Na tentativa de aproximar-se do irmão novamente, ela o chamou para jantar consigo em casa na noite da véspera de Natal. Não teriam pratos típicos nem nada do tipo, sequer teriam o pai dos dois para acompanha-los, uma vez que este se dissera ocupado com um concerto especial de Natal no Japão. Tudo ficou, basicamente, pela conta da garota. Ela foi um tanto mais cedo para a casa, assim que fez sua parte nas decorações da escola e passou algum tempo com seu amigo, ela foi direto para o apartamento dos Uematsu preparar o que seria a tal ceia natalina fraterna que ela mesma propôs.
Suspirou quando chegou na residência já muito conhecida e conseguiu colocar suas compras no chão, cansada de carrega-las. Tirou os sapatos e levou tudo para a cozinha, onde ela prepararia um curry com frango empanado e bolo. Não era nada elaborado, até porque Arashi era um desastre ambulante e provavelmente derrubaria tudo, se queimaria, cortaria um dedo fora ou todas as opções anteriores. Não sabia exatamente quando o seu irmão chegaria, mas não tinha exatamente marcado um horário com ele. Apenas disse para que ele passasse a noite com ela na casa dos dois e que chegasse não muito tarde.
Perdeu bastante tempo deixando tudo praticamente pronto e só então foi tomar banho e, ironicamente, se arrumar para comer em casa. Tinha como plano usar uma roupa especial que alugara para o Natal não por ter sido contagiada com o tal espírito natalino – a dubladora odiava essa época e esta, por sua vez, jamais tivera sido festiva em sua família – ou coisa assim, apenas queria colocar um sorriso no rosto de Joonki, nem que fosse perdendo a própria moral. Era um vestido de “mamãe Noel”, um pouco curto, vermelho com detalhes brancos. Ela calçou saltos pretos pequenos e ajeitou o cabelo com direito até mesmo a uma coroinha pequena, cheia de pedrinhas de nenhum valor e, assim que saiu do próprio quarto, deu de cara com o mais velho.
— Aniki! — Sorriu e se indispôs automaticamente a falar coreano, sendo melhor na língua do país natal de ambos e, como de costume, o chamou pelo apelido carinhoso que, mesmo nas brigas, ela jamais deixara de proferir.
Havia notificado sua chegada no exato momento que colocou os pés para fora do carro. Talvez tivesse demorado um pouco para chegar até o teatro, mas precisava pegar seu violão em seu quarto. Logo que adentrou no prédio, olhava em volta procurando a menina, já que ele por si só não era difícil de achar. Ao avistar Arashi, se aproximou dela rapidamente, sem ter intenções de assustá-la. — Arashi-chan ~ Desculpe o atraso, tinha muito trânsito. Esperou muito?
Recebeu a mensagem e sorriu, respondendo que o esperava e foi organizar algumas peças originais que os alunos escreviam, acabando por perder-se em ler as páginas de uma, cujas falas lhe chamaram a atenção assim que bateu os olhos nelas. Pegou aquele manuscrito “emprestado e saiu dos bastidores do palco, sentando-se na primeira fileira.
Ergueu o rosto quando ouviu o nome na voz familiar, mas antes mesmo de procurar o rapaz com os olhos, já tinha aberto um sorriso. — Não, tá tudo bem. Deu tempo de terminar tudo. Eu só tava lendo uma coisinha, só. — Ela fechou o encadernado simples e se levantou para cumprimenta-lo adequadamente.
Estaria mentindo se dissesse que não tinha ficado preocupado de ter demorado demais, porque ele mesmo ficava bravo quando as pessoas não cumpriam com os próprios horários, então um alívio preencheu seu interior. — Isso é bom. São peças interessantes? — Perguntou um tanto curioso, observando ela se levantar, logo tendo uma ideia. — Posso cobrar um abraço, por ontem? Se não quiser, eu me contento com seu sorriso. — Abriu os braços em uma largura aceitável para conseguir abraçar a menor, dando ênfase em seu quase pedido.
Tinha apenas se curvado como demanda a etiqueta nipônica e também a coreana; a despeito de seu jeito ser bastante cru, ela ainda era uma garota bastante educada e reservada e isso normalmente lhe rendia uma fama de fofa erroneamente. — Essa é de um dos alunos. É bem... Diferente. Parece mais um piloto da Netflix que uma peça de teatro. — E provavelmente a pessoa que a tinha escrito pensava em algo bem maior que teatro.
Não pensou duas vezes antes de acatar ao pedido alheio, aproximando-se rapidamente e o envolvendo pela cintura, embora tivesse de desviar as mãos do violão. Ergueu-se rapidamente e apenas um pouco nas pontas dos pés para lhe dar um beijo surpresa na bochecha dele. — Desculpe não ter ido ontem, eu realmente queria.
— Pilotos da Netflix, seriam a minha religião? Mas é bom ver que as pessoas começam bem das origens, dá um toque mais mágico. — Comentou antes de ser abraçado por Arashi, abrindo um sorriso curto em seus lábios. O que ele não esperava, no entanto, era aquele beijo surpresa, que o fez criar um certo rubor nas bochechas. E apenas acenou com a cabeça em resposta a ela. — Eu sei que você queria, não precisa se desculpar. Sempre existem outras oportunidades, algumas até melhores. — Falou, colocando uma de suas mechas de cabelo atrás de sua orelha, e sorrindo.
— Então, qual seu fetiche por querer me ver tocar? Eu posso tocar a música daquele vídeo de antes, e depois a surpresa. E claro, te ensinar o básico. — Perguntou em um tom de brincadeira, enquanto trazia o instrumento para frente de seu corpo, apoiando seu cotovelo no mesmo.
