“Puta que pariu”. É tudo que ela diz quando vê a cena.Ele permanece em silêncio, o choque pairando no ar entre os dois. Vermelhorubro tinge o chão de madeira escura, fresco demais, e pegadas surgem dali atésumirem no corredor. Qualquer outro dia, eles ririam da situação – mais umapegadinha entre amigos tentando assustar uns aos outros.
Mas hoje eles tinham um corpo definitivamente morto nasala à sua frente, cinco pessoas desaparecidas e uma terrível falta deexplicação no meio disto tudo.
John e Amanda estavam no porão pegando bebidas quandoescutaram os gritos. Eles não se alarmaram tanto no início; era comum em umasessão de filmes de terror. Mas os passos acelerados e os estrondos que seseguiram, não. Os dois subiram as escadas correndo, atravessando o labirinto decorredores o mais rápido que podiam, mas não foram suficiente para poder impedirou mesmo entender.
O corpo de Diana jazia no canto da sala caído em umângulo estranho; de olhos abertos, pálido e completamente imóvel. O resto dasala estava completamente revirado, como se uma briga séria tivesse acontecidono recinto. Sem contar com a enorme mancha de sangue, do qual eles não faziam amenor ideia de quem era ou de como havia surgido.
John percebeu que estava tremendo.
“Como- o que-”Amanda não parecia mais capaz de formular uma frase. Ele a segura pelo pulso comfirmeza, e ela tem de se conter para não dar um salto.
“Eu não sei.” A voz dele não está muito melhor, quaseimpossível de se escutar. “Vamos sair daqui.”
Ninguém precisa falar duas vezes. Clarissa, é o primeiro nome que surge em sua mente, logo antes deseus outros amigos, mas eles não param – os dois parecem entender que não hájeito de ajudá-los se estiverem mortos. Eles vão sair dali, e conseguir ajuda.John não pode deixar de sentir a culpa se abatendo em seu corpo – passar o fimde semana na antiga casa da família tinha sido ideia dele. Amanda nem mesmo gosta de filmes de terror, mas eleinsistira. E agora ali estavam.
Lamentar-se não adiantaria de nada agora.
Ele começa a conduzi-la pelos corredores que pareceminfinitos, correndo novamente, mas mesmo tendo morado na casa em um passadodistante, nem mesmo ele parece entender a arquitetura impossível do lugar.Quando viram em mais uma sala de estar, ele para de supetão, e puxa ela decostas para o que quer que esteja na frente dele.
“Amanda. Olhe para mim.” Ele diz, sussurrando,tentando ao máximo esconder o temor na voz. “Não tire os olhos de mim.”
A ar ao redor deles fica cada vez mais frio, e Johnpode sentir o arrepio que desce gelado por sua espinha. Atrás do corpo esguiode Amanda, ele pode ver – mas ele não consegue explicar o que via.
Flutuava, mas não possuía a graça associada à palavra.Era quase como um rastejar-se de pé, como se a travessia do plano imaterialpara este tivesse danificado algo. Seus membros estavam tortos em ângulosestranhos, o pescoço virado para o lado como se perguntasse algo. Não eracompletamente translúcida, mas a única cor que tinha era o vermelho que escorriade seu pescoço e dos pulsos como uma lenta cascata.
John apertou firme a mão de Amanda. Ele não queria quea amiga visse a cena horrenda, mas não pôde evitar o nome que surgiuinvoluntário de seus lábios.