em sua mão discretamente, de forma a silenciosamente comunicar que não haviam muitas opções de qualquer forma. Com alguma sorte talvez entendesse, ou simplesmente o ignorasse (como ele esperava que fosse fazer).
E assim teria prosseguido calma e tranquilamente a viagem inteira, não fosse o barulho incessante das pessoas à volta; Não que o barulho em si o incomodasse, afinal, bastaria se focar em seu estudo, contudo, começou a ouvir ao longe um único termo que lhe causava desconforto; “vampiro”…!
Chiaki percebeu a entrada do homem de semblante austero quando o ruído suave da porta automática fechando chegou aos ouvidos. Do canto dos olhos era possível distinguir a forma alta e robusta que se aproximava dos assentos à sua frente, e até as passadas elegantes que o levavam até ali. Antes dele se sentar e mostrar o encadernado que tinha em mãos, ela já havia contado seus passos.
A olhadela do estranho foi recebida com indiferença, ainda que recebida. Cílios finos e longos coroavam os olhos amendoados da japonesa, íris castanho escuro não possuíam brilho e nem refletiam a luz do trem, duas pedras foscas quase escondidas pela franja quadrada. Como se não o visse, a mulher permaneceu calada e alheia à situação.
Alheia, sim, não cega. Ela percebeu a atenção que ele despertou naqueles indivíduos antes inertes. Os murmurinhos foram desencadeados pela chegada do homem de tão comum aparência, ela pensou, cada sussurro rastejando em direção a ele. A menção da palavra vampiro por aquelas bocas imundas fê-la contrair os lábios discretamente, a mão fechada sobre o colo abrindo-se num palmo.
Ora, ora.
De um bando de cinco pessoas mal vestidas, três levantaram preguiçosamente e se aproximaram do médico. Seguravam a barra de metal do teto como apoio, escorregando para cada vez mais perto das últimas cadeiras. Tinham olhos avermelhados e agitados, os lábios estourados de quem não bebia água há dias. Um bando de drogados tendo alucinações, talvez? Palpite incerto, que nem mesmo Chiaki estava disposta a acreditar.
Pararam em frente ao homem, formando uma barreiras de corpos e cobrindo a vista que tinha antes. Outras figuras de aparência voraz moviam-se pelo vagão, ao mesmo tempo que um punhado de gente (prevendo briga entre arruaceiros) fugiam para o da frente. Ela manteve seu lugar; a aproximação incomum não incomodava, não atrapalhava seu passeio noturno. De fato, uma segunda tempestade, muito diferente da que anteriormente observava, parecia prestes a estourar naquele exato momento.
Continuaria a assistir os eventos de fora, ou tomaria parte no turbilhão? Estava se decidindo.