Ela bem fingiu que não notou aquele pequeno tom nas bochechas dele, mas seu sorriso tinha assumido um tom de notável divertimento com aquela reação. O jogo talvez tivesse se invertido um pouquinho com aquele pequeno gesto com o cabelo dela; era clichê? Era. Mas fazia efeito mesmo assim, ela só não corava com facilidade por simplesmente não ser do seu feitio. — Mas eu quero todas. E agora? — Brincou e se soltou um pouquinho dele para convidá-lo a se sentar.
— Aquilo do seu vídeo foi muito legal e rápido, eu quero ver isso ao vivo. Mas eu não consigo esperar mais por essa surpresa, então vou escolhê-la primeiro. — Estava realmente curiosa e pensou em um milhão de músicas que ele poderia fazer um cover e tinha certeza que ele se saía bem em quase todos. Achava que, depois daquele áudio, o talento dele com o instrumento era inegável.
Sentou ao lado dela, apoiando o violão em seu colo e brincando com as cordas enquanto a ouvia falar. Treinava aquela técnica desde que era criança, tentou aprender violão do jeito "normal", mas aquilo nunca foi a sua praia. Ficava feliz em ganhar reconhecimento por tocar daquele jeito, mas também achava que tinha muito em que aperfeiçoar. — Certo certo, vou te mostrar a surpresa. Meus dedos te agradecem, dói um pouco ficar treinando aquela música muitas vezes. — Ajeitou o instrumento de forma correta, para que pudesse tocá-lo.
Olhou ela rapidamente antes de começar, mas desviou o olhar para o violão, começando a dedilhar suas cordas de uma forma lenta e gentil, logo iniciando sua melodia inicial. Estava tão viciado em Arctic Monkeys ultimamente, que não conseguiu evitar de aprender a música. Tinha pensado somente em tocar, mas respirou fundo e deixou sua voz ser guiada pelo instrumento, cantando em um tom baixo. I Wanna Be Yours era a música, e embora focado, sua expressão era suave e parecia divertir-se com o que fazia.
Sentou-se novamente ao lado dele, ajeitando a saia do uniforme ao fazê-lo e cruzou as pernas por costume, colocando os papéis de antes sobre o seu colo. — Mas aquilo é muito legal. Imagino mesmo que você sempre tenha umas dores nos pulsos e na mão, porque é tudo muito rápido e eu sei que pra fazer perfeitinho, você deve treinar muito. — Passou a vida toda com músicos, seu irmão um prodígio e seu pai um maestro.
Os olhos bastante arredondados de Arashi pareciam aumentar a intensidade de sua concentração sobre os dedos alheios, pois realmente não esperava que ele também cantasse. Os acordes iniciais pareciam um pouco familiares, mas ela só reconheceu a música quando a letra começava. Adorava aquela canção, aquele álbum todo na realidade, mas o jeito calmo daquela faixa em particular era encantador. Com a melodia simples, seu foco deixou de ser o instrumento e passou a ser o rapaz e sua voz, os olhos marcando cada feição dele como se pudesse ver sua voz.
A altura da segunda estrofe da música, ela não se conteve e fez a segunda voz, embora fosse simples dizer “I wanna be” duas vezes em um tom mais agudo que o dele antes do corte do instrumental. E então algo bem raro aconteceu: Arashi era conhecida por ter um grande controle vocal, mas não cantando. Sua voz de canto parecia ser um segredo de estado, pois ela nunca postava vídeos ou covers, embora estivesse no departamento de canto. Mas ela decidiu acompanhar a letra como vocal de apoio a partir da segunda vez que o refrão se fazia presente, até o fim, curtindo o restante da canção na voz do rapaz e sem nem se tocar de que sorria quase o tempo todo. — Eu realmente gosto muito dessa música.
Sua concentração quase foi por água abaixo pelo pequeno susto que teve ao notar a menina cantando junto de si. Apreciava muito o trabalho de Arashi como dubladora, ela era muito talentosa, mas dificilmente podia observar a extensão de sua voz quando se tratava de música. Shion ficou mais feliz do que já estava, se possível. Não conhecia a menor por completo, mas ver que ele estava conseguindo pegar partes pequenas e importantes como essa lhe traziam uma onda de bons pensamentos e sentimentos.
Continuou tocando e cantando junto dela até o final, e não podia negar, as vozes deles até que soavam bem juntas. — Eu fico muito feliz de ouvir isso ~ Mas mais feliz ainda que você cantou comigo. Sua voz é bonita, Arashi-chan. — Não conseguiu conter os elogios, logo puxando levemente a bochecha dela com sua mão.
Em seguida, levantou-se, ficando de frente para ela. — É meio desconfortável fazer aquilo sentado, porque eu mexo muito os braços, então considere-se a platéia do meu show. Área VIP, ok? — Sorriu, mexendo na alça que estava ligada ao seu instrumento, logo segurando habilidosamente o mesmo novamente, aquecendo as mãos enquanto treinava a música apenas nos acordes.
Não queria atrapalhar a surpresa dele, mas simplesmente tinha sido embalada pela música. Encobriu o sorriso com a mão, mesmo que ele lhe apertasse a bochecha. Os elogios, no entanto, eram o que mais lhe tiravam a compostura, já que raramente estava acostumada a cantar. — Que isso... Eu super atrapalhei. — Até disse aquilo, mas não se arrependia, porque tinha mesmo gostado de compartilhar daquele momento um pouquinho mais ativamente do que apenas o observando. —Obrigada, mesmo. Pela surpresa.
Tempouco desejava que ele se afastasse, mas ao ter a justificativa, considerou que aquilo era temporário e tolerável. Deixou de se apoiar no descanso de braço para usar o encosto da cadeira, os olhos focados naquele pequeno show. — Falando assim, agora eu sou sua fã número um.
— Ah é? Assim eu fico lisonjeado. — Falou assim que terminou seu mini ensaio, agora exercitando os pulsos. Não podia arriscar de fazer aquilo sem propriamente aquecer seus músculos, já tinha experiências ruins o suficientes relacionadas com aquilo, já havia aprendido a lição. — Então vou dedicar ela para você, se acontecer algo, pelo menos foi honroso. — Exclamou brincando novamente.
