A bola de basquete quicava no chão e voltava para sua mão repetidas vezes, como se estivesse presa num ciclo vicioso e impossível de se desvencilhar. Tal como Dokyun, que sempre acabava voltando para a estaca zero na vida, tendo de recomeçar tudo outra vez só que sempre com mais problemas.
Havia voltado para Seoul no fim de semana, mas para a escola apenas na segunda mesmo. Como podia, graças à permissão do trabalho, não foi à aula e dessa forma poucos sabiam de sua chegada. Era por esse motivo que estava ali na quadra durante a tarde vestindo roupas mais largas que o normal – para esconder um de seus novos problemas –, fora do horário de atividade do time e exatamente no horário em que lembrava ser o preferido de certa pessoa para treinos solitários. Pessoa essa qual Ryo acreditava que não iria aparecer, afinal, fazia muito tempo e tudo tinha mudado.
Já sem muitas esperanças, depois de quase uma hora por ali e sem mais nenhum café na garrafa térmica esportiva – que agora jazia vazia na arquibancada –, decidiu cortar o movimento repetido da bola e treinar com mais avidez. Na primeira tentativa acertou a cesta sem muitas dificuldades, na segunda tivera de finalizar com uma enterrada para que entrasse realmente e quando iria iniciar uma terceira jogada o barulho estridente da porta de metal do ginásio fizera-se presente. Sua atenção fora roubada para a pessoa que adentrava o local, mostrando que no fim das contas alguns costumes permaneciam mesmo depois de certo tempo.
Sorriu fraco com o canto dos lábios, voltando a focar-se na bola que retornava momentaneamente ao ciclo natural antes de voar para a cesta uma outra vez. — Ouvi dizer que você debutou depois que eu fui embora. — Disse alto para que alcançasse a audição do japonês, mostrando-lhe que já sabia de sua presença e não lhe dando a chance de ir embora sem que Hayato soubesse quem era ali. — Gostando da vida de idol? — Perguntou, retomando a bola que rolava sem muito rumo, jogando-a para o outro garoto após aproximar-se um pouco do mesmo.
001 — With: “Friends just sleep in another bed
And friends don’t treat me like you do
I know that there’s a limit to everything
But my friends won’t love me like you
And then again if we’re not friends
There will be nothing I could do;”
002 — Without: “It was not your fault but mine
And t was your heart on the line
I really fucked it up this time
Didn't I, my dear?”
Nos últimos dias sua melhor amizade era algumas – muitas – boas doses de bebidas alcoólicas, independente de onde estivesse. Sempre acabava bebendo. Era o seu refúgio, um alívio para sua mente complicada. O cigarro era só uma consequência. Naquela noite em especial não tinha para onde sair, ninguém estava disposto depois de festejarem no sábado. Então a solução era beber sozinho no quarto mais uma vez. Sorte sua sempre conseguir mais bebida para esconder, principalmente estando sem roommate, só facilitava pra que conseguisse ficar bêbado. E uma vez muito bêbado, nem Dokyun conseguia saber o que acabaria fazendo. Entretanto, conseguiu se superar ao sair do quarto e sem rumo, automaticamente parar justamente em frente aquela porta. A verdade é que na hora realmente não fazia ideia de quem era, só desferiu algumas batidas – talvez fortes demais – e esperou pela surpresa. E que surpresa.
Com um sanduíche entre os lábios e as mãos ocupadas enquanto se divertia com um jogo qualquer de simulação de corrida, o japonês acabou levando um baita susto com aquelas batidas. Taewoo havia esquecido as chaves? Bem, lhe restava ter que abrir a porta e claro, reclamar. Estava tarde e o que lhe custava mandar uma mensagem? Mas a surpresa fora bem maior até porque não esperava ver o rapaz tão cedo. Parado enquanto segurava a maçaneta, Hayato olhava para o coreano à sua frente com receio, na verdade era apenas medo de ouvir novamente aquelas palavras rudes mas como pensou logo em seguida: ele não está pensando direito. — ... Seu quarto é no andar de cima, Ryong. — O observou mais um pouco e até esticou uma das mãos para poder fitar melhor o rosto alheio. — Você bebeu tanto assim?
