IMAGINE SUKUNA (OMEGAVERSE)
S/N precisava daquela caixinha.
Ele já havia perdido a conta de quantas vezes tinha parado naquela mesma calçada, encarando o prédio que um dia pôde chamar de casa. Dez? Cinquenta? Cem vezes? Talvez mais. O coração sempre batia igual: rápido demais, pesado demais, como se fosse explodir no peito.
Do outro lado da rua, os seguranças estavam ali como sempre, eretos, atentos. Reconheciam ele de longe, claro. Quem não reconheceria? S/N Ryomen não era qualquer um. Era o ômega do alfa mais temido de Tóquio, o homem cujo nome ninguém ousava sussurrar sem que um arrepio percorresse a espinha.
Era.
Porque fazia seis meses que não era nada.
S/N respirou fundo, os dedos trêmulos fechados com força em volta da pequena chave dourada. Ainda a tinha, mesmo depois de tudo. Ainda a carregava como um lembrete cruel de que um dia acreditou poder ser feliz ali.
Ele precisava daquela caixinha.
Nos últimos seis meses, as palavras de Sukuna naquela noite ecoavam sem parar na mente dele.
Fraco. Inútil. Não consegue nem gerar um bebê direito.
Doía. Queimava. Machucava mais do que qualquer coisa que já sentira.
Mas ele também não tinha ficado calado.
Ainda bem que Hikari morreu… já pensou se ele crescesse nesse inferno? Com um pai de merda como você?
Os olhos de Sukuna naquele momento eram a coisa mais horrível que S/N já tinha visto. O alfa, sempre tão seguro, tão dono de si, parecia despedaçado. E ele mesmo, S/N, sentia como se tivesse arrancado o próprio coração e jogado no chão.
Ele tinha ido embora naquela noite. Sem olhar para trás. Sem pegar nada. Sem levar uma única lembrança.
Mas a caixinha…
A caixinha estava lá.
Dentro dela estavam as primeiras coisinhas de Hikari. O conjuntinho azul bebê que ele tinha comprado em segredo, tão animado que não se conteve e mostrou para Sukuna naquela noite em que o alfa voltou ensanguentado, mas com aquele sorriso raro que era só dele.
O pingente com o nome gravado: Hikari.
Era pouco, mas era tudo o que lhe restava.
Atravessar a rua parecia uma eternidade. Cada passo ecoava na calçada molhada, como se Tóquio inteira estivesse em silêncio, assistindo. A chuva tinha deixado o ar frio e úmido, colando o tecido da blusa no corpo magro de S/N.
Ele parou em frente ao portão alto, o coração batendo tão alto que parecia um tambor.
— Boa noite, Ryomen-san — o segurança mais velho o cumprimentou com um leve aceno de cabeça, a voz grave, quase reverente.
— Boa noite… — S/N murmurou, tentando forçar um sorriso.
Os homens abriram caminho imediatamente. Ninguém o impediu. Ninguém ousaria impedi-lo. Ele ainda era o ômega do alfa mais perigoso de Tóquio, mesmo que não se sentisse assim há meses.
Passar pelo portão foi como atravessar um campo minado. Cada centímetro de chão carregava lembranças que latejavam na pele como feridas abertas.
Ali, naquela varanda, Sukuna costumava me abraçar por trás enquanto eu tomava café.
Ali, naquele jardim, ele matou um traidor com as próprias mãos e depois veio me buscar para jantar como se nada tivesse acontecido.
Ali, naquele elevador…
S/N estremeceu. O elevador.
Ele entrou e sentiu o ar frio envolver o corpo como uma faca. O espelho polido refletia uma versão de si mesmo que ele quase não reconhecia. Olheiras profundas. Pele pálida demais. O cabelo bagunçado que ele costumava manter impecável para irritar Sukuna.
Você tá tão bonito, meu ômega…
A voz do alfa parecia sussurrar na memória dele, baixa e rouca.
S/N fechou os olhos e apertou a chave na mão.
— Não pense nele… só pega a caixinha e vai embora.
O número da cobertura acendeu, e o som do elevador subindo era quase ensurdecedor. O cheiro do prédio ainda estava ali. Aquele cheiro de madeira cara, whisky envelhecido, e… Sukuna.
Para.
Ele não podia pensar nisso agora.
Quando as portas do elevador se abriram, o corredor estava vazio. O coração de S/N bateu tão rápido que por um momento ele achou que fosse desmaiar. O tapete grosso abafava o som dos passos dele, mas o cheiro estava lá.
O cheiro dele.
Mesmo fraco, misturado com o aroma de cigarro e álcool, ainda era inconfundível. O cheiro de alfa. O cheiro de Sukuna.
S/N parou em frente à porta da cobertura. A madeira escura parecia mais imponente do que nunca, como se soubesse que estava prestes a engolir ele inteiro.
Seus dedos tremiam quando encaixou a chave na fechadura.
Por um momento, não conseguiu girar.
A respiração saiu trêmula, um soluço escapando sem permissão.
— Eu só quero a caixinha… só isso… — sussurrou para si mesmo, tentando reunir forças.
Se tivesse sorte, Sukuna não estaria lá.
Se tivesse azar…
S/N fechou os olhos, a mão firme na chave. Podia sentir o cheiro dele mais forte agora, mesmo do lado de fora. Ele está lá?
Gritou por dentro para não se importar. Para só pegar o que precisava e ir embora. Mas a voz dele na memória não deixava.
Você é meu, S/N. Sempre vai ser meu.
O coração quase saltou do peito quando girou a chave. Um clique baixo. A maçaneta fria sob os dedos.
E então, lentamente, ele abriu a porta.
A cobertura o engoliu com o mesmo cheiro, o mesmo ar pesado de sempre.
A porta fechou atrás de si com um clique pesado, e S/N engoliu em seco. O ar da cobertura parecia mais denso, mais carregado, como se cada centímetro gritasse você não devia ter voltado.
E então ele viu.
Ryomen Sukuna estava sentado na poltrona de couro preto, o copo de whisky em mãos. As pernas abertas, o corpo relaxado demais para alguém que carregava o peso do submundo inteiro nos ombros. Os olhos escarlates se fixaram nele como lâminas afiadas, brilhando com algo entre fome e irritação.
Mesmo sentado, Sukuna parecia dominar o espaço. Grande. Imponente. Predador.
Mas S/N não sentiu medo. Nunca sentia.
— Olha só quem resolveu aparecer — a voz grave soou arrastada, quase divertida. — Pensei que estava me evitando, mas na verdade estava só criando coragem, não é?
S/N manteve o queixo erguido, os dedos apertando a alça da mochila vazia que trouxera para a caixinha.
— Eu só vim buscar as minhas coisas. E vou embora.
Sukuna sorriu de lado, um sorriso sem humor. Girou o copo entre os dedos, o gelo tilintando no cristal.
— Engraçado… porque eu contei pelo menos quarenta e sete vezes em que você ficou parado do outro lado da rua encarando esse prédio como um ratinho assustado.
S/N sentiu o estômago revirar, mas não desviou o olhar.
— É… eu vi você. Todos aqueles dias. Nas câmeras. Ficava quase uma hora parado… e depois corria de volta pro buraco onde se enfiou.
O deboche na voz de Sukuna era como uma faca sendo cravada devagar.