Fingiu começar a tocar, mas apenas reviu as batidas que precisava fazer, tinha lugares certos e momentos certos. Assim que terminou, começou a tocar a introdução. Era difícil acompanhar seus movimentos, eles não eram precisos e nem perfeitamente iguais aos do vídeo, mas a essência da música parecia se tornar mais real. Shion nunca se prendeu a repetir suas músicas como gravadas, preferia senti-las. As batidas no instrumento começaram a alternar entre acordes muito rápidos e graves, e assim a música continuava, e o mais velho não parecia perder-se naquela sequência complicada.
Seus movimentos com a cabeça praticamente acompanhavam suas mãos, mas não eram tão rápidos, e tinham um certo charme de difícil conhecimento. Talvez fosse por estar mordendo o lábio inconscientemente, ou por seu olhar ter mudado para um mais brilhante e intenso. E não demorou muito para a música chegar ao seu final, e ele não quis estender o final, terminando rápido e direto, assim como o olhar direcionado a Arashi após isso. — E aí, o que achou?
A garota abriu um enorme sorriso quando o garoto lhe dedicou a música. — Não vai acontecer nada de ruim, para!! — Insistiu, tentando colaborar para a confiança do rapaz.
Os movimentos iniciais, aquela espécie de treino já focaram o olhar da mais nova, mas quando as batidas de os acordes começaram e progrediram rapidamente, ela não fazia ideia de para onde olhar e, mais importante ainda, como uma pessoa só fazia tantos sons ao mesmo tempo. Era impossível não ficar extremamente impressionada. Eram notas feitas muito rapidamente e dedos batendo no violão e os olhos dela piscaram algumas vezes como se fossem assim captar melhor o que ele fazia com tanta destreza. E foi num desses piscar de olhos que tudo acabou. Ela mais tinha captado as expressões dele, os movimentos do corpo e o ritmo dançante. Existia um charme no lábio preso por dentes, mas muito mais na expressão vivaz que ele ganhava.
Arashi se levantou ante a pergunta dele e não se conteve, batendo alguma palmas rápidas e empolgadas. — Você quem compôs isso? Inventou. Não sei, é tão incrível e eu nunca vi nada parecido! É ainda mais legal quando a gente tá vendo você tocar.
Achou fofo quando ela lhe aplaudiu, mas decidiu não comentar nada, apenas sorrir curto, e como uma forma de agradecimento, ele se curvou em um ângulo não muito grande, mas o suficiente para entender que estava agradecido. — É, eu costumo produzir várias coisas assim. Surpresa? Eu toco desse jeito desde criança, porque eu não queria só seguir o professor, sabe? Para mim, a mágica dos instrumentos é ser um só, mas se você passar de pessoa em pessoa, ele vai soar diferente. Tocar um instrumento, é fácil, difícil é torná-lo único do seu próprio jeito. — Falou ainda sorrindo. Esse era um de seus lemas quando ainda estava em processo de aprendizagem, mas acabou levando para toda a sua vida.
Imitou seus movimentos anteriores, mas dessa vez um pouco mais lentos, para Arashi poder entender o que ele fazia com suas mãos e onde conseguia tantos sons. — Eles chamam essa técnica de finger-slapping, só para aumentar seus conhecimentos em teoria. Existem muitos músicos hoje que usam isso, dá um som diferente, mais agressivo. E a percussão não é nada demais, mas eu tenho dificuldade com ela, admito. — Falou enquanto livrava-se da alça que o prendia ao violão, entregando o instrumento a ela. — Posso te ensinar a fazer isso, se quiser. Mas seus dedos vão doer um pouquinho. Acho que o básico é mais importante, mas a decisão é sua, Arashi-chan. ~
A garota anuiu com a cabeça, concordando com aquela coisa sobre uma identidade própria no jeito de tocar um instrumento e comparou aquilo com arte. Muitas pessoas desenham, cada qual à sua maneira, deveria ser algo parecido para instrumentos, de fato.
Continuou prestando atenção no que ele dizia e acrescentou a informação aos seus conhecimentos de música. Embora entendesse de teoria, em termos de instrumento, apenas sabia o básico. — Achei que slapping só existia pra baixo... Tem um baixista de uma banda de j-rock que eu gostava muito antes que fazia isso. — Realmente não sabia que o mesmo valia para violões ou, ao menos, não imaginava. — Além do mais, na minha casa as coisas de música são um pouco mais pro lado clássico mesmo.
Pegou o violão e o apoiou sobre as coxas, dedilhando-o com cautela, formando com os dedos da outra mão a nota mais fácil de todas, provavelmente uma das únicas que ela sabia. — Se você tem dificuldade... — Comentou baixinho, como uma indireta elogiosa à habilidade dele. — Eu só sei fazer isso. — E tocou aquela nota de novo e mais uma e outra... E com isso ela conseguia tocar um bom pedaço de Come as You Are, do Nirvana.
— É mais comum em baixos, mas estão usando muito na guitarra e no violão de uns tempos pra cá. E é criativo, de certa forma. Tem um cantor de J-rock que usa muito disso, é marca registrada dele. Mas quando eu pego as músicas dele para tocar... É difícil. Meus pais também são mais vintage, mas pelo menos não tem nada contra o que eu faço, tirando o meu pai. — Falar de seu pai talvez fosse uma das poucas coisas que odiava. Tinha um enorme desgosto por tudo o que ele fez sua mãe passar, não ligava para a opressão que sofreu, mas sabia que foi o que encorajou a mudança de vida de sua mãe.
