Onde está a chave? Alguém viu meus óculos? Quem foi que partiu meu coração? Esquecer é uma arte que se aprimora com o tempo. Que bom que esquecemos. Imagine só se tudo fosse armazenado em nosso HD? Teríamos tantas mágoas, tantos remorsos e arrependimentos. Lembrar-nos-íamos de muitas alegrias é verdade. Contudo, esquecer as felicidades nos faz comete-las novamente e sermos felizes outras vez. Melhor seria se a amnésia estivesse sob nosso controle. Excluir instantaneamente acontecimentos ruins deixaria nossa memória livre para armazenarmos o lugar onde largamos a chave do carro ou para evitar que deixemos a toalha molhada sobre a cama. Enfim, usaríamos nossa memória para algo mais útil. Esquecer é conveniente. Não se lembrar de onde vimos alguém é um presente, baseado nisso surgiu a velha cantada “te conheço de algum lugar?”. Esquecer, por exemplo, a primeira desilusão amorosa nos faz amar novamente. É bem verdade que esse novo amor não será uma cópia do outro, pois nada é cem por cento esquecido. No fundo, no fundo nós sempre sabemos onde estão os óculos, só não temos certeza se estão lá. Assim acontece com o amor, iremos esquecer as feridas, mas ainda saberemos como as conseguimos e evitaremos ao máximo adquiri-las novamente. Por isso não se irrite com seus lapsos de memória, lembre-se que eles têm suas utilidades. Procurar a chave do apartamento é um exercício, encontrar os óculos no seu rosto lhe faz perceber que está na hora de ir ao oftalmologista e livrar a memória da dor de um coração partido lhe permite amar novamente.