Meia-noite clara, lua escura, estrelas iluminam minha consciência. Às vezes, nesse silêncio noturno me pergunto se tu sentes minha falta. A distância é um ilusionista, cria em minha mente uma infinidade de momentos inexistentes, momentos em que te vejo novamente, em que te abraço, em que me escondo de ti e dou meia-volta.
A distância me atormenta, porque com ela vem a incerteza, a dúvida do significado do meu nome em teu dicionário. Não deveria sentir falta daquilo que joguei na lata de lixo, nas profundezas do poço da memória, mas, ainda assim, o ser humano é feito de contradições.
É inquietante não saber se tu sentes o mesmo, se o que me reserva ao encontrar novamente o teu olhar seria tua dulçura ou a indiferença. Temo procurar a beleza com que tu me via antes, a paciência e o cuidado e encontrar um abismo, um vazio, a ausência da confirmação do afeto que um dia se fez presente. Será que meus vestígios te perturbam tanto quanto os teus perturbam a mim? Seria um erro me apegar ao passado? Teria eu o direito de segurar teus ombros, a manga do teu casaco, a barra das tuas calças se tu nem ao menos esperas meu ônibus partir só para abanar para mim através da janela?
Talvez eu seja egoísta, mas gostaria de ser um sussurro constante em teus ouvidos. Gostaria de te deixar acordado durante as madrugadas nubladas, tragando as possibilidades que poderíamos ter vivido. Confesso que não sou uma boa pessoa, longe disso. Quem ama deve desejar o melhor para o ser adorado, então por que não posso evitar a ânsia de que tu te sintas tão desesperado quanto me sinto? Não posso negar o desejo de que eu fosse o teu Cruzeiro do sul e de que, sem mim, tu não fosses capaz de te orientar nos mares do cotidiano. Tenho a esperança de ser o quebra-cabeça de mil peças que ocupa infinitas horas do teu dia, das tuas semanas e meses enquanto tu tentas formar a imagem do porquê tudo deu errado, do porquê tudo mudou. Francamente, nem eu entendo. Tu és meu quebra-cabeça.
Infelizmente, sei que minhas fantasias não passam de tolices da Terra do Nunca. Sei que não passo de um tropeço na tua estrada, uma rasura na tua história. Ínfima, pequena, insignificante, levemente irritante, como o zumbido de um mosquito.
É injusta a desproporcionalidade da emoção. Enquanto dou mil voltas na montanha-russa que se tornou meu coração, tenho certeza que o teu permanece fixo no chão, estável e imperturbável. Como dói adivinhar a verdade, a realidade, tua apatia. Sinto como se eu fosse um patético bobo da corte e tu um gélido rei. O centro do meu reino, aquele que controla meus pensamentos, minha mente, minha alma e minha loucura.
Como sei que a esperança é vã, rezo que nunca mais cruzes meu caminho. A subjetividade da especulação é menos dolorosa que o concreto. Mesmo que tu não me ames mais, não quero ouvir isso dos teus lábios, prefiro experienciar abstrata dúvida. Meu gato de Schrödinger, por mais óbvio que seja, nunca saberei aquilo que guardas em teu coração de certo. Imploro que esteja vivo em tua caixa o carinho que te deixei, que minha presença não tenha murchado em teu cérebro. Peço perdão pelo egocentrismo e pela saudade. Não deveria viver em tola fixação e, talvez, no futuro, seja capaz de te deixar no passado. Ainda assim, em noites como essa, é inevitável não me questionar o quão fugaz foi teu sentimento.