— Se sentia tanta falta assim do meu pau, era só ter ligado — ele completou com um sorriso cruel. — Eu te faria gozar tão forte que você esqueceria até o nome do nosso maldito filho.
A mão de S/N tremeu, mas a raiva queimou mais forte do que a dor.
— Vai se foder, Sukuna.
O sorriso do alfa se alargou.
— Ah, mas é isso que você quer, não é?
— Eu não tô aqui por pau nenhum. Eu só quero as minhas coisas.
O olhar de Sukuna se estreitou, e a diversão sumiu. Ele largou o copo na mesa com um baque seco e se levantou. Cada passo que dava em direção a S/N fazia o chão parecer tremer. O cheiro dele se intensificou, o de alfa dominante, ácido, quase sufocante.
S/N permaneceu imóvel, o queixo erguido, o coração batendo rápido demais, mas sem dar um único passo atrás.
— Seis meses — Sukuna murmurou enquanto se aproximava. — Seis meses e você fugiu como um ratinho, se escondendo, se fazendo de forte…
Parou a poucos centímetros dele, a sombra enorme envolvendo o corpo menor de S/N. Os olhos vermelhos faiscavam com fúria contida.
— … e agora aparece aqui, depois de me deixar sozinho no inferno, pra quê? Hein, meu ômega?
A palavra saiu carregada de posse, como uma corrente pesada em volta do pescoço de S/N.
Ele ergueu o olhar e o encarou com toda a raiva e dor acumuladas.
— Pra buscar as minhas coisas…
A voz saiu firme, mas umedecida pela mágoa.
— … e pra te pedir o divórcio.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Sukuna não se moveu. Não piscou. Não respirou.
Era como se o ar tivesse congelado entre eles.
— Repete — a voz dele baixou, rouca, quase um rosnado.
S/N sentiu o coração bater na garganta, mas não cedeu.
— Eu quero o divórcio, Ryomen.
Por um momento, os olhos escarlates faiscaram como brasas vivas. O cheiro do alfa se tornou mais forte, quase sufocante, misturado a algo mais bruto… medo? Raiva? Dor?
— Então é assim… — Sukuna falou baixo, com um sorriso torto que não chegava aos olhos. — Você passa seis meses me deixando no inferno, vem aqui no meu covil, olha na minha cara e me pede o divórcio.
Ele riu, uma risada seca e amarga que fez S/N estremecer.
— Você realmente acha que pode se livrar de mim assim?
— Eu não tô te pedindo permissão — S/N respondeu com a voz trêmula, mas carregada de desafio. — Eu só tô te informando.
Os dois se encararam como dois animais prestes a se atacar. O ar era pesado, o suficiente para esmagar qualquer um que ousasse respirar naquele momento.
Por um momento, o silêncio foi absoluto.
E então Sukuna… riu.
Uma risada baixa, grave, que começou no peito e ecoou por toda a cobertura. Era um som perigoso, carregado de algo que não era exatamente humor.
— Divórcio? — ele repetiu, a voz arrastada, quase saboreando a palavra. — Você realmente acredita nessa merda, S/N?
O ômega manteve o queixo erguido, os olhos faiscando.
— Eu acredito. Não sou mais seu, Sukuna.
O sorriso de Sukuna se alargou, um sorriso cruel e possessivo que fez o estômago de S/N revirar. O alfa se aproximou ainda mais, até que o corpo grande projetasse uma sombra sobre ele.
— Ah… meu lindo e teimoso ômega… — Sukuna murmurou, a voz quase carinhosa, mas com um fio de ameaça que fez os pelos da nuca de S/N se arrepiarem. — Você realmente esqueceu quem somos? O que somos?
Ele ergueu a mão, os dedos ásperos roçando o queixo delicado de S/N, forçando-o a manter o olhar.
— Eu lembro perfeitamente — Sukuna continuou, os olhos vermelhos brilhando com uma fome antiga. — Lembro do dia em que você entrou naquela maldita igreja de cabeça erguida, mesmo sabendo que estava se casando com o demônio. Lembro dos seus votos… até que a morte nos separe.
O sorriso se tornou mais escuro.
— E eu jurei o mesmo.
S/N apertou os punhos, tentando ignorar o arrepio que percorreu a espinha.
— As pessoas se separam, Sukuna. Não somos obrigados a ficar juntos pra sempre.
— Ah, mas nós somos. — A voz dele desceu uma oitava, quase um rosnado. — Você esqueceu da lua de mel?
S/N sentiu o rosto queimar, mas não desviou o olhar.
— Esqueceu como eu te fodi todos os malditos dias por quase três meses? Como você gemia o meu nome e dizia que era meu pra sempre?
O ar entre eles estava tão pesado que parecia impossível respirar.
— Quase noventa dias, S/N — Sukuna sussurrou, se inclinando para perto, o hálito quente com o cheiro de whisky e cigarro. — Noventa dias gozando dentro de você, marcando cada pedacinho do seu corpo como meu.
S/N estremeceu quando sentiu os dedos fortes de Sukuna roçarem a marca antiga em seu pescoço. A mordida que o alfa deixara ali na última noite da lua de mel, quando ele quase desmaiou de tanto prazer e exaustão.
— Essa marca não desaparece, meu ômega — Sukuna rosnou, os olhos cravados nos dele. — Nem o inferno vai arrancar você de mim.
S/N engoliu em seco, o coração batendo tão rápido que parecia doer.
— Eu não sou seu. Não mais.
— Não se engane, S/N — Sukuna interrompeu, a voz baixa e afiada como uma lâmina. — Você sempre foi meu. É meu agora. E será meu até o fim da porra da sua vida.
Ele se aproximou ainda mais, o corpo grande quase encostando no de S/N, o calor dele envolvendo o ômega inteiro.
— Pode tentar fugir. Pode me odiar. Pode até querer me matar… mas você nunca vai se livrar de mim.
O silêncio se arrastou por alguns segundos, tão denso que S/N achou que fosse sufocar.
— Eu só quero a minha caixinha — a voz dele saiu fraca, mas carregada de determinação. — Depois, quero você fora da minha vida.
Sukuna sorriu novamente, um sorriso perigoso que não prometia nada além de caos.
— A caixinha você pode pegar… mas a segunda parte? — Ele ergueu o queixo de S/N com dois dedos, obrigando-o a encarar o olhar rubro. — Isso nunca vai acontecer, meu amor.
— Eu te odeio… — S/N sussurrou, a voz tremendo.
— Minta pra si mesmo o quanto quiser — Sukuna rosnou, a respiração dele quente contra os lábios do ômega. — Mas seu corpo ainda me quer. E eu vou te lembrar disso… da pior forma, se for preciso.
O silêncio entre eles era espesso, úmido, como neblina dentro do peito.
S/N podia sentir o cheiro dele com mais força agora — não era só alfa, não era só poder. Era amargura. Era tristeza. Era o cheiro de um luto que nunca tinha sido reconhecido.
— Você fala como se ainda houvesse alguma coisa aqui — S/N disse baixo, a voz trêmula, mas firme. — Mas o nosso casamento morreu naquela noite, Sukuna. Quando você olhou pra mim como se eu fosse o lixo mais fraco do mundo e disse que eu não conseguia nem gerar um bebê direito.
A risada de Sukuna morreu na garganta.
