27 / 30
agora eu tenho 30
pra celebrar meu último aniversário, fiz uma viagem para nova york. sim, bem privilegiada, mas também batalhada, porque foi planejada com meses de antecedência e dividida em muitas parcelas de cartão de crédito. super classe média que trabalha, se fode, viaja, se fode, trabalha de novo e vida que segue.
durante o vôo de ida, eu tive uma crise de enxaqueca bem louca, que me fez sair do avião de cadeira de rodas (yes, 30 anossssssss). parece dramático, foi um pouco, mas eu me recuperei rápido. o principal aprendizado disso tudo foi: deixar de ser hippie e SEMPRE levar remédios de enxaqueca em vôos de mais de 01 hora de duração.
mas enfim
essa viagem parece ter selado um clima, um caldo, não sei, um lance em volta de mim, da minha cabeça, da minha consciência, que fica sussurrando e confirmando ~CONCENTRAÇÃO~. no sentido de reclusão daquilo que é excesso e me maltrata.
excessos ainda são bem vindos, eles se tornaram parte de mim desde o ano passado, quando eu inaugurei (de novo, somente dentro da minha cabecinha) uma espécie de estética da riqueza. não de dinheiro, riqueza visual. eu me abri pras cores e brilhos, me abri para o embelezamento do meu lar e das minhas coisas. e isso tem existido dentro de mim desde então. ano passado foi muito fértil pra minha criatividade e, apesar de sentir que eu tô só no começo de algo que eu ainda não entendo direito, isso me transformou, como mulher.
mas sobre essa CONCENTRAÇÃO: é um chamado que eu tô sentindo e que me acalma e me assusta, ao mesmo tempo. porque eu sinto como se isso fosse necessário para materializar parte de toda essa criatividade que nasceu do excesso. mas me assusta, por causa de uma solidão que parece acompanhar essa concentração. eu sou filha única e isso significa ter paz e pânico da solidão. eu demorei pra sentir que eu tava inserida socialmente onde eu queria estar e, ao mesmo tempo, onde também queriam que eu estivesse. então esse chamado da concentração me dá certo medo de me tirar do meu lugar. de me tirar o pertencimento (sendo que tudo o que eu quero, de verdade, é ter movimento, e fluir todos os planos que eu tenho...)
fora o fato de que pertencimento existe dentro de mim, né? se eu não me pertenço aqui, não pertenço a nenhum outro lugar. será que esse medo é apenas a realidade de que eu já não tô me pertencendo?
concentração
não adianta ter medo, ela tá me chamando. e eu sei que não tem outro jeito. é só uma sensação de que ainda não começou, mas na verdade a concentração já chegou.
vou aceitar. vou celebrar. concentração pra traduzir as multi referências dos últimos três anos de loucuras, misticismos, amor e ódio às tendências, pertencimento e solidão, depressão vs ansiedade, verdade. verdade. verdade.
o pacto com a verdade segue me ajudando, clareando tudo, quando parece que nada presta. (e parece que teremos pela frente uns bons 4 anos de pouca coisa prestando aqui no Brasil).
concentração e verdade -- eu já sei, já entendi
e essa coisa de fazer 30? falando mais como observação de um ciclo, o corpo muda, a cabeça muda, os prazeres mudam, eu sou a mesma pessoa, a mesma criança, mas agora me vendo como adulta. e eu tenho lembrado de memórias ilustrativas e afetivas que são difíceis de dar uma data ou um contexto, eu só sei que elas vem da minha infância. e isso é meio mágico. quanto mais velha eu fico, mais conectada com essas memórias efêmeras. isso eu amo. eu vivo pra isso.
envelhecer é essa coisa louca de seguir colecionando. o corpo é o mesmo e ele vai colecionando tudo que viveu. você pode não lembrar de tudo, mas o corpo lembra. essa é a principal bruxaria. eu li uma vez que a memória vai piorando ao longo da idade, como um mecanismo de defesa da própria cabeça. a cabeça vai esquecendo daqueles mínimos detalhes que eram tão vivos quando a gente era criança, para poder lembrar do que realmente importa (em sentidos práticos, tipo, endereço de casa e o nome da mãe). isso eu já não gosto muito. mas eu aceito. e confio que o principal HD é o corpo. a cabeça é outra coisa. é místico e matemático. é inteligência artificial. ou natural.
e os excessos? tem excesso que presta e tem excesso que tem que ir embora.
tem excesso que é hedonista e artístico e compreensivo de que a beleza nutre e faz bem. é um excesso que quer cuidar e envolver, coletivamente. esse excesso cuida de mim e me inspira.
mas tem excesso que é só deslumbre. bate e passa rápido, como droga ruim. é fútil, autocentrado e superficial. esse excesso eu não quero, porque é neoliberal e consumista. esse excesso me esgota e, quando eu não ponho isso pra fluir, satura meu fígado. daí, meu corpo, o HD da minha vida, entra num tipo de pane, avisa a cabeça, que ativa a enxaqueca e só diz: AGORA LIDA COM ISSO, LINDA.
então é isso, sem querer ser vaidosa citando o que eu já escrevi, mas meio que já sendo: meu corpo é a minha nave e eu preciso escolher com carinho onde ele vai me levar. qual excesso presta ou não? eu só sei pelo jeito que bate: ou bate com verdade ou com deslumbre.
e tá na hora de parar de passar pano pro deslumbre. porque a gente tá vivendo tempos difíceis e perigosos. tá na hora de todo mundo cuidar de si e do próximx. passar pano foi o que trouxe a gente até essa merda atual.
eu passei muito pano pra muita coisa nos últimos tempos... e foi um jeito de tentar ser menos julgadora, menos dura. mas acho que eu só fiquei meio preguiçosa. eu preciso, sim, descongelar, continuar me flexibilizando, mas só pro que realmente parece importante. e real.
esse é o texto de despedida dessa série, que começou nos meus últimos dias de 27 anos de idade.
saturno veio, tem vindo, tem rolado, a gente tá se amando, apesar das dificuldades, mas agora sinto que ele já tá indo. sinto mais clareza ou, ao menos, mais humildade diante da dúvida. eu recebo a dúvida, junto com o excesso bom, porque é isso que me inspira e me motiva.
faz só alguns dias que eu completei 30 anos e é lógico que eu não tenho ideia do que isso significa. mas a observação é livre e é isso que eu vou fazer.
sigamos bebendo água e falando a verdade.
obrigada <3
Originally posted by xponentialdesign