Franziu o cenho ao dar de cara com Hayato ali, reclamando como se Dokyun fosse seu colega de quarto. Voltou-se aos números do quarto na porta, deixando seu rosto iluminar-se com entendimento. ㅡ Eu sei disso, sai de lá agora. ㅡ Respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, mesmo que Hayato não fizesse ideia do fato. ㅡ Não, pff. ㅡ Desdenhou, entretanto, da pergunta. Inclusive, arrependendo-se de não ter comprado mais bebida, já sentindo necessidade de mais no organismo. Mas foi só pensar que ficou levemente tonto, efeito pelo mundo não estar muito parado no lugar dele. As vezes era uma merda quando ele decidia rodopiar feito uma beyblade. Precisou buscar apoio no japonês a sua frente, não tendo muito tempo para pensar e muito menos para se arrepender. Ou era aquilo, ou daria de cara no chão provavelmente. ㅡ Vamos ficar aqui na porta pra sempre? ㅡ O tom agora era baixo, já que a dança do mundo fazia seu estomago querer dançar, dando-lhe certa vontade – passageira – de vomitar.
Mesmo que fosse estranho não negou ajudá-lo. Segurou o corpo do rapaz com o braço e então fechou a porta, podendo assim levá-lo até sua cama. Agora que tinha um roommate, se negava à deitar naquela cama até porque, não era mais sua. Deixou Dokyun sentado ali e correu para o banheiro afim de poder pegar algum balde caso ele realmente vomitasse. ㅡ Você quer alguma coisa? ㅡ Suas mãos colocaram os fios negros do garoto para cima, ele parecia um pouco suado, na verdade, também estava e isso o fizera ligar o ar um pouco. Aquela noite iria com certeza ser bem calorenta. ㅡ Eu não tenho bebida aqui, desculpe. ㅡ Claro que não estava se desculpando de verdade mas... nem ele sabia porque estava se desculpando.
Não hesitou em ser guiado até a cama já bastante conhecida, sentando sobre a mesma de forma como se estivesse no próprio quarto. Enquanto Hayato parecia correr pra lá e pra cá, Dokyun apenas observava o quarto e suas poucas mudanças, mas sem realmente pensar muito. Era como olhar para um quadro abstrato, nem fazia questão de entender. ㅡ Cadê o outro garoto? O rapper bonitinho com cara de hétero? ㅡ Pra que travas na língua, não é mesmo? O baterista não passava do clássico caso de beber e perder a noção do que deve ou não falar. Mas não fazia diferença, era Hayato. Ou melhor, normalmente nem chegaria perto daquele quarto, pra quem já estava molhado, o que era uma gota d'água? Parou pra tentar pensar na pergunta do japonês, não conseguindo extrair nada. O que ele queria? Era tão complicado que já nem lembrava mais. ㅡ Eu queria ver o céu no terraço, mas parei aqui. ㅡ Chegou a se embolar um pouco, tendo de se concentrar para formular a frase corretamente. E do nada, retirou a camiseta, jogando-a pelo quarto alheio antes de se deitar na cama como se fosse o dono para que pudesse olhar o teto com certo interesse. ㅡ Você tem música? ㅡ O que uma coisa tinha a ver com a outra? Nada. Mas era assim que Ryong estava funcionando.
Queria ir no terraço? Aquela sem duvidas fora a desculpa mais esfarrapada que ouvira e até conseguiu retirar um sorriso do rosto do japonês. ㅡ Trocou a escada de subir com a de descer? ㅡ Se colocou em pé, já que antes estava de joelhos e apanhou a camiseta sobre o chão. ㅡ Taewoo-hyung está em Busan, não sei quando ele volta. ㅡ Dobrou a peça e a deixou sobre a mesa, se ele precisasse ela estaria ali e então retirou o celular do bolso, entregando para o garoto. ㅡ Aqui, pode escolher. ㅡ Se deixou sentar sobre a cadeira de sua mesa e até mesmo rodopiou um pouco. Aquele quarto era tedioso demais para ficar sozinho e por um momento agradeceu pelo outro estar ali, mesmo estando bêbado e provavelmente não lembrando de nada no dia seguinte. Suas pernas foram colocadas sobre a mesa, ocupando um pouco o espaço que não lhe pertencia mas bem, ele era alto e precisava de espaço para poder fazer aquilo e também, queria aparentar estar tranquilo para o outro.