O sorriso foi embora.
— Aquele foi o momento em que tudo acabou — S/N continuou, os olhos ardendo. — Eu sangrei por dias. Fiquei em silêncio, sozinho. E tudo que você fez foi jogar a culpa em mim.
Sukuna trincou o maxilar.
— E você? — ele retrucou, a voz grave e cortante. — Acha que foi só eu que falei merda naquela noite? Você me chamou de pai de merda. Disse que ainda bem que Hikari morreu. Disse que era melhor assim.
— E era o que eu sentia naquela hora! — S/N explodiu. — Você parecia não dar a mínima! Você era cruel! Frio! Eu não tinha escolha. Tive que ir embora porque você… você parecia não sentir nada!
A respiração de Sukuna ficou pesada. O ar entre eles parecia prestes a estourar.
— Você acha que uma noite, um surto, uma troca de palavras no meio de uma porra de uma tragédia anula tudo que vivemos? — Sukuna avançou, o peito subindo e descendo com força. — Anula o que fiz por você, o que sofri com você, o que construímos?
S/N não respondeu. Não conseguia. O nó na garganta o impediu de falar.
Mas os olhos dele diziam tudo.
Então, as lágrimas vieram.
Lentas. Silenciosas. E ferozes.
— Eu queria tanto aquele bebê… — sussurrou. — Queria tanto… e agora você só… você fala da perda como se fosse só mais uma coisa. Como se não tivesse significado nada.
Sukuna piscou lentamente. Algo no rosto dele mudou. Os traços antes rígidos se contorceram. A raiva deu lugar a algo mais escuro. Mais nu.
— Como é que você tem coragem de dizer uma coisa dessas? — ele murmurou, rouco. — Eu sou um desgraçado, eu sei disso. Mas…
As palavras falharam. A voz sumiu.
E então, pela primeira vez desde que S/N o conheceu, Sukuna chorou.
Uma lágrima grossa caiu, e ele nem se deu o trabalho de esconder. O alfa mais temido de Tóquio estava ali, vulnerável, desarmado.
— Eu amava aquele bebê desde o maldito segundo em que você me mostrou o teste — ele continuou, a voz falhando. — Eu fiquei em choque, claro. Mas no segundo seguinte… eu já estava sonhando com o rosto dele. Com o cheiro. Com você e ele dormindo na mesma cama.
S/N não conseguia se mover. As pernas pareciam de pedra.
— Eu sonhava com ele correndo nesse maldito corredor. E eu sempre pensei: nunca vão encostar um dedo nele. Porque eu sou o inferno e o inferno protege os seus.
Ele deu um passo para trás, como se sufocasse com as próprias palavras.
— E aí… você sangrou. Você caiu. Você chorava tanto… e eu não conseguia fazer nada. Eu fiquei desesperado, com medo, puto… e falei aquelas coisas. Porque eu não sabia o que fazer. Porque eu sou um maldito animal.
Mais lágrimas escorreram. Ele não as limpava.
— Mas você… você era tudo. E ele era tudo. E de repente vocês dois estavam… longe.
S/N só conseguia olhar. O peito parecia afundar. A dor de ver Sukuna daquele jeito — quebrado, desfeito, humano — o dilacerava por dentro.
Ele nunca imaginou que ver Sukuna chorar o partiria tanto.
— Eu senti a sua falta todos os dias — Sukuna murmurou. — Cada maldito dia.
E S/N chorou. Pela primeira vez em meses, chorou sem tentar parar.
Pelo filho que perdeu. Pelo casamento despedaçado. Pela dor que dividia com aquele homem que, por mais falho e monstruoso que fosse, ainda era o amor da vida dele.
— Posso pelo menos olhar a caixinha com você?
S/N hesitou.
— Rápido. — murmurou e os dois foram pro antigo quarto deles, pegou a caixinha no guarda roupa, e sentou-se no chão, afastando-se o suficiente para deixar Sukuna sentar perto.
Eles olharam juntos. A roupinha. Os sapatinhos. O pingente.
Sukuna passou os dedos pela pequena nuvem bordada. Uma lágrima escorreu sem que ele percebesse.
— Eu sonhei com ele, outro dia. Tinha seus olhos.
S/N olhou para ele. Pela primeira vez em meses, sem raiva. Só tristeza.
— Eu sonho com ele todas as noites.
O silêncio voltou. Mas não era mais o mesmo silêncio de antes. Era um silêncio cansado. Ferido. Real.
— Eu queria que as coisas tivessem sido diferentes. — Sukuna disse.
— Mas não foram. — S/N respondeu.
Ele fechou a caixinha. Levantou-se.
— Adeus, Ryomen.
Mas antes de sair, ele parou na porta. Por um instante, pensou em se virar. Em dizer algo. Qualquer coisa.
Mas não disse.
Saiu com a caixinha no peito, como quem carrega o que sobrou de uma vida inteira.
S/N já tinha descido os dois primeiros degraus da escada quando ouviu a voz.
— Espera.
Ele parou. Só por um instante. Mas não olhou para trás. As mãos apertavam a caixinha contra o peito como se ela fosse escudo, como se proteger de Sukuna fosse possível de novo.
— Eu não posso deixar você ir assim. — a voz do alfa veio mais perto, mais firme, mas carregada de cansaço. — Não sem te dizer uma coisa.
S/N continuou sem responder.
— Eu fiz algo. — Sukuna disse. — Algo que devia ter feito antes. Mas... eu não consegui te contar. Não consegui nem ir lá.
S/N virou o rosto apenas o suficiente para olhar por cima do ombro, as sobrancelhas franzidas.
— O que está dizendo?
Sukuna desceu um degrau, depois outro. Agora os dois estavam quase no mesmo nível, separados por apenas um patamar de altura e o mundo inteiro entre eles.
— Depois que você foi embora... eu mandei construir um lugar. — ele disse, baixo, como se cada palavra pesasse uma tonelada. — Um memorial. Para o Hikari.
S/N congelou.
— O quê?
— Um pequeno espaço. — continuou Sukuna. — Discreto. Num jardim privado da casa da minha avó, no interior. Eu mandei plantar cerejeiras lá... mandei esculpir uma pedra com o nome dele. Só o primeiro nome. Hikari. Um cantinho pra ele existir.
S/N engoliu em seco. O peito apertou de forma quase sufocante.
— Eu... não sabia disso.
— Claro que não sabia. — Sukuna murmurou. — Eu nunca consegui ir lá. Só vi fotos. Eu... sou um covarde do caralho. Porque mesmo querendo tanto, eu não aguentava a ideia de estar lá sozinho. E mais ainda... de estar lá sem você.
O silêncio que caiu não era mais só dor. Era devastação. S/N olhava para ele com olhos arregalados, os lábios entreabertos, como se tentasse entender, como se quisesse acreditar.
— Por que está me contando isso agora?
— Porque eu não quero que você vá embora sem conhecer o único lugar onde nosso filho pode... existir. — a voz de Sukuna falhou, mas ele não desmoronou. — Não quero que fique com essa caixa como único pedaço do Hikari. Você tem direito de saber que ele tem um espaço no mundo. Um lugar com o nome dele. Um lugar onde podemos ir juntos.
S/N respirou fundo. O ar parecia pesado. Ele olhou a caixinha nos braços, depois para Sukuna.
