Hoje, por vezes, perdi para o relógio.
Segunda-feira, e, mesmo antes de abrir os olhos, sentia a garganta pegando.
O dia seguia, e eu não o alcançava. Começo de ano, ou melhor, o primeiro dia útil pós-festas.
Além da sensação de falta de tempo, também me faltava a capacidade de me fazer entender, de ser percebido.
Tem dias que sou assim, meio melancólico, totalmente diferente do sujeito esperado diariamente por todos: aquele que brinca e tem um certo dom de tirar um sorriso, até mesmo dos desconhecidos. Mas hoje eu não estava assim.
O dia passou, as tarefas diárias foram sendo feitas ou empurradas para o calendário do dia seguinte.
Já eram 21h, e eu ainda não havia ido ao supermercado.
Chegamos às 21h27 no supermercado e, enquanto um de nós posicionava perfeitamente o carro na vaga do estacionamento, ao longe, eu a vi sentada no chão. De cor parda, cabelos desgrenhados, cercada de sacolinhas e com uma caixinha de pastilhas mentoladas nas mãos. Num quase mau humor, pensei: "Trabalhar como doméstica ela não quer."
Saímos do carro, certificando-nos de que o alarme havia sido acionado, afinal, São Paulo anda um perigo.
Passamos por ela, e ela disse algo inaudível. Perguntei ao meu parceiro:
— O que ela disse?
— Ah, se a gente não queria comprar as pastilhas.
Logo a volta me angustiaria, porque, hoje em dia, quem anda com dinheiro em espécie na carteira?
Mal pisamos no supermercado e a voz metalizada no alto-falante informava que tínhamos poucos minutos antes do encerramento das atividades do dia.
Ok, Sr. Tempo, eu sei... você não sossega nem um segundo.
Tudo certo, fizemos as compras num ato costumeiramente sincronizado.
Saímos e nos deparamos novamente com a senhora dos cabelos desgrenhados, mas, dessa vez, com um semblante que me fez lembrar que se tratava de um ser humano.
Dissemos que estávamos sem dinheiro e perguntamos se ela tinha PIX. Enquanto um de nós cadastrava os dados para a transferência, sempre com os olhos atentos a qualquer perigo iminente, ela olhou para mim e disse:
— O senhor não precisa de uma diarista?
Bastante sem graça, respondi que já tínhamos uma.
Nesse momento, concluímos o PIX e informamos o valor transferido.
Seu rosto se iluminou, e ela disse que, naquela noite, não ia comer biscoitos com os netos, pois agora poderia comprar o botijão de gás que precisava.
Isso me rasgou por dentro. Me senti o menor e o pior ser humano.
Guardamos o contato dela. Quem sabe neste ano o Natal veio tardio, e o menino Deus pediu abrigo à porta de um supermercado.
Meu desejo, no primeiro dia útil do ano, é não perder a humanidade e manter um olhar fraterno para todo aquele que cruzar o meu caminho.
Feliz Natal atrasado!
Ah, antes que eu me esqueça: a senhora dos cabelos desgrenhados tinha nome e sobrenome.