ㅡ Se tivesse elevador não acontecia. ㅡ Respondeu entre risos, achando algo idiota engraçado. Ou talvez só tivesse lembrado de alguma piada sobre pontos coloridos. A cama alheia estava confortável, apesar de tudo ainda parecer girar, estava menos tonto. Principalmente quando decidiu fechar um pouco os olhos. Mas não conseguia ficar muito tempo assim, era cedo demais pra preguiça. ㅡ Que pena... Busan é um saco. ㅡ Só havia ido uma vez, porém só queria falar que alguma coisa era chata mesmo. A palavra estava soando agradável. Pegou o celular sem maiores delongas, rolando no colchão para ficar de lado enquanto passava o dedo pela playlist do japonês sem realmente passar o olho. No fim, colocou uma música qualquer e jogou o celular ao seu lado, voltando a deitar com as costas. Suas mãos logo não quiseram ficar paradas, batucando o ar como se tocasse uma bateria invisível no ritmo da música. E pra completar, ainda fazia alguns barulhos do instrumento com a boca. Queria animar, jogar aquela emergia acumulada fora. Talvez tivesse sido melhor ir para alguma festa, mas agora estava ali já. Empolgado, depois da música trocar, Dokyun tentou se levantar, mas falhou miseravelmente desistindo e se jogando outra vez na cama, agora na transversal. Deixou a cabeça ficar um tanto pendurada - péssima ideia - enquanto observava mais ou menos Hayato. Ele era tão bonito, nem parecia que ajudava a destruir sanidades. Riu do próprio pensamento, talvez um pouco mais do que deveria. ㅡ Como anda a relação com a Flora? Já disse que ama ela? ㅡ Era claro a provocação, a comparação na cabeça do coreano também era clara. Mas não fizera na maldade. Estava bêbado demais para pensar em querer ferir o outro, assim como para segurar a boca sobre todo pensamento que tinha vontade de por pra fora achando ser legal.
Ao máximo tentou controlar sua vontade de olhar para o rapaz que estava jogado sobre sua cama, na verdade Hayato queria esquecer aqueles sentimentos que tinha e tivesse que atuar o tempo inteiro com certeza atuaria. Queria se convencer de que aquele era o melhor caminho. O jeito que Dokyun era realmente engraçado, a música tocava sobre o vento, seus lábios acompanhando... Estava realmente louco de notar tantos detalhes que até mesmo bagunçou seus fios claros. ㅡ Eu sempre digo que a amo. ㅡ Disse de um jeito brincalhão mas claro que havia sua porcentagem de verdade naquela frase. Hayato, Flora e Aika compartilhavam demais de seus carinhos e até brincavam sobre namorar, mas na última festa havia trocado beijos com a que fora citada na frase do baterista e bem, talvez ele tivesse pensado em algo. No final de contas, não precisava se alterar além de levar aquilo como uma grande brincadeira até porque, sabia que o outro não iria se lembrar daquela conversa no dia seguinte.
A resposta não era nada além do esperado, mesmo para alguém que estava bem fora de si. ㅡ Coitada... É o próximo alvo. ㅡ Comentou entre risos mais uma vez, sentando-se na cama. Levou uma das mãos a cabeça, como dava pra perceber, ficar de cabeça pra baixo bêbado não era nada bom. Fechou os olhos e tentou engolir aquele enjoo, sumir com a vontade de vomitar outra vez. Queria provocar mais o garoto, alfinetar ele enquanto ainda conseguia. Mesmo que fossem de uma forma qual não machucaria – ou almenos imaginava que não. Entretanto não conseguiu se conter, pegando assim o balde ao pé da cama e vomitando o que tinha dentro dele. O efeito colateral do álcool finalmente batia na porta de Dokyun e não era nada bom. Levantou-se, cambaleando e sem muito rumo – de inicio – até chegar ao banheiro para poder lavar o rosto. O problema agora seria pra voltar, acomodando-se preguiçosamente no sanitário do cômodo, não se sentindo mais tão vivo e animado como antes.