— Você está me pedindo o quê, exatamente?
— Que venha comigo. — Sukuna disse, direto. — Agora. Só por hoje. Vamos juntos. Eu... preciso disso. E acho que você também precisa.
— Você acha muita coisa. — S/N sussurrou.
— Então me odeie o caminho inteiro. Mas vem comigo. — Sukuna deu um passo mais próximo. — Por Hikari. Por nós dois. Pelo que sobrou.
S/N fechou os olhos. O nome soava como uma faca toda vez que era dito, mas também como bálsamo. Saber que havia um memorial. Que ele não tinha sido apagado.
— Não vou perdoar você. — ele murmurou, olhos ainda fechados.
— Eu não espero isso. — Sukuna respondeu, com uma honestidade que arrancou um estremecer do ômega.
— E não quer dizer que vamos voltar.
— Eu não espero isso também.
S/N abriu os olhos. A expressão era de exaustão profunda, mas havia uma rachadura ali. Algo se partindo dentro dele.
— Me dá um minuto. — disse, virando-se para subir os degraus de volta ao apartamento. — Vou pegar um casaco.
Sukuna não sorriu. Mas os ombros dele relaxaram, como se depois de meses alguém tivesse afrouxado uma corrente apertada demais.
Esperou em silêncio, parado no hall. Alguns minutos depois, S/N apareceu com um casaco cinza sobre os ombros e a caixinha ainda apertada nos braços.
— Vamos logo antes que eu me arrependa.
Sukuna assentiu. Os dois seguiram juntos em silêncio até o carro. Nenhum deles ousou quebrar o silêncio enquanto o veículo deslizava pelas ruas, deixando a cidade cinzenta para trás. Durante o trajeto, S/N olhava pela janela, mas em alguns momentos furtivos, seus olhos se voltavam para Sukuna — e ele estava tenso, quieto, dirigindo como quem carrega um altar no peito.
Quando chegaram ao portão da antiga casa no interior, a luz do fim da tarde já tingia o céu de laranja pálido.
O jardim era recuado, rodeado de árvores baixas e flores delicadas. No centro, havia três pequenas cerejeiras, ainda novas, com flores tímidas brotando. E entre elas, uma pedra de granito clara, perfeitamente lisa, com uma inscrição simples:
Hikari.
Sempre amor. Nunca esquecimento.
S/N sentiu as pernas fraquejarem. Parou a poucos metros, o coração esmagado por dentro.
— Eu pedi pra deixarem flores frescas toda semana. — Sukuna disse, parado a seu lado. — Eu... nunca consegui vir.
— É lindo. — S/N sussurrou, a voz falha.
A caixinha em seus braços pareceu ganhar peso. Ele a segurou mais firme.
— Posso?
— Claro.
S/N caminhou devagar até a pedra. Ajoelhou-se. Colocou a caixinha bem ao lado da inscrição. Passou a mão sobre o nome gravado.
— Oi, meu amor. — sussurrou, com a voz mais doce que Sukuna já ouvira em meses. — Aqui é o papai. Vim te visitar.
As lágrimas vieram silenciosas, grossas. E quando sentiu os braços de Sukuna o envolvendo por trás, ele não recuou. Não respondeu. Mas não o afastou.
E ficaram ali. Os dois. De joelhos diante da lembrança mais preciosa e dolorosa que já tiveram.
E naquele silêncio, por fim, Hikari teve o que merecia: os dois pais, juntos, mesmo que partidos.
Eles ficaram ali por horas, e horas, e horas.
O vento da noite balançava levemente os fios de cabelo de S/N, que continuava em silêncio diante do pequeno memorial. Sukuna o observava de perto, em silêncio, com os dedos entrelaçados no próprio colo. Era a primeira vez que via S/N assim... tão vulnerável, mas também tão quieto, sem raiva nos olhos, sem frieza na boca. Apenas... vazio.
O tempo passou sem ser notado. A lua já estava alta, as estrelas espalhadas no céu, e S/N ainda estava lá, sentado, encostado no tronco da árvore, com os olhos fechados. Não falava, não se mexia, só respirava devagar, como se cada expiração o mantivesse ancorado ali.
Foi Sukuna quem notou primeiro: ele havia adormecido.
Não foi um sono leve. Era pesado. Exausto. De alguém que, há meses, estava lutando para se manter de pé com algo quebrado por dentro. O ômega dele estava mais magro, as olheiras fundas denunciavam as noites mal dormidas, e seus ombros estavam curvados como os de um velho. E ali, adormecido contra a árvore, agarrado ao casaco como se fosse a única coisa que o mantinha aquecido, S/N parecia tão pequeno.
Sukuna ficou um tempo só olhando, o coração preso num nó apertado.
Ele se aproximou devagar e se agachou, passando os braços com cuidado embaixo de S/N.
— Vou te levar pra casa... — murmurou, sem esperar resposta.
Sukuna o ergueu com facilidade. O corpo de S/N era leve, mais do que lembrava, mas quente. Ele afundou o rosto contra o pescoço de Sukuna num gesto inconsciente, e aquilo o atingiu como uma lâmina na garganta.
Levou-o pela trilha até a casa principal, que agora estava em silêncio. Subiu as escadas com passos lentos, como se tivesse medo de acordá-lo. Quando chegou ao quarto hesitou. Mas não havia outro lugar onde ele quisesse colocar S/N.
Deitou-o com o máximo de cuidado, ajeitou o travesseiro e puxou os cobertores. S/N se mexeu, os cílios tremeram, e então os olhos se abriram, devagar.
— Sukuna... — a voz veio baixa, rouca de sono e emoção contida.
Ele parou. O alfa se manteve ali, agachado ao lado da cama, como se estivesse pronto pra se afastar, se S/N pedisse.
— Eu só ia... deixar você descansar — disse Sukuna, a voz também baixa. — Foi um dia... longo.
S/N o olhou por um tempo. O tipo de olhar que penetrava, que dizia tudo sem precisar dizer nada. Havia cansaço, mágoa, amor, saudade, e algo que Sukuna não via há tempos: necessidade.
— Não vai embora — sussurrou S/N. — Fica... só por hoje.
Sukuna engoliu em seco. Os olhos arderam, e o corpo inteiro ficou tenso. Mas ele assentiu, tirou o paletó e os sapatos, e então se deitou ao lado de S/N, sem encostar, respeitoso. Até que sentiu a mão do ômega puxá-lo.
— Me abraça... por favor.
Aquele “por favor” quebrou Sukuna.
Ele não disse nada, apenas envolveu S/N nos braços, com força e cuidado, como se quisesse protegê-lo de tudo. O cheiro dele — o cheiro do ômega dele — era o mesmo. Familiar. Confortante. Sentiu S/N relaxar, afundar contra o peito dele, e a respiração desacelerar.
— Eu senti tanto a sua falta — murmurou S/N, com a voz falhando.
Sukuna apertou mais o abraço. Enfiou o rosto nos cabelos dele. E, pela primeira vez em meses, ambos dormiram.
Juntos.
Sukuna despertou devagar, embalado por uma paz estranha, uma daquelas raras que só existiam quando o mundo parava por um instante. O quarto estava silencioso, o sol filtrava-se pelas frestas das cortinas em tons dourados suaves, e por um momento ele permaneceu ali, de olhos fechados, sentindo o calor do outro lado da cama...
