Mais um
A cartilha da saúde para homens trans saiu do ar, um governador aí (de SC) quer vetar o uso do nome social em cargos públicos, e eu tô puto. Muito puto. Queria passar uma imagem otimista de força e perseverança, mas não tá dando. O otimismo só brota quando penso na legião de aliados e militantes que foi eleita, e foi muita gente, mas me veio um medo. Se nesses 15 dias de governo já aconteceu tanta merda, imagino como será esse ano.
Fui na junta militar hoje. Tô com meu certificado de alistamento. Agora só em julho terei de entrar num site específico e ver o local, a data e a hora de minha apresentação. Devo ir ao forte gragoatá, aqui pertinho. O funcionário que me atendeu me disse pra falar aos militares sobre eu ser trans, pois não posso fazer o exame médico com os outros caras. Tô menos preocupado.
Passei na escola em que completei o ensino médio. Fortes emoções... Na verdade, não. Pus as fofocas em dia com as secretárias e em algumas semanas meu novo certificado deve estar pronto. Bem moleza. A diretora veio falar comigo, o que me deu um nó no estômago. Saí da formatura com lágrimas de saudades e algumas de raiva. Lembro de ter me sentido um verdadeiro alien em certas situações com a diretoria – sobre o rolo com meu nome. Mas a diretora me respeitou dessa vez, ponto pra reconciliação.
Uns pelos novos nasceram ao redor de meu umbigo e na linha vertical da barriga. Estou feliz, quero ser mais peludo na barriga e no peito, me lembra um filhotinho. Só me frustra que minha linha da barriga é torta, talvez pela escoliose, e contorna meu umbigo ao invés de atravessá-lo.
Andei bebendo um tanto. Comparado às outras pessoas da minha idade, não bebo nada, mas o que importa é o meu corpo e ninguém da minha idade faz hormonioterapia. Preciso maneirar. Andar na natureza e beber tem efeitos relaxantes similares. Pretendo navegar entre os dois, ao invés de me ater num só.
Um amigo está me ajudando a disseminar meus dotes violonísticos. Tentarei dar aulas assim que o semestre começar. Só temo que 1) eu seja um péssimo professor e meus possíveis alunos me odeiem e dispensem ou 2) ninguém me queira ou 3) eu não consiga conciliar trabalho com faculdade e me embole todo. Respira, Bruno, respira....
Alguma coisa boa tem que sair disso, não? Voltei a escrever, sem cobranças, só pra mim. Só não digo que a escrita é a melhor terapia porque né, cursando psicologia pra quê. Me senti extremamente leve e lúcido após pôr os primeiros pensamentos no papel. Isso, álcool e andar na natureza. Mais um atrativo.
No geral, estou bem. Não feliz – evito me utilizar da felicidade como ponto de referência, pois, pra ser sincero, não sei bem o que ela significa. Estar bem é mais real, diz respeito à estabilidade, e nesses tempos, apesar do medo e das preocupações que não deixam de me cutucar nem por um instante, consigo ler, escrever, tocar meus instrumentos, dar uma caminhada e resolver problemas de forma que minha cabeça não exploda.

