Observou ela tocar com um olhar brilhante, gostava de ver as pessoas com instrumentos, lhe deixava feliz por comunicar-se com aqueles ao seu redor através da música. Reconheceu de imediato a música que ela foi formando aos pouquinhos, e não deixou de ajudá-la a conseguir tocar a parte final, pois já tinha aprendido a tocá-la há muito tempo. — Ei, pra quem não sabe nada, isso foi muito bom. E ninguém é perfeito, né? Seria sem graça. — Falou, enquanto voltava a sua posição inicial, mas sem tirar os olhos dela. — Se você segurar assim... — Colocou suas mãos sobre as dela, a guiando gentilmente, produzindo algumas notas mais complexas.
Arashi encontrou uma pequena mudança de humor à menção do pai com mais ênfase, mas não quis invadir o espaço pessoal de Shion; ainda que a aproximação dos dois estivesse acontecendo a uma velocidade alta, ela acreditava que ainda estavam longe de dividir questões tão íntimas como família. Mas marcou aquilo em sua mente como uma nota a ser revisitada futuramente, talvez. No momento, apenas as referências musicais que ele lhe falava lhe importavam. — Acho que sei de quem você está falando, mas nunca acompanhei muito a carreira dele.
A melodia da música que ela sabia era simples, não exigia tanto ritmo quanto boa parte das músicas e ela acompanhava a canção mais murmurando a música em pequenos solfejos que realmente prestando atenção à letra que ela até sabia, mas tinha aquela vergonha de cantar livremente daquele jeito, assombrada pelos talentos familiares muito mais eruditos do que ela. Parou a música ante a orientação do garoto, observando a posição na qual ele colocava os dedos dela e ela quase riu por pensar que aquilo lhe dava uma sensação que ela definia como “engraçadinha” por lhe deixar com vontade de sorrir. Dedilhou as cordas à condução do garoto, mas seus olhos focaram nos dele. Subitamente, ela virou o rosto; tinha que estar ficando maluca. Mesmo que ele tivesse todos aqueles trejeitos todos, Shion ainda era um homem e ela não podia render sua confiança daquele jeito e talvez estivesse simplesmente enganada. — Meu pai sempre disse que eu consigo tocar quase todas as músicas do Nirvana com três notas apenas. Então eu aprendi Come As You Are. — Ela tentava intercalar a nova nota aprendida com as outras, mas já não tinha tanta desenvoltura assim em colocar seus dígitos naquela posição sem quebrar um ritmo; ainda precisava pensar onde cada coisa ia.
Estava sendo impulsivo demais. Conseguia sentir. Shion sempre foi de empolgar-se muito rápido com as coisas, era a luz para algo que andava na velocidade do som, e aquilo já havia trazido demasiados desentendidos para sua vida, que ele preferiria deixar onde estavam: no passado, ou apenas em sua mente, que ia e voltava naquele assunto quando estava sozinho, ou escrevendo alguma coisa.
— Ele não estava errado, são boas para começar. — Falou enquanto observava ela tentar encaixar a nota na música. E por um breve momento, comparou aquela nota com si mesmo. Por mais que estivesse interessado em ser aceitado por Arashi (e isso apenas do lado da amizade, deixando de lado interesses românticos), sentia que não pertencia ali. No entanto, tinha seu lema de vida, que o diferente, o bizarro e o incomum sempre eram a escolha mais interessante. Interrompeu gentilmente sua mão que segurava o cabo do instrumento, segurando ali enquanto ela dedilhava, produzindo as notas certas agora. — Arashi-chan. Pode parecer estranho para você, mas eu tenho uma certa tendência de ser muito entusiasmado quando o assunto são pessoas. Se eu fizer algum mal, me diga. — Falou, sem demonstrar muita mudança em seu humor, para não expor-se demais.
O fato é que somando seus traumas familiares com os de relacionamentos prévios, mais com amizades do que amorosos, Shion acabou por tornar-se uma pessoa um tanto educada em um sentido social, não era alguém passivo de ser controlado, mas não agia sem antes ter uma resposta de sua companhia, respeitava suas escolhas e espaço, e levava muito em conta opiniões alheias. Não se achava o cavalheiro que diziam ser, mas gostava de humanidade, e sempre quis arrancar o melhor das pessoas, já que consigo mesmo, foi bem diferente.
Distraiu-se com os sons, voltando às três notas que tinha maior destreza, eventualmente encaixando a nova e produzindo várias pequenas melodias que talvez tivesse escutado em alguma música, talvez só saíssem livremente e nem fossem tão ritmadas quanto ela achava que eram. Quando parou, mediante ao toque dele, imaginou que fosse para alguma orientação musical mais uma vez, talvez ele fosse lhe ensinar uma música que agora continha aquela nota. Sempre que Arashi queria fazer uma pergunta, seus olhos pareciam ainda mais arredondados, com uma faísca de curiosidade singular, que não passou quando ela escutou o que o rapaz tinha a lhe falar. Por uns três segundos, ela precisou pensar. Ele era diferente, até então tudo nele tinha sido completamente diferente do que ela estava acostumada a esperar de rapazes e ela tinha medo daquilo ser alguma espécie de subterfúgio planejado. Ao mesmo tempo que não parecia ser. A garota começava a se perder sobre o que sentir e o que demonstrar.
— Não se preocupe, Shion-kun. — Viu nele sinceridade e decidiu acompanhar aquela loucura e dar-lhe o benefício da dúvida e provar de que ele era diferente. Era algo de pueril naquele entusiasmo do qual ele falava, algo de inocente que era justamente o que ela acreditava não existir nas outras pessoas, aquilo que a fazia desconfiar de todo mundo e fazia com que ela fosse atrás de pistas e sinais que provassem que sua opção de não mostrar-se demais era a certa.
— Por que diz isso? — Queria entender até onde ele conseguia lê-la e compreender a razão dela subitamente concentrar-se mais na música que nele (apesar de que já esquecera do violão em seu colo e seu tato se atentava apenas para a mão dele sobre a própria).
