O surto chegou sem bater.
Abriu as janelas da mente
como vento em casa abandonada,
quebrando o nome das coisas.
E então veio a mutilação.
Há amputações invisíveis:
como quem carrega um incêndio
Então aprendi o idioma do silêncio.
falado por quem sobreviveu demais.
que o sofrimento esquece de matar:
me vi respirando outra vez.
Porque sobreviver também é arte.
que só podem ser escritos
à beira do abismo.O surto não veio como loucura.
Primeiro a água pelos tornozelos,
até que meus pensamentos começaram
a boiar mortos dentro de mim.
Eu via meus próprios olhos
como quem encara um animal ferido
mas já abandonado por Deus.
Ninguém percebe o instante exato
em que uma mente se rompe.
perto do que foi perdido.
Porque mutilar não é apenas cortar carne.
e não reconhecer a própria alma
como se existisse algo apodrecendo
Eu me tornei um quarto fechado
A vergonha crescia nas paredes
Ele não era ausência de som.
Era ouvir o coração bater
como alguém socando um caixão por dentro.
Era sorrir em mesas cheias
implorava para desaparecer.
o quanto sangrei sem sangue.
as mutilações escondidas:
a fé arrancada dos ossos,
a inocência deixada no chão do banheiro,
o amor-próprio apodrecendo lentamente
que não fazem a pessoa morrer.
Só impedem ela de continuar existindo direito.
Carregando dentro do peito
onde o surto ainda caminha descalço
quando o mundo me vê calmo,
recolhendo os pedaços da própria mente
Porque certas dores não passam.
na parte mais funda da carne
onde ninguém consegue tocar
O surto abriu minha cabeça
como quem abre um animal morto
escorreram coisas sem nome:
rostos deformados pela culpa.
Eu não enlouqueci de uma vez.
Como ferrugem comendo ferro.
Como mofo avançando pelas paredes
em que ouvi minha própria mente
como madeira velha prestes a ceder.
que morrem antes do corpo.
A mutilação começou invisível.
Primeiro arrancaram minha voz.
já andava por dentro da vida
mas minha alma tinha cheiro de quarto fechado.
A vergonha me criou no colo.
Ela lavava meu rosto pela manhã,
“olha o que você se tornou.”
Então aprendi a me esconder
quando pronunciadas em voz alta,
trazendo o abismo dentro dos olhos.
Mas deixei pedaços meus lá embaixo.
Partes inteiras da inocência
foram mastigadas pela escuridão.
Há coisas vivendo em mim até hoje.
Às vezes acordo de madrugada
de que existe alguém respirando
como um bicho escondido nas paredes,
o pouco que ainda sobrou de humano em mim.
não foi sobreviver ao horror.
que depois de tanto tempo
eu comecei a chamar o horror
no quintal de uma casa antiga.
Sem coragem de olhar para trás.
Mas a terra nunca segura para sempre
aquilo que continua vivo.
eu sentia as lembranças cavando de volta
por dentro da minha cabeça.
não tinha forças nem para gritar.
Eles apodrecem em silêncio
Passei anos fingindo normalidade
enquanto carregava um massacre inteiro
o que foi mutilado por dentro.
atrás do sorriso automático,
entre um “tô bem” e outro.
A vergonha me ensinou a calar.
A raiva me ensinou a sobreviver.
uma criatura feita de contenção.
Um incêndio trancado num quarto.
Às vezes eu queria destruir tudo.
queria apenas deitar no chão
e parar de existir por algumas horas.
É o reflexo que ela deixa.
É quando alguém toca seu ombro
e seu corpo reage como ameaça.
e você responde com dentes.
É quando o silêncio de um quarto
onde sua alma aprendeu o medo.
que minhas emoções criaram mofo.
respirando atrás dos meus olhos.
A que acontece em silêncio.
A que transforma alguém ferido
em alguém incapaz de acreditar
ainda existe uma guerra acontecendo