Frio.
Ele abriu os olhos.
Aquele lado da cama estava vazio.
A coberta amassada, o travesseiro ainda com o contorno da cabeça de S/N, mas... vazio.
— S/N...? — chamou baixo, sem resposta.
Sentou-se de repente, o peito disparando. O coração começou a bater tão rápido que doía. Ele olhou em volta, os olhos varrendo o quarto como se esperassem vê-lo apenas em pé ali, esperando. Mas não. Nada.
Jogou as cobertas de lado e se levantou num impulso. Pegou a camisa jogada na poltrona, nem se preocupou em abotoá-la direito. O desespero nas pontas dos dedos, nos pés descalços tocando o chão frio. Desceu as escadas rápido demais, os degraus vibrando sob seus passos apressados, quase tropeçando.
— S/N! — chamou mais alto, a voz trêmula.
Na sua mente, tudo voltava como uma enxurrada — a briga, os meses de ausência, o memorial, o abraço, a noite que dividiram — e agora aquilo? Um momento. Um instante de reconexão... que não significara nada?
Mas então ele parou no meio do corredor, arfando.
O cheiro de café fresco pairava no ar.
E vindo da cozinha... um som abafado de xícaras.
Sukuna se moveu devagar até o batente da porta e o viu.
S/N, de costas, vestia um avental antigo — o mesmo com estampa de galhinhos de oliveira que usava quando cozinhava nas manhãs tranquilas, antes de tudo ruir. Estava ali, mexendo algo em uma panelinha, o cabelo meio bagunçado, os ombros ainda carregados, mas...
Ali.
Não fugido. Não perdido.
Ali.
Sukuna ficou parado, respirando fundo, os olhos ardendo.
S/N parecia triste. Ainda havia nuvens no olhar dele, a boca cerrada, os gestos automáticos. Mas ele estava colocando a mesa. Cortando frutas. Aquecendo leite. Coisas pequenas, íntimas. Coisas que tinham significado demais.
— Você... — murmurou Sukuna, finalmente achando a voz — não foi embora.
S/N se virou devagar, segurando uma colher de pau.
— Não — disse, baixo. — Só... quis fazer café.
O silêncio entre eles foi denso, mas diferente do de antes. Um silêncio cheio de significados não ditos, de perguntas guardadas, de dores ainda presentes — mas com algo novo também. Uma semente.
Sukuna entrou na cozinha, ainda sem acreditar.
— Eu achei que você tinha... — ele parou, engolindo em seco — me deixado de novo.
S/N o olhou por um instante. Depois voltou os olhos pro fogão.
— Eu pensei — confessou, com a voz baixa. — Mas a verdade é que... não consegui.
Sukuna se aproximou devagar, parando atrás dele.
— Eu vou entender se você ainda for. Mas se não for agora... posso pelo menos tomar café com você?
S/N não respondeu de imediato. Pegou duas xícaras e serviu o café, em silêncio. Depois se virou, colocou uma na frente de Sukuna e murmurou:
— Então senta. Antes que esfrie.
Os dois se sentaram um de frente pro outro, a mesa posta com simplicidade — pão, frutas, café, leite, manteiga. Tudo parecia comum, doméstico até demais, mas havia algo sagrado naquele momento. Era a primeira vez em meses que dividiam a mesma mesa. Em silêncio.
S/N mexia o café devagar com a colher, os olhos presos ao líquido escuro girando. Sukuna passava manteiga no pão, mas não tinha dado sequer uma mordida. O som do relógio da parede preenchia os segundos entre um gole e outro, como um lembrete de que o tempo estava passando, mas que ali dentro parecia suspenso.
Até que S/N falou. A voz baixa, tensa, hesitante.
— Aquela noite... — começou, parando logo depois.
Sukuna ergueu os olhos. Não perguntou qual noite. Ele sabia exatamente de qual.
— Eu... — S/N engoliu em seco. — Eu pensei que você ia me odiar pra sempre.
Sukuna apertou a xícara entre os dedos.
— Eu achei que você já me odiava. Naquele momento... tudo que eu sentia era isso. Raiva. Desespero.
— Você disse que... que eu matei nosso filho. — A voz de S/N vacilou, e ele se encolheu levemente, como se o próprio peso da frase o esmagasse.
Sukuna sentiu uma fisgada no peito. Como se revivesse a cena. A sala em silêncio mortal, os olhos de S/N cheios de lágrimas, o mundo em ruínas ao redor.
— Eu disse. — A voz de Sukuna falhou. — Eu falei a pior coisa que alguém pode dizer. Eu sabia na hora. Mas... já tinha sido.
S/N assentiu devagar, os olhos fixos na própria xícara.
— E eu disse que você nunca teria sido um bom pai.
O silêncio caiu de novo. Sukuna olhou pra ele, fundo, e S/N finalmente ergueu o olhar. Ambos estavam ali, vulneráveis, abertos, feridos.
— Aquilo me destruiu — murmurou Sukuna. — Eu nunca... nunca duvidei que você amava o Hikari. Mas eu estava tão perdido. E você parecia tão frio, tão distante.
— Era o único jeito de continuar respirando — confessou S/N, os olhos marejando. — Depois da perda, depois do hospital, depois de tudo... eu me fechei. E você gritava, chorava, se debatia, e eu não sabia como ajudar. Eu só... calei.
Sukuna passou a mão pelos cabelos, frustrado.
— Eu não devia ter te deixado sozinho. E você não devia ter ido embora daquele jeito. Mas nós dois fomos covardes. E orgulhosos. E machucados demais.
S/N assentiu. Respirou fundo. Os olhos fixos na toalha da mesa, os dedos brincando com o guardanapo.
— Eu dormi com aquela roupinha no colo tantas noites. Achei que... se eu esquecesse a dor, esqueceria o Hikari também. E eu não queria. Mas eu precisava da caixinha. Eu precisava sentir que ele foi real.
— Ele foi. — A voz de Sukuna tremeu. — Ele é. O Hikari existiu. Foi amado. Vai continuar sendo. Eu só... não sabia como lembrar sem desmoronar.
— Eu também não. — S/N sorriu, fraco. — Mas talvez... agora a gente possa aprender juntos.
Sukuna estendeu a mão sobre a mesa, devagar, quase com medo. E S/N, hesitando por um segundo, pousou a dele por cima.
Não havia perdão completo ali. Não ainda. Mas havia um começo. E isso era tudo que precisavam.
O caminho de volta ao memorial foi silencioso, mas não pesado como antes. O céu estava limpo, com um azul suave de fim de manhã, e a brisa leve balançava as folhas das árvores enquanto Sukuna e S/N caminhavam lado a lado, sem pressa, como se quisessem eternizar aquele instante de paz frágil.
O lugar era o mesmo — singelo, discreto, mas carregado de significado. O pequeno memorial para Hikari, construído por Sukuna com a ajuda de um artesão, tinha o nome gravado numa pedra clara, cercado por flores silvestres e pequenas velas apagadas. Havia ali uma ternura silenciosa, como se o espaço guardasse a energia suave que só um filho perdido poderia deixar para trás.
S/N se ajoelhou diante da pedra e tirou do casaco uma flor branca, simples, mas linda.
