Memórias, 6 de abril de 2017 - Quinta-feira
40Km/h na principal avenida da cidade é uma boa velocidade para quem se quer andar sem pressa de chegar ao destino. Eu estava no banco de trás daquele Palio vermelho clichê, o qual havia tantas histórias para contar... O céu nublado disparava tímidos pingos de chuva pequenos em comparação com aquele denso céu de algodão opaco, uma prova de que aquele outono não estava para brincadeiras.
Ora meu reflexo aparecia na janela do carro, ora não e, sem sombra de dúvidas, aquela sombra celestial me confortava, afinal eu não era a única com aquele humor. Não aguentava mais aquele homem o qual dirigia, tinha raiva dele, queria grita e socar a cadeira do motorista, mas esse comportamento não combinava com a enteada perfeita do padrasto perfeito da família perfeita(mente uma decepção).
Fitei minhas mãos e encarei o anel de côco que eu usava com minha avó, não sabia se levava em consideração as suas falas boas ou as ruins, eu não sabia diferenciar os cravos das rosas assim como nenhuma garota que recém completou 15 anos deveria saber, mas havia vindo de longe. Longe? com apenas 15 anos? É, quem vive com ardor em segredo sabe que cada dia conta.
Pensei em mandar mensagem para Isadora, mas ela estava diferente, distante, não queria perpetuar o silêncio, mas também não queria quebrar sua quietude porque piscianos são assim, segundo uma página qualquer do Instagram sobre astrologia. É, melhor era conversar com aquele algodoal opaco mesmo.
Finalmente havíamos chego naquele Wallmart de cidade interiorana, com suas características rachaduras no chão pelas quais brotos de capim diziam "Olá, mundo! Cuidado para não tropeçar nessa greta e se quebrar no chão! O gerente mesquinho não quer mais dores de cabeça". Essas raízes tinham razão, um tropeço ali e um idoso teria problemas.
Olhei o celular, eram 16h49min. "Oba, quase 5h". Mamãe estava perto de sair do serviço e eu poderia estar próxima dela, mesmo que tão distante, mesmo sabendo que aquele espaço físico não era de tanta credibilidade, mas era o que me restava. Abri a porta do Palio, deixei a brisa urbana entrar carro adentro, fazendo meus cabelos negros voarem para trás e meus braços se arrepiarem.
Me abracei a mim mesma, numa tentativa de fazer o jeans da jaqueta cumprir sua função de conservar minha temperatura, mas não funcionava tanto se combinado com shorts jeans curtos. Tirei os fones e olhei na diagonal, pensei que talvez se eu morasse num daqueles prédios, teria mais razões para sorrir.
H∆rley Rodrigues
- texto e foto autorais.

















