saudade
não me disseram que saudade era esse sentimento prematuro de quando já se sente falta antes mesmo de partir. não me disseram que saudade é quando você vai se deixando nos móveis, nas paredes de casa, no carinho nas gatas, no abraço da mãe. estou descobrindo uma saudade de tudo por aqui. estou tentando impregnar meu olhar sobre cada memória afetiva que eu tenho tido. não me disseram, nunca, que saudade era esse sentimento que vai cavando ainda mais fundo dentro da gente quando percebemos que existirá um espaço, um vácuo, uma falta de presença. as vezes, em algumas pessoas, esse sentimento se revela por meio de uma lágrima que rola quando o primeiro pé sobe as escadas do ônibus e do outro lado fica alguém que se ama muito, muito. em outras, a crise de choro acontece quando já se está no avião, certo de que a ida vai demorar pra voltar.
atravessam-se oceanos, fronteiras, quarteirões e relacionamentos. a saudade abraça você tarde da noite, quando sua sensibilidade está pronta pra ser pega pelos braços e levada à pupila dos olhos: você vai chorar muito ainda. chorar a falta, a ausência do toque, a tessitura da voz, a birra da mãe em fazer você comer a comida direito, as vezes em que seus amigos te carregaram no colo porque você bebeu demais pra esquecer mas acabou lembrando ainda mais. tantas coisas viram saudade quando estamos do outro lado. saudade de olhar na mesma direção e apontar pra onde a estrela vai cair. o sol lambendo o céu e a gente tentando adivinhar qual gosto de quando um astro se sente sozinho na esfera do zodíaco. será que pra eles a solidão é a mesma?
não me contaram que saudade é isso-que-não-tem-nome, mas incomoda, incomoda. vai afundando a cavidade do peito com trilhões de céus e horizontes. vai apertando nossa memória mais amorosa, fazendo-a murmurar. a saudade é esse sentimento que tem nascido em mim antes mesmo de ir embora. queria deixar um pedaço de mim nos cômodos de casa. nos ombros dos meus pais. nas mãos dos meus amigos.
queria permanecer aqui, tateando o crescimento e a mudança das pessoas, mas preciso mudar também, crescer, tornar-me adulto, e ser adulto dói tanto, dói muito. você precisa sair de casa, levantar os braços, não olhar pra trás, saber que consegue cuidar de si mesmo enquanto todo o mundo explode.
não me disseram dessa saudade desmedida que aflora na gente quando não sabemos o que virá. o futuro nos obrigando a chorar pelos cantos, a realidade da vida caindo sobre nossos ombros e a gente tendo que dormir antes das dez porque amanhã é dia de levantar com um sorriso no rosto.
não me disseram que a saudade nos faz virar a madrugada e estender o desejo de permanecer. que permanecer é mais confortável que ir embora: da cidade, da vista de todo mundo, de você mesmo. porque quando você muda de cidade, de afeto, de lembrança, você também muda a si mesmo. seu peito vai aumentar de volume. suas lágrimas ficarão mais salgadas. a voz da mae ficará mais tensa.
tá tudo bem, meu filho?
e você não tem comido direito. não aprendeu a se proteger das pessoas que entram e saem a todo instante da sua vida. não aprendeu a se defender das pessoas que afundam pés, responsabilidades e dores em cima de você.
como contar ao mundo que você ainda não descobriu como colocar a mão no rosto pra evitar o soco do amor e da saudade invadindo cada cavidade do seu rosto, peito, coração? há quem grite. eu resolvi escrever.
textos cruéis demais para serem lidos rapidamente














