Tintim
Todas as pessoas estão se divertindo. Música. Álcool. Risos. Conversas com amigos, amantes, família. A multidão está aquí para assistir um espectáculo, sem saber que ela também é uma atração, uma peça de teatro que já vi mil vezes. Cada vez com atores e atrizes diferentes, mas não faz diferença. Todos elegantes e ricos, com o mesmo rosto, a mesma roupa. Não consigo sentir a sua alegria. A sua impudência não parece tão amável quando você não participa nela. Se acham, acreditam que são os protagonistas desse filme que se chama Vida, porém não são nada mais que figurantes no fundo desfocado da cena.
Tintim.
Sou uma figurante, como eles. Minha vida é uma coisa invisível, intangível para a massa de pessoas que passa no bar, que pede por mais vinho com bochechas inchadas e avermelhadas, que grita e chora, sai e entra. Existo apenas quando eles precisam de mim. Como um boneco de corda começo a viver quando interagem comigo. Me fazem dançar e pular, me fazem falar com uma voz que não é a minha, que foi emprestada, uma voz e um corpo que agradam e que existem só para eles. Eles vão e eu paro de viver.
Tintim.
Viro parte do cenário, perco a humanidade. Sou apenas um acessório. Não há diferença entre mim e as garrafas de espumante. Somos todas aquí para ser vistas e para servir. Nos esvaziam e esgotam e quando não temos mais nada para dar, nos jogam para fora. Há mil outras que eles podem usar. Mas ainda sou útil e fico aqui enquanto eles vêm e vão, sozinha na multidão, as vezes parte dela, as vezes não. Não sempre uma pessoa mas sempre presente, até que as cortinas se fecham. Arrumo o bar, apago as luzes e fecho a porta. A cena final.
Tintim.
Um brinde a essa vida.












