From my village I see as much as from earth one can see of the Universe ... Therefore my village is as big as any other earth Because I am the size of what I see And not the size of my own height...
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From my village I see as much as from earth one can see of the Universe ... Therefore my village is as big as any other earth Because I am the size of what I see And not the size of my own height...
Inteiro-me
Inteiro-me na pracinha do Santo Antônio Além do Carmo, vendo meus filhos brincarem e depois comerem cachorro-quente. Inteiro-me quando aceito, como Alberto Caiero, que isto é isto, e não há nada a acrescentar, nada a interpretar, quando me livro da interpretose, do desejo de entender, da vontade de tudo teorizar, de tudo duvidar, porque pensar é não viver, inteiro-me quando me livro da vontade de transformar, porque transformar é não viver. Nessas horas, na pracinha do Santo Antônio com meus filhos a correr soltos, sou quase um homem íntegro, quase como se não houvesse mais nada a querer... mas há, sempre haverá, e o desejo, o buraco que me habita grita por mais e mais. E eu aceito esse abismo do ser, aceito o grito da falta, aceito e observo meus filhos correndo para o escorrega, me ensinando a exuberância do corpo livre, do corpo em movimento, do sorriso gratuito, aceito seus ensinamentos e entendo que eles são a poesia de Alberto Caiero, que era poeta, mas era menino, um menino-poeta ou um poeta-menino, e entendo que meus filhos seguramente o conhecem muito melhor que eu. O conhecem porque o são. Meus poetinhas. Talvez um dia eu também tenha sido Alberto Caeiro, algum dia da minha longínqua infância, algum dia em que também corri para o escorrega e escalei a pirâmide de barras de metal que ficava no parque do Mirandão. No Mirandão eu fui também Alberto Caieiro, fui poeta no alto da pirâmide observei a imensa árvore que cobria o parque, imensa porque eu era pequeno. E aceitava que era pequeno, aceitava que meu pai era sapateiro e que minha mãe dobrava sapatos em casa numa pequena pedra de mármore. Aceitava o som do martelo no mármore abafado pelas pequenas dobras de couro, pois havia beleza naquele barulho, martelo, couro, mármore, e a força das mãos de minha mãe. Eu ainda não perguntava. Apenas sentia a árvore e sua sombra imensa no parque do Mirandão. E eu ainda sou uma criança de seis anos e às vezes é como se soubesse de tudo, e não precisasse aprender a hermenêutica gadameriana ou a poética de Aristóteles, nem o princípio da falseabilidade de Karl Popper, pois me basta escalar a pirâmide de barras de metal do parque de minha pequena escola na periferia de Franca, basta chegar ao topo e observar que a árvore que me sombreia é ela mesma, e ela é maior e mais importante que eu, e viverá mais que eu e é mais sábia que eu, e é mais bela que eu, e isso não me angustia, não me angustia minha pequenez, porque ser pequeno é uma dádiva, e eu quero ser para sempre pequeno, sentado no topo da pirâmide da minha escolinha, quero apenas observar a árvore enquanto meus companheiros, também todos pequenos e distraídos como eu, brincam na areia.
Mon regard est net comme un tournesol. J’ai l’habitude d’aller par les chemins, jetant les yeux de droite et de gauche, mais en arrière aussi de temps en temps… Et ce que je vois à chaque instant est ce que jamais auparavant je n’avais vu, de quoi j’ai conscience parfaitement. Je sais éprouver l’ébahissement de l’enfant qui, dès sa naissance, s’aviserait qu’il est né vraiment… Je me sens né à chaque instant à l‘éternelle nouveauté du Monde… Je crois au monde comme à une pâquerette, parce que je le vois. Mais je ne pense pas à lui parce que penser c’est ne pas comprendre… Le Monde ne s’est pas fait pour que nous pensions à lui ( penser c’est avoir mal aux yeux) mais pour que nous le regardions avec un sentiment d’accord… Moi je n’ai pas de philosophie : j’ai des sens… Si je parle de la Nature, ce n’est pas que je sache ce qu’elle est, mais parce que je l’aime, et je l’aime pour cette raison que celui qui aime ne sait jamais ce qu’il aime, ni ne sait pourquoi il aime, ni ce que c’est d’aimer… Aimer, c’est l’innocence éternelle, et l’unique innocence est de ne pas penser.
Fernando Pessoa, Le Gardeur de troupeaux
O Guardador de rebanhos
IX
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
""Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do Mundo? Sei lá o que penso do Mundo! Se eu adoecesse pensaria nisso. Que ideia tenho eu das coisas? Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos? Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma E sobre a criação do Mundo? Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos E não pensar. É correr as cortinas Da minha janela (mas ela não tem cortinas). O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério. Quem está ao sol e fecha os olhos, Começa a não saber o que é o Sol E a pensar muitas coisas cheias de calor. Mas abre os olhos e vê o Sol, E já não pode pensar em nada, Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos De todos os filósofos e de todos os poetas. A luz do Sol não sabe o que faz E por isso não erra e é comum e boa. Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores A de serem verdes e copadas e de terem ramos E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, A nós, que não sabemos dar por elas. Mas que melhor metafísica que a delas, Que é a de não saber para que vivem Nem saber que o não sabem? "Constituição íntima das coisas"... "Sentido íntimo do Universo"... Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. É incrível que se possa pensar em coisas dessas. É como pensar em razões e fins Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão. Pensar no sentido íntimo das coisas É acrescentado, como pensar na saúde Ou levar um copo à água das fontes. O único sentido íntimo das coisas É elas não terem sentido íntimo nenhum. Não acredito em Deus porque nunca o vi. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, Sem dúvida que viria falar comigo E entraria pela minha porta dentro Dizendo-me, Aqui estou! (Isto é talvez ridículo aos ouvidos De quem, por não saber o que é olhar para as coisas, Não compreende quem fala delas Com o modo de falar que reparar para elas ensina.) Mas se Deus é as flores e as árvores E os montes e sol e o luar, Então acredito nele, Então acredito nele a toda a hora, E a minha vida é toda uma oração e uma missa, E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. Mas se Deus é as árvores e as flores E os montes e o luar e o sol, Para que lhe chamo eu Deus? Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar; Porque, se ele se fez, para eu o ver, Sol e luar e flores e árvores e montes, Se ele me aparece como sendo árvores e montes E luar e sol e flores, É que ele quer que eu o conheça Como árvores e montes e flores e luar e sol. E por isso eu obedeço-lhe, (Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?), Obedeço-lhe a viver, espontaneamente, Como quem abre os olhos e vê, E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes, E amo-o sem pensar nele, E penso-o vendo e ouvindo, E ando com ele a toda a hora." Alberto Caeiro
Oi, eu estou a 24h do ultimo treino de circo e sinto dores musculares...sim! Eu adoro isso!
"não sou nada,
nunca serei nada,
não posso querer ser nada.
à parte isso, tenho em mim todos os hematomas do mundo" (e tenho também todos os sonhos)