Acordei num dia desses como tenho acordado nas últimas semanas, quiçá, meses — com o peito carregado de um vazio categórico. Geométrico. Dolorido. Me pus a trabalhar e coloquei minha música, do jeito que você sabe que eu faço. A única coisa diferente, é que agora não me apego mais a ouvir o mesmo gênero — me permiti ouvir a salada de frutas que é a playlist de "músicas curtidadas" do Spotify. Foi então que o pior aconteceu: fui acometido com "Vive", do Djavan. Chorei, copiosamente, chorei. Que dor me atravessou o peito, como se inundasse meu vazio com as lágrimas represadas desde o dia que acordei com o pesadelo que tive em Porto Alegre — e que se tornou realidade um mês depois. De pronto, interpretei a música como se fosse eu a dedicá-la a você, afinal, a letra diz sobre viver a vida apesar do sofrimento, algo que você sempre fez muito bem. Vive seus dias bons, seus roles, suas amizades. Pra tudo tem momento, até para o pranto. Depois percebi que não, a melhor interpretação dessa música seria você a me recitar, como quem me ensina mais uma coisa, mais uma vez. Como quem me mostrasse que eu, sim, sempre sofri em demasia por qualquer motivo. Que era pra desencanar e deixar o tempo resolver. Por dias passei ouvindo a música do repeat. Sofrendo com cada acorde, com cada frase pausada e melódica do cara que em 2025 insiste em fazer completo sentido e desenhar com clareza a minha dor, parece que fui eu quem tinha conversado com ele antes de escrever as letras mais doloridas. Como é difícil lançar mão de você, mesmo sabendo que isso já foi feito e que é o melhor pra você. Como dói não te ter pra contar as minimas coisas do dia, ou mandar foto dos cachorrinhos que vejo pela rua... é impossível não ouvir de pronto sua voz os chamando de neném, como faz sempre.