Entreabriu os lábios para começar a falar de imediato, mas parou logo em seguida. Por mais que gostasse de seguir seus instintos e sentimentos, quando se tratava de suas experiências e histórias, ele era muito, mas muito cuidadoso. O que todos sabiam sobre si era apenas uma partícula do que realmente havia acontecido, provavelmente nem seu amigo mais próximo sabia de toda a verdade. O medo de voltar naqueles dias torturantes era maior do que sua habilidade de abrir-se e ser transparente. Guardava muitas coisas dentro de si, o que alimentava muito seu lado perturbado, e tinha medo de quando sua tolerância iria acabar. Diminuir os impactos de sua vivência parecia ser o correto para si, aquilo só servia para atrapalhar a si mesmo e as pessoas ao seu redor.
— Eu tenho várias experiências ruins se tratanto disso... Alguns me acham bizarro até, mas isso sempre foi o de menos. — Fez uma pequena pausa. — Eu já andei com muitas pessoas perigosas, tóxicas, e eu tenho medo de estar te assustando, ou te causando um sentimento ruim. — O toque da mão de Arashi sobre a sua o deixava calmo, não sabia como explicar aquilo, mas estava motivando-o a continuar a falar. — Não gosto muito quando me chamam de cavalheiro por estar fazendo algo que eu considero o ideal, sabe? Minhas ações não deveriam ser consideradas "especiais" porque eu estou sendo humano. Eu gosto sempre de explorar o lado bom das pessoas, porque o "bom" é muito relativo, o pior talvez seja o melhor dessa pessoa, e é simplesmente fascinante. Não precisa ter medo de mim. — Sorriu curto, olhando ela. — Eu só quero te conhecer melhor, esse é meu jeito de abordagem, curioso mas cauteloso. E também, eu estou me abrindo com você, então você não vai sair perdendo, Arashi-chan.
Toda a atenção da garota, naquele momento, era tudo dedicado à Shion. Mesmo que pelos motivos errados: Arashi queria ver onde a mentira racharia e era boa naquilo, tinha convivido por anos com as mentiras de seu pai, inúmeras vezes o surpreendido enquanto o observava trair todas as palavras doces e que juravam lealdade, fidelidade. Era só nisso que ela pensava quando alguém prometia afeição e era, infelizmente, mais forte que ela. Ao menos até ela conhecer aquele cantor mestiço.
Temia por ainda não ter a capacidade de se abrir tal qual ele fazia; como ela explicaria que vivia sob a desconfiança geral das pessoas, agravada sempre quando as pessoas do caso eram homens? Ela entendia aquilo por si só e algumas sessões com psicólogas apenas corroboravam isso, mas ela nunca seguia com as análises. Preferia que ele continuasse falando, porque até então, ela não via onde nada daquilo era insincero.
— Você é realmente único. — Se perguntava porque ele era tão diferente, mesmo que ele tivesse acabado de explicar. Ao contrário dele, Arashi não era otimista e nunca esperava o melhor das pessoas, tinha uma dificuldade imensurável com isso. Ela mesma podia ser terrível – tinha seu problema com seus pertences e seus acessos de ciúme, suas atitudes irresponsáveis para chamar atenção; podia ser má, verdadeiramente má e ainda podia nunca revelar muito sobre si ou sobre seus pensamentos – e sabia disso. — Pode não gostar de ser o cavalheiro que dizem que você é, mas alguma coisa em você é definitivamente diferente. — E ela queria ver mais dele, não conseguia resistir. Fascinação era o que ela sentia por ele. — Eu não tenho medo de você, eu só talvez seja mais cautelosa que você, mas não planejo me afastar. — Abriu um sorriso bem humorado enquanto mentia sobre não planejar as coisas. Não era uma questão de planos, ela não conseguia ver-se longe daquele enigma que Shion representava.
— Você não costuma usar palavras que indiquem promessas ou compromissos longos, não é? — Perguntou. Com o pouco que eles haviam conversando, Shion conseguiu notar que ela esquivava de palavras assim. Bom, ele também fazia isso na maioria das vezes, mas ele era apegado demais as pessoas, então lá no fundo, ele ainda mantinha compromissos com elas, por menores que fossem. — Acho o diferente mais bonito, então obrigado, mas espero que esse minha diferença dos outros não seja cruel com você, porque ela já me trouxe muitos prejuízos... — Deixou escapar a última parte, reprendendo-se mentalmente por causa daquilo. Não era como se não lembrasse do quão assustados seus amigos e professores ficavam quando ele falava sobre alguma coisa de um jeito tão cínico e frio quando tinha tão pouca idade. Por estar morando nos Estados Unidos na época, seu pai achava que era apenas uma brincadeira de mal gosto para ele se sentir melhor ao redor dos outros, algo que uma boa surra resolvesse, mas era o contrário, só alimentava aquela confusão. Até o perdoaria se isso fosse apenas sobre si, mas ao destruir a vida de sua mãe, Shion nunca mais aceitou se quer olhar para o pai, alterando até mesmo seu nome, desconectando-se totalmente do homem.
— Não sei se pode ser isso, mas.. É difícil confiar em homens, e eu concordo. Demoramos muito para nos dar conta da realidade, muitos nunca acordam, na verdade. E isso é a causa de tantos desequilíbrios sociais na sociedade. Sei como é fácil um homem ter mais voz que uma mulher se ele tem contatos, ser levado mais em conta se ele é poderoso, e eu sinceramente tenho ódio disso. Talvez eu tenha me desviado, mas o meu ponto é: Você pode levar o tempo que precisar para confiar em mim por completo, ou nem isso, e eu não vou ficar ofendido. Eu só acho que você e eu somos semelhantes de alguma forma, e não é sobre o que mostramos exteriormente que eu estou falando.