Por alguns minutos não quis incomodar o rapaz, achava que ele precisava daquele tempo para poder ficar só. Mas quem queria enganar? Hayato o conhecia o suficiente para saber que ele estaria jogado em algum canto e bem, estava certo. ㅡ Estou aqui. ㅡ Falou com um sorriso no rosto, um sorriso calmo que com certeza era o único que sabia dar após tantos machucados. Segurou um dos braços do garoto e o puxou, colocando força suficiente para levá-lo novamente até a cama, onde o manteve deitado e dessa vez, sentou-se na ponta do colchão apenas para que ele pudesse sentir um pouco que o japonês não iria a lugar algum. ㅡ Quer beber água? ㅡ Apoiou o rosto em uma de suas mãos e assim passou a olhá-lo, mas agora, seus cabelos estavam bagunçados devido ao esforço que fizera e as seus próprios dedos que o desarrumaram.
Dokyun queria reclamar, retrucar as palavras de apoio que Hayato lhe dava. O que estar ali significava quando no fim realmente não estava? Ou então o baterista só começa a delirar mesmo. E no fim, não conseguiu falar nada além de uns resmungos baixos e indecifráveis até para si. Deixando-se ser levado mais uma vez de tantas vezes naquela noite. Inicialmente apenas sentou na cama, ainda querendo lutar contra a moleza repentina causada pelo excesso de bebida. Entretanto não estava forte o suficiente, acabaria vomitando outra vez e por isso deitou. Odiava vomitar. Respirou fundo enquanto sacudia uma das pernas com a intenção de não se deixar cair no sono, ponderando sobre querer água ou não. ㅡ Queria um chiclete. ㅡ Comentou, já que sem escovar os dentes, ainda sentia sua boca meio suja. Uma bala também ajudaria. Ou talvez o ideal fosse dormir, mas não queria. Levou o olhar novamente para sobre Hayato, que o observava igualmente e sorriu de forma meio afetada em resposta. Porém não desviou o olhar, continuou a analisa-lo quase que profundamente, se não estivesse acabado o suficiente pra isso. ㅡ Cortou o cabelo? ㅡ Arqueou uma das sobrancelhas ao perguntar, notando alguma diferença que não sabia no japonês.
Por vezes era meio confuso dizer com certeza se ele estava realmente bêbado, ele estava tão mais fácil de conversar do que as últimas vezes que no fundo o japonês queria acreditar que ele não estava sobre o efeito do álcool. Novamente levantou-se e fora até onde sua mochila estava, tirando algumas balas que sempre carregava consigo até mesmo para caso de alguma emergência, mas uma era o suficiente e então entregou para o garoto que ainda estava deitado sobre sua cama. ㅡ Sim, eu cortei. ㅡ Falou aquilo sem tirar o sorriso do seu rosto, até porque não havia motivos para não sorrir. Hayato estava bem, estava ajudando um amigo e bem, isso era algo normal de si. ㅡ É de menta, acho que vai tirar o gosto ruim. ㅡ Dessa vez, preferiu puxar a cadeira para perto e se sentou, desembrulhando um pirulito que havia pego para si e o colocando na boca.
Era engraçado ver Hayato zanzando pelo quarto, não ficando quieto. Tanto que pensou eu mais várias outras coisas para pedir na intenção de vê-lo fazendo as coisas. Não fazia ideia do porque estava tento tais vontades, mas parecia legal na sua cabeça. Pegou a bala e logo colocou-a na boca, sem nem saber do que era. Um alivio grande, sem dúvidas. ㅡ Ficou infantil, quase um Justin Bieber. ㅡ Criticou o corte, sem muita importância para o tópico, virando-se para ficar de frente ao japonês e continuar sua aventura em observa-lo. ㅡ Você cansou mesmo de tentar me seduzir. ㅡ Riu como se tivesse acabado de contar algo deveras engraçado. E na sua mente distorcida, era mesmo. Era muito engraçado ver que já havia sido dispensado e trocado daquele amor que ele falava. Era um humor quase masoquista, porém só era humor por estar alterado. ㅡ Tenso, e se afastando também. ㅡ Rolou mais uma vez na cama, fechando os olhos e relaxando. Estava começando a ficar estranho, talvez não tão mais divertido, talvez uma ideia bem ruim.
