27 / hoje
acordo com o despertador que eu mesma programei ontem de madrugada. não consigo levantar. muito cansada, muito sonolenta. me dou mais uma hora. o despertador toca de novo. --não pode ser, já?
pego meu celular, ainda na cama, tento despertar, com dificuldade. a campainha toca. --já vai! é a síndica, o prédio tá com problema de vazamento de novo, ela pede pra ver meu banheiro. --claro, pode entrar. zzzzzzz..... minha casa tá meio caótica. --desculpa a bagunça...
hoje é segunda feira, dia em que todo mundo entra nos eixos. mas hoje eu tô num dia de ressaca da ressaca.
eu também queria entrar nos eixos, tava me programando pra isso desde a semana passada. mas tá difícil, meus horários estão todos trocados.
passo um café e decido terminar de assistir o filme ruim que eu comecei a ver ontem. termino o filme. preciso começar meu dia ~proativo. coloco uma música. me sinto cansada, me sinto estranha, me sinto vazia, me sinto frágil.
deve ser ressaca. e confusão. e uma certa abstinência. tudo o que eu quero é fumar um cigarro, comer mcdonald's e tomar um drink às duas da tarde.
eu passei boa parte do último ano me dedicando a uma disciplina comigo mesma, com exercícios físicos, focada na minha qualidade de vida e saúde. menos toxicidade, de todas as ordens.
[ mas, nesse ciclo de leão, não consegui. me deixei tirar férias dessa disciplina e fazer o que eu queria. eu ainda tinha que trabalhar e exercitar uma série de outras disciplinas, mas tinha chegado o momento de substituir essa minha auto-disciplina por foco nos ~MEUS PROJETOS~. já tava tudo aqui, na minha cabecinha de ascendente em virgem, mas as coisas precisavam seguir adiante. --anda logo, taura, vai materializar essas ideias antes que elas apodreçam.
deu certo, tem dado. foi um momento de desafios e dedicação intelectual. ainda não concluí nada do que eu comecei, mas os processos estão caminhando pra frente. que é como tem que ser.
quero mais. quero poder querer mais, sem me sentir culpada ou inadequada. até porque tem tanto bicho escroto (macho, branco, afortunado e obtuso) fazendo o que quer. por que eu, que questiono tudo o tempo todo, não posso me dar voz e tentar propagar a voz de tantas outras que querem ser escutadas? ]
mas enfim, é segunda feira, bora começar a vida, retomar a disciplina.
coloco ama lou pra cantar, até esgotar seu repertório. e depois repito tudo de novo. ela me inspira. não sei o que é direito. mas me inspira e me deixa feliz por estar inspirada. e me deixa frágil e me faz chorar. são os timbres? é a letra? aceito as lágrimas. choro pela casa. tento lembrar que minhas emoções são valiosas. que é isso que me faz criar coisas. as tantas coisas que eu quero poder dizer e conectar.
penso no meu fim de semana. na ressaca deliciosa que eu tive ontem, porque me deixei levar. me deixei ser leonina e não pensar tanto. foi o ritual de despedida desse período de menos disciplina. porque segunda-feira tudo ia ser diferente. eu já tinha planejado. a disciplina vai voltar.
foda-se, não é sobre isso. era sábado e finalmente começou a bater. fazia tempo que eu não tinha um sábado assim. eu tava na festa de aniversário de uma das minhas melhores amigas, praticamente minha irmã, com quem eu também divido o lar. era sábado e tava todo mundo querendo se divertir. eu conhecia a maior parte das pessoas naquele lugar. me sentia acolhida e pertencente. foda-se a disciplina. vou ficar por aqui. vou focar nisso aqui. uma amiga me oferece diversão. é padê ou emedê? ela me diz que não gosta de padê, eu respondo que eu também não, porque eu não entendo ele. então eu aceito sim sua oferenda. --obrigada, amiga <3, agora me conta sobre você. ela me conta.
saio deslizando pela festa. converso com todas as pessoas que eu amo. eu sinto amor por todxs, na verdade. é amor de verdade. e não assusta. me abro, como fazia muito tempo que não acontecia. é químico, mas não importa, o conteúdo é todo meu. eu sei porque eu reconheço tudo aquilo. é tóxico, mas é o maior catalizador da comunicação não violenta. é meio mágico, no fim das contas.
fazia tempo que eu não me conectava assim. e tava triste por isso. porque eu tava no ciclo da auto-disciplina. que não foi ruim, porque me ajudou a manter minha saúde mental. porque era o que eu tava precisando fazer. mas isso também me afastou da minha vida social. e me deixou mais cabeçuda racional. menos jogada. as pessoas seguiam as vidas delas, se jogando, e eu não tanto. senti solidão.
até esse último sábado. na verdade, até esse invernão de leão chegar. me devastando de calor de dentro. me rasgando em criatividade e criação, me deixando fazer o que eu queria, porque isso significava fazer o que eu precisava. voltei a me conectar, aos poucos, com pessoas diferentes e também de um jeito diferente, colocando minha voz, pra poder ouvir a voz dxs outrxs. e tendo minhas ideias reconhecidas pelas melhores pessoas. (isso tem sido maravilhoso)
esse último sábado, então, consagrou tudo isso. e devolveu uma flexibilidade no meu cérebro que me trouxe paz de cabeça e corpo.
agora, já é segunda-feira de novo. é o dia da volta da disciplina. devo dizer que, já no primeiro dia, rompi as regras. foda-se de novo. eu tô em prantos e não sei porque. é químico? é da minha cabeça? é do meu corpo? (definitivamente, as endorfinas da ginástica ajudavam com isso)
deixa ser. canto junto com a ama lou. caminho pela minha casa e faço o que eu posso. coloco as roupas claras pra lavar, lavo a louça do fim de semana, ponho o lixo pra fora. o choro para. e já ta na hora de comer, mas não tem nada na geladeira. meu jejum não pode ser tão longo (essa disciplina eu tenho mantido).
saio de casa, vou pro mercado. decido comprar coisas pra nutrir meu lar. volto e faço um almoço tardio. decido por um prato que é a maior definição de acolhimento pra mim. macarrão com atum no molho branco. não é algo que eu cozinho sempre, porque não é a receita mais sofisticada (ou saudável) do mundo. não importa. sinto que isso é mais disciplina do que comer algo pseudo-saudável na rua. pra agregar umas fibras, adiciono uns legumes no vapor e escolho um macarrão sem glúten (ser millennial é meio tosco, às vezes).
é uma receita que minha mãe fazia pra mim quando eu era criança. das receitas que meu pai sente falta de quando era casado com minha mãe. e também a mesma receita de um jantar que eu fiz pra minha prima, numa viagem só nossa pra buenos aires, e que ela relembra com carinho, até hoje. <3
hoje é segunda-feira e eu não fiz nada do que eu tinha me prometido fazer. mas fiz outras coisas que eu não esperava. e me deixei ser.
(agora vou pendurar as roupas no varal)










