retrato dos cinco anos.
com o corpo pendurado no varal respiro o calor me dói o abdômen de mulher vejo um par de meias e fico com vontade de por calçar os pés e colocar o álbum de 1994 no repeat espero o horário, quando o alarme toca programo mil horas centenas de minutos quinquilhões de movimentos. faço calor com as mãos nos vãos do joelho um lugar íntimo e meu, - atrás dos joelhos - onde nenhum ser humano prende o olhar jogo água gelada no rosto lembro da primavera, sentada no quintal de pedrinhas em Minas Gerais eu olhando flor, sol estalando nos cabelos castanhos e as vezes loiros e azuis uma aranha tecendo teia meu olhar de criança vê a teia e vem inseto voando, se enrola e prende na teia que não viu. as linhas invisíveis se enredam no corpo insetóide para mim, a aranha ri. eu fico presa no calor, na teia da vida urbana sou a aranha na teia, o inseto preso, a garota que assiste a cena. pergunto “por quê?” nem sempre escuto resposta. mas me vem vento fresco, sombra, água. me vem a gigante-mão protetora onde me guarneço e resguardo do escaldante calor. me vem coisa boa, mesmo sem todas as respostas. me vem aranha, inseto, infância, e alegria, mesmo com as perguntas (...)