Talvez estivesse mesmo atuando do jeito que queria e se a noite continuasse daquela forma, estaria ótimo. Deslizou as mãos novamente pelos próprios fios, jogando-os para trás, era estranho mesmo estarem tão curtos. ㅡ Cansei? ㅡ Deu uma risada rouca e grave. ㅡ Do que está falando? ㅡ Levantou-se novamente e se ajoelhou onde ficava o rosto do coreano e passou a lhe deixar carícias sobre seus fios negros, aqueles fios que Hayato tanto gostava de tocar e sentir. ㅡ Por hora, descanse. Se precisar de alguma coisa é só chamar... Estarei sempre aqui. ㅡ A sua vontade era de beijá-lo mas sabia que estaria sendo invasivo demais e não era sua intenção, havia prometido que não iria mais atrapalhar a vida do outro mesmo sendo tão difícil não querer estar sempre perto cuidando de tudo. Se pôs de pé e curvou o corpo, deixando um selar sobre a testa alheia e afastando-se rapidamente junto com a sua cadeira, colocando-a no seu lugar de origem e sentando-se naquele local para voltar a jogar no seu tablet.
Assentiu, murmurando um breve "uhum" arrastado em resposta. Mas já não tinha mais vontade de responder a última parte. Não sabia do que estava falando, não sabia o que estava fazendo ali. Só sabia que havia posto na cabeça que precisava ir ali mais uma vez. Pra quem havia desistido, Dokyun estava indo de mal a pior. Abriu os olhos com dificuldade apenas para ver Hayato mais uma vez, talvez a última da noite. E já sem máscaras – graças a bebida – seu olhar era carregado de angústia, tristeza e principalmente arrependimento. Agarrou de forma fraca o tecido da camisa alheia, como se não quisesse que ele se afastasse, não ainda, que o momento durasse um pouco mais. Parecia um momento falso de calmaria em um rio movimentado, era de certa forma maravilhosa aquela ilusão momentânea e era um dos motivos de andar bebendo tanto. Porém não resistiu as carícias e logo fechou-os uma ultima vez, largando-o e pegando no sono antes mesmo de poder sentir os lábios de Hayato mais uma vez em sua pele. Entretanto de uma forma tão diferente quanto de todas as outras vezes.
Como era uma morte horrível acordar depois de beber tanto. Podia fazer isso todo dia, mas não tinha jeito, não tinha como se acostumar com a boa e velha ressaca. Aparentemente não havia amanhecido direito, pelo que sentia, entrava pouca luz no quarto ainda. Um pouco relutante, tomou coragem para abrir os olhos. Se tinha uma coisa que havia aprendido depois de beber tanto várias vezes seguidas era de que cortando a preguiça logo, as coisas melhoravam mais rápido. E também beber melhorava, porém imaginava ter acabado com tudo que tinha ontem. Entretanto, assim que levantou o tronco do colchão, sentando no mesmo e passando o olho pelo quarto, percebeu que não era seu quarto. Não tinha nada para ficar surpreso aparentemente, não de cara. Porém ficou, assim que identificou a quem pertencia, principalmente depois de repousar os olhos sobre o japonês dormindo sentado todo torto. O que Dokyun estava fazendo ali? Era o ultimo lugar do mundo qual queria parar em Seoul, não era possível. Após perceber o tronco desnudo, precisou conferir se pelo menos calça vestia. Apesar de não ser tão necessário assim, caso tivessem transado Hayato certamente não dormiria numa cadeira. Levou uma das mãos a cabeça, tentando raciocinar com aquela dor alucinante. Que bela droga. Saiu da cama incerto, precisando de uma boa água gelada na cara, além de água no organismo também, invadindo o espaço já conhecido para pegar e ingerir de forma rápida uma garrafinha de água. Depois de todo o processo, tinha que arrumar a merda ali. Era segunda e não iria pra aula, mas o outro provavelmente iria e seria muito ruim dormir a noite toda ali. Suspirou, era muito coração mole. Por mais que tentasse se enganar, colocando na cabeça que se fizesse aquilo o outro poderia acreditar ter sido tudo só um sonho. Como era burro. Aproximou-se, tentando pega-lo de forma a não acorda-lo. O plano era torcer para que o japonês estivesse com muito sono ainda para ele não acordar e assim Dokyun o colocasse na cama. Era óbvio que não daria certo.
A verdade era que estava dormindo atento, havia dito que estaria ali se o outro precisasse e realmente estaria, mesmo que aparentasse estar com muito sono. Mas seus olhos decidiram abrir por si só, como que não fosse por ordens do japonês o que não esperava era estar sobre o braços de Dokyun e também não esperava que estivesse tão confortável daquela forma. Com o susto, acabou se colocando de pé, quase caindo para ser mais exato e usou sua mão para encontrar apoio contra a parede. — Bom dia... — Disse bocejando e escondendo o próprio rosto com as mãos e esfregando o olhos com os dedos. — Espero que tenha dormido bem. — Seu rosto claramente mostrava que estava cansado mas já era hora de acordar, por mais que apenas quisesse continuar a dormir. Bagunçou ainda seus fios claro, queria acordar e pensar melhor no que estava acontecendo mas apenas conseguiu quando fora no banheiro lavar o rosto com água gelada. O balde de vômito havia sido lavado de madrugada, quando o outro estava em seu décimo terceiro sono, mas continuava perto da cama para prevenir qualquer coisa, era melhor lavar um balde do que o chão, sem sombra de dúvidas. — Sua camisa está ali em cima da mesa.
Deu o espaço necessário para Hayato se reerguer e encontrar o equilíbrio necessário. Nem sequer se moveu para ajudar. Apenas observava de forma apática, chegando até mesmo a se afastar um pouco. Estava levemente de péssimo humor. Sua cabeça doía, queria voltar a dormir e ainda estava ali, cara a cara com quem andava evitando. ㅡ Bom dia... ㅡ Disse de forma seca, sem muita vontade. Perguntava-se o que tinha na cabeça para ter ido parar ali, o que tinha acontecido e tudo o mais. Ainda estava com um branco dessa parte da noite e talvez fosse melhor assim. Preferiu não falar mais nada, sendo abandonado assim no quarto. Agradeceu mentalmente pelo fato, aproveitando para pegar mais uma água e arrumar-se minimamente para voltar ao seu quarto. Pegou a camisa logo após ter sido informado, colocando-a e terminando de se arrumar. Afinal, não iria para a aula. Iria ir embora, assim mesmo, sem mais nem menos. Porém quando checou o bolso da calça para conferir a chave, não achou. Ótimo era só o que faltava. Passou a procurar então, principalmente perto da cama. Queria fazer rápido, não queria mais ficar ali tendo que encarar a forma falsa de Hayato – ou assim pensava. Entretanto a ressaca não ajudava, a dor e o cansaço fazendo-o sentar sobre o colchão novamente, procurando preguiçosamente no meio das roupa de cama.
Havia se sentado sobre o colchão no qual não lhe pertencia, estava exausto e provavelmente iria se deixar descansar até porque teria ensaio e precisaria estar 100%. Seu olhar estava em seu celular, até porque o outro parecia não querer conversa, bem diferente de algumas horas atrás e bem, isso deixava o japonês um pouco para baixo. — Você veio completamente bêbado para cá, talvez tenha deixado suas chaves cair no corredor, ou não as pegou. — Comentou. Na verdade, apenas queria puxar assunto. — Pode dormir aí, descanse mais, você deve estar exausto. Eu irei procurar pra você. — Não iria sair agora mas, ao menos queria dar a ideia, queria vê-lo reagir aquilo mas no fundo, Hayato apenas queria que ele visse que tudo estava bem e que ele não precisava ficar tanto assim na defensiva. Mas aquela hora queria apenas relaxar, deixou suas costas encostadas sobre a parede e suspirou, cansado e pouco se importando se estava ou não arrumado.