Fitou os olhos deles, deixando sua perplexidade transparecer daquela vez. Ela era tão fácil assim de ler? Ele dizia aquelas coisas por saber dela ou porque simplesmente aquilo tudo era verdade, independente da existência da opinião de Arashi? A cada momento, mais perguntas surgiam em relação ao rapaz e nada do que ele dizia escapava à percepção de sua ouvinte que tinha mais tendência de se calar do que de se abrir. Gostava daquela honestidade, aquela abertura toda que ele oferecia, mas ela ainda tinha muito receio de cruzar aquela porta e, mesmo assim, Shion também lhe dava compreensão. Parecia muito a se oferecer a uma garota que ele conhecia a tão pouco tempo. E ele não pedia nada em troca naquele momento, talvez apenas um pouco de honestidade e confiança, mas não cobrava. “Prejuízos”, sua mente viajou em milhares de possibilidades com aquilo e a simples palavra causava uma reviravolta no seu âmago, algo como medo. — Que tipo de prejuízo? Se você quiser me contar sobre... Imagino que seja difícil. Mas eu não quero te fazer mal também.
Respirou um pouco fundo, escutando-o um pouquinho mais. Levou a mão ao rosto dele, deslizando o polegar calmamente pela região. — Eu evito isso por razões, mas ainda não sei falar dessas coisas. Não sei explicá-las. Mas eu quero saber até onde somos semelhantes... E eu perguntaria isso agora, mas eu acho mais divertido ir descobrindo. Seja paciente comigo, por favor.
— Serei paciente com você mesmo que você não tivesse pedido, é como eu sou. — Sorriu com a carícia, não a impedindo de continuar, mas colocando a mão por cima da ela, enquanto pensava no que falar. Não tinha para onde fugir agora, já tinha dito mais do que devia, e teria de falar mais. Não tinha problemas em lembrar daquilo, ele só não gosta de contradizer-se. Respirou fundo, soltando um suspiro discreto, com uma expressão mista de pensamentos. — Não posso falar muito, porque é algo muito particular, mas com os amigos... Falavam mal de mim pelas costas, e não era pouco. Também faziam algumas maldades por diversão comigo, e eu deixava, porque não sabia o quão longe eu estava indo. Foi tóxico ao ponto de eu perder um pouco a noção do que eu estava fazendo e pensando, mas eu consegui acordar do pesadelo. — Pausou brevemente, logo continuando. — E eu cresci em um ambiente meio violento, sabe... Sempre fiquei com um pé atrás quando o assunto era hierarquia familiar. E bom, tem vários outros aburdos, mas esses eu realmente prefiro não falar...
Ficou em silêncio após contar aquilo, sem saber o que deveria fazer em seguida. Apenas apertou sem muita força a mão da menina, desviando seu olhar. — Desculpe, talvez isso não ajude muito na minha imagem com você, mas falar sobre isso não é uma coisa que eu goste. — Seus braços estavam um tanto arrepiados, era notável que ele era sensível demais sobre aquele assunto, e queria realmente fazer com que Arashi confiasse em si, mas tinha medo de ir longe demais na sua abertura, machucando-se mais uma vez.
Não tinha vivido nada daquilo. Quer dizer, ela tinha saído de uma indústria altamente competitiva e na qual as pessoas não tinham muitos escrúpulos. Ela ainda era criança quando teve de lidar com toxicidade humana e, muito provavelmente por isso, ainda tinha sequelas no tratamento com as pessoas. Suspirou bem discretamente enquanto ele ia lhe contando enigmaticamente sobre seus traumas, mas via o quanto aquilo lhe afetava o julgamento. Não deixou de lhe acariciar o rosto, mas logo livrou a mão para colocar o violão de lado e abraçar o garoto por cima dos ombros. Era tudo o que podia fazer, pois não podia comentar sobre assuntos passados e tampouco desejava prolongar o desconforto do mestiço.
— O que fizeram com você não afeta a sua imagem, mas a deles. E eu entendo. — Abraçá-lo era sempre bom. Era cálido, confortável, mesmo que naquele momento, fosse um pouquinho distante. Arashi acreditava que já tinha revirado coisas ruins demais sobre ele por algum tempo e logo o soltou. — Só vamos continuar como estamos indo. São passos pequenos, mas parecem estar nos levando a algum lugar. — Disse bem baixinho enquanto o soltava, a contragosto. — É melhor sairmos do clube, logo os professores vão vir reclamar porque eu ainda estou aqui e sozinha com um garoto. — Aliviou um pouco a tensão no ar com um tom bem humorado.
Retribuiu seu abraço sem pensar duas vezes. Mesmo sendo ele o maior, se sentia um tanto protegido por ter Arashi em seus braços, curtindo aquele momento curto e ouvindo as palavras da menina com cuidado, abrindo outro sorriso curto. Assentiu, concordando com todas as suas afirmações, não podendo evitar de rir no final e realmente, dando razão a ela. — É, acho melhor irmos indo, antes que você acabe encrencada por minha causa. — Apertou levemente a bochecha dela (hábito que acabou desenvolvendo e não iria largar tão cedo), sorrindo mais aberto agora, mas logo largou, deixando-a levantar. Levantou também, colocando o violão nas costas e esperou a menina organizar tudo para que fossem logo embora.
— Vamos para a cafeteria, está tarde e podemos aproveitar e comprar nosso jantar lá. Eu pago. — Deu ênfase na última frase, deixando claro que não iria deixar ela mudar de ideia, e a acompanhando para fora do teatro. Era como ela havia dito, eram passos pequenos, mas com o tempo, iriam chegar lá. E o melhor tudo, era que teriam a companhia um do outro.
Em algum ponto da noite, a festa ficou simplesmente chata para Arashi. Sozinha e sentada no balcão, a garota viu uma garrafa de vodca quase no fim e decidiu que acabaria com a ela. Bebeu em pequenos goles, mas rapidamente e dessa vez sem misturar nada. Nem se preocupou com copos, simplesmente tomou tudo direto do gargalo, querendo ficar realmente bêbada e não conseguindo, nem mesmo quando terminou com aquela afronta ao seu estômago que já reclamava de todas as coisas que ela misturou e expressava seu descontentamento ardendo. Tinha falhado na única missão do dia que era beber até ter coragem de fazer várias idiotices e depois contar ao irmão para irritá-lo, pois ela não conseguia esquecer o quão chateada estava com a ausência dele em sua vida. Levantou-se e o mundo girava ao seu redor e fez questão de despedir-se apenas por educação, por mais que boa parte da festa estivesse ocupada com a boca em outra pessoa.
