Renato Russo, Capitu e o poder da subjetividade
Zapeando pelo Facebook me deparei com uma discussão acalourada sobre o trecho de “Eduardo e Mônica” onde Renato Russo narra que: “Ela era de Leão e ele tinha 16″.
Nunca pensei muito sobre isso. Nem sabia que havia o que interpretar aí. Na minha visão, ela falava seu signo e ele dizia a própria idade, porque não entendia nada de astrologia e achava que era assim que identificaria o dele. Só isso, sem mistério.
Mas, nos comentários da postagem havia gente falando sobre como Renato Russo era aficionado por astrologia, logo, ao revelar que Mônica era de Leão, ele a descreve como alguém egocêntrica e que procura segurança em um relacionamento, algo que teoricamente, não encontraria em Eduardo que tinha apenas 16.
Na hora lembrei que, em Faroeste Caboclo, Renato Russo também mencionava o signo E O ASCENDENTE de João de Santo Cristo (Peixes/Escorpião). Então... Até que faz sentido não é?
Outro rapaz comentou que, no jogo do bicho, o número do leão é 16, então, de alguma forma, mesmo não sendo nada parecidos, Eduardo e Mônica estariam na mesma sintonia.
Eu pesquisei: TAMBÉM É VERDADE
Foi quando percebi: eu realmente não sei de nada.
Ela era de leão e ele tinha 16.
Como é possível que haja tanto significado em uma frase com menos de dez palavras?
Essa é uma das maiores belezas e também um dos piores horrores na Língua Portuguesa. Não há resposta definitiva, nem verdade irrefutável. A interpretação é algo subjetivo, influenciado por uma infinidade de fatores.
Quer outro exemplo? Te dou o mais famoso na Literatura Brasileira: Dom Casmurro. Afinal, Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Quem sabe? Acho que nem Machado de Assis poderia responder.
Tem quem acredite que o autor ficou em débito com Capitu, que deveria ter escrito uma segunda obra lhe dando o direito de resposta. Ainda bem que isso nunca aconteceu.
Há toda uma beleza em deixar as coisas no ar... É isso que faz “Dom Casmurro” ser um tesouro nacional e também o que fez de Renato Russo um gênio.
Capitu só é culpada de suas acusações se o leitor decide acreditar que é. Do mesmo modo, as diferenças entre Eduardo e Mônica se tornam mais profundas quando nós nos motivamos a dar significado a elas.
E aqui vai a cereja do bolo: as suas conclusões só são verdadeiras para você.
Muitas vezes somos arrogantes com nossas opiniões. Acontece que o fato de você estar certo, não torna o outro errado automaticamente, ou vice-versa. Os valores que conservamos, as informações que aprendemos, as experiências que vivenciamos, tudo isso muda a forma como interpretamos os fatos.
Esse é o poder da subjetividade. Ela é capaz de transformar todo o mundo pela ótica de cada um.