Não preocupou-se em olhar para Hayato, apenas absorvendo tais informações como se elas viessem de um rádio, não esboçando nenhuma expressão em particular. Era meio óbvio que tinha ido pra lá bêbado, só não sabia ainda o motivo e teria que tomar cuidado a partir de agora. Depois de uma vez, não teria dúvidas em acontecer outras vezes se perdesse as estribeiras. Respirou fundo e suspirou, desistindo da chave por hora. Levou as mãos ao rosto, esfregando-o e ao mesmo tempo escondendo-o. Naquele meio tempo bocejou e se recompôs, estava se sentindo um lixo consigo mesmo por ter ido parar ali, justo depois de desistir. Mas agora era tarde demais para chorar pelo leite derramado. ㅡ Não, obrigado. ㅡ Comentou tão seco quanto da última vez, levantando-se da cama para sair. Provavelmente, se não levou a chave, seu quarto estaria aberto. Qualquer coisa, se não estivesse, iria para a enfermaria dormir por lá. Entretanto, assim que colocou a mão na maçaneta sentiu uma necessidade de se virar, de olhar mais uma vez para Hayato. Ele tinha cortado o cabelo? Estava mais infantil do que nunca, apesar de Dokyun saber que no fim não era nada disso. Tinha que parar com aquilo, desistir de vez, não ficar bebendo e procurando por quem queria esquecer no final. ㅡ Não vai se repetir isso, não se preocupe. ㅡ Esperava que suas palavras realmente fosse a realidade, de que não acordaria novamente no quarto do japonês. Mas não podia dar certeza daquilo, não mais. E assim saiu do quarto, bem diferente da forma que entrou ali. Chateado, decepcionado e cansado, muito cansado.
[to: DiCaprio-kun. 06:07] PRECISO CONTAR ISSO PRA VOCÊ!
[to: DiCaprio-kun. 06:07] Meu manager mencionou uma possibilidade de termos um single digital e eles tão procurando um rapper MENCIONEI VOCÊ ELE CURTIU. SÓ VAMOS.
Send “✿” for a SUGGESTIVE text.
[to: DiCaprio-kun. 18:27] Fiquei sabendo que depois daquele dia, você foi super bem em cálculo. Que tal eu ir pro seu quarto mais vezes? ... Estudar.
Com as atividades promocionais, fins de semana completamente à toa deixaram de existir para Aika e suas companheiras de grupo. Acordaram mais do que cedo no sábado, a japonesa ainda mais cedo para poder fugir do dormitório que não lhe pertencia e voltar ao seu quarto para rumar para gravações, apresentações, sessão de fotos. E repetiria a dose no dia seguinte, infelizmente. E provavelmente em muitos outros dias que se seguiriam até o fim da divulgação do álbum e, pelo que a empresa já combinava, não seria um período de descanso com o qual a líder do grupo deveria contar.
Ao sair da sessão de fotos e pensar nisso, a garota suspirou pesadamente e logo seu telefone tocou. Era sua melhor amiga lhe dando uma notícia que facilmente a destituiria de tal título. Cada palavra da conversa alimentava uma raiva dentro da japonesa que ela sequer conseguia pensar em gritar ou chorar ou qualquer coisa. Ela não conseguia experimentar nenhum outro tipo de sensação ou sentimento que não fosse seu sangue fervendo de fúria. Seu tom de voz, no entanto, não se alterou de acordo. Apenas congelou, num tom tão repleto de desprezo que sua expressão gélida foi perceptível a todos que passavam por perto da menina, que deixou muito claro que não daria continuidade àquela conversa naquele momento. E tampouco o faria por telefone.
Seu plano era de organizar sua mente, seus argumentos e seu coração antes de se engajar em uma discussão que ela já previa que seria mais do que acalorada, ainda que só da sua parte. O restante do dia foi passado como se a menina fosse a mais perfeita atriz de toda a Ásia, exceto que lhe faltava a naturalidade na hora de rir e seus comentários honestos passaram a contar com uma acidez polida, mas nada que a atrapalhasse. Tornava-se óbvio aos olhos de qualquer um que ela estava se esforçando para não afetar os outros com seu humor. O celular foi seu melhor amigo durante o dia. Serviu-lhe para jogar algumas conversas fora e lhe distrair a cabeça, mas ela não estava conseguindo mais manter aquela pose toda. E estranhamente, também não conseguia se desfazer dela.