De celular na mão, sua aventura pelos corredores foi lenta e ela sequer cogitou ficar por ali, por mais que a dona da festa tivesse insistido que havia quartos disponíveis para todos. Mandou algumas mensagens, checou redes sociais – um grande erro – e decidiu que seria melhor ela não ficar ali, mas também não queria ficar sozinha. Recordou-se de que um dos garotos avisou que, caso alguém precisasse, poderiam recorrer ao seu apartamento e, mesmo que não estivesse tão ébria quanto gostaria, estava o suficiente para achar que seria uma ótima ideia para entrar em contato com ele. Nem sabia como tinha o número dele, talvez tivesse pego na escola ou mesmo na festa, talvez alguém tivesse lhe passado.
Provavelmente ela devia soar bem mal mesmo, pois o garoto não pareceu hesitar em passar o endereço à japonesa, que tampouco se segurou na hora de se enfiar em um táxi para o apartamento do rapaz.
Foi apenas quando ele abriu a porta que ela se deu conta de seu estado: enfiada em umas roupas que cheiravam à bebidas variadas que ocultava totalmente o perfume que tinha passado mais cedo, com o rosto ligeiramente avermelhado de torpor e frio e com vontade de chorar por razão nenhuma. — Talvez isso tenha sido uma péssima ideia, né, Kevin? — Pensou em dar meia volta, mas ficar escorada no batente da porta fazia o mundo ser menos rápido sem suas rotações.
Após a briga com seu irmão e a separação dos pais, a personalidade da garota se retraiu irremediavelmente. Quanto pequena, era bem mais falante e amava a atenção, mas há anos que ela se acomodava sem estar no centro dos holofotes com facilidade, falava bem menos – e se preferia assim, até certo ponto, talvez por tanto se assemelhar ao irmão a quem ela admirava – e afundava em introspecção, entendendo muitos aspectos de sua vida aos quais ela sempre tinha sido cega, indiferente ou desconsiderada. Compreendia melhor o transtorno do irmão e sua necessidade de tratamento, embora não pudesse ter empatia plena com os sintomas que se manifestavam em sua personalidade quase obsessiva. Entendia que, mesmo que tivesse começado sua carreira precocemente e tivesse tido uma ascensão rápida, ela se apagaria, enquanto a genialidade de Joonki o acompanharia até o fim da sua vida. Entendia que, mesmo que tivesse sido o destaque da família, era quase uma usurpadora, porque seus talentos eram todos para entretenimento momentâneo; ela era efêmera e tudo o que ela tinha era fugaz.
E a única coisa que sempre pareceu sólida em sua vida, seu relacionamento com o irmão, tinha lhe escapado por entre os dedos, porque ele a acusava de não lhe dar mais atenção, o que em sua opinião, era um ataque mentiroso e dolorido.
Tudo era tolerável, no entanto, enquanto estavam longe. Ela não era obrigada a se ver sendo substituída e ele não tinha que observar a garota japonesa perder definitivamente parte da vivacidade de outrora enquanto se afogava em compromissos e sonhos vazios de fama. Entretanto, desde que pisou na Coreia, o clima tenso entre os dois era palpável em qualquer espaço que compartilhassem. Arashi ainda não sabia se era uma benção ou uma maldição não estar na mesma classe que seu irmão, embora estivesse no mesmo ano. Desde que pisara na Coreia, o pai de ambos tentou reaproxima-los, mas o máximo que conseguiu foi que o já quieto Joonki ficasse ainda mais calado perto da irmã, a menos quando o diálogo era extremamente necessário, como que para pedir licença ou reclamar que a garota passava tempo demais no banheiro e simplesmente destruíra a rotina que o prodígio tinha estabelecido.
Olhares de canto, repletos de julgamento e reprovação e a sensação constante de que tinha sido substituída atormentava e assombrava a estrangeira; era ela agora quem se sentia alheia ao que a rodeava, compreendendo finalmente e com perfeição a sensação de Joonki durante quase toda sua vida.
Mas algo que ela não conseguia engolir – e andava suportando há meses – era o fato de que seu meio-irmão não lhe dava nenhuma atenção enquanto fazia isso para os outros. Assistia o rapaz andar para cima e para baixo, encontrando pessoas que ganhavam sua antipatia por simplesmente roubarem o que ela nem tinha mais. E naquela sexta-feira, Arashi se deixou ser consumida pelo seu lado passional e impulsivo e foi tirar satisfações.
Passou pelos corredores tão decidida e inexorável que dava sentido ao fato de seu nome significar tempestade. Encontrou o meio-irmão quase dentro do dormitório masculino e, ainda que ele estivesse em sua cama, naquele estado de raiva, ela invadiria o local para arrancá-lo dali e direcionar sua explosão. Segurou o rapaz pelo pulso, ganhando sua atenção à força. Fortuitamente, o local estava quase desabitado por completo – uma vantagem vinda do garoto evitar pessoas – e ela podia perfeitamente estourar ali, por mais que não fosse recomendável. As palavras vieram em japonês naturalmente, afinal, o garoto a compreenderia perfeitamente. — Você é um hipócrita. Me massacrou por falta de atenção no passado e eu tô nessa merda de país há quase um ano, nessa escola há três meses, e posso contar nos dedos de uma mão as vezes que você falou comigo sem nosso pai te obrigar... Mas você passa o tempo todo com qualquer um! Menos comigo!