— Oi, bebê... — murmurou, os olhos marejando, mas o sorriso leve nos lábios. — Papai veio te ver de novo. Eu… não vim me despedir. Só dizer que a gente vai tentar ficar bem. E que eu vou voltar. Sempre que você quiser me ver, estarei aqui.
Ele pousou a flor com delicadeza ao lado da pedra. Ficou um tempo em silêncio, os dedos ainda tocando a terra macia. Sukuna permaneceu atrás dele, de pé, com as mãos nos bolsos, até se aproximar devagar e ajoelhar também.
Ele colocou uma flor vermelha ao lado da branca, as pontas quase se tocando.
— Eu deveria ter vindo antes — murmurou. — Mas não consegui. Achei que se eu visse teu nome aqui, tudo se tornaria real demais. Mas agora... eu só quero que saiba que sinto sua falta. E que, de alguma forma, ainda te amo. Sempre.
S/N virou o rosto pra ele, o olhar cheio de coisas que não cabiam em palavras. Sukuna retribuiu o olhar com a mesma intensidade. Eles ficaram ali por mais um tempo, em silêncio, em conexão, como se Hikari estivesse entre eles, pequeno e acolhido no espaço entre duas mãos.
Depois de alguns minutos, S/N se levantou devagar, limpando os joelhos. Sukuna se ergueu logo atrás, e ambos olharam o memorial pela última vez naquela manhã.
— Eu volto — sussurrou S/N, mais para si mesmo do que para Sukuna. — Sempre volto.
No caminho de volta, o silêncio era outro. Confortável, leve, um silêncio de entendimento. A estrada de volta à cidade parecia menos longa, menos cinzenta. E quando chegaram, as bifurcações inevitáveis apareceram.
Na frente do prédio de S/N, Sukuna estacionou o carro.
— É aqui. — disse ele, a voz baixa.
S/N assentiu, olhando para o prédio alto, as janelas familiares.
— Obrigado por ter me levado. Por ter feito aquele lugar pra ele. — disse, a mão já no trinco da porta. Mas não saiu.
Sukuna virou o rosto para ele. Seus olhos se encontraram por um segundo.
— Você vai voltar mesmo?
S/N sorriu, pequeno.
— Vou. Ainda tem muita coisa pra gente dizer. E fazer direito.
Sukuna assentiu devagar, o maxilar apertado para conter tudo que queria dizer de uma vez só.
S/N saiu do carro e subiu, e Sukuna apenas ficou ali por um momento, olhando para a entrada, sentindo um vazio na palma da mão onde antes estava a de S/N. Então, engatou a marcha e foi para a cobertura. Ainda sozinho.
Mas esperançoso.
Eles não haviam terminado. Não ainda.
O celular de Sukuna vibrou em cima da mesa do escritório. Ele estava prestes a entrar numa reunião, os assistentes já esperando na sala ao lado, mas ao ver o nome "S/N" na tela, tudo parou. O coração dele também.
Atendeu com a voz ainda controlada, mas havia um sorriso pronto ali.
— Alô?
— Oi... — a voz do outro lado soou suave, tímida, quase sussurrada. — Desculpa te ligar de surpresa... tá ocupado?
— Nunca pra você. — respondeu sem pensar, já se levantando da cadeira. — Aconteceu alguma coisa?
— Não... quer dizer... não é ruim. — S/N pausou, respirou fundo. — Eu só... tava pensando em voltar no memorial. Ver o Hikari. Queria saber se você quer ir comigo.
O silêncio que se seguiu foi rápido, mas carregado.
— Claro que quero — disse Sukuna, firme, com aquela gentileza que ele só usava com S/N. — Me dá meia hora. Vou desmarcar tudo e passo aí.
E ele fez. Cancelou reunião, reorganizou compromissos. Na agenda do dia, só havia uma coisa: estar com S/N e com Hikari.
Foram juntos pela mesma estrada. O carro carregava um silêncio tranquilo, aquele tipo de silêncio cheio de ternura que se constrói com o tempo. Quando chegaram ao memorial, o lugar parecia ainda mais bonito — talvez pelo costume, ou talvez porque ambos agora o viam como um santuário.
S/N se ajoelhou diante da pedra de Hikari e começou a conversar. A voz era baixa, leve, mas íntima. Contava pequenas coisas do cotidiano, de um bolo que deu errado, da música que ouviu e lembrou do bebê, de como ele às vezes sentia que Hikari estava por perto, nas coisas simples. Não era esquisito, nem melancólico. Era bonito. Quase mágico.
Sukuna se sentou no chão, com os joelhos dobrados, só observando. Fascinado. Não apenas por aquela conexão que S/N tinha com o filho deles, mas por S/N em si. Pela forma como ele se doava, como sua voz amaciava qualquer dor. Como, mesmo carregando tudo que carregava, ele ainda era feito de cuidado.
Ficaram ali por horas. Sem pressa. O tempo se curvava quando os três estavam juntos, mesmo que um deles estivesse além do alcance físico.
Quando o sol começou a descer, S/N suspirou baixinho.
— Acho que tô cansado...
— Então vamos. — Sukuna se levantou e estendeu a mão. — Te levo em casa.
— Fico na sua, hoje? — perguntou, como quem pede abrigo. Como quem pede amor.
Sukuna apenas sorriu e apertou a mão dele com firmeza.
A trilha de volta foi tranquila. Familiar. E a noite na cobertura se desenhou como antes: banho quente, silêncio confortável, corpos próximos na cama, Sukuna puxando S/N pra mais perto, como se ele ainda tivesse medo de perdê-lo. E adormeceram assim, abraçados.
Pela manhã, Sukuna acordou com o cheiro de café.
Desceu as escadas devagar, sonolento, e encontrou S/N na cozinha, usando um dos aventais floridos da casa, cantarolando baixinho enquanto preparava a mesa. Tudo igual àquela primeira vez. Quase como um ritual.
— Bom dia. — disse S/N, virando-se com um sorriso pequeno, ainda carregado de melancolia, mas muito mais leve.
— Bom dia. — respondeu Sukuna, se aproximando para beijar-lhe o rosto.
E assim foi. Eles repetiram esse pequeno ciclo por semanas. Meses.
S/N ligava. Sukuna sempre atendia. Iam até o memorial juntos. Conversavam com Hikari. Voltavam pela trilha. Dormiam abraçados. Acordavam juntos com o cheiro de café. E nesse ritmo sutil e constante, reconstruíam o que tinham perdido. Tijolinho por tijolinho.
Com o filho no coração. E um ao outro nas mãos.
O quarto estava saturado. O cheiro do cio de S/N era doce, denso, quase sufocante. Sukuna sentia o próprio corpo em chamas, mas estava firme, o controle de ferro gravado em cada músculo tenso dele.
O ômega estava de quatro na cama, os dedos finos enterrados nos lençóis amarrotados, o rosto virado de lado, as bochechas rubras e o olhar enevoado de prazer. O corpo de S/N tremia, exausto, mas o cio o mantinha aberto e receptivo, implorando sem palavras por mais.
— Ryomen… não… não para… — a voz dele era um soluço rouco, entrecortado por gemidos altos.
