Todo autor e autora tem medo de superinterpretação. De que os leitores ultrapassem os limites da significação, que vão longe nas interpretações, que fujam do objetivo inicial do texto. Que se desviem. Que vão para o lado oposto do que eles pretendiam. Que os leitores façam que o texto perca seu tão inestimável significado. E não é a toa. Nós, autores e autoras, passamos horas dos nossos dias, perdemos tempo e energia, dedicamos nossos esforços a esses textos, à escrita dessas palavras. É muita coisa para ser ‘jogada fora’ por o que nós chamamos de ‘leitura desatenta’ e ‘interpretação errada’. Mas como classificar as interpretações dessa forma? Como garantir que nossos textos e os significados que atribuímos a eles cheguem intactos aos leitores, quem tanto queremos que entrem em contato com nossas obras?
O que acontece é que a leitura e a interpretação de textos sempre, inevitavelmente, passam por três intenções que, apesar de interligadas, são completamente distintas: a minha, a do meu texto e a dos leitores do texto. Eu, quando quero escrever, tenho ideias e objetivos em mente, mas nem tudo que se passa pela minha cabeça se manifesta no papel — e assim se distingue a minha intenção da intenção do texto. As palavras que escolho, as frases, a falta ou o excesso de informações, diferenciam a minha intenção da intenção do texto. E isso, por sua vez, acontece porque os leitores têm as próprias intenções e significam as minhas palavras da maneira como bem entendem.
Apesar de eu deixar pistas no texto, que deveriam levar os leitores para onde eu queria que eles chegassem, o caminho não vai ser percorrido por mim e nem vai dispor da minha presença para ser guia ou fornecer mapa. Porque todas as pistas que coloco no texto são entendidas de maneiras diferentes por cada leitor e leitora das minhas palavras.
E que pistas são essas? E que lacunas são essas que os impedem de entender o texto como eu quero que entendam?
Ora, meus textos de suspense deixam lacunas, mas elas fazem parte de uma linha bastante reta e seguir cada ponto dessa linha depende simplesmente de racionalidade, não? De ler o texto, de acompanhar o texto? Mas meus textos intimistas, os quais escrevo sem nem sempre ter o final em mente, tem lacunas que nem eu mesma sei preencher, nem eu sei que mesmo existem.
Ah, sim. A escrita é subjetiva. E a leitura, mais ainda... Mas os gêneros tem um papel interessante na maneira de significar os textos e a presença de fala, voz e diálogo também interferem, pois atuam, de certa forma, como esse guia, esse mapa.
Acho que o grande problema está no leitor ideal, leitor modelo. Esse conceito que não equivale nem exatamente a uma pessoa, nem um grupo, nem uma sociedade, nem nada, porque é só um conceito. Mas é pensando nesse conceito que escrevo meus textos, é tendo em mente os olhos dele, as mãos dele, a personalidade dele que me asseguro que o texto será entendido como eu quero. Porque eu quero e quero muito.
O problema então está aí, nesses leitores inexistentes, e na minha vontade inegável e indiminuível. Porque os leitores reais têm as próprias expectativas em relação a mim e a meu texto, e têm também expectativas em relação ao tema sobre o qual leem. Aqueles que me conhecem me leem de uma forma e aqueles que não reconhecem meu nome, de outra. Cada um desses leitores preencherá as lacunas antes mesmo de terminar de ler as minhas palavras – e talvez elas pouco importem, talvez somente a interpretação deles é que tenha valor. Afinal, eu não estou lá para me defender, ou defender meu texto – se é que está sendo atacado.
Talvez, na verdade, o problema na significação, interpretação e superinterpretação de textos esteja na perspectiva do autor de enxergar tudo isso. Os significados que os leitores atribuem ao meu texto podem ser tão interessantes e divertidos (ou mesmo mais) que o que eu pretendia, e isso pode fazer que eu mesmo retorne ao texto e o entenda melhor, o entenda de outra forma. E me entenda de outra forma.
A leitura subjetiva diz que ler e interpretar textos significa ler e interpretar a si mesmo, conhecer a si mesmo. E talvez um autor conhecer interpretações e superinterpretações do próprio texto também seja uma forma de se desvendar internamente. E não é pra isso que escrevemos? Pelo menos uma das razões?
Eu e todos os outros autores anônimos por aí tem mil preocupações quanto à própria escrita. Queremos sempre escrever algo novo, revolucionário, nunca visto antes, mas será que isso ainda existe? Esse algo? Talvez todos os nossos textos sejam apenas um remix de todas as coisas que conhecemos. Talvez nossa ideia nova e inédita tenha uma família e amigos e não seja tão nova assim; talvez só esteja disfarçada e não queira ser reconhecida porque mudou o corte de cabelo, fez tatuagens, está usando roupas diferentes. E nesse sentido, quão realmente minhas são as ideias?
E ainda mais: não sendo minhas as ideias, como eu posso querer dominar as interpretações alheias? Eu posso apenas escrever. E o leitor pode ler e escrever sobre mais tarde. E não tem nada que eu possa fazer.
A minha paranoia, então, me faz escrever, talvez não mirando em apenas uma interpretação específica, mas tentando invalidar a maior quantidade de interpretações possíveis até que reste a interpretação ideal. Mas meus esforços não são o suficiente. Porque não sou a única paranoica nessa história. Os leitores também são. Questionam a narrativa, os narradores, eu mesma, o texto, as frases, até as intenções, e assim, pode interpretar e validar ou invalidar as significações com base nessas suspeitas.
Estão todos desconfiados. E por quê? Bom, mais do que meus objetivos pessoais, meu texto também tem objetivos maiores, universais, eu poderia dizer. Porque as palavras também são instrumento de poder, também interferem em relações de opressão e tirania. E nesse sentido, interpretar o texto e usar o texto passam a ser coisas completamente diferentes. Só há como usar um texto para algo se ele já passou por uma interpretação e, dessa forma, haverá uma interpretação ‘certa’ e uma ‘errada’. Dependendo dos objetivos do uso do texto e da forma como ele é usado, ele será uma ferramenta de poder.
E a interpretação é uma ameaça. É uma afronta. É um ataque. É um absurdo, um pesadelo, um apocalipse.
Mas ela também é, de qualquer forma, uma exceção.