Alma de Bronze
Sempre me indaguei: Quem sou?
A alma que calou, agora me pergunta:
Sou a menina-fardo, pequena e muda,
sobejo que a sorte um dia deixou?
A esposa-vitrine: espelho ou cortina
Que a própria vontade o contrato calou?
A mãe que provê, sombra do abandono
Oceano de amor, ilha de omissão?
Mestra dos caminhos
Rouca ao fim das horas,
Giz e alma em pó,
No fim do quadro, extinta?
Quem sou, afinal,
Além do eco de todas elas?
Onde reside o peso da minha identidade?
No gesto que se expõe ou na palavra que eu lanço
Ou será na entrega que me faço, sem metade,
Que o peso do ser alcanço?
Busquei meu valor na sombra de quem pensei que era:
Sufocada pelas vozes que gritavam:
"Você não será NADA, jamais!"
Minha força quase acreditou.
Continuei a indagar: Quem sou?
Na busca incerta de quem eu seria,
Subi degraus: o diploma, a Mestria,
Para, então, cair em mim e ver:
Que o valor real que em mim residia
Era a luz que eu podia oferecer.
Busquei em vão meu valor
no apreço falso que me deram,
tão fugaz quanto a sede.
Abracei o calor que me usava,
para logo sentir o frio do adeus
na pressa do descarte.
Ainda me perguntei quem sou
Mas a maturidade veio, e com ela
A clareza que só o tempo entrega:
O valor que eu buscava, em meio à treva
nunca esteve no apreço fugaz...
Estava em mim.
Sim, em lugares onde a vista me falhou.
E depois dessa busca insana,
Finalmente descobri quem sou:
Venho dos punhos erguidos dos quilombos
perdidos na caatinga do sertão.
Sou indomável, selvagem
como os ancestrais
que fundaram a vida no meio do nada.
Índia guerreira,
que o cativeiro não pôde calar.
Alma de bronze
Que a dor não pôde fundir.
Filha do mato, sou minha própria história...
Dentro de mim, há um milhão de vozes:
Meus ancestrais se refletem
na força que me permite ser quem sou.
Trago em mim os traços:
A identidade que tanto busquei
Mora em mim vem do meu sangue,
E essa força me proíbe de cair.
Eu sou negra, cabocla e mestiça.
Sou Brasil, a essência!
Não este país de hipócritas no trono,
mas o cerne de um povo que ressurge
por maior que seja a fogueira que nos queimou.
Não me pergunto mais quem sou: eu agora sei.
Eu sou tudo e sou nada.
Quando eu me for, serei lembrada? — Que importa!
Afinal, desvelei a resposta:
Sou uma vida inteira que cabe num instante.
Sou o meu próprio e imenso universo.
Sou o fogo incandescente da vontade.
Meu valor está em quem eu sou, agora...
Isso é certo.
Esse "eu" que se derramou em poesia,
Mas que certamente caberia
em um só e simples verso.
Vânia Pereira