— Eu não vou parar. — rosnou Sukuna, afundando-se mais uma vez com uma estocada profunda, arrancando um grito delicioso do ômega. — Você acha que eu posso parar agora? Olha o estado que você está…
As mãos grandes do alfa apertavam a cintura de S/N com força suficiente para deixar marcas roxas na pele sensível. O som dos corpos se chocando ecoava pelo quarto abafado, junto com os gemidos cada vez mais desesperados de S/N.
— Ryomen! Eu… eu vou… de novo! — arfou S/N, a voz falhando no final quando outro orgasmo o atravessou como uma onda avassaladora.
O corpo dele estremeceu inteiro, as pernas cedendo, mas Sukuna não o deixou cair. Segurou-o firme, apoiando uma mão grande em suas costas suadas enquanto continuava a se mover dentro dele com um ritmo constante, impiedoso.
— Isso… goza de novo pra mim. — murmurou o alfa, a voz baixa e carregada de desejo. — Gosta tanto assim de ser fodido pelo seu alfa, não é?
S/N gemeu alto, enterrando o rosto no colchão, sem forças nem para negar.
— Meu ômega… tão lindo, tão perfeito… — Sukuna passou a língua pela coluna do ômega, sentindo o gosto salgado da pele suada. — Eu vou te foder a noite inteira se for preciso. Até não sobrar nenhum espaço dentro de você sem o meu cheiro.
Ele mudou de posição, puxando S/N com facilidade e deitando-o de lado.
— Vira pra mim. Quero ver seu rosto quando gozar de novo.
S/N deixou-se virar, completamente entregue, os olhos enevoados de prazer e lágrimas escorrendo pelos cantos. Sukuna ergueu suas pernas, apoiando-as sobre os ombros largos, e se posicionou novamente, olhando para o ômega como se ele fosse um tesouro frágil e precioso.
A primeira estocada nessa posição arrancou um gemido tão alto de S/N que Sukuna precisou conter um rosnado, cravando as unhas na coxa macia dele para manter o controle.
— A-ahhh! Ryomen… eu… não… — S/N mal conseguia falar, o corpo arqueando inteiro.
— Consegue sim. — murmurou o alfa, inclinando-se para frente para que o rosto deles ficasse a centímetros. — Você é meu. Feito pra mim. Seu corpo só responde a mim, não é?
S/N soltou um soluço, as mãos agarrando os ombros largos.
— S-só você… sempre… só você…
Sukuna não sorriu. Ele estava concentrado demais, cuidando demais, totalmente focado no prazer de S/N. Já haviam passado horas assim. Sukuna ainda não tinha gozado uma única vez, o próprio corpo rígido com o esforço de conter o instinto, mas aquilo não importava.
— Vou abrir você até o cio passar… até cada parte de você saber que pertence a mim. — prometeu, com a voz rouca. — Não vai precisar de nada além de mim, entende?
S/N tentou responder, mas outro orgasmo o despedaçou, deixando-o arquejante, a visão borrada, os dedos tremendo ao se fecharem ao redor dos lençóis.
Sukuna manteve o ritmo, estocando fundo, com precisão quase cruel, mas ao mesmo tempo envolvendo o corpo do ômega como se pudesse protegê-lo de qualquer coisa além do prazer avassalador que o dominava.
S/N já estava perdido. Mal conseguia pensar, a mente inundada pelo cio e pelos toques do alfa.
— Ryomen… eu… não aguento mais… — choramingou, o corpo estremecendo de novo com outro clímax vindo rápido demais.
— Vai aguentar. — Sukuna disse firme, o tom baixo, possessivo, mas ao mesmo tempo tão carinhoso que S/N sentiu o peito se apertar. — Vai aguentar porque eu tô aqui. Porque você é meu. E eu não vou deixar você sozinho nem por um segundo.
S/N agarrou os braços dele com força, enterrando as unhas na pele quente do alfa, o corpo todo em chamas.
— Ryomen… eu… eu te amo… — a confissão escapou num soluço, sincera, crua, como se a dor e o prazer tivessem arrancado todas as defesas dele.
Sukuna sentiu o coração apertar no peito. Ele se inclinou mais, colando os lábios nos de S/N, dominando-o num beijo profundo enquanto continuava a se mover dentro dele.
— Eu também te amo, meu ômega teimoso. — murmurou contra a boca dele. — Nunca duvida disso. Nunca mais.
E então continuou. Por horas. Até S/N não conseguir mais gemer, apenas soluçar baixinho, o corpo inteiro relaxado e exausto nos braços do alfa.
Só então Sukuna permitiu a si mesmo um clímax, enterrando-se até o limite, preenchendo o ômega dele com cada gota, selando o vínculo deles de novo.
— Meu. — disse baixinho, quase um suspiro, antes de se deitar ao lado de S/N, puxando-o para o peito. — Pra sempre meu.
E S/N não tinha forças para negar. Nem vontade.
Foram três dias.
Três dias em que o mundo lá fora simplesmente deixou de existir. Não havia máfia, não havia feridas antigas, não havia nada além do calor insuportável do cio queimando S/N por dentro e as mãos firmes de Sukuna segurando-o como se nunca mais fosse deixá-lo escapar.
Sukuna tinha se tornado o centro do universo dele. O alfa era tudo que seu corpo precisava, tudo que sua alma implorava, tudo que poderia aplacar aquela dor insistente e deliciosa que pulsava baixo no ventre.
Naquela manhã, o quarto estava abafado, impregnado do cheiro agridoce do cio e de Sukuna. O sol mal entrava pelas cortinas fechadas quando S/N, ofegante e com o corpo trêmulo de desejo, subia e descia devagar no colo do alfa.
— Ryomen… — ele gemeu, a voz falhando, os olhos fechados enquanto se agarrava aos ombros largos. — Eu preciso… preciso tanto…
— Eu sei. — a voz de Sukuna era baixa, quase um rosnado. — Eu sei, meu ômega.
Sukuna passou as mãos grandes pelas coxas macias de S/N e o segurou pela cintura, enterrando-o com força, até o fundo, até S/N soltar um gemido alto e quase desesperado.
— Você fica tão apertado quando eu faço isso… — murmurou Sukuna, os olhos vermelhos de desejo enquanto sentia o corpo do ômega tremer. — Parece que nasceu pra me ter dentro de você.
S/N abriu os olhos, enevoados, e mordeu o lábio inferior, corado até as orelhas. O cheiro dele estava mais forte, mais doce, mais intoxicante.
Sukuna puxou-o para mais perto e o abraçou com força, deixando o ômega todo encaixado em seu colo.
— Você precisa comer. — disse o alfa, sério, embora um sorriso ladino brincasse nos lábios.
— Não quero… — murmurou S/N, manhoso, tentando rebolar devagar.
Sukuna segurou sua cintura com mais firmeza, imobilizando-o.
— Não vou deixar você se mexer até comer alguma coisa. — decretou, pegando uma tigela de frutas na mesa ao lado. Pegou um pedaço de morango e encostou nos lábios do ômega. — Abre.
— Ryomen… — S/N gemeu, fechando os olhos.
— Abre essa boca, agora. Ou vou te foder sem parar até você desmaiar de exaustão. — a voz de Sukuna soou baixa, mas tão carregada de promessa que S/N obedeceu, entreabrindo os lábios.
Sukuna riu, vitorioso, e colocou o morango na boca dele, aproveitando para roçar o polegar na língua quente do ômega.
