Dandaluna, Janaína, Marabô, Inaê, Sereia, Maria, Dona Iemanjá
É contado que a Mãe de Todos, muito vaidosa, gosta de receber presentes, joias, perfumes e flores. Velas. Cantos. Ela tem vários nomes, muitas histórias, uma só característica da qual ninguém duvida: é mãe. Seus seios de tão grandes transformaram-se em rio e mar. Seu ventre rompeu-se dando origem a muitos filhos e filhas. É bondosa, mas incisiva. Não abaixa a cabeça.
A primeira vez que conheci a sua festa, alguns anos atrás, os filhos eram muitos e a cor que os pintava era uma só: branco. Vi tiaras e pinturas faciais, chocalhos, pandeiros, e um cheiro. A alfazema se misturava ao sal do mar e compunha um odor característico, D’Iemanjá. Arrepiei todos os pelos do corpo ao ver o azul colorindo tantos rostos, as vozes cantando para Ela, senti meu coração acelerar e chorei. Chorei na madrugada vendo os pescadores saindo ainda ao luar para oferecer a Ela tudo o que adora, uma devoção que só os filhos têm com suas mães, vontade de agradar, coragem de pedir e obediência para ouvir.
Dia 02 de fevereiro é dia de festa no mar. Odoyá, minha mãe, Iemanjá! No Brasil a figura dela se mistura com a de Nossa Senhora, num movimento hoje conhecido como sincretismo religioso, mas a história nos conta que foi a única forma que os pretos, vindos de África para serem escravizados em nosso país, encontraram de cultuar a imagem da Mãe bondosa, Iemanjá, quando não era possível existir nenhuma figura que não fosse cristã, perfeita, e, claro, branca. As histórias se unem e, por vezes, tornam-se uma só.
Atualmente, na celebração de Seu dia, encontra-se pessoas de diferentes religiões, que estão ali pois cultuam a figura, em sentido amplo, da Rainha que protege, abençoa e dá luz. Fisicamente, a imagem dela é descrita de duas formas distintas, uma aproxima-se da cultura cristã, assemelhando-se a outras santas católicas: branca, com um corpo escultural, esbelto, cabelos longos e lisos; a outra, demonstra uma orixá de características distantes do padrão branco e mais próxima das histórias que lhe conceberam e foram passadas por gerações. Negra, cabelos longos e crespos, seios enormes e corpo farto. De todas as formas, indiscutivelmente bela.
Quem é do Mar tem uma relação mais íntima com Iemanjá, pois aprendeu desde cedo que é necessário pedir permissão para adentrar em suas águas e, com sorte, poder retornar. Afinal, ela é Rainha, e apesar de mãe bondosa, também guarda fúria e anseia por ser respeitada e obedecida. No entanto, Janaína, com sua generosidade, aceita todos que vão ao encontro dela, por isso sua festa, no Rio Vermelho, em Salvador, atrai sempre mais gente, que sente a energia Dela e o amor de seus filhos e filhas.
Esse ano não celebrarei seu dia no mar. Mas sinto sua presença aconchegante e carinhosa todos os dias. Desde a cor azul que me chama antes mesmo de eu conhecer seu nome e sua história, até os cantos que celebram o seu amor. A história explica até onde pode, pois algumas coisas são para serem sentidas, e não podem ser descritas em palavras nem de nenhuma outra forma, que não sentindo. Assim nasceu uma filha, que não sabia o quanto ansiava pela mãe, até arrepiar-se, derreter-se em lágrimas de encantamento e felicidade, ao encontrar o sentimento único de pertencimento.
Desejo que minha mãe toque o coração de todos, tornando o mundo um lugar mais repleto de amor. Que esse amor seja capaz de romper os estigmas religiosos, a intolerância, pois a figura de Iemanjá é a prova viva de que é possível aceitar a diversidade. Não cabe hipocrisia. Quem verdadeiramente vai em busca Dela, encontra o segredo de ser: coexistindo. Afinal, são diversas histórias, diversas crenças e um só objetivo, o amor.