Esse cansaço que me pega
e me vira do avesso
sem virar nada
sem mudar nada
É sempre assim
- a autora anônima
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Esse cansaço que me pega
e me vira do avesso
sem virar nada
sem mudar nada
É sempre assim
- a autora anônima
Na última sexta feira algo aconteceu.
Eu estava em casa, onde eu moro há dois anos, e eu me senti completamente perdida.
Há três anos na mesma graduação, com os mesmos pensamentos sobre formatura, e eu me encontrei perdida.
Eu olhei pra trás e vi o caminho que tinha percorrido. Olhei pra frente, para o mapa que eu tinha desenhado. E constatei: eu não tinha a menor ideia do que eu estava fazendo e estava, pela primeira vez em muito tempo, completamente perdida.
E depois de alguns momentos chorando, abraçada ao travesseiro, uma pessoa que conheço me disse: “você não leva seus sonhos à sério”.
E talvez ela estivesse certa.
Sobre subjetividade
A teoria literária é uma ciência, um campo de estudo da literatura e das linguagens, mas dificilmente é levada a sério e frequentemente tem as próprias afirmações desprezadas ou ignoradas. E por quê? Bem, diferente de (quase) todas as outras ciências — ou pelo menos as ciências nas quais pude pensar enquanto escrevia esse texto — a teoria literária considera a subjetividade em suas formulações e quaisquer tentativas de questionar afirmativas prévias se tornam completamente válidas.
Essa subjetividade, na teoria literária, pode levar alguns nomes diferentes, dependendo da vertente e escola literária estudada, mas neste texto, falarei do conceito de leitor literário e leitura subjetiva. O leitor literário, em leitura subjetiva, ao ler um texto, considera muito mais a própria opinião e interpretação, valorizando a própria subjetividade, do que as intenções do autor e quaisquer análises científicas do texto. Isso, muitas vezes, na visão do autor e mesmo da academia, distorce a obra.
Essa distorção acontece devido ao uso da interpretação para construir discursos de poder — considerando a linguagem uma ferramenta de poder — e esses discursos, por sua vez, geralmente estão pouco ou nada relacionados à intenção do autor ao escrever a obra, que no final é desvalorizada e desprezada abertamente. No entanto, há situações em que mesmo a intenção do autor não pode ser mapeada com exatidão, e nesse caso, qualquer afirmação subjetiva, fundada apenas em opinião própria, põe em xeque o valor do texto. Se algo não está evidente na obra, um autor tem liberdade de, a partir do próprio discurso, complementar e defender suas intenções, mas não estando evidente na obra, sua liberdade fica restrita, mas a do leitor não.
O leitor crítico tende a se afastar (ou tentar ao máximo se afastar) da própria subjetividade enquanto lê, analisa e interpreta um texto; contudo, dificilmente ele consegue, essa subjetividade não pode ser simplesmente separada de si ou colocada de lado enquanto lê. Isso se dá devido aos mecanismos de interpretação (estudados na teoria literária e na linguística aplicada principalmente no campo da Hermenêutica).
Quando estamos lendo, também estamos fazendo associações constantes entre o que está no texto e nosso conhecimento prévio, somado às nossas experiências, de modo que nenhuma leitura poderia ser considerada 100% objetiva. Sempre haverá traços de subjetividade.
Por que um aspecto recebe mais atenção que outro? Por que uma interpretação de um fato levou a uma conclusão e não outra? Por que as pessoas gostam mais ou menos de textos produzidos pelo mesmo autor? Subjetividade.
As experiências de cada leitor, os conhecimentos prévios do texto e do autor, as associações feitas durante e após a leitura, tudo isso são traços de subjetividade que interferem na interpretação. Um fator importante na captura de atenção do leitor ao texto é a forma; muitas vezes o leitor, mesmo desinteressado, está preso à leitura. Subjetividade.
A leitura subjetiva diz, sobre isso, que a leitura de um texto é também a leitura de si mesmo, ou seja, quando um leitor interpreta um texto, ele também está se conhecendo, se interpretando, e descobrindo coisas dentro de si, que podem ou não ir para o texto, que podem ou não explicar o entendimento do texto. A literatura é um retorno a si mesmo.
Há, entretanto, duas subjetividades: uma necessária e uma acidental. A necessária é aquela que preenche as lacunas do texto deixadas pelo autor (descrições, por exemplo, de personagens e cenários, que não são feitas com exatidão e permitem que o leitor seja livre para fazer as próprias interferências). A acidental é aquela que não necessariamente se espera do leitor (divagações, por exemplo), mas faz parte do processo de leitura literária.
Um autor quando produz uma obra, tenta pensar na sua engenharia perfeita, que levará a interpretação desejada, e no leitor ideal que consumirá a obra, mas essa engenharia não é jamais perfeita e o leitor ideal não existe. Porque mesmo o público alvo mais específico ainda terá flutuações de humor, por exemplo, que podem modificar como o texto é recebido.
A tarefa impossível do autor é lidar com a subjetividade do leitor, tendo em mente as limitações e os desvios.