— Bom garoto… — murmurou, beijando o canto da boca dele. — Você precisa de energia. Ainda vou te foder pelo resto do dia.
S/N fechou as mãos na camisa de Sukuna, arfando, tentando resistir ao impulso de rebolar.
— Por favor… me deixa me mexer… — implorou, a voz fraca, trêmula.
Sukuna inclinou o rosto até colar os lábios no ouvido dele.
— Você já é tão meu que até implorar parece uma música. — sussurrou, mordiscando o lóbulo sensível. — Mas não vou deixar. Só quando eu quiser.
Ele continuou alimentando S/N com frutas, uma a uma, enquanto o ômega se contorcia, o rosto rubro, os olhos marejados de necessidade. O pau de Sukuna permanecia enterrado fundo, firme, quente, enchendo-o completamente, como uma âncora para o cio enlouquecedor que tomava cada célula do corpo de S/N.
Quando a tigela finalmente esvaziou, Sukuna largou-a na mesa e segurou o rosto do ômega com ambas as mãos.
— Agora sim. — disse com um sorriso perigoso. — Pode se mexer pra mim.
S/N gemeu alto, começando a cavalgar no colo dele com movimentos desesperados, rápidos, como se seu corpo tivesse esperado por aquela permissão a vida inteira. O som molhado e obsceno das estocadas ecoava pelo quarto, junto aos gemidos cada vez mais altos e descompassados do ômega.
— Isso… meu ômega. — rosnou Sukuna, cravando os dentes no ombro de S/N para deixar mais uma marca. — Tá sentindo? O quanto eu te preencho? O quanto você precisa de mim?
S/N choramingou, agarrado a ele como se fosse desabar.
— Eu tô… tão cheio… Ryomen… eu… ahhh!
— Nunca mais vou deixar você escapar. — prometeu Sukuna, movendo-se com mais força, mais profundo, arrancando gritos do ômega que ecoavam pelo quarto. — Vou marcar cada pedaço do seu corpo até o cio passar. Até você não lembrar mais como é existir sem mim.
E assim foram.
Paravam apenas para beber água, comer alguma coisa, tomar um banho rápido — mas o corpo de S/N implorava pelo alfa o tempo todo, e Sukuna, fiel à promessa, não o deixou sem o que precisava nem por um instante.
Na segunda noite, o alfa já havia gozado tantas vezes que tinha certeza de que só restava água em suas bolas, mas S/N continuava faminto, implorando por mais. E Sukuna não recusava.
— Eu te amo… — murmurava S/N, soluçando de prazer enquanto o corpo era tomado por mais um clímax.
— Eu sei. — respondia Sukuna, beijando-lhe os lábios com devoção antes de se afundar mais fundo. — E eu também. Mais do que tudo.
Quando o cio finalmente arrefeceu, no final do terceiro dia, S/N estava completamente exausto, o corpo marcado de mordidas e carícias, mas com um brilho calmo e satisfeito no olhar.
E Sukuna o segurava nos braços, como quem segura o mundo inteiro.
— Consegui trazer você de volta pra mim… — murmurou o alfa, a voz baixa, quase emocionada.
S/N sorriu, pequeno, a cabeça encostada no peito suado dele.
— Eu nunca fui embora de verdade.
Sukuna beijou-lhe a testa, e ali, entre lençóis bagunçados e corpos entrelaçados, os dois finalmente se permitiram dormir.
Juntos. Outra vez.
Um ano depois.
O jardim parecia diferente naquela manhã. As cerejeiras estavam maiores, mais cheias, suas flores caindo em pétalas delicadas que cobriam o chão como um tapete cor-de-rosa. O vento era leve, com aquele aroma sutil de primavera, e o céu azul refletia o silêncio sereno que pairava ali.
S/N parou a poucos passos da pedra clara com o nome gravado, e apertou o pequeno corpo em seus braços com mais força. Yuji, com um ano recém-completado, dormia tranquilo, a cabeça encostada no ombro do ômega, os cabelos macios se mexendo levemente a cada respiração.
— Estamos aqui, Hikari. — S/N murmurou, com um sorriso doce e triste nos lábios. — Trouxemos o seu irmãozinho pra te conhecer.
Sukuna, de pé ao lado dele, colocou a mão grande na base das costas do ômega, oferecendo aquele apoio silencioso que só ele sabia dar. Seus olhos estavam fixos na pedra, onde lia-se em letras suaves:
Hikari Sempre amor. Nunca esquecimento.
Aquele lugar não era mais só dor para eles. Era também paz. Um pedaço do mundo onde podiam lembrar do filho que não ficou e, ao mesmo tempo, agradecer pelo filho que chegou.
S/N se ajoelhou diante do memorial, ajeitando Yuji no colo para que o pequeno ficasse de frente para a pedra. O bebê abriu os olhos devagar, as íris de um castanho quente refletindo a luz suave que passava entre os galhos. Ele olhou curioso para as flores, para o vento, e então para os pais, com um balbucio quase inaudível.
— Esse é o seu oniisan. — S/N disse, com a voz embargada. — Ele não pôde ficar aqui com a gente… mas ele existe no coração do papai e do daddy, e agora existe no seu também.
Yuji estendeu a mãozinha gordinha e, sem entender, tentou tocar uma pétala caída sobre a pedra. Sukuna ajoelhou ao lado de S/N e passou o braço em torno dos dois, aproximando-se para beijar o topo da cabeça do filho.
— Hikari… — começou o alfa, a voz baixa, grave, mas carregada de emoção — cuidamos bem um do outro. Fizemos tudo pra ficar de pé de novo. E agora temos o Yuji. Mas nunca, nunca vamos esquecer você.
S/N encostou a testa no ombro de Sukuna, segurando Yuji com força, como se todo aquele momento fosse sagrado demais para palavras.
Por um instante, o vento soprou mais forte, e pétalas das cerejeiras caíram sobre os três. Sukuna fechou os olhos, sentindo o cheiro suave das flores misturado ao aroma de S/N e do pequeno Yuji. Era um cheiro de casa, de lar.
— Estamos completos agora. — murmurou S/N.
Sukuna abriu os olhos e olhou para o ômega e para o filho, e um sorriso pequeno, mas verdadeiro, tomou seus lábios.
— Estamos. — respondeu. — Por vocês, eu deixaria o mundo inteiro arder.
Yuji sorriu, soltando um som de alegria que fez S/N e Sukuna rirem baixinho.
E assim ficaram por um tempo, sentados diante do memorial, como uma família. Completa, verdadeira. Hikari existia ali, no espaço entre as mãos entrelaçadas de S/N e Sukuna, no vento que balançava as flores, no sorriso puro de Yuji.
Ele existia. Eles existiam.
E, por fim, estavam em paz.
S/N fechou os olhos, e uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto. Mas não era uma lágrima de dor. Era de amor.
— Obrigado por ter escolhido a gente, Hikari. — ele sussurrou. — Sempre vamos te amar.
Sukuna encostou a testa na dele, e Yuji, inocente, bateu palminhas no colo deles, arrancando uma risada emocionada dos dois.
O sol já começava a descer, tingindo o jardim com tons dourados. E ali, cercados por flores e memórias, Ryomen Sukuna, S/N e Yuji eram tudo que sempre sonharam ser:
Uma família.


