Como prometido, ao retornar para a escola, preparou uma boa quantidade de chá quente e colocou em sua garrafa térmica, levando canecas e toda sua boa vontade para o quarto de Hayato. Bateu na porta e, quando foi recebida, sorriu, mas como se estivesse tremendamente exausta. — Trouxe seu chá. Mas fiz sem açúcar, não sei se você gosta com isso.
Estava tranquilo e relaxado no quarto depois de um banho quente, numa tentativa de prevenir seu corpo e organismo em pegar um resfriado pela chuva de mais cedo. Jogado na cama e mexendo no celular, tratou de conversar com algumas pessoas, incluindo Hayato. Foi quando surgiu o interesse em se encontrarem outra vez para aproveitar o que ainda restava do fim de domingo. Durante algumas provocações, finalmente decidiu sair da cama e ir atrás do colega de turma. A ideia era brincarem de um H.O.R.S.E diferente do comum, um pouco mais desafiador para despertar o espírito de disputa entre ambos por alguns momentos e conseguirem dar tudo de si dentro do jogo.
Colocou um moletom skinny e uma camisa branca bem larga para ficar bem confortável durante o esporte (porque até então, Ryong se encontrava de cueca no quarto), dirigindo-se finalmente para a quadra de basquete. Como era domingo e não era nem perto de dia de treino, já imaginava que estaria vazio, o que era maravilhoso. Pegou uma das bolas ali guardadas juntas com muitas outras e passou a brincar com a mesma enquanto o japonês não aparecia. Sempre atrasado. Provavelmente comendo os tais pães que ele tanto gostava, mas não o culpava, assim era mais café pra si.
Entretanto dessa vez a espera foi ainda menor, o que era ótimo. Deu uma corridinha enquanto guiava a bola até o rapaz, jogando-a no chão em um passe picado para o mais baixo. – Pensa rápido, Yato. – Desafiou os reflexos alheios em uma brincadeira boba, mas que colocava um sorriso travesso em seus lábios.
Dokyun não era uma pessoa matutina, todos sabiam. Por isso nunca marcava nada muito cedo (pelo menos não antes de algumas canecas de café e a vontade de viver voltar ao corpo). Era melhor evitar assassinatos, afinal... Então como se esperava, marcou com Hayato já no fim da tarde, seria melhor para ambos numa visão geral. Sem contar que o horário favorecia a terem um estúdio vazio. Não sabia o que tinha na cabeça de muitas crianças daquela escola, que preferiam as salas de treino a algo realmente profissional, entretanto não podia fazer nada. Quem saia ganhando era a si, no fim das contas.
Após um dia normal envolvendo aulas chatas, prática e esporte (como todos os outros dias), tratou de se direcionar mais uma vez ao prédio do departamento de canto. O caminho estava entranhado em cada dobra de seu cérebro, então não precisou se preocupar com isso, aproveitando a música no fone com um pouco mais de vontade e de quebra ainda olhava como ficaria o clima. Torcia para um pouco de chuva, mas não podia ter tudo o que queria. Os corredores se encontravam em maior parte vazios, com raros rostos conhecidos esbarrando em seus ombros. Assim era melhor, repetia para si, louco por um cigarro.
Assim que chegou no estúdio mais afastado, qual havia marcado de se encontrar com o japonês, tratou de ascender um só para matar a vontade. Era horrível não poder sair muito do campus graças a fama, pior ainda era não poder dar pelo menos um trago no vício. Não demorou muito com aquilo em mãos, já que podia ser pego a qualquer momento. Então, para matar o tempo esperando o colega preferiu arrumar a bateria que tinha, assim como seu famoso caderno de composição. Deixava tudo preparado pra que pudessem se divertir escrevendo músicas melancólicas por ai... Ou talvez só um rap fofinho e romântico, isso pouco importava na verdade.