Aika estava completamente em pânico. Podia não parecer pela sua expressão, mas estava em um estado de nervos que até respirar parecia algo que ela tinha que pensar para fazer. Ao saber que Minhyuk estava de volta, a mesma garota que tinha passado por tantos maus bocados nos últimos dias e que tinha decidido ser forte como uma montanha para se restabelecer tinha se trancado na sala de ensaio aos tremores. A volta dela a impactava demais e, somado a isto, viera em um momento de grande fragilidade para ela. Ela não queria conversar sobre nada, mas queria. Queria saber porque ele voltou. Por que diabos Minhyuk voltou depois de tê-la deixado. Mesmo que ela tivesse entrado em um acordo com ele sobre aquilo, mesmo que soubesse que não era culpa dele, não significava que tinha doído menos. E ela também não deixava de culpá-lo pelo menos um pouquinho, mas só pelo fato de que, se eles nunca tivessem rompido, nada teria acontecido.
Lembrou-se de seu estado depois que terminou, de como simplesmente escondeu o que sentia por ele e saiu sendo irresponsável, buscando pessoas e coisas que lhe tirassem a mente da dor. Tinha funcionado. Por um tempo. Até que tudo começou a explodir aqui e ali, as consequências de seus atos impensados. A instabilidade fez com que Aika aprendesse a gostar de beber e que aguentasse beber muito. Não fazia nem vinte e quatro horas que ela tinha ficado bêbada. Trocava as mensagens com ele aguardando a hora de encontrá-lo tendo lembranças que reviviam uma dor mal resolvida. No meio de tanta confusão, a japonesa nunca lidou realmente com o fato de ter sido obrigada a se afastar dele, nunca lidou com o que ela sentia por ele e que foi interrompido tão abruptamente. Sua volta abria o armário onde ela tinha guardado toda essa confusão e dor e espalhava tudo pelo chão.
Além de tudo isso, tinha certeza de que ele ficaria bravo no instante em que soubesse de tudo o que aconteceu. Não queria contar e não queria que ele descobrisse. Não queria perder mais alguém. Pensou em desistir, ligar e falar que não queria vê-lo nunca mais. O problema era que ela queria. Foi pensando em tudo isso que ela finalmente chegou na parte posterior do prédio onde ficava a piscina, para onde dava uma das saídas do vestiário. Sentou-se no chão e ficou parada ali, pensando no inferno que seu coração estava sendo submetido. Nem tinha começado a conversar com ele e já estava exausta. Mas quando o viu chegando, não conseguiu evitar a sinceridade de seus atos. Aika sorriu.
Sentada ainda, quase que encolhida contra a parede, chamou-o silenciosamente para perto. — Como foi o seu mês e meio sabático? — Queria saber, de verdade, o que ele tinha feito. (Se um mês e meio era o suficiente para ele ter esquecido dela, mas pensar isso era tão injusto quando ela ponderava também sobre tudo o que tinha feito no mesmo período de tempo.)
Tras el papeleo en secretaría y descubrir que ese mismo día tenía una “prueba de evaluación” de una asignatura que no había visto en su vida (el maravilloso mundo universitario), Nolan necesitaba un buen trago, o más bien varios. Necesitaba desfallecer contra la barra de un pub y quejarse de que le dolía la cabeza... Menos mal que eso estaba resuelto gracias a Mina, una chica que acababa de conocer y con la que había quedado para ir a un pub por la tarde a beber juntos. Se dejó arrastrar hasta una de las muchas entradas del campus de la universidad de Toronto y esperó pacientemente hasta que la chica apareció y le guió hasta el famoso pub irlandés: -¿Y cómo te ha ido el resto de la siesta después de que nos separáramos?
Com as atividades promocionais, fins de semana completamente à toa deixaram de existir para Aika e suas companheiras de grupo. Acordaram mais do que cedo no sábado, a japonesa ainda mais cedo para poder fugir do dormitório que não lhe pertencia e voltar ao seu quarto para rumar para gravações, apresentações, sessão de fotos. E repetiria a dose no dia seguinte, infelizmente. E provavelmente em muitos outros dias que se seguiriam até o fim da divulgação do álbum e, pelo que a empresa já combinava, não seria um período de descanso com o qual a líder do grupo deveria contar.
Ao sair da sessão de fotos e pensar nisso, a garota suspirou pesadamente e logo seu telefone tocou. Era sua melhor amiga lhe dando uma notícia que facilmente a destituiria de tal título. Cada palavra da conversa alimentava uma raiva dentro da japonesa que ela sequer conseguia pensar em gritar ou chorar ou qualquer coisa. Ela não conseguia experimentar nenhum outro tipo de sensação ou sentimento que não fosse seu sangue fervendo de fúria. Seu tom de voz, no entanto, não se alterou de acordo. Apenas congelou, num tom tão repleto de desprezo que sua expressão gélida foi perceptível a todos que passavam por perto da menina, que deixou muito claro que não daria continuidade àquela conversa naquele momento. E tampouco o faria por telefone.
Seu plano era de organizar sua mente, seus argumentos e seu coração antes de se engajar em uma discussão que ela já previa que seria mais do que acalorada, ainda que só da sua parte. O restante do dia foi passado como se a menina fosse a mais perfeita atriz de toda a Ásia, exceto que lhe faltava a naturalidade na hora de rir e seus comentários honestos passaram a contar com uma acidez polida, mas nada que a atrapalhasse. Tornava-se óbvio aos olhos de qualquer um que ela estava se esforçando para não afetar os outros com seu humor. O celular foi seu melhor amigo durante o dia. Serviu-lhe para jogar algumas conversas fora e lhe distrair a cabeça, mas ela não estava conseguindo mais manter aquela pose toda. E estranhamente, também não conseguia se desfazer dela.
Como prometido, ao retornar para a escola, preparou uma boa quantidade de chá quente e colocou em sua garrafa térmica, levando canecas e toda sua boa vontade para o quarto de Hayato. Bateu na porta e, quando foi recebida, sorriu, mas como se estivesse tremendamente exausta. — Trouxe seu chá. Mas fiz sem açúcar, não sei se você